Birthday Eve
Capítulo 17
Os amigos. A briga. O passo.
Eve estava completamente concentrada em sua mais nova obra. Seus olhos se apertaram, enquanto ela respirava calmamente. Uma única respiração mais funda ou fora de compasso poderia destruir completamente todo o trabalho dos últimos cinco minutos. A ruiva apertava a ponta da língua entre os dentes, e então estava pronto. Afastou-se de sua obra-prima e sorriu largamente.
Line deu um peteleco em seu castelo de cartas e derrubou tudo o que a amiga construíra com tanto esforço. Eve sentiu seu coração se quebrar ao ver seu Palace II ser derrubado com tanto desdém.
“Isso é pra jogar, cabeça de fósforo, e não pra fazer castelinhos como no jardim-de-infância!” Resmungou a garota, recolhendo as cartas e as embaralhando num gesto fluído que deixou Eve espantada.
“E como se joga isso?”
A garota de cabelos roxos suspirou.
“Acho que não ensinam pôquer na roça, não é?” Perguntou ela em tom cortante.
“Deixa ela, Line, não seja uma vaca irritada” Resmungou Juliet.
Ah, Juliet. Era uma espécie de troféu da escola. Seis anos seguidos em primeiro lugar nas provas semestrais. A garota disputada a tapa nos grupos extra-escolares, a aluna perfeita, aquela que os professores sabiam que só agüentavam os maçantes dias de aula porque assim poderiam vê-la.
Ela tinha olhos puxados, e o rosto em forma de coração, sorrindo sempre de um jeito muito fofo, e a pele branquíssima parecia jamais ter visto o sol. Ela era horrível em esportes, e mais de uma vez acabara derrubando os membros do próprio time enquanto fugia da bola, fora que parecia ter algum tipo de calculadora no cérebro e um imã que a guiava sempre para a biblioteca. Usava óculos pequenos, assim como Riza, e tinha um senso de humor no mínimo... diferente.
“Cale a boca, Julian” Cortou a outra. “E explique o jogo para Eve”.
A oriental sorriu delicadamente para a garota, e então ajeitou os cabelos curtos e castanhos.
“Venha cá, Eve, vou te mostrar” Talvez se a ruiva fosse um pouco mais experiente, entenderia o olhar da outra.
Com um gesto rápido, a garota pulou sobre Eve e encheu suas mãos com os grandes seios das menina.
“Peguei, peguei!” Gritou ela, sorrindo muito. Eve se assustou, e sua mão avançou mais rápido do que os pensamentos, e acertou a outra no pescoço, sendo solta imediatamente.
“Ai, ai” Gemeu Juliet, esfregando o pescoço machucado. “Você quebrou meu pescoço!”
Eve correu para ajudar a garota, extremamente arrependida. Era uma idiota, cancelaria as aulas de karatê e nunca mais sequer pensaria no assunto, até que esquecesse completamente tudo que sabia sobre luta.
“Juliet? Você está bem?” Perguntou Lin, se juntando à ruiva. Então piscou para a amiga que quase chorava. “Belo golpe, novata. Andou assistindo Karatê Kid nesse fim de semana?”
“O que é... Karatê Kid?”
Juliet e Lin voltaram-se para ela, de boca aberta. A oriental já se esquecera completamente do golpe, provando que sua reação nada mais era que puro exagero.
“Você nunca assistiu Karatê Kid?” Perguntaram. “Em que mundo você vive?”
Eve deu de ombros, ligeiramente desconcertada. Parecia que Karatê Kid era uma coisa realmente importante, precisaria perguntar a Tristan sobre isso.
“Titanic?” Perguntou Lin. “A Fantástica Fábrica de Chocolate? Alice no País das Maravilhas? Star Wars?”
Eve negou com a cabeça a cada título citado. As garotas pareceram ainda mais impressionadas.
“Não existia vida inteligente na sua cidade natal?” Perguntou Juliet,boquiaberta. “Você nunca comeu salgadinhos de cebola com cheiro de chulé, ou BigMacs altamente calóricos, ou Coca-Cola?”
“Salgadinhos não. O resto sim” Eve sorriu. Tristan lhe levara uma vez para o McDonnald’s. Ela ficara encantada com o sistema de pedidos e a linha de produção da cozinha, mesmo que Riza tenha dito que aqueles lanches matavam mais gente que acidentes de trânsito e Josh tenha derrubado o pacote de batatas fritas em cima da morena.
“Ceeerto” Disse Lin. “Bizarro, muito bizarro.”
O sorriso dela repentinamente se abriu, e seu olhar estava realmente brilhante.
“Já sei! Isso pede uma seção cultural!”
Juliet se incendiou na mesma hora.
“Isso aí! Eu vou pegar uns filmes da minha coleção particular...”
“Não, você não vai” Cortou uma vez, chegando por trás das garotas. Lin sorriu largamente.
“Paul, venha cá, precisamos de ajuda!”
O rapaz era da mesma altura de Eve, e usava o uniforme impecável. Debaixo do braço, o estojo de um clarinete despontava, e ele parecia tão bem asseado, com seus cabelos castanhos cortados e penteados que Lin fez uma careta imediatamente.
“Você está... esquisito, Paul” Informou ela, inteligentemente. O rapaz sorriu largamente.
“Vindo de você, então estou bonito” O sorriso dele era realmente bonito, e sua voz mansa e gentil lhe davam um aspecto amável e seguro. Parecia algum tipo de aspirante a galã, talvez um pouco certinho demais.
A de cabelos roxos começou a contar do “problema” de Eve, e Paul reagiu ajuntando-se na idéia. Lin rasgou uma folha de seu caderno e escreveu um endereço.
“Fica perto da escola” Disse a garota, entregando o papel para Eve. “Às duas horas. A gente providencia tudo. Certo, combinado!”
O sinal do fim do almoço tocou, e eles se levantaram. Ainda meio confusa com a rapidez de decisão de Lin, a ruiva as seguiu de volta para a classe onde teriam Geografia.
