quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Capítulo 16

Birthday Eve

Capítulo 16

O primeiro dia. O quadro. A possível rival.


Tristan levantou a arma e atirou contra o homem de preto. Os tiros seguiram-se um atrás do outro, como se jamais pudessem ter fim. Ele viu, quase como se em câmera lenta, o homem desmoronar para trás, caindo lentamente até tocar completamente o chão. A respiração dele cessava, os milhões de buracos de bala jorrando um sangue muito quente e vermelho.
O rapaz abaixou-se ao lado dele. O capuz não deixava que ele visse o rosto do inimigo, e ele precisava vê-lo. Queria ter o prazer de ver a vida fugir daquele rosto odioso. Arrancou o capuz com um movimento violento, enquanto sorria com selvageria.
Os olhos muito verdes de Eve o encaravam, enquanto sangue corria dos lábios entreabertos dela. A ruiva estava encharcada do próprio sangue, e seus lábios se abriram mais um pouco, afogados, e os olhos dela o encontraram.
“Por quê?” Perguntou ela, e então morreu.

Tristan acordou berrando. Num movimento rápido demais, caiu da cama, batendo a cabeça na mesa de cabeceira. O cobertor estava enrolado nele, sufocando-o, prendendo como correntes de fogo. Sua roupa estava empapada de suor, e se embolava nele junto com as cobertas. A testa ardia em dor pura, talvez pela gigantesca dor de cabeça que se formava, talvez pelo forte impacto.
A porta de seu quarto se abriu, e Eve entrou. Deus, como era bom vê-la assim viva. Os olhos dela não estavam mortos, mas sim carregados de preocupação. Ela correu até ele, e o ajudou a sentar-se na beira da cama.
Os braços dele não obedeciam ao cérebro, e a puxaram para um abraço sem fim. Ela correspondeu, suave e quentinha como sempre, enquanto ele soluçava e tentava se recuperar do medonho pesadelo.
“Já terminou, já terminou” Sussurrou ela, como uma mãe zelosa. Tristan engoliu o bolo que se formara em sua garganta mais algumas vezes e então pareceu ficar um pouco melhor. Apenas alguns arrepios o atravessavam, e ela o fez se deitar debaixo das cobertas.
Eve segurava sua mão, enquanto ele fechava os olhos e os cobria com o braço. Sua dor de cabeça não estava mais tão insuportável, e o toque gentil dela em sua mão o confortava mais ainda, parecendo levar a dor embora.
“De vez em quando” Começou ela, bem baixinho. “Eu também sonho... Com o que aconteceu”.
Ela fungou, e então deitou-se sobre ele, acima das cobertas, e o abraçou. Ele começou a fazer uma espécie de carinho em seus cabelos, e logo adormeceu. Bem devagarinho, ela deslizou para baixo das cobertas e o abraçou. Juntos, os pesadelos os deixaram em paz pelo resto da noite.

O ronco de motor quebrou o clima desconfortável da cozinha. Tristan e Eve estavam totalmente corados. Na verdade, o fato de terem acordado abraçados na mesma cama talvez não fosse tão constrangedor se Eve não dormisse completamente nua, mesmo no inverno. Ela ainda tinha grandes problemas com roupas, e acabara se acostumando a dormir do jeitinho que viera ao mundo.
A garota subiu para se trocar, e Tristan fingiu que dava um nó em sua própria gravata. O uniforme da Academia Melody seguia padrões rígidos e bem ultrapassados. Tristan usava calças azuis, camiseta branca, blusa azul e a gravata listrada das mesmas cores que o resto do uniforme. A gravata era essencial para a escola, e nela estavam bordados o brasão da Academia e seu lema. Tristan usava tênis, já que não estava mais tão frio e a neve já diminuíra bastante. Não era mais como quando ele era pequeno, quando precisava usar as botas até na classe.
O rapaz arrumou a bolsa e o estojo da guitarra. Os alunos da Academia tinham aulas semanais de música, e a escola possuía diversos clubes para bandas e gêneros musicais. Os famosos clubes estudantis, que disputavam praticamente à tapas o grande troféu de ouro de melhor clube, todos os anos.
