Birthday Eve
Capítulo 11
Escuridão. Tortura. A Companhia Secreta
Eve foi jogada sobre uma mesa de aço. Alguém arrancou suas roupas, e despejou um balde de água quente sobre ela. Imediatamente, ela voltou a consciência. Todo seu corpo doía como se em cãibras, dores terríveis que corriam dentro de sua carne, como ela jamais sentira.
Outro balde de água caiu sobre ela, e mãos ríspidas começaram a esfregar, furiosamente, cobertores sobre sua pele. Aos poucos a dor cedia, deixando um rastro de desconforto em seu corpo. Ela foi girada, sem nenhuma delicadeza, e bateu o queixo no aço da mesa. Outro balde de água, e mais cobertores. O processo durou torturantes minutos, até que a enfiassem numa manta, e então um capuz negro desceu sobre sua cabeça e o mundo escureceu.
Uma caminhada interminável se seguiu. Ela sentia que não podia mais, e mesmo assim era impelida à frente, tropeçando com os pés descalços no chão frio, caindo e batendo nas paredes duras. Toda vez que ia ao chão, alguém a chutava até que levantasse. Sua dor piorava a cada instante.
Uma porta se abriu, arrancaram seu capuz e a jogaram ali. Cambaleou, a parede veio depressa demais, e ela caiu, embolada na manta. A porta fechou, e ela ficou mergulhada na escuridão outra vez.
Não saberia dizer quantas horas soluçou silenciosamente no escuro. Num momento, a porta se abriu e algo foi jogado contra ela. Quando fecharam a porta, uma fria luz vacilante surgiu em sua cela. Ela levantou, e percebeu que fora enfiada num cubículo não muito maior que um banheirinho, com um metro e meio por outro metro e meio. Tudo era feito de concreto e uma malha de grossas barras de ferro aparentes. Num canto, um pequeno vaso sanitário muito sujo e um rolo de papel higiênico. Eve espiou o lugar e percebeu que o que tinham jogado era uma espécie de túnica, sem mangas e da cor do tijolo. Ela livrou-se da manta e vestiu a coisa, percebendo que era vários números menor que o ideal.
A certeza avassaladora que não queria se expor àqueles homens a tomou, e ela puxou a barra da túnica o máximo que conseguiu, o medo gelado a sufocando repentinamente. A túnica era tão curta que se ela se abaixasse, estaria completamente nua para os olhos dos captores. Puxou com mais força, e lágrimas desceram por seu rosto cansado. Um ruído suave a alertou que conseguira rasgar a túnica. A barra descera um pouco mais, mas ela agora caía por seu tronco. Amarrou porcamente a roupa para se tornar uma espécie de tomara-que-caia, tão forte fora sua amarração que seus seios doeram terrivelmente de tão prensados que ficaram, mas ela não se importou.
Então sentou, e esperou.
Tentou contar o tempo por números, mas um grito surgiu lá fora, e ela perdeu a conta. Contou o tempo pelas piscadas que a luz trêmula fazia, mas adormeceu. Acordou quando uma portinhola em sua porta se abriu, e alguém atirou um prato descartável com comida por ela, fechando-a logo em seguida.
Era um papa cinzenta e encaroçada, cuja maior parte caiu no chão com o impacto. Eve sentiu o estômago doer de fome avassaladora, e juntou o máximo possível nas mãos, comendo em bocados desesperados. A comida tinha um gosto horrível, amargo, e decididamente não era aproveitável, mas ela comeu tudo que conseguiu tirar do chão e, chorando de vergonha, lambeu o prato de papelão.
Colocou o pratinho num canto, e esperou mais uma vez.
Tristan parou o carro, atrapalhando-se um pouco com as manobras e subindo com a roda dianteira na calçada. Não parecia fazer muita diferença: a rua era totalmente deserta e muito escura, cheia de lojinhas fechadas e avisos de demolição. O único lugar funcionando era um grande galpão protegido por uma alta cerca de alambrado. Uma câmera girava de um lado para o outro acima do pequeno portão, onde um homem guardava pacientemente o lugar.
O rapaz abriu o porta-malas do carro, sorrindo diante do monte de ferramentas, objetos e bolsas que havia ali. Realmente, os carros dos vilões eram os mais bem-equipados.
Numa caixinha, havia um fone/microfone sem fio, Bluetooth. Ele o ligou no celular e arrumou o microfone diante do rosto.
Digitou no celular e esperou.
“Arty? Vamos começar”.