Tristan mordeu a ponta do cartão, nervoso sem nenhum motivo aparente. Abriu o e-mail e o leu longamente. Depois da terceira leitura seguida, finalmente suspirou e enviou o arquivo para a impressora. Um cansaço enorme se espalhava por ele, e tudo o que queria era simplesmente cair na cama e dormir por longos anos. Eve saíra há pouco, dizendo ir na casa de algumas amigas, e ele ficou, repentinamente arrependido de sua horrível decisão.
Deixou a cabeça cair, e a testa pousou sobre a mesa. A porta de seu quarto se abriu, e Josh localizou rapidamente o amigo.
“Você fez, não é?” A voz do loiro estava estranha, como se ele estivesse rouco.
“Vão buscá-la em três dias”.
“Você é um verme, Tristan”
Será que o maldito não podia deixá-lo em paz? Uma terrível dor de cabeça já se formava no rapaz de cabelos castanhos.
“Cala a boca, Josh”
Uma mão o girou, arrancando-o da cadeira e jogando o rapaz no chão.
“NÃO! CALA A BOCA VOCÊ!” Os gritos de Josh assustaram o amigo, já que o loiro jamais levantava a voz pra falar com alguém, nem nas piores brigas. “VOCÊ ESTÁ MANDANDO A EVE EMBORA, SEU IMBECIL!”
“ELA PRECISA IR EMBORA!” Gritou de volta.
“POR QUÊ? POR QUE A EVE PRECISA IR? VOCÊ SÓ QUER SE LIVRAR DELA PORQUE É UM IDIOTA!”
Os dois arfavam, as gargantas doíam de seus gritos. Tristan se levantou e encarou o amigo.
“VOCÊ NÃO ENTENDE NADA!”
Josh agarrou a gola de Tristan.
“VOCÊ ACHA QUE ELES VÃO FAZER O QUÊ COM ELA SE VOCÊ DEVOLVER A EVE? QUE ELES VÃO DEIXÁ-LA IR EMBORA, QUE ELA VAI FICAR MORANDO NUM HOTEL CINCO ESTRELAS?”
“Ela... Ela vai ganhar um lar melhor. Com alguém... melhor” A voz de Tristan sumira com aquelas perguntas.
“ELA VAI SER MORTA! DESMONTADA OU COMO QUER QUE CHAME ISSO, OU ENTÃO VÃO ENFIÁ-LA NUMA PRISÃO PELO RESTO DA VIDA! ELA É FEITA EM LABORATÓRIO, ELES NUNCA VÃO TRATÁ-LA COMO UM SER HUMANO”.
O loiro soltou o rapaz e lhe deu as costas.
“O que estou falando...” Disse em voz normal. “Você também não a trata como gente de verdade”
Tristan agarrou o ombro do outro, e o puxou com força também.
“O que eu faço ou deixo de fazer não te diz respeito!” Exclamou.
A dor explodiu em seu rosto. Sangue jorrou em suas roupas e ele quase desmaiou. Josh sentiu também a dor em seu punho cerrado, mas sabia, desejava, que a dor do outro fosse muito maior. O soco fora certeiro, e com toda a certeza quebrara o nariz do idiota.
O loiro saiu correndo, querendo deixar o máximo de distância entre ele e Tristan.
Eve, Line, Juliet e Paul estavam espalhados de qualquer jeito na sala da garota de cabelos roxos. O filme chegava ao fim, e Eve estava com os olhos brilhando vividamente.
“E aí, ruiva, o que achou?” Perguntou Juliet, desligando o aparelho de DVD.
“Uau” Disse a menina.
Os outros riram. Paul ajeitou a cabeça na almofada que pegara dos sofás, e conferiu o nível de comida.
“Vou pegar mais pipoca” Disse ele, apanhando a tigela grande e vazia.
“Mais brigadeiro!” Exclamou Juliet, pegando a panela ainda morna. “Faz mais brigadeiro?”
O garoto suspirou.
“Vocês vão ficar gordas de comerem tanto chocolate”
Três línguas se estiraram ao mesmo tempo, e ele começou a rir.
“Mas e aí, Eve” Começou Juliet, abraçando uma outra almofada e estendendo as pernas pelo tapete. “Você mora
com o Heels?”
“Sortuda” Resmungou Line. “Ele não é tão gato, mas toca muito bem”.
“Isso mesmo” Concordou a ruiva. “Minha família é amiga da família dele, e por isso estou morando lá”
A cada vez que recontava a mentira, ficava mais fácil. Isso devia ser uma coisa boa.
“E você já...?” Os gestos de Line seriam muito informativos, para qualquer pessoa menos a ruiva.
“Já o quê?” Perguntou ela.
“Oras, não se faça de boba!” Resmungou a amiga. Juliet se interessou imediatamente.
“Vocês nunca... Se beijaram ao menos?”
Eve sorriu.
“Ah, sim. Toda noite”.
As amigas bateram palmas.
“E aí, ele beija bem?” Perguntaram juntas.
Eve ficou realmente confusa.
“Ele nunca me beijou.”
Line e Juliet viraram uma para a outra.
“Como vocês se beijam toda noite e ele nunca te beijou?”
“Antes de dormir eu beijo ele assim” A garota plantou um beijinho na face de Juliet. As garotas reviraram os olhos para ela.
“Estou falando de língua, ruiva, na boca, com cuspe e tudo mais!” Quem visse aquilo dificilmente reconheceria Juliet, aluna-modelo e rata de biblioteca.
“Como assim... Língua?” As imagens mentais que Eve conseguia formar sozinha eram bem nojentas.
“Você nunca beijou um cara na boca?”
“Não”
“E tem 16 anos?”
“Sim”
“E mora com um cara, só vocês dois?”
“Sim”
“Eve, você é lésbica?”
A garota esperou o BrainSys lhe informar o que era aquilo.
“Não. Acho que não”.