Riza abriu a porta, e trouxe uma sacola abarrotada de coisas. Eve desceu, sorrindo, e girou para mostrar o uniforme que vestia.
A blusa branca fina e de mangas curtas destacava enormemente seus seios grandes, e a saia pequena e azul revelava as pernas perfeitas da menina. Tristan ficou novamente no estado babão que era praticamente um costume agora, mas Riza riu.
“Eve, você não quer sair com essa saia com o frio que está lá fora, é?”
A garota pareceu confusa, e ligeiramente decepcionada.
“Mas só tem saias lá em cima” Riza lhe trouxera os uniformes (apenas dois – completos) no dia anterior.
“Aqui estão os de inverno” Disse a mais velha, mostrando a sacola. “Eles não tinham na hora, eu passei lá e peguei.”
Ela omitiu descaradamente que eles não tinham um tamanho grande o suficiente para Eve. Não que ela fosse gorda, nem de longe, mas seus seios eram um verdadeiro estorvo na hora de comprar roupas.
A garota agradeceu, pegou as roupas e subiu. Tristan ficou em silêncio, e Riza achou melhor deixar o amigo em paz. Quando a ruiva desceu, usando agora mangas compridas, calça e blusa, ela trazia a gravata em mãos.
“Isso é um cinto? Eu sei que é pra por no pescoço, mas não entendi nada da parte de nós e tudo mais”.
Riza tirou um bolo de pano amassado do próprio bolso. Sua gravata.
“Não faço a menor idéia de como amarra isso, também” Disse ela, dando de ombros. “Eu não uso”.
“E recebe detenções por isso” Bocejou Tristan, tomando um pouco mais de suco. “Vem cá, Eve, eu amarro pra você”.
Ela se postou diante dele e lhe entregou a gravata. Tristan passou a tira de pano por baixo da gola da camisa dela e girou, num nó rápido e habilidoso. Então puxou, e a gravata estava perfeita na menina.
“Melody devia perceber que gravatas estão ultrapassadas. Principalmente para as garotas.” Resmungava Riza, enquanto Tristan a forçava a parar quieta e colocar aquela coisa no pescoço.
“Melody gosta da tradição. Nem em mil anos vai mudar alguma coisa. Por ela, a gente viria para a escola de carruagens”.
“Medoly? Mas não é... um prédio?” Perguntou Eve.
“Hannah Melody, a diretora. A Academia é dela, da família dela. É a professora Hannah que dita as regras da escola, e os uniformes.”
Eve pegou sua mochila, Tristan agarrou suas coisas e eles rumaram para a escola. Riza foi de moto, e os dois pegaram um ônibus, o que encantou totalmente a ruiva. Ainda sobravam muitas experiências novas para ela.
Quando chegaram na escola, a menina suspirou e rumou para um corredor diferente do de seu dono, e logo chegou até a classe.
Uma mulher alta e muito séria a agarrou pelo ombro quando ela tentou entrar. Os cabelos dela eram completamente negros, e seus olhos azuis pareciam faiscar. Ela usava óculos quadrados cuja moldura imitava algum tipo de madeira, e seu vestido longo e os sapatos altos a deixavam ainda maior e mais magra.
“Senhorrita Bell, eu presumo?” Ela tinha um jeito estranho de pronunciar algumas letras, e o BrainSys lhe informou que aquilo era chamado ‘sotaque’.
“Sim senhora” As regras de educação que Riza lhe dera nos dias anteriores seriam muito usadas, ao que parecia. A mulher pareceu aprovar a resposta da garota, ainda mais que Riza lhe mandara omitir as perguntas enquanto estivesse falando com ‘qualquer mulher alta, magra, com cara de coruja e óculos que parecem armas de tortura’. Não sabia quem era aquela, mas seria muito melhor se não perguntasse.
“Sou a Professorra Melody” Informou a mulher. “Dirretora da nossa nobre Academia. Seu primeirro dia?”
“Sim, senhora. Muito prazer em conhecê-la, senhora”
Educação e etiqueta. Horrível.
“Preciso que a senhorrita vá até meu escritórrio antes, parra receberr seu materrial. Depois eu a levarrei pessoalmente até sua classe”.
“Sim senhora. Obrigado senhora” Disse Eve. ‘O importante é não parece entediada. Fale cada ‘senhora’ como se fosse um prazer falar isso.’.
A Profa. Melody sorriu largamente, o que parecia ser algo muito raro.
“Faz muito tempo que não temos a sorrte de encontrarrmos uma dama tão educada como a senhorrita. Realmente a senhorrita é um grande ganho parra esta Academia”.
Ainda com o punho de ferro em seu ombro, Melody a guiou até o escritório. Todos que passavam pelas duas cumprimentavam educadamente a diretora, e um casalzinho que se beijava apaixonadamente repentinamente sumiu quando chegaram perto deles. No escritório, Eve foi convidada a adentrar a sala forrada de painéis de carvalho e mobília antiga, lindíssima. A garota examinou um quadro barroco pintado a óleo. Era a própria Academia, embora parecendo muito mais nova.
“Aqui estão seus livros.” Disse a diretora, lhe passando uma pilha de volumes. “Aqui a chave de seu arrmárrrio.”
A ruiva agradeceu mais uma vez, e a diretora novamente lhe sorriu. Então lhe deu um mapa da escola (mais uma rodada de agradecimentos educados) e finalmente a guiou para fora do escritório, até a sala. Durante esse meio-tempo a aula já devia ter começado, pois quando chegaram na porta uma professora já falava, e os alunos estavam sentados, os livros abertos.
Com a presença da diretora, a aula parou. A mulher alta empurrou a garota até a frente da classe, e a segurou mais uma vez pelo ombro. Eve encarou os quarenta e tantos alunos que apinhavam a grande classe e corou, baixando os olhos.
“Esta é nossa nova aluna. Esperro que a tratem bem. Porr favorr, senhorrita, apresente-se.”
Um giz foi enfiado na mão de Eve. Riza também lhe alertara sobre isso, era parte da tradição da Academia. Se fizesse bonito naquele instante, a diretora não lhe daria trabalho. Se errasse, teria de repetir a apresentação tantas vezes até que a classe estivesse irada com ela, e a ruiva já estaria totalmente humilhada. ‘Tradição, na Academia Melody, é sinônimo de Humilhação”.
A garota agradeceu pelo giz, bem baixinho, virou de costas devagar, escreveu seu nome na lousa com sua letra bem redonda e bonita, e voltou-se novamente para a classe. Respirando fundo, levantou os olhos e os dirigiu para algum ponto, na parede do fundo.
“Meu nome é Eve Bell, tenho 16 anos, vivi toda a minha vida no interior e me mudei a poucas semanas.” Começou ela. Então ela sentiu-se bem mais relaxada. O texto ensaiado estava bem guardado em sua mente, e todas aquelas mentiras sobre seu passado fluíam de forma natural. Desviou os olhos do ponto fixo e pareceu mais tranqüila, com sua fala se suavizando e afastando-se do tom de coisa decorada e mecânica. “Nunca freqüentei uma escola, eu tinha aulas apenas com meus pais, e minha especialidade ainda é desconhecida. Muito prazer em conhecê-los.”
Ela baixou os olhos de novo, e voltou a corar. A diretora não sorria, não se movia. A garota lembrou-se de repente do último passo, e devolveu-lhe o giz que apertara firmemente na mão, agradecendo novamente.
A sala esperava ainda o veredicto sobre a apresentação. Nem cochichos se ouviam. A diretora então voltou a apertar o ombro da ruiva. Parecia ser seu lugar favorito.
“Esperro que aprendam um pouco com a senhorrita Bell, principalmente sobre etiqueta. Porr favorr, senhorrita Holligan”.
A professora assentiu, e apontou para algum lugar mais pro meio da classe.
“Tem um lugar ali atrás da senhorita Julian. Seja bem-vinda, senhorita Bell.”
A garota agradeceu mais uma vez, e desta vez foi verdadeira em seu sorriso, e rumou rapidamente para a carteira vaga, sentando-se nela e empilhando seus livros sobre a mesa. Sua bolsa ficou debaixo da cadeira, bem guardadinha para que ela não levasse uma bronca por deixar as coisas jogadas no corredor. Guardou a chave de seu armário no bolso, e se concentrou na aula que recomeçava.
Como ela havia perdido dois dias já de aula, começara no meio da semana. Ao que parecia, as outras três pessoas que fizeram o teste de admissão com ela entraram em outras classes, e ela precisaria correr um pouquinho para acompanhar a matéria. A aula se revelou ser de matemática, mas ela não conseguia achar o livro certo, já que eles não possuíam títulos na capa.
“É o vermelho” Sussurrou alguém ao seu lado. Eve voltou-se para a pessoa, e viu uma garota de cabelos roxos, usando a gravata como um cinto. A menina piscou para ela, e mostrou o próprio livro, de capa vermelha. A ruiva sorriu de volta, agradecendo silenciosamente e pegou o vermelho, abrindo no terceiro capítulo, como estava escrito na lousa.
A aula era relativamente fácil, mas ao que parecia o material da Academia Melody era bem dividido. Havia o livro, onde a teoria, os textos e tudo mais estava, fora vários exercícios já resolvidos, usados como exemplos. Então havia uma série de livros menores, também separados por cores, que continham apenas exercícios para serem resolvidos no próprio livreto. Os livros de matéria, grandes, eram apelidados de “Intocáveis”, já que os alunos não deveriam escrever neles, fora o próprio nome. Os de exercícios eram chamados de “Livro de Tarefas”. Por último, tanto no Intocável quanto no de Tarefas havia exercícios extras, que deveriam serem feitos no caderno. Eve ficaria totalmente perdida no meio de tudo aquilo se Riza não lhe tivesse ensinado antes como funcionava o material escolar e a própria escola.
Em algum ponto da aula um sino alto soou, assustando Eve, ao que os outros que estavam mais perto riram um pouco. A primeira aula terminara, e começaria a segunda, que também era de matemática.
Quando a segunda aula terminou, todos levantaram e rumaram para fora. Eve os seguiu, e logo entraram em outra classe, cheia de mapas e quadros, onde teriam História com um homem muito velho e completamente careca. Ali o livro certo era o verde, e todos sentaram-se nas mesmas posições que da aula anterior.
Eve tinha quatro aulas antes do almoço, e quando o sinal tocou indicando o fim da quarta aula, ela rumou para fora, sem precisar seguir o resto. Passou pelo corredor principal, onde centenas de armários de aço ficavam. Ela olhou o número que aparecia no chaveiro que recebera da diretora, e leu apenas 21-B.
A garota de cabelos roxos a alcançou, e sorriu novamente.
“Eve, certo?” Perguntou. A ruiva assentiu. A garota lhe deu a mão. “Sou Caroline. Mas me chame de Line. Problemas em achar o armário?”
A de cabelos roxos era realmente falante, e foi discorrendo sobre a disposição dos armários e da escola em si.
“Os armários são divididos em blocos de cinqüenta. Temos o bloco A, o B, o C e assim por diante. Todos os blocos tem armários do 1 até o 50, então é fácil se perder. O meu é no bloco B, o seu também. 21, certo?”
Ela lhe apresentou a porta estreita de aço com uma placa onde o número se destacava. Eve enfiou a chave na fechadura e a girou, mostrando um espaço pequeno, limpo e totalmente vazio. Havia apenas uma prateleira na metade do armário, que tinha pouco mais de cinqüenta centímetros.
A menina enfiou seus livros ali, até os de Tarefas. Line correu até seu próprio armário, que ficava umas dez portas de distância do de Eve, e voltou com uma fita adesiva e um papel. Ela colou o quadrado branco na parte de dentro da porta do armário da ruiva.
“Seu horário. Eu tenho dezenas de cópias disso. Depois do almoço corra até aqui e pegue os livros que estão nas aulas. E aqui” Ela colou outro papel. “É as cores dos livros e o que elas significam. Em alguns dias você decora, é claro, mas é bom ter. Você pode enfeitar seu armário do jeito que quiser, pelo lado de dentro, mas eu recomendaria que você guardasse bebidas e cigarros em outro lugar. De vez em quando a gente tem os armários revistados”.
Line mostrou seu próprio armário, decorado com fotos e recortes sobre diversas bandas. Eve olhou para uma delas.
“Tristan tem uma dessas no quarto dele” Disse ela, mostrando uma foto de um bando ligeiramente esquisito e cabeludo.
“Tristan? O Heels? Você conhece ele?”
Hora da mentira.
“Eu moro com ele. Meus pais são amigos dos pais dele, então me deixaram morar na casa dele, pra que eu pudesse estudar aqui.”
“Cara, você veio de tão longe pra estudar nessa fossa?” A garota riu alto. “Mas você precisa me apresentar ao Heels. Ele é o melhor guitarrista desta escola”.
Ela começou a guiar Eve até a cafeteria, e a garota tentou engolir aquela sensação de raiva e desgosto que sempre lhe assolava quando alguma garota queria chegar perto demais de seu dono.

Eve carregou sua bandeja com um pouco de tudo, e agradeceu sorrindo muito a cada cozinheira de cara amarrada que jogava rispidamente comida em seu prato. A modernidade chegara em alguns pontos da Academia, e os custos mensais de seus almoços eram depositados em sua carteirinha de identificação, e cobrados no fim do mês, junto com as mensalidades. Eve levou seu prato até uma mesa vazia, e logo Line se juntou a ela. Logo em seguida Riza apareceu, apresentou-se a menina de cabelo roxo e se jogou no banco ao lado da ruiva.
“Não sei como alguém consegue entender geografia” Resmungou ela, começando a comer e tirando seus óculos por alguns minutos. “Terrível, terrível”.
“Onde estão Tristan e o Josh?” Perguntou Eve, entre uma garfada e outra.
“Tristan está por aí, logo ele chega, e o Jozua está com os amigos dele, criando algum plano idiota de como trazer bebidas alcoólicas pra escola sem que descubram.”
“Vodka na garrafa d’água” Disse Line, sonhadoramente. “Ninguém nunca descobriu”.
Riza a olhou de boca aberta, e a garota deu de ombros.
“Eu também sou uma rebelde sem causa. E quem é esse Jozua?”
A morena deu um sorriso sinistro.
“Acho que você o conhece. Ele está vindo aí”.
O loiro surgiu de repente, deslizando pelo banco até tentar roubar um beijinho na bochecha de Riza, que o espantou com apenas um olhar. Eve o beijou na face, como sempre fazia, e o garoto pareceu bem mais satisfeito. Line parecia ter congelado.
“Cadê o Tristan?” Perguntou ele, roubando a sobremesa de Eve, abrindo o pequeno potinho e comendo todo o conteúdo.
“Não sei. Já procurou na sala?”
Josh assentiu, e então olhou para a porta.
“Lá está o vagabundo, até mais, garotas. Prazer em te conhecer, menina roxa”
Line começou a se abanar com um guardanapo quando ele saiu.
“Aquele Josh. Como vocês conhecem ele?”
“Amigo de um amigo de um amigo meu” Disse Riza, evasivamente. Então reparou no olhar e no biquinho de Eve. “O que foi, ruiva?”
“Ele... Ele...” A garota fez um olhar de dor terrível. “Ele roubou meu pudim de chocolate”.

A última aula do dia era de Artes. Para essa não havia livros, segundo lhe contou Line. Ela a levou até outro prédio, e lhe jogou um avental muito sujo de tinta já seca.
“Você vai ter que comprar um. Enquanto isso, fique com o meu reserva.”
A sala de pintura era grande, muito iluminada, e com dezenas de cavaletes de madeira espalhados por todo o lugar. Não havia mesa para a professora, mas a mulher gordinha e muito animada já os esperava, sentada numa banqueta e comendo uma maçã.
“Muito bem, classe, sejam todos bem vindos! E você...” Ela examinou Eve com um olhar crítico. “Deve ser a nossa nova aluna, Srta. Bell. Já pintou antes?”
A garota negou.
“Não senhora”.
A mulher fez um gesto de dispensa.
“Sem esse negócio de senhora. Se você é minha aluna, me chame de professora, ou de Profa. Quimberly se quiser exagerar. Se você pintar bem, vai poder me chamar de Misty.”
“Certo, professora.”
A mulher sorriu.
“Pegue o primeiro cavalete, aqui na minha frente, vamos ver o que você consegue fazer.”