Eve fora arrastada por dois homens para algum outro lugar. O capuz estava de volta ao seu rosto, e ela se sentia sufocada, e decididamente amedrontada. Eles a largaram numa cadeira, e ela esperou por horas, ouvindo máquinas zumbirem ao seu redor. Então, repentinamente, uma voz surgiu ao seu lado.
“Eve?” Perguntou a voz.
Ela ficou em silêncio.
“Você sabe porque está aqui, Eve?”
A ruiva aguardou, calada.
“Você é um prodígio, Srta. Bell”. Pelos sons que fazia, seu captor estava andando de um lado para o outro. “Um ser humano 100% sintético. Feita... como é que se diz? Ah. Sob encomenda”
Ele parou a sua frente.
“Nós a entregamos, Srta. Bell. A entregamos pessoalmente, e observamos. Vigiamos de perto seu crescimento, seus momentos alegres com seus amiguinhos. Tudo, tudo isso, para que, neste exato instante, você nos desse exatamente o que precisamos”.
O capuz foi arrancado de sua cabeça. Ela piscou furiosamente, luzes fortíssimas estavam viradas para seu rosto, escondendo totalmente o homem na sombra. Ela não podia ver suas feições, de tão ofuscada que estava pelas grandes lâmpadas.
“Nós queremos o segredo que está em você, Eve.”
O homem se aproximou tanto dela que ela podia sentir seu hálito forte e nojento, mas mesmo assim ainda não conseguia vê-lo direito.
“Queremos saber, Eve, exatamente... O que você sabe sobre o Projeto Hon, e sobre Parakuceruso.”
Ela sentiu o BrainSys disparar. Algo se ligou em sua mente, como se tivessem pressionado um botão direto em seu cérebro. Com toda a sua vontade, bloqueou a informação que tentava se enfiar em sua mente. Sabia, com toda a certeza que havia nela, que se ela conseguisse essa informação, eles iriam arrancá-la dela. Engoliu com força, mas ficou em silêncio.
O homem esperou.
“O que foi, o gato comeu sua língua? Olha pra mim, ruivinha!”
Ele agarrou seu queixo com brutalidade e a fez encará-lo. Só podia ver uma sombra ríspida onde ele estava.
“O que me diz?”
Eve cuspiu em seu rosto.
A mão do homem desabou com força extrema contra seu rosto.
Sangue surgiu em sua boca e escorreu por seus lábios. Ela sentiu o gosto sujo do metal, e a dor foi tão lancinante que ela gemeu alto.
“Você tem semanas de vida, Eve. Esta viva a tão pouco tempo que mal sabe como o mundo funciona!” O homem bateu nela de novo. “Sua resistência para a dor é baixíssima, jamais sofreu algo assim. E se você não falar, nós vamos te matar”.
“Você nunca vai me matar, senão vai perder sua preciosa informação” A língua fora mais rápida que a mente. Assim que falou, se arrependeu de suas palavras.
O homem gargalhou.
“Você tem razão, nós não iremos matá-la”. Ele fez um gesto. Uma dupla de desconhecidos trouxeram um tonel cheio de água e o pousaram perto dela. Algemaram suas mãos atrás das costas, e o homem a fez se levantar puxando seus cabelos.
“Mas uns dias aqui, e faremos você desejar a morte”.
E enfiaram sua cabeça na água gelada.
Tristan parara o carro em frente uma construção abandonada. Ele remexeu um pouco no material jogado ali, e apanhou um cano grosso de ferro, muito pesado. Não era muito longo, e ele o meteu debaixo da camisa. Não queria ter de usar o revólver que encontrara no porta-luvas, mas faria o que fosse preciso.
Arty reclamava em seu ouvido.
“Eu invadi o sistema deles e agora posso ver tudo pelas câmeras. O que quer que estejam fazendo com ela, não deve ser bom, pois está claro demais para se ver. Acho que ela está sendo torturada, Tristan.”
“Você colocou loops na câmera?”
Tristan mantinha a voz completamente fria, mas por dentro se sentia morrer. Não podia deixar os captores fazerem mais mal à Eve. E, principalmente, faria cada um destes desgraçados pagarem pelo que já haviam feito.
“Loops prontos, ninguém vai ver você entrando. Mas o sistema deles é anormal. Só no portão, você vai precisar de uma digital e cartão autorizado para entrar.
Tristan bateu a porta do porta-malas e deu uma corridinha rápida até o portão. As câmeras estavam presas num loop que mostraria o guarda perfeitamente parado, esperando de prontidão.