Paul se aproximou delas com mais uma panela cheia de brigadeiro e a tigela lotada de pipocas e sal.
“Qual é a boa?” Perguntou, sentando-se no tapete com elas.
“Eve nunca beijou”
“E o quê tem?” O garoto deu de ombros, fazendo pouco caso. “A maior parte das garotas nessa idade não são taradas como vocês duas”.
“Paul é gay” Informou Line para Eve. Mais uma vez foi necessário o auxílio do computador para entender aquilo. A ruiva olhou para o amigo de olhos arregalados.
“Eu não sou gay!” Reclamou o castanho. Então percebeu o olhar de Eve. “Olha o que vocês fizeram, ela acreditou!”
As duas pervertidas começaram a dar risada, se abraçando. Juliet tentou outra agarração com Eve, mas pensou melhor ao lembrar do golpe de antes, deixaria aquilo para quando convencesse a garota que tomar banho juntas era uma espécie de costume obrigatório da cidade grande.
Line voltou para as perguntas.
“E de onde você conhece aquele deus grego?”
“Deus?”
“Josh.”
Paul se transformou totalmente. Seu queixo caiu, suas costas ficaram mais retas e ele quase pulou em cima de Eve.
“Você conhece o Josh? Josh Malber?”
“Eu disse que ele era gay” Resmungou Line, para ganhar um peteleco do garoto.
“Josh é simplesmente... o cara” Disse o castanho. “A maior lenda daquela história. Dizem que ele pegou mais de mil garotas.”
“Uhum, acredito” Resmungou Juliet, escolhendo outro DVD.
“Todo garoto quer ser como o Malber” Paul estava realmente sonhador e agitado. “Você me apresenta pra ele?”
“Claro, tudo bem” E Eve estava completamente espantada de seu amigo ser tão famoso assim. Mesmo que ela não tivesse a mínima idéia do que era “pegar uma garota”, quanto mais mil delas.
“Paul é uma espécie de tarado também, como nós. Juliet é uma espécie de CDF lésbica, não fique muito perto dela, e eu...” Line sorriu largamente. “E você, Eve?”
A garota pareceu mais uma vez completamente perdida.
“Ela fica tão fofa assim, toda inocentezinha” Miou a oriental, se aproximando da ruiva. Ela pulou sobre a garota e tentou agarrá-la novamente. “Casa comigo, Eve!”
O segundo golpe do dia atingiu seu pescoço, e novamente ela caiu no chão gemendo e segurando seu novo hematoma. Eve correu para ela, pedindo desculpas sem parar.
Paul e Line começaram a rir, e decidiram que aquela ruiva era o máximo.
Robert foi expulso de cima de Riza pela garota. Ela ajeitou a própria blusa e pareceu muito corada, esquecendo até de arrumar os óculos que estavam tortos no rosto. O rapaz tentou voltar a colocar as mãos nela, mas a morena o impediu.
Estavam no quarto dela, era a segunda vez que ele vinha visitá-la em casa. Na verdade, recapitulando, ela nem lembrava como haviam chegado em sua cama, sua última lembrança era um beijo arrasador que ele lhe dera logo na entrada. Realmente, ela não admitiria isso nunca, mas um cara “mãozinha” era o verdadeiro paraíso.
“Para, Robert” Disse ela, quando ele tentou voltar à carga. “É sério, eu quero conversar com você”.
“Não podemos fazer isso depois?”
Realmente, as idéias na mente dela estavam deliciosamente afogadas num mar de sensações e arrepios, mas ela queria conversar, clarear um pouco a cabeça antes de perder completamente o controle e não ser mais responsável por seus próprios atos.
“Não. Agora”
Ele suspirou e se afastou dela um pouco, mas não muito.
“Certo, o quê você quer conversar?”
“Eu quero saber sobre você” Disse ela.
“Ah, essa história de novo não...”
Riza o cortou.
“Essa história sim! Eu só sei o seu nome, e que você faz faculdade de engenharia. Quem são seus pais? Onde você mora? Onde você nasceu? Eu já te trouxe até pro meu quarto e nem sei se você é dessa cidade!”
Ele tentou se desvencilhar das perguntas mais um pouco, mas ela conseguiu encostá-lo contra a parede. E afinal ela então o ameaçou com uma greve total de toques e beijos, e ele teve que contar alguma coisa.
“Eu nasci aqui, vivi aqui e moro aqui” Resmungou, contrafeito. “Meus pais moram em outro país, desde que fiz dezoito. Eles me mandam uma grana todo mês, não preciso trabalhar para pagar a faculdade. Satisfeita?”
“E onde você mora?”
Ele suspirou e lhe deu o endereço.
“É quase do lado da casa do Tristan!” Surpreendeu-se ela, pensando alto.
Robert estreitou os olhos.
“Quem é esse Tristan?”
“Meu melhor amigo. Eu quero que você conheça todos eles, o Tristan, o Jozua, a Eve... Não, a Eve não. Você vai ficar babando por ela até eu morrer de ciúmes...”
Robert mordeu de leve o biquinho que ela fazia.
“Não tem garota melhor que você nesse mundo, gatinha”
Riza sentiu todas aquelas emoções atravessarem seu corpo novamente. Aquilo era perigoso, ela com toda certeza acabaria uma tarada como Jozua.
“Você está falando isso só pra me agradar” Disse ela, bem próxima da boca dele.
“Quer que eu te prove?” E com isso a mente de Riza desligou, e ela se viu novamente nos braços dele.
Arty teclou furiosamente, e então afastou-se da tela, indo buscar sua caneca de café. Os olhos doíam de cansaço, e ele realmente precisava dormir um pouco, mas antes teria que terminar aquilo. Sua maior invasão. Ninguém jamais fora tão longe, e ele seria o primeiro a botar as mãos naqueles dados. Ficaria podre de rico da noite pro dia, e poderia viver em paz, em algum lugar com um estoque de Doritos vitalício.
O alarme falhou. Nada soou alto, indicando que suas proteções foram quebradas. Num instante, seu código inacabado corria nas telas, no outro, o brasão do governo enchia cada monitor de plasma, cada telinha de LCD que houvesse. Cuspiu o café que trazia na boca, e seu corpo imenso tentou correr até o teclado mais próximo.
Um rosto surgiu em todas as telas. Um rosto que Arty conhecia, temia e odiava. Aquele que o trancara debaixo da terra por tantos anos, o único que podia arrancá-lo dali num piscar de olhos e transformar sua vida novamente em um inferno sem fim.
“Codinome Arty” Disse a voz, trovejando nos alto-falantes e subwoofers espalhados pelo covil. “Como tem passado?”
“Mallick” Disse Arty, à guisa de resposta.
“Parece que tem andando ocupado. Bancos de dados internacionais, governos fortes, realmente adora adrenalina, não?”
Arty ficou em silêncio. Mallick se aproximou mais ainda da tela, enchendo-a totalmente com seu rosto enrugado e severo.
“Você sabe por que o deixamos escapar, Codinome Arty?”
O homem assentiu, apertando os lábios.
“Pois é a hora de começar. Os relatórios que você me enviou sobre... Esta garota-robô...”
“Ser humano sintético” Corrigiu Arty. Então se arrependeu imediatamente.
“Ser humano sintético... Realmente muito interessante. O governo tem um alto interesse em colocar as mãos nessa... tecnologia.”
“Vocês não vão por as mãos na Eve!” Rugiu Arty, socando a mesa.
Os olhos de Mallick se estreitaram.
“Claro que não. Na verdade, eu acredito que vocês vão entregá-la pessoalmente para nós...”
O coração do hacker parecia ter parado no meio de uma batida. Sua boca secou, e a garganta ficou apertada.
“Vocês sabotaram meu rastreamento” Sua voz saiu muito fraca.
“Um serviço muito bom o seu, realmente, foi difícil de interferir nele. Meus parabéns, codinome Arty”
“VOCÊS ME FIZERAM DAR O ENDEREÇO ERRADO PARA TRISTAN! VOCÊS VÃO MATÁ-LA!”
“Matar?” Disse o homem da tela, como se fosse algo horrível para se dizer. “Mas é claro que não. Nós iremos apenas... dissecá-la. Consultamos até os manuais de leis, é totalmente legal. Ela não é um ser humano, não é um animal... Totalmente isenta de punições legais. E de impostos, diga-se de passagem, uma gentileza realmente admirável”
Arty derrubou a tela, mas os outros monitores ainda exibiam a expressão cínica de Mallick.
“Não me diga que você se... apegou à amostra? Seria hilário se um monstro como você pudesse realmente acabar amaciado por essa... criatura.”
“VOCÊS NÃO VÃO TOCAR EM UM FIO DE CABELO DE EVE!”
Mallick sorriu em puro escárnio.
“E como você vai impedir o governo... Se você está trancado aí dentro?”
Todas as luzes se apagaram. Os computadores e servidores morreram imediatamente. Os telefones ficaram mudos, e os celulares pararam de funcionar. A porta de trinta centímetros de espessura que Arty mandara instalar para impedir a entrada de inimigos agora estava completamente lacrada, e ele estava preso dentro de seu próprio esconderijo.
Foi até um armário escondido e pegou uma caixa lacrada. Rasgando o papelão em sua pressa, tirou um notebook novo em folha de lá. Apertou o botão de ligar, mas a tela continuou completamente vazia. Gritou, jogando o computador no chão.
Desabou em sua cadeira, e bateu a cabeça contra a parede. Ele era um idiota convencido, como não checara o endereço antes. E agora... Eve estava perdida, assim que Tristan a entregasse.
George checou as últimas entradas em seu prontuário, e então abriu a pasta especial que ele viera escondendo nos últimos dias. Na primeira página uma foto da ruiva, sorrindo vivamente. Ele passou os dedos pelo rosto da garota, e então seus olhos bateram no fundo da imagem, ele nunca reparara que Riza estava escondida lá atrás da garota.
“Ouvi dizer que você está namorando” Murmurou ele, olhando para a garota. “Espero que encontre um bom rapaz, Rizzie”.
Ele olhou de volta para Eve, para dentro dos olhos verdes dela, tão límpidos e inocentes.
“Você também vai arranjar um cara, ruivinha?” Agarrou seu copo de uísque e sorveu o primeiro gole. A garrafa já estava quase vazia.
Ele tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu o primeiro.
Eve estava sorrindo quando abriu a porta com sua chave. Fora um dia incrível, mesmo que ligeiramente bizarro, e ela realmente gostava de fazer novas amizades. Da próxima vez, pediria a Tristan se podia trazer os amigos ali também, Paul com certeza adoraria conhecer Josh pessoalmente.
A casa estava completamente escura, mas era cedo para Tristan já estar dormindo. Ela deixou sua bolsa na sala, e subiu as escadas. O quarto do garoto estava com a luz apagada, mas um abajur jogava uma luz suave no aposento.
Tristan estava sentado em sua própria cama, a cabeça baixa. Parecia estar com um pano sobre o rosto. Ela se aproximou, e entrou no quarto, batendo de leve na porta aberta.
O rapaz estremeceu, e então levantou a cabeça. O pano encharcado de sangue caiu, e Eve se horrorizou ao ver o estado de seu nariz quebrado.
“Tristan! O que aconteceu?” Ela correu até ele, mas ele a impediu de se aproximar. Apontou para a cadeira que estava defronte a ele, e a ruiva se sentou, assustada.
O cartão pequeno estava apertado na mão direita dele. Ele olhou para seus olhos, e algo nos olhos dele trazia pavor a ela. Seu coração se apertou imediatamente, e toda a felicidade fugiu dela. Tristan olhava direto para ela, e sua expressão era séria, ignorando até mesmo a dor em seu nariz quebrado.
“Eve, nós precisamos conversar”
Capítulo 17
Os amigos. A briga. O passo.
Eve estava completamente concentrada em sua mais nova obra. Seus olhos se apertaram, enquanto ela respirava calmamente. Uma única respiração mais funda ou fora de compasso poderia destruir completamente todo o trabalho dos últimos cinco minutos. A ruiva apertava a ponta da língua entre os dentes, e então estava pronto. Afastou-se de sua obra-prima e sorriu largamente.
Line deu um peteleco em seu castelo de cartas e derrubou tudo o que a amiga construíra com tanto esforço. Eve sentiu seu coração se quebrar ao ver seu Palace II ser derrubado com tanto desdém.
“Isso é pra jogar, cabeça de fósforo, e não pra fazer castelinhos como no jardim-de-infância!” Resmungou a garota, recolhendo as cartas e as embaralhando num gesto fluído que deixou Eve espantada.
“E como se joga isso?”
A garota de cabelos roxos suspirou.
“Acho que não ensinam pôquer na roça, não é?” Perguntou ela em tom cortante.
“Deixa ela, Line, não seja uma vaca irritada” Resmungou Juliet.
Ah, Juliet. Era uma espécie de troféu da escola. Seis anos seguidos em primeiro lugar nas provas semestrais. A garota disputada a tapa nos grupos extra-escolares, a aluna perfeita, aquela que os professores sabiam que só agüentavam os maçantes dias de aula porque assim poderiam vê-la.
Ela tinha olhos puxados, e o rosto em forma de coração, sorrindo sempre de um jeito muito fofo, e a pele branquíssima parecia jamais ter visto o sol. Ela era horrível em esportes, e mais de uma vez acabara derrubando os membros do próprio time enquanto fugia da bola, fora que parecia ter algum tipo de calculadora no cérebro e um imã que a guiava sempre para a biblioteca. Usava óculos pequenos, assim como Riza, e tinha um senso de humor no mínimo... diferente.
“Cale a boca, Julian” Cortou a outra. “E explique o jogo para Eve”.
A oriental sorriu delicadamente para a garota, e então ajeitou os cabelos curtos e castanhos.
“Venha cá, Eve, vou te mostrar” Talvez se a ruiva fosse um pouco mais experiente, entenderia o olhar da outra.
Com um gesto rápido, a garota pulou sobre Eve e encheu suas mãos com os grandes seios das menina.
“Peguei, peguei!” Gritou ela, sorrindo muito. Eve se assustou, e sua mão avançou mais rápido do que os pensamentos, e acertou a outra no pescoço, sendo solta imediatamente.
“Ai, ai” Gemeu Juliet, esfregando o pescoço machucado. “Você quebrou meu pescoço!”
Eve correu para ajudar a garota, extremamente arrependida. Era uma idiota, cancelaria as aulas de karatê e nunca mais sequer pensaria no assunto, até que esquecesse completamente tudo que sabia sobre luta.
“Juliet? Você está bem?” Perguntou Lin, se juntando à ruiva. Então piscou para a amiga que quase chorava. “Belo golpe, novata. Andou assistindo Karatê Kid nesse fim de semana?”
“O que é... Karatê Kid?”
Juliet e Lin voltaram-se para ela, de boca aberta. A oriental já se esquecera completamente do golpe, provando que sua reação nada mais era que puro exagero.
“Você nunca assistiu Karatê Kid?” Perguntaram. “Em que mundo você vive?”
Eve deu de ombros, ligeiramente desconcertada. Parecia que Karatê Kid era uma coisa realmente importante, precisaria perguntar a Tristan sobre isso.
“Titanic?” Perguntou Lin. “A Fantástica Fábrica de Chocolate? Alice no País das Maravilhas? Star Wars?”
Eve negou com a cabeça a cada título citado. As garotas pareceram ainda mais impressionadas.
“Não existia vida inteligente na sua cidade natal?” Perguntou Juliet,boquiaberta. “Você nunca comeu salgadinhos de cebola com cheiro de chulé, ou BigMacs altamente calóricos, ou Coca-Cola?”
“Salgadinhos não. O resto sim” Eve sorriu. Tristan lhe levara uma vez para o McDonnald’s. Ela ficara encantada com o sistema de pedidos e a linha de produção da cozinha, mesmo que Riza tenha dito que aqueles lanches matavam mais gente que acidentes de trânsito e Josh tenha derrubado o pacote de batatas fritas em cima da morena.
“Ceeerto” Disse Lin. “Bizarro, muito bizarro.”
O sorriso dela repentinamente se abriu, e seu olhar estava realmente brilhante.
“Já sei! Isso pede uma seção cultural!”
Juliet se incendiou na mesma hora.
“Isso aí! Eu vou pegar uns filmes da minha coleção particular...”
“Não, você não vai” Cortou uma vez, chegando por trás das garotas. Lin sorriu largamente.
“Paul, venha cá, precisamos de ajuda!”
O rapaz era da mesma altura de Eve, e usava o uniforme impecável. Debaixo do braço, o estojo de um clarinete despontava, e ele parecia tão bem asseado, com seus cabelos castanhos cortados e penteados que Lin fez uma careta imediatamente.
“Você está... esquisito, Paul” Informou ela, inteligentemente. O rapaz sorriu largamente.
“Vindo de você, então estou bonito” O sorriso dele era realmente bonito, e sua voz mansa e gentil lhe davam um aspecto amável e seguro. Parecia algum tipo de aspirante a galã, talvez um pouco certinho demais.
A de cabelos roxos começou a contar do “problema” de Eve, e Paul reagiu ajuntando-se na idéia. Lin rasgou uma folha de seu caderno e escreveu um endereço.
“Fica perto da escola” Disse a garota, entregando o papel para Eve. “Às duas horas. A gente providencia tudo. Certo, combinado!”
O sinal do fim do almoço tocou, e eles se levantaram. Ainda meio confusa com a rapidez de decisão de Lin, a ruiva as seguiu de volta para a classe onde teriam Geografia.