“Ei” Disse uma voz muito irritante. “Esse cavalete é meu!”
Eve e a professora viraram-se para a porta. Uma garota de cabelos loiros perfeitos as encarava. Ela era pequena, e delicada, mas tinha um porte e uma aura decididamente de alguém importante. Era linda, lindíssima, como uma boneca. Sua pele artificialmente bronzeada e o corpo perfeitamente esculpido arrancavam suspiros dos garotos da classe, mas a maior parte deles estava espiando a nova aluna, ruiva e peituda, e aprovando a mudança.
“Acho que não vi seu nome nele, senhorita Johnson” Disse a professora em tom cortante. “E acredito que a senhorita fará a gentileza de ceder o cavalete para a nova aluna, como eu mandei”
A garota não pareceu se abalar com o tom da professora, ou suas palavras.
“Eu sou a melhor pintora da classe, e esse é o cavalete com a melhor luz” Disse ela, empinando o nariz.
A professora lhe deu as costas, enquanto resto da turma se dirigia aos cavaletes. Line pegou um perto de Eve, mas o tirou do lugar para ficar atrás da garota.
“Detesto ficar na frente, obrigado pela cobertura, ruiva” Disse ela, passando pela garota. Parece que ‘ruiva’ era um apelido que pegava rápido.
A garota loira bufou alto, e pegou um cavalete no fundo da classe, com extrema má vontade, e ainda o arrastou fazendo um grande estardalhaço para ‘pegar uma quantidade minimamente decente de luz’.
“Clarisse Johnson é realmente nossa melhor pintora” Sussurrou a professora, mais para si mesma que para Eve. “Mas parece gostar demais de mostrar isso para todos. Onde está a arte, então?”
A mulher colocou uma tela em branco no cavalete de Eve, e lhe deu uma certa quantidade de potes de tintas, e um pote de vidro cheio de pincéis.
“Não se esqueça de comprar seu próprio material de pintura. Vou te passar uma lista no fim da aula. As telas são por conta da escola, a não ser que eu peça algum material mais específico. Quando terminar, lave os pincéis e tampe as tintas para não estragar. Você pode usar alguma das palhetas que estão naquela mesa para misturar as tintas, se quiser fazer novos tons”.
Eve assentiu.
A professora se virou para a classe.
“Não teremos um modelo hoje, quero uma pintura livre. Imaginem algo, não quero nada que esteja nessa sala. A melhor pintura vai ganhar espaço na nossa galeria.”
Line sorriu e cochichou para a ruiva a sua frente.
“É melhor que saiba pintar, ruivinha, ninguém mais agüenta olhar na cara da Clarisse que está na galeria”.
Ela apontou para uma parede e realmente ali estava uma grande quantidade de quadros. Todos eles mostravam a mesma face: a própria Clarisse, pintada em todos os ângulos, tons e luminosidades. Ao que parecia, a melhor pintura da turma prezava demais pintar o próprio rosto. Em todos os sentidos, já que ela era a única que usava maquiagem, fora algumas como Line que passavam quantidades exorbitantes de delineador, para fazerem jus a seus estilos.
“Podem começar, vocês têm uma hora, nem um minuto a mais.”
Alguns pareceram desconcertados, pintando ou pegando seus pincéis. Line começou a misturar as tintas em sua palheta manchada, e Clarisse já pintava. Com certeza outro auto-retrato. Eve decidiu ir buscar uma palheta enquanto pensava.
Olhando os quadros da galeria lembrou-se do quadro no escritório da diretora. Era lindo, e mostrava a própria Academia, décadas atrás. E se ela pintasse a Academia Melody, exatamente como a vira no dia que chegara pela primeira vez ali?
Fixou a imagem na mente. Pegou uma palheta média, que não a atrapalhasse, mas fosse útil. Escolheu um pincel de tamanho bom, e mergulhou-o na tinta. A imagem cresceu em sua mente, e se ajustou perfeitamente a tela retangular. Os gramados, ainda molhados da neve que derretera há pouco, os prédios brancos iluminados pela luz fraca do inverno.
A professora a examinava. Quando ela fora buscar a palheta, parecia pensativa, mas voltara com determinação, ajeitara a tela no cavalete e parecia concentrada, escolhendo um pincel e o banhando na tinta. Então a expressão de Eve mudou. Os olhos se fixaram em total concentração, e parecem mudar, brilhar. Era como se repentinamente toda a emoção os enchesse até transbordar, e como se vissem mundos que os meros mortais não podiam ver. A professora se arrepiou, e a ruiva começou a traçar formas na tela.
O desenho fluía rápido. Os borrões se ajeitavam, ganhavam contornos definidos, enquanto a tinta, ora vinda dos potes, ora vinda da palheta, construíam o que apenas Eve podia ver.
Line desviou os olhos de sua lua vermelha que pintava, e olhou para o que Eve fazia. Não podia ver a expressão da amiga, mas o desenho a deixou de boca aberta. A Academia Melody a encarava como se ela olhasse por uma janela. Eve terminara o desenho principal e pintava os detalhes, dava mais cor ao gramado que brilhava levemente, enchia o céu de cor suave, nuvens leves e luz.
Havia muito mais céu azul, a Academia estava perto, mas parecia reluzir, mesmo sem sol à vista. Eve pintava como vira a Academia em seu primeiro dia, bela e desconhecida, o céu azul refletindo sua felicidade. Era só bater os olhos no desenho, e não havia dúvida que Eve realmente gostava daquela escola. Até Line sentiu-se um pouquinho orgulhosa por estudar ali, só de olhar o que a ruiva pintava com tanto gosto.
A professora estava de queixo caído também, olhando as mãos da garota trabalharem rápido e com segurança. Faltava um pouco de técnica, as pinceladas não seguiam um padrão completo, algumas eram fortes e outras eram muito suaves, precisando de uma segunda camada de tinta sobre elas, mas o desenho era perfeito. Não era apenas um retrato fiel da escola, mas também uma pintura carregada de emoção. Felicidade, um pouco de nervosismo, curiosidade. Eram os sentimentos que Eve tivera ao ver a escola, e que agora transmitia usando apenas tinta.
Clarisse olhou por cima de outra imagem perfeita de seu próprio rosto, e viu o desenho da novata. Seu peito se apertou de ódio. Primeiro, seu cavalete era tirado. Depois, os vermes daquela classe não babavam mais por ela, mas pela ruiva. E agora... Aquela vadia ousava pintar um desenho ridículo daqueles e que com certeza a idiota da professora colocaria na galeria.
Seus olhos perfeitos se estreitaram. Era preciso uma intervenção rápida. Assinou seu desenho já pronto e apanhou o pote de tinta negra, cheio, e começou a rumar em direção a ruiva e a professora.
Uma de suas servas colocou um pé proposital ali. Até que a inútil era espertinha, entendia rápido as coisas. Mas ela nunca diria aquilo, afinal qualquer inteligência era nada comparada com a dela. Andando rapidamente com o pote destampado, ela tropeçou afetadamente no pé estendido e a tinta bateu com violência no quadro de Eve.
A maior parte caiu sobre Line, que estava idiotamente postada atrás da vagabunda. O resto bateu contra a idiota da professora, e um pouco sobre a vadia, mas um tanto conseguira derramar-se sobre o céu do quadro, deformando para sempre a pintura. Só haviam sobrado dez minutos de aula, era impossível pintar outro.
Ela começou a pedir desculpas, muito envergonhada, enquanto se levantava do chão. A professora a mandou lavar-se, e ela saiu, para começar a gargalhar já no corredor. Arrasada, Line jogou seu pincel no pote de água, e deu seu desenho por encerrado. Eve parecia espantada demais com aquele repentino acontecimento. Havia um pouco de tinta em seu cabelo, e um pouco sobre a manga direita da blusa. A professora estava encharcada, mas não parecia se importar, principalmente que a maior parte caíra em seu grande avental, mas parecia muito triste. Com certeza teriam outro rosto sorridente daquele vagabunda loira na galeria, e a ruiva perdera sua obra.
Eve colocou o pincel entre os dentes. A mancha preta se espalhava rapidamente pelo céu pintado, logo cairia sobre os prédios e seria o fim de seu desenho. Num gesto rápido ela colocou seu quadro de ponta cabeça.
Ainda com o pincel na boca ela misturou as cores de sua palheta, e pegou o próprio pote de tinta preta. Mergulhou seu pincel nele e começou a espalhar a tinta sobre o céu, que agora estava na parte de baixo do desenho ao contrário. A mancha espalhou-se, com Eve acrescentando e dando formas ao estrago. Logo o céu de pintura estava totalmente preto, e a garota aplicava uma segunda camada aos prédios, mesmo estando com seu quadro de ponta cabeça. Ela apenas inverteu mentalmente o desenho que estava em sua cabeça e logo a segunda camada de tinta escurecia os prédios. Ela escureceu o verde em sua palheta e repintou o gramado, aproveitou a luz que antes o céu claro emprestava ao desenho e a transformou em nova luz, adensando as sombras e delineando os raios pálidos sobre a Academia.
Pintava com voracidade, rapidamente e meticulosamente, sem se desconcentrar pelos alunos que abandonavam as próprias obras para verem o que ela fazia com seu desenho estragado por Clarisse.
Eve começou a pintar as estrelas, e uma lua delicada surgiu por trás da Academia, justificando a luz que o prédio recebia, a luz que antes era justificada pelo dia claro. Eve trocou os pincéis, arrumou os últimos detalhes e então colocou o desenho de volta na posição certa, assinando num cantinho com aquela assinatura que fizera no cartório.
Cansada, ela sentou no banquinho que havia ali perto, e começou a lavar os pincéis. Estava suja de tinta até os cotovelos, e havia arregaçado as mangas o quanto pôde antes de começar aquela verdadeira maratona para restaurar sua pintura.
Ao invés do desenho alegre da Academia de antes, agora havia uma perfeita cena noturna. Os prédios pareciam resplandecer à luz da lua, e o gramado brilhava levemente, talvez salpicado de minúsculos diamantes de orvalho. Onde havia nervosismo e curiosidade, agora a Academia estava envolta em mistério. E o desenho era tão lindo e perfeito como antes, ou talvez até mais, visto que desta vez todos acompanharam como a ruiva o fizera.
A professora sorriu, ainda abismada com a genialidade da nova aluna, e nem reparou quando Clarisse voltou, sorrindo.
“Temos um campeão!” Anunciou a professora. O sorriso de Clarisse se alargou. “Eve Bell e seu quadro receberão nota máxima e, se ela permitir, sua obra será exposta em nossa galeria, como inspiração para todos os estudantes e professores, principalmente os que se dedicam à pintura.”
A sala aplaudiu, verdadeiramente, talvez pela primeira vez com tanto entusiasmo. Então todos riram quando viram que a garota ficara realmente constrangida e baixara a cabeça, agradecendo baixinho. Ela era linda, inteligente, habilidosa e incrivelmente fofa.
Clarisse queria matá-la.
Todos se reuniram ao redor da ruiva e começaram a falar ao mesmo tempo, cumprimentando-a ou apenas querendo sua atenção, principalmente os garotos. Ela saiu cercada por todos, e Line ria alto. Quando Eve enfiava as coisas em sua bolsa e guardava a lista que a professora de Artes lhe passara, Clarisse a
interceptou.
“Você pode ter se saído bem nessa, mas eu não vou deixar você ficar com o meu lugar.” Sussurrou maldosamente a loira, apertando seu braço com toda a força que podia. As aulas de artes marciais com Tristan se provavam valorosas. A ruiva nem sentia o aperto, e a rival percebeu. “Eu vou acabar com você, sua biscate ruiva”.
Cuspindo porcamente aos pés da garota, a outra saiu, dando um encontrão proposital no ombro da outra. Infelizmente, para ela, foi uma péssima idéia. Eve estivera preparada para lutar a qualquer instante, e bater em seu ombro apenas deixou Clarisse dolorida pelo resto do dia.
Eve colocou a bolsa às costas e saiu. Fora um primeiro dia realmente emocionante, ela fizera até alguns amigos, e uma inimiga. Não poderia desejar dia melhor. Saiu da Academia, rumando para onde os amigos haviam combinado de esperá-la. Fez uma anotação mental. Precisava perguntar a Tristan o que era uma biscate.

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