quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Capítulo 8

Birthday Eve
Capítulo 8

O espião. A garota. O doutor suspeito.


A manhã estava incrivelmente fria. Eve acordou muito cedo, mas já sentia um cheiro diferente no ar. Levantou meio atordoada de sono, tropeçando numa cadeira e quase caindo no chão do quarto. Ela entrou no banheiro, caminhando direto para o chuveiro. Depois do banho quente ela já estava bem mais desperta, e escolheu as roupas com cuidado. Abriu a porta do quarto, e se deparou com uma plaquinha afixada na madeira.
"Eve" Leu ela, as três letras talhadas em madeira clara, rodeada de entalhes de flores e folhas lhe apertou o peito. Ela tocou a placa com a ponta dos dedos, e deu um sorriso radiante, deixando algumas lágrimas caírem.
Ela tinha apenas alguns dias de vida. Sua primeira lembrança fora o rosto assustado de Tristan, seu dono. Havia uma espécie de computador ligado no seu cérebro, lhe mandando informações o tempo todo sobre tudo que ela tinha dúvidas. E mesmo assim... Mesmo assim... Ela se sentia como parte de alguma coisa. Ela tinha uma família, com seu dono, Riza (a garota que era uma irmã mais velha gentil e, às vezes, assustadora) e Josh, o loiro engraçado e piadista que adorava tentar espiá-la no banho ou olhar debaixo de sua saia. Uma família perfeita.
O cheiro no ar era realmente engraçado. Era um cheiro doce, meio chocolate e meio alguma outra coisa, e decididamente delicioso. Ela se esgueirou silenciosamente, espiando pela porta aberta da cozinha, fonte do cheirinho bom.
Riza estava totalmente compenetrada. Apertava a ponta da língua entre os dentes, enquanto com todo o cuidado do mundo colocava pequenos pedaços de chocolate, perfeitamente cortados, em algumas rodinhas meio chatas de massa crua. Estava tão absorta em sua tarefa que nem percebeu a chegada da ruiva, que pode admirar a estranheza da amiga.
Os cabelos negros da menina estavam lisos e brilhantes, cuidadosamente penteados. Ela usava uma camiseta de mangas compridas leve e meio solta, escondendo seus seios pequeninos, mas que também lhe caía muito bem, além de jeans que modelavam seus quadris. Nos pés, os sapatos eram meio plataforma, feitos para o frio, completando sua figura, que estava realmente bonita. Até um pouco de brilho havia em seus lábios, e se a ruiva olhasse bem de perto poderia ver que Riza colocara um pouco de maquiagem no rosto.
A morena terminou de salpicar com cuidado seus pedacinhos de chocolate, virou e levou a forma de massa até o forno, tirando outra de lá, a verdadeira fonte do cheiro. Naquela outra forma, as rodinhas de massa estavam perfeitamente assadas, os pedaços de chocolate meio derretidos, eram as coisas mais apetitosas que a ruiva já vira, depois de panquecas.
"EVE!" Gritou Riza, quase derrubando a forma quente. Ela colocou uma das mãos enluvadas no peito, sobre o coração. Então deu um longo suspiro. "Você quase me matou de susto. A quanto tempo está aí?"
"Não muito" Respondeu a mais nova, sentando numa das banquetas do balcão da cozinha. "O quê você está fazendo?"
"Biscoitos" Disse a outra, lentamente. E então, subitamente, corou muito, ficando totalmente vermelha, e baixou os olhos. Começou a se ocupar tirando os tais biscoitos já assados da fôrma e o colocando num prato, arrumando com tanto cuidado quanto era possível.