Tristan mordeu a ponta do cartão, nervoso sem nenhum motivo aparente. Abriu o e-mail e o leu longamente. Depois da terceira leitura seguida, finalmente suspirou e enviou o arquivo para a impressora. Um cansaço enorme se espalhava por ele, e tudo o que queria era simplesmente cair na cama e dormir por longos anos. Eve saíra há pouco, dizendo ir na casa de algumas amigas, e ele ficou, repentinamente arrependido de sua horrível decisão.
Deixou a cabeça cair, e a testa pousou sobre a mesa. A porta de seu quarto se abriu, e Josh localizou rapidamente o amigo.
“Você fez, não é?” A voz do loiro estava estranha, como se ele estivesse rouco.
“Vão buscá-la em três dias”.
“Você é um verme, Tristan”
Será que o maldito não podia deixá-lo em paz? Uma terrível dor de cabeça já se formava no rapaz de cabelos castanhos.
“Cala a boca, Josh”
Uma mão o girou, arrancando-o da cadeira e jogando o rapaz no chão.
“NÃO! CALA A BOCA VOCÊ!” Os gritos de Josh assustaram o amigo, já que o loiro jamais levantava a voz pra falar com alguém, nem nas piores brigas. “VOCÊ ESTÁ MANDANDO A EVE EMBORA, SEU IMBECIL!”
“ELA PRECISA IR EMBORA!” Gritou de volta.
“POR QUÊ? POR QUE A EVE PRECISA IR? VOCÊ SÓ QUER SE LIVRAR DELA PORQUE É UM IDIOTA!”
Os dois arfavam, as gargantas doíam de seus gritos. Tristan se levantou e encarou o amigo.
“VOCÊ NÃO ENTENDE NADA!”
Josh agarrou a gola de Tristan.
“VOCÊ ACHA QUE ELES VÃO FAZER O QUÊ COM ELA SE VOCÊ DEVOLVER A EVE? QUE ELES VÃO DEIXÁ-LA IR EMBORA, QUE ELA VAI FICAR MORANDO NUM HOTEL CINCO ESTRELAS?”
“Ela... Ela vai ganhar um lar melhor. Com alguém... melhor” A voz de Tristan sumira com aquelas perguntas.
“ELA VAI SER MORTA! DESMONTADA OU COMO QUER QUE CHAME ISSO, OU ENTÃO VÃO ENFIÁ-LA NUMA PRISÃO PELO RESTO DA VIDA! ELA É FEITA EM LABORATÓRIO, ELES NUNCA VÃO TRATÁ-LA COMO UM SER HUMANO”.
O loiro soltou o rapaz e lhe deu as costas.
“O que estou falando...” Disse em voz normal. “Você também não a trata como gente de verdade”
Tristan agarrou o ombro do outro, e o puxou com força também.
“O que eu faço ou deixo de fazer não te diz respeito!” Exclamou.
A dor explodiu em seu rosto. Sangue jorrou em suas roupas e ele quase desmaiou. Josh sentiu também a dor em seu punho cerrado, mas sabia, desejava, que a dor do outro fosse muito maior. O soco fora certeiro, e com toda a certeza quebrara o nariz do idiota.
O loiro saiu correndo, querendo deixar o máximo de distância entre ele e Tristan.
Eve, Line, Juliet e Paul estavam espalhados de qualquer jeito na sala da garota de cabelos roxos. O filme chegava ao fim, e Eve estava com os olhos brilhando vividamente.
“E aí, ruiva, o que achou?” Perguntou Juliet, desligando o aparelho de DVD.
“Uau” Disse a menina.
Os outros riram. Paul ajeitou a cabeça na almofada que pegara dos sofás, e conferiu o nível de comida.
“Vou pegar mais pipoca” Disse ele, apanhando a tigela grande e vazia.
“Mais brigadeiro!” Exclamou Juliet, pegando a panela ainda morna. “Faz mais brigadeiro?”
O garoto suspirou.
“Vocês vão ficar gordas de comerem tanto chocolate”
Três línguas se estiraram ao mesmo tempo, e ele começou a rir.
“Mas e aí, Eve” Começou Juliet, abraçando uma outra almofada e estendendo as pernas pelo tapete. “Você mora
com o Heels?”
“Sortuda” Resmungou Line. “Ele não é tão gato, mas toca muito bem”.
“Isso mesmo” Concordou a ruiva. “Minha família é amiga da família dele, e por isso estou morando lá”
A cada vez que recontava a mentira, ficava mais fácil. Isso devia ser uma coisa boa.
“E você já...?” Os gestos de Line seriam muito informativos, para qualquer pessoa menos a ruiva.
“Já o quê?” Perguntou ela.
“Oras, não se faça de boba!” Resmungou a amiga. Juliet se interessou imediatamente.
“Vocês nunca... Se beijaram ao menos?”
Eve sorriu.
“Ah, sim. Toda noite”.
As amigas bateram palmas.
“E aí, ele beija bem?” Perguntaram juntas.
Eve ficou realmente confusa.
“Ele nunca me beijou.”
Line e Juliet viraram uma para a outra.
“Como vocês se beijam toda noite e ele nunca te beijou?”
“Antes de dormir eu beijo ele assim” A garota plantou um beijinho na face de Juliet. As garotas reviraram os olhos para ela.
“Estou falando de língua, ruiva, na boca, com cuspe e tudo mais!” Quem visse aquilo dificilmente reconheceria Juliet, aluna-modelo e rata de biblioteca.
“Como assim... Língua?” As imagens mentais que Eve conseguia formar sozinha eram bem nojentas.
“Você nunca beijou um cara na boca?”
“Não”
“E tem 16 anos?”
“Sim”
“E mora com um cara, só vocês dois?”
“Sim”
“Eve, você é lésbica?”
A garota esperou o BrainSys lhe informar o que era aquilo.
“Não. Acho que não”.