O cano girou em suas mãos e acertou o rosto do guarda antes sequer que este pudesse sacar a arma. O homem desabou com um sangramento feio na testa. Tristan o revistou rapidamente e tirou as chaves e dois cartões plásticos presos num cordão.
Eve sentiu que ia morrer. Não conseguia mais segurar a respiração. E então, seu corpo não agüentou mais. Ela abriu a boca, e puxou o ar, encontrando apenas água. Sentiu o líquido queimar seus pulmões, e nem percebeu quando foi puxada para fora do tanque. A jogaram no chão, e um homem se apressou para apertar seu peito. Ela cuspiu água por longos minutos.
“Fale sobre o Projeto Hon”.
A informação queria entrar em sua cabeça, mas ela a segurou, debilmente. Não agüentaria muito mais, era a terceira excursão no tanque. E sabia que não acabaria tão cedo.
Ficou em silêncio, apenas tossindo. O homem se exasperou, e a chutou nos lados, fazendo-a gritar. Sentiu seus rins se romperem, as costelas quebrarem e o próprio coração ser perfurado.
Eles a arrastaram de volta para perto do tanque, pelos cabelos. Não tinha mais forças para lutar. O homem agarrou seu pescoço e o apertou.
"Pra que resistir tanto? Se cooperar com a gente, nós já dissemos, liberamos você. Você volta pro seus amiguinhos, pro seu namoradinho. Vida feliz para sempre. Não tenha esperança, garotinha. Ninguém vai te ajudar aqui, a não ser que ajude a gente antes”.
Sua mente lhe informou o que era um namorado. E então, ela viu um pouco de esperança. Segurando firmemente as informações que eles queriam, abriu sua mente e se deixou inundar pela miríade de informações e se esqueceu completamente de onde estava.
Eles a enfiaram de volta na água.
Tristan dobrou o resto das mangas do uniforme do sujeito, até que pudesse voltar a usar as mãos. Não era o melhor dos disfarces, mas era o que dava pra fazer no pouco tempo que dispunha.
“Este prédio é da Companhia de Transporte & Entregas Elder” Confidenciou Arty. “Como no comercial da TV ‘Precisa de rapidez? Você precisa das Entregas Elder’. A empresa é gigante, com milhares de galpões como esse. É como esconder alguém no McDonnald’s”
“Inteligente” Disse Tristan. Ele foi até o portão, enfiou o cartão no lugar e pressionou sua digital contra a placa leitora. Ouviu Arty digitando furiosamente, e então uma luzinha verde se acendeu. O portão se abriu com um estalo, e Tristan se enfiou nele. Pelo zumbido alto que surgia malignamente do chão, sabia que a cerca era eletrificada.
“Pra que tanta segurança para um simples depósito de entregas?”
Arty riu.
“Se você entregasse quadros valiosíssimos e encomendas milionárias feitas pela internet, iria instalar toda esse lixo de baixa tecnologia.” O homem bufou. “Veja esse sistema! Empresas pagam milhões por essa porcaria, eu poderia invadir os servidores deles usando um celular!”
Tristan se permitiu um sorriso.
“Arty, se eu sair dessa com a Eve nas costas, você vai ganhar uma boa grana. Agora, substitua a digital do soldado pela minha, no banco de dados dele, e me oriente por esses corredores. Me alerte onde me esconder se alguém estiver vindo. E, pra último caso, me diga o meu nome”.
Ele ouviu barulhos de teclado, e então um som de mastigar muito característico.
“Você tá comendo Doritos?”
“É pra aliviar a tensão” Ele mastigou longamente, bem pertinho do microfone, apenas para irritar o rapaz. “Seu nome é Markus Tuomen”
“Certo”.
Ele destrancou a segunda porta. Então levantou o cartão azul, com sua identidade. Colocou a mão no cano grande que carregava, e então sentiu o peso desconfortável do revólver em sua cintura. Era tudo aquilo que ele tinha para salvar Eve, fora uma ou outra coisinha menor que carregava nos bolsos. Sentiu um bolo se formar na garganta, mas o engoliu rápido.
Enfiou-se num corredor e correu, desviando habilmente da janela do cubículo da segurança, onde seu único ocupante estava muito atarefado, fazendo um dos monitores de segurança sintonizar no jogo da noite. O rapaz sorriu, e piscou para a câmera de segurança que o seguiu. Apenas Arty veria as imagens reais, o resto do pessoal da segurança teria uma longa noite de loops e vídeos simulados.
“Estou dentro”.
E Tristan se enfiou nos corredores escuros da companhia de entrega, pra recuperar seu presente de aniversário.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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