Eve tinha um QI quase absurdo, e um banco de dados na cabeça, mas estava bem longe de entender todas as sutilezas e complexidades do universo feminino. Mesmo que ela mesma pertencesse à ele. Por isso não conseguiu entender o quê estava acontecendo só com as pistas que Riza deixava.
"Vai ter algo de importante hoje?" Perguntou, inocente. Riza quase deixou o prato cair.
"Um..." Ela demorou quase um minuto para continuar. "...amigo está vindo. Para te conhecer".
Eve sorriu. Gostava de conhecer novas pessoas.
"Quem é?"
A morena corou duas vezes mais, desatando a falar de uma vez.
"Ele é um médico que eu conheço, o pai dele era médico da minha família, só que ele gosta de uns serviços mais interessantes e quase nunca faz perguntas demais e eu achei que eu podia convidá-lo pra quem sabe ele dar uma olhada em você e a gente pudesse descobrir mais sobre esse computador em você e ele poderia te fazer uns exames e ver sua saúde além de fazer medições e conversar e se algum dia você ficar doente ele vai querer te tratar sem riscos de descobrirem algo anormal em você e fora isso ele é muito rico e a família é dona do hospital então qualquer exame que precisar ele pode conseguir sem chamar muito a atenção..." Ela parou, sem fôlego. "Ele é legal."
Havia algo no tom da última palavra que separava claramente alguém "legal" de alguém "legal". Mais sutilezas de mundos inatingíveis sem os cromossomos certos.
A porta da cozinha abriu, e Tristan entrou, carregando um grande saco de lixo preto, cheio de garrafas vazias.
"Biscoitos" Sorriu ele, e agarrou o primeiro da pirâmide perfeita que Riza havia feito no prato. Então o comeu, sem perceber os oito milhões de volts de puro ódio que os olhos da garota lhe enviavam. Então pegou outro e saiu para o quintal.
É, Eve não estava tão distante do universo feminino, afinal. Tinha alguns piores que ela.
Riza tentava desesperadamente arrumar sua obra de arte dos biscoitos. Tirou alguns, arrumou a pilha e sorriu de novo, cada vez mais nervosa. Em alguns minutos estaria derrubando coisas e olhando para o relógio a cada três segundos.
"Pode pegar" Disse ela para a ruiva, que cantarolava para si mesma, totalmente alheia do mundo e balançando as pernas, em seu banquinho. "Não dá pra assar outra fornada só pra repor os que o Tristan pegou."
Eve sorriu, sua mente desligando todo o resto e se focando na comida. Mordeu um biscoito, e começou a flutuar em um mundo de nuvens, beleza e raios de sol coloridos.
"Está..." Disse ela, de boca cheia. "Divino!"
Riza sorriu orgulhosa, estufando o peito. Então deu um relance para o volume exorbitante no decote da menina a sua frente e desistiu, preferindo sorrir com orgulho.
"Realmente, modéstia a parte, sou uma cozinheira muito boa e..."
Josh entrou, agarrou um dos biscoitos da pirâmide e deu uma dentada, espalhando farelo enquanto falava.
"Realmente, 'tá bom mesmo. Valeu, Rizinha".
E saiu, procurando por Tristan e as garrafas.
Riza sentiu seu sorriso congelar na cara. Mas rapidamente se lembrou do prato que dera pra Eve. A garota não se importaria em devolver um biscoito para substituir o que faltava. Riza sabia que Eve não ia se importar. Mesmo.
"Obrigada, Riza, estava uma delícia, parabéns!" Disse a ruiva, saindo pela porta do quintal também. O único som que ficou foi o estalar do fogão, quando os olhos da morena se fixaram no prato vazio que Eve deixara para trás. Então todo o silêncio fugiu de medo de seu grito de ódio.