Paul se aproximou delas com mais uma panela cheia de brigadeiro e a tigela lotada de pipocas e sal.
“Qual é a boa?” Perguntou, sentando-se no tapete com elas.
“Eve nunca beijou”
“E o quê tem?” O garoto deu de ombros, fazendo pouco caso. “A maior parte das garotas nessa idade não são taradas como vocês duas”.
“Paul é gay” Informou Line para Eve. Mais uma vez foi necessário o auxílio do computador para entender aquilo. A ruiva olhou para o amigo de olhos arregalados.
“Eu não sou gay!” Reclamou o castanho. Então percebeu o olhar de Eve. “Olha o que vocês fizeram, ela acreditou!”
As duas pervertidas começaram a dar risada, se abraçando. Juliet tentou outra agarração com Eve, mas pensou melhor ao lembrar do golpe de antes, deixaria aquilo para quando convencesse a garota que tomar banho juntas era uma espécie de costume obrigatório da cidade grande.
Line voltou para as perguntas.
“E de onde você conhece aquele deus grego?”
“Deus?”
“Josh.”
Paul se transformou totalmente. Seu queixo caiu, suas costas ficaram mais retas e ele quase pulou em cima de Eve.
“Você conhece o Josh? Josh Malber?”
“Eu disse que ele era gay” Resmungou Line, para ganhar um peteleco do garoto.
“Josh é simplesmente... o cara” Disse o castanho. “A maior lenda daquela história. Dizem que ele pegou mais de mil garotas.”
“Uhum, acredito” Resmungou Juliet, escolhendo outro DVD.
“Todo garoto quer ser como o Malber” Paul estava realmente sonhador e agitado. “Você me apresenta pra ele?”
“Claro, tudo bem” E Eve estava completamente espantada de seu amigo ser tão famoso assim. Mesmo que ela não tivesse a mínima idéia do que era “pegar uma garota”, quanto mais mil delas.
“Paul é uma espécie de tarado também, como nós. Juliet é uma espécie de CDF lésbica, não fique muito perto dela, e eu...” Line sorriu largamente. “E você, Eve?”
A garota pareceu mais uma vez completamente perdida.
“Ela fica tão fofa assim, toda inocentezinha” Miou a oriental, se aproximando da ruiva. Ela pulou sobre a garota e tentou agarrá-la novamente. “Casa comigo, Eve!”
O segundo golpe do dia atingiu seu pescoço, e novamente ela caiu no chão gemendo e segurando seu novo hematoma. Eve correu para ela, pedindo desculpas sem parar.
Paul e Line começaram a rir, e decidiram que aquela ruiva era o máximo.
Robert foi expulso de cima de Riza pela garota. Ela ajeitou a própria blusa e pareceu muito corada, esquecendo até de arrumar os óculos que estavam tortos no rosto. O rapaz tentou voltar a colocar as mãos nela, mas a morena o impediu.
Estavam no quarto dela, era a segunda vez que ele vinha visitá-la em casa. Na verdade, recapitulando, ela nem lembrava como haviam chegado em sua cama, sua última lembrança era um beijo arrasador que ele lhe dera logo na entrada. Realmente, ela não admitiria isso nunca, mas um cara “mãozinha” era o verdadeiro paraíso.
“Para, Robert” Disse ela, quando ele tentou voltar à carga. “É sério, eu quero conversar com você”.
“Não podemos fazer isso depois?”
Realmente, as idéias na mente dela estavam deliciosamente afogadas num mar de sensações e arrepios, mas ela queria conversar, clarear um pouco a cabeça antes de perder completamente o controle e não ser mais responsável por seus próprios atos.
“Não. Agora”
Ele suspirou e se afastou dela um pouco, mas não muito.
“Certo, o quê você quer conversar?”
“Eu quero saber sobre você” Disse ela.
“Ah, essa história de novo não...”
Riza o cortou.
“Essa história sim! Eu só sei o seu nome, e que você faz faculdade de engenharia. Quem são seus pais? Onde você mora? Onde você nasceu? Eu já te trouxe até pro meu quarto e nem sei se você é dessa cidade!”
Ele tentou se desvencilhar das perguntas mais um pouco, mas ela conseguiu encostá-lo contra a parede. E afinal ela então o ameaçou com uma greve total de toques e beijos, e ele teve que contar alguma coisa.
“Eu nasci aqui, vivi aqui e moro aqui” Resmungou, contrafeito. “Meus pais moram em outro país, desde que fiz dezoito. Eles me mandam uma grana todo mês, não preciso trabalhar para pagar a faculdade. Satisfeita?”
“E onde você mora?”
Ele suspirou e lhe deu o endereço.
“É quase do lado da casa do Tristan!” Surpreendeu-se ela, pensando alto.
Robert estreitou os olhos.
“Quem é esse Tristan?”
“Meu melhor amigo. Eu quero que você conheça todos eles, o Tristan, o Jozua, a Eve... Não, a Eve não. Você vai ficar babando por ela até eu morrer de ciúmes...”
Robert mordeu de leve o biquinho que ela fazia.
“Não tem garota melhor que você nesse mundo, gatinha”
Riza sentiu todas aquelas emoções atravessarem seu corpo novamente. Aquilo era perigoso, ela com toda certeza acabaria uma tarada como Jozua.
“Você está falando isso só pra me agradar” Disse ela, bem próxima da boca dele.
“Quer que eu te prove?” E com isso a mente de Riza desligou, e ela se viu novamente nos braços dele.
Arty teclou furiosamente, e então afastou-se da tela, indo buscar sua caneca de café. Os olhos doíam de cansaço, e ele realmente precisava dormir um pouco, mas antes teria que terminar aquilo. Sua maior invasão. Ninguém jamais fora tão longe, e ele seria o primeiro a botar as mãos naqueles dados. Ficaria podre de rico da noite pro dia, e poderia viver em paz, em algum lugar com um estoque de Doritos vitalício.
O alarme falhou. Nada soou alto, indicando que suas proteções foram quebradas. Num instante, seu código inacabado corria nas telas, no outro, o brasão do governo enchia cada monitor de plasma, cada telinha de LCD que houvesse. Cuspiu o café que trazia na boca, e seu corpo imenso tentou correr até o teclado mais próximo.
Um rosto surgiu em todas as telas. Um rosto que Arty conhecia, temia e odiava. Aquele que o trancara debaixo da terra por tantos anos, o único que podia arrancá-lo dali num piscar de olhos e transformar sua vida novamente em um inferno sem fim.
“Codinome Arty” Disse a voz, trovejando nos alto-falantes e subwoofers espalhados pelo covil. “Como tem passado?”
“Mallick” Disse Arty, à guisa de resposta.
“Parece que tem andando ocupado. Bancos de dados internacionais, governos fortes, realmente adora adrenalina, não?”
Arty ficou em silêncio. Mallick se aproximou mais ainda da tela, enchendo-a totalmente com seu rosto enrugado e severo.
“Você sabe por que o deixamos escapar, Codinome Arty?”
O homem assentiu, apertando os lábios.
“Pois é a hora de começar. Os relatórios que você me enviou sobre... Esta garota-robô...”
“Ser humano sintético” Corrigiu Arty. Então se arrependeu imediatamente.
“Ser humano sintético... Realmente muito interessante. O governo tem um alto interesse em colocar as mãos nessa... tecnologia.”
“Vocês não vão por as mãos na Eve!” Rugiu Arty, socando a mesa.
Os olhos de Mallick se estreitaram.
“Claro que não. Na verdade, eu acredito que vocês vão entregá-la pessoalmente para nós...”
O coração do hacker parecia ter parado no meio de uma batida. Sua boca secou, e a garganta ficou apertada.
“Vocês sabotaram meu rastreamento” Sua voz saiu muito fraca.
“Um serviço muito bom o seu, realmente, foi difícil de interferir nele. Meus parabéns, codinome Arty”
“VOCÊS ME FIZERAM DAR O ENDEREÇO ERRADO PARA TRISTAN! VOCÊS VÃO MATÁ-LA!”
“Matar?” Disse o homem da tela, como se fosse algo horrível para se dizer. “Mas é claro que não. Nós iremos apenas... dissecá-la. Consultamos até os manuais de leis, é totalmente legal. Ela não é um ser humano, não é um animal... Totalmente isenta de punições legais. E de impostos, diga-se de passagem, uma gentileza realmente admirável”
Arty derrubou a tela, mas os outros monitores ainda exibiam a expressão cínica de Mallick.
“Não me diga que você se... apegou à amostra? Seria hilário se um monstro como você pudesse realmente acabar amaciado por essa... criatura.”
“VOCÊS NÃO VÃO TOCAR EM UM FIO DE CABELO DE EVE!”
Mallick sorriu em puro escárnio.
“E como você vai impedir o governo... Se você está trancado aí dentro?”
Todas as luzes se apagaram. Os computadores e servidores morreram imediatamente. Os telefones ficaram mudos, e os celulares pararam de funcionar. A porta de trinta centímetros de espessura que Arty mandara instalar para impedir a entrada de inimigos agora estava completamente lacrada, e ele estava preso dentro de seu próprio esconderijo.
Foi até um armário escondido e pegou uma caixa lacrada. Rasgando o papelão em sua pressa, tirou um notebook novo em folha de lá. Apertou o botão de ligar, mas a tela continuou completamente vazia. Gritou, jogando o computador no chão.
Desabou em sua cadeira, e bateu a cabeça contra a parede. Ele era um idiota convencido, como não checara o endereço antes. E agora... Eve estava perdida, assim que Tristan a entregasse.
George checou as últimas entradas em seu prontuário, e então abriu a pasta especial que ele viera escondendo nos últimos dias. Na primeira página uma foto da ruiva, sorrindo vivamente. Ele passou os dedos pelo rosto da garota, e então seus olhos bateram no fundo da imagem, ele nunca reparara que Riza estava escondida lá atrás da garota.
“Ouvi dizer que você está namorando” Murmurou ele, olhando para a garota. “Espero que encontre um bom rapaz, Rizzie”.
Ele olhou de volta para Eve, para dentro dos olhos verdes dela, tão límpidos e inocentes.
“Você também vai arranjar um cara, ruivinha?” Agarrou seu copo de uísque e sorveu o primeiro gole. A garrafa já estava quase vazia.
Ele tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu o primeiro.
Eve estava sorrindo quando abriu a porta com sua chave. Fora um dia incrível, mesmo que ligeiramente bizarro, e ela realmente gostava de fazer novas amizades. Da próxima vez, pediria a Tristan se podia trazer os amigos ali também, Paul com certeza adoraria conhecer Josh pessoalmente.
A casa estava completamente escura, mas era cedo para Tristan já estar dormindo. Ela deixou sua bolsa na sala, e subiu as escadas. O quarto do garoto estava com a luz apagada, mas um abajur jogava uma luz suave no aposento.
Tristan estava sentado em sua própria cama, a cabeça baixa. Parecia estar com um pano sobre o rosto. Ela se aproximou, e entrou no quarto, batendo de leve na porta aberta.
O rapaz estremeceu, e então levantou a cabeça. O pano encharcado de sangue caiu, e Eve se horrorizou ao ver o estado de seu nariz quebrado.
“Tristan! O que aconteceu?” Ela correu até ele, mas ele a impediu de se aproximar. Apontou para a cadeira que estava defronte a ele, e a ruiva se sentou, assustada.
O cartão pequeno estava apertado na mão direita dele. Ele olhou para seus olhos, e algo nos olhos dele trazia pavor a ela. Seu coração se apertou imediatamente, e toda a felicidade fugiu dela. Tristan olhava direto para ela, e sua expressão era séria, ignorando até mesmo a dor em seu nariz quebrado.
“Eve, nós precisamos conversar”

Nenhum comentário:
Postar um comentário