George mordeu um biscoito, bebeu um pouco de café forte e recém coado, suspirou de felicidade e então encarou os quatro jovens à frente.
Riza estava vermelha como um pimentão. Tristan parecia o mesmo, em seu canto e muito quieto, como se examinasse o mundo. Josh parecia meio adormecido, o cabelo todo amassado, e com farelo de biscoito no colo. E então havia a garota ruiva, linda como uma deusa, que o olhava com olhos de criancinha. Ele repensou a história que acabara de ouvir, observara as fotos, as provas e o relatório completo que Riza caprichosamente redigira e apresentara. Apanhou sua grande maleta de couro preto.
"Vamos fazer uns exames rápidos, então." Disse. "Garotos, saiam do quarto. Srta. Eve, preciso que tire suas roupas, para que eu possa examiná-la".
Tristan fechou a cara e saiu resoluto do quarto, meio arrastando e meio apoiando Josh. Riza cruzou os braços e tomou o lugar onde Tristan estava antes.
"Er, você também, Riza".
Ela corou três vezes mais, mas ficou parada.
"Vou ficar para proteger a Eve" Disse ela.
"Eu não vou deixar nada acontecer com ela, você não precisa se preocupar..."
"Eu vou proteger a Eve de você" Retrucou a morena. E George só pôde suspirar alto.
"Por quê...?" Começou a ruiva-corpo-de-anjo.
"George tem dificuldade em se controlar perto de mulheres bonitas" Explicou Riza, parecendo perder um pouco da timidez. "Não que ele vá fazer algo, realmente, mas é melhor prevenir."
O médico devia ter uns trinta e poucos anos, cabelos castanhos compridos e uma barba mal-feita, deixando-lhe com um estilo de homem meio perigoso. Era charmoso e muito bonito, o quê realmente encantava Riza, mas sempre fora uma espécie de tarado. E mesmo se fosse uma espécie de deus grego para a morena, ela não deixaria ele colocar as mãos em Eve. Mas bem que ele podia querer colocar as mãos nela...
A morena afastou esses pensamentos da cabeça.
"Eve, não precisa tirar tudo, fique só de roupa de baixo..."
A ruiva colocou cuidadosamente sua última peça de roupa, a calcinha, sobre a cama e a olhou.
"Ahn?" Perguntou, inocente. George parecia estar tendo um ataque cardíaco.
"Pelo amor de Deus, George! Aja como um médico de verdade!" Ralhou a garota ao canto. O homem se endireitou, mas não completamente, e apanhou seus instrumentos.
Depois de muita medição pelo corpo de Eve, várias perguntas e ouvir sua respiração, picar seu braço para testar a coagulação e alguns pequenos exames de rotina, ele levantou os olhos do bloco de anotações. Eve havia colocado suas roupas de volta, mas a imagem nua dela ainda ficaria impressa em seu cérebro por meses. Tristan o encarava de seu canto, com um olhar mortal. Josh brincava com um joguinho.
"Eve tem uma saúde perfeita. Ela é forte, bem desenvolvida, tem proporções ótimas. Precisa apenas cuidar um pouco de sua postura, o peso de seus seios pode acabar fazendo você ficar curvada e machucando sua coluna, esteja atenta à isso." Ele examinou suas anotações. "Não sabemos se você é alérgica à alguma coisa, mas parece que não. Sua coagulação é perfeita, e estou levando algumas amostras de seu sangue para exames mais profundos. Pelos meus cálculos você tem realmente 16 anos, como diz suas proporções, mas estou levando uma amostra de células para exame também. Seus pulmões estão ótimos também, e seu coração. Realmente falando, Eve, eu diria que você tem uma saúde de ferro. Só uma última coisa..."
Ele a encarou por um longo segundo, como se fosse dar alguma notícia bombástica.
"Quer casar comigo?"
Tristan deu um pulo de sua cadeira, enquanto Josh derrubava o jogo no chão. Riza parecia congelada na cadeira. Eve pareceu pensar por um instante, sua mente lhe informando o quê era um casamento.
Passou-se um minuto inteiro.
"Não." Respondeu ela. "Eu prefiro o Tristan".
O dedo apontado para o garoto e sua fala fizeram Tristan ficar tão vermelho que parecia estar passando mal. O nervosismo o fez verter suor em bicas, e ele se atrapalhou todo, esquecendo como funcionavam os pés e quase caíndo ao tentar se sentar de novo. Josh começou a rir, e Riza fazia cara feia. George suspirou.
"Realmente, é uma pena. Tristan, meu rapaz, você tirou a sorte grande".
"Se já terminou o quê tinha que fazer, caia fora" Resmungou o rapaz, em resposta, achatando o cabelo contra a testa, sem nenhum motivo em particular. O médico sorriu e levantou, comendo mais um biscoito, o último.
"Bem, então estou indo. Jozua, posso dar uma última palavrinha com você?"
Os dois se afastaram prum canto, Eve apanhou uma folha de papel do bloco jogado na mesa e começou a desenhar com uma caneta. Tristan pegou o jogo que Josh derrubara, mas não o ligou, espichando ao máximo os ouvidos para captar a conversa do médico.
"Então" Disse George, baixinho, mas o garoto pôde ouvir. "Onde você comprou ela...?"
"Você vai nos ajudar a tentar devolvê-la?" Animou-se Josh.
"Er... Na verdade..." O homem hesitou. Tristan começou a calcular se conseguiria matá-lo acertando com o joguinho bem no meio da testa. "Eu queria comprar uma pra mim".
Riza, os nervos já em frangalhos depois de tudo aquilo, saiu correndo porta afora. Eve continuou desenhando, entretida, Tristan suspirou e ajudou Josh a empurrar George para fora.
"Obrigado pela visita, esperamos os resultados do exame" Disseram os dois garotos juntos, quando o médico caía para fora da casa.
"E envie os resultados pelo correio" Completou o castanho.
Então bateu a porta na cara do homem, e trancou à chave.

O homem de preto ajeitou a lente de sua câmera. Os cabelos ruivos eram muito chamativos, fácil de se reconhecer e difícil de perder de vista. Deu um sorriso sinistros, por trás da lente. Então bateu a foto, com o flash desligado ninguém percebeu seu ato. Um ronco baixinho saiu da câmera, e uma foto deslizou para fora do objeto, caindo no chão sem que ele se importasse. Bateu outra foto, trocou de posição e voltou a focalizar seu alvo.
No chão, na foto colorida, Eve desenhava na folha com uma expressão nos olhos que decididamente não era sua.

Nenhum comentário:

 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB