Birthday Eve
Capítulo 7
As perguntas. A Área Secreta. O Brainsys.
Riza tomou a dianteira da conversa, despejando o conteúdo da pasta sobre a mesa. Remexeu um pouco na papelada e mostrou uma foto impressa a laser, um furgão negro surgindo numa rua.
"Os entregadores de Eve" Explicou ela. "Arty chegou na empresa, mas foi hackeado de volta".
Josh torceu o rosto inteiro.
"Eu não acredito que você se encontrou de novo com aquele nojento" Resmungou. "Você tem estômago, Riz"
Ela deu de ombros.
"Se nem Arty conseguiu invadir a empresa..." Tristan começou, sentindo um arrepio.
"Parece que eles já estavam preparados. E nós deveríamos estar também, quem conseguiu criar uma adolescente sob medida deve ter, no mínimo, tecnologia incrivelmente melhor que a nossa. E uma segurança boa também".
Tristan esfregou as têmporas. Assim ficava difícil arranjar um meio de devolver a ruiva para a "loja".
"Isso aqui foi tudo que ele conseguiu" Continuou a morena, mostrando um papel.
Uma única palava percorria a folha.
"O quê é 'Hon'?" Perguntou Josh. "Honda?"
"Estamos trabalhando nisso, mas preciso de ajuda para descobrir" Suspirou a garota. "Nem sabemos se é uma palavra real ou parte de uma palavra. Talvez não tenha importância alguma"
Ela mostrou algumas idéias que tivera, e o número de IP da empresa, fornecido por Arty. Então decidiu passar para o próximo tópico.
"Algum de vocês já percebeu como, às vezes, Eve parece aprender coisas do nada?"
"Eu já" Disse Tristan. "Desde o começo. Ela não sabia usar garfo e faca, mas então ela sorriu e começou a usá-los. O mesmo para roupas, computador, telefone..."
"Eu perguntei para ela sobre isso" Assentiu Riza. "Segundo ela, as informações simplesmente surgem em sua cabeça, como se houvesse um banco de dados em seu cérebro".
Josh arregalou os olhos.
"Isso quer dizer... Que Eve é um robô?" Ele perguntou. Os outros pareceram chocados.
A porta se abriu de repente, e Eve entrou, os cabelos ruivos dançando às suas costas. Seus lindos olhos verdes pareciam assustados, e ela se aproximou corada e segurando a barriga com uma das mãos. Murmurou algo no ouvido de Riza e as duas saíram rapidamente, fechando a porta."
Dez minutos insuportáveis se passaram até a morena voltar, desacompanhada.
"Não, ela é humana" Respondeu a garota. "E é uma garota, tenho certeza absoluta".
Começou a recolher seus papéis e voltá-los na pasta.
"Como você sabe?" Perguntaram os dois, juntos.
A garota revirou os olhos. Será que, por Cristo, eram tão inocentes assim? Suspirou alto.
"Eve está menstruada".
A ruiva estava sentada em sua cama, no quarto de hóspedes. Sentia um certo incômodo, vindo de dentro, algo meio difícil de se explicar. Na verdade, lembrando de sua primeira experiência com o fato, logo que acordara, era algo meio nojento também. Estremeceu de leve.
Tristan estava meio num canto, corado e deslocado. Em toda sua vida jamais estivera tão perto do universo feminino, e a maior parte das experiências estava sendo meio chocante.
"Eve, você diz ter uma base de dados em seu cérebro, certo?"
"...Sim, eu acho..." Respondeu a menina.
"Certo" Disse Riza, pensando um pouco.
"Eve, você tem pais?"
Os olhos da garota perderam levemente o foco.
"Não, eu fui criada em laboratório" Respondeu, a voz soando mecânica. Josh arregalou os olhos.
"Ela respondeu do mesmo jeito quando eu perguntei" Disse Tristan, baixinho, lá do seu canto.
"Qual laboratório?"
"Não sei" Disse ela, voltando ao normal.
"Eve, qual seu software?"
A pergunta era tão sem pé nem cabeça que Tristan achou que a amiga estava brincando.
"Não tenho"
"Qual o seu Firmware?"
"Não tenho"
Então subitamente Tristan compreendeu. Ninguém pode ter uma base de dados no cérebro, na verdade o quê havia era algum tipo de dispositivo ligado na garota. Se eles descobrissem, talvez pudessem encontrar pistas sobre sua origem.
"Qual o seu modelo?"
"Não sei"
"Qual seu fabricante?"
"Não sei"
Josh ajudou.
"Qual sua marca?"
"Não sei"
Por vários minutos as perguntas continuaram, abordando a questão dos mais diferentes modos, e sempre a garota respondia com um "Não sei" meio desanimado. Os amigos logo caíram em silêncio.
Tristan se ajeitou na cadeira.
"Qual seu Sistema Operacional?" Perguntou.
Os olhos de Eve perderam o foco no mesmo instante. Sua voz soou ainda mais mecânica, sem traço algum de sua doçura ou personalidade.
"BRAINSYS 256"
Riza pulou da cadeira, enquanto Josh deixava o queixo cair. Tristan suspirou fundo.
"Brainsys?" Perguntou o loiro. "Que diabos é isso?"
"Brainsys" Repetiu Tristan. "Acredito que seja 'Brain System', 'Sistema do Cérebro', algo assim"
Riza concordou, ainda estupefata.
"Eve, o quê é o Brainsys?"
A garota ficou em silêncio.
"O quê é o Sistema Brainsys 256?" Perguntou Tristan, mais acostumado com computadores e suas exigências de perguntas e instruções meticulosas.
"SISTEMA DE BANCO DE DADOS E INFORMAÇÕES BRAINSYS 256, VERSÃO 1.0" Disse a garota, pausadamente e da mesma forma que antes.
Então ela se calou e ficou parada por um instante, tremendo de leve. Nem ela acreditava no quê sua boca acabara de falar.
"Eu sou um robô?" Perguntou.
Josh deu um sorriso, sua teoria novamente em voga.
"Não, Eve" Garantiu Riza. "Se você fosse, não acredito que você estaria... Incomodada"
A garota corou, colocando novamente a mão sobre a barriga.
"Qual o levedo utilizado na fabricação de pães e cerveja?" Disparou Riza. Tristan elevou as sobrancelhas.
"Saccharomyces cerevisiae" Respondeu a garota, com certa hesitação.
"Quem foi o segundo homem a pisar na lua?"
"Edwin Eugene Aldrin Jr." Disse ela, mais confiante agora.
A morena então decidiu apelar. Deu seguimento numa série de questões de todas as áreas, desde nomes de elementos químicos à complexas fórmulas matemáticas.
"Impressionante! A base conta até com algum tipo de banco de questões e fórmulas, acho eu" Concluiu a garota. "Ela acertou todos os exercícios".
Eve corou de leve.
"Não tem banco de questões" Falou ela, baixinho. "Eu resolvi as contas sozinha. Fiz mal?"
Os olhos de Riza se arregalaram até quase explodirem.
"VOCÊ FEZ AS CONTAS?!" Gritou.
Eve se encolheu toda, tentando se afastar da outra. Sua pele branca como neve corou toda, e ela abaixou a cabeça até quase afundá-la no peito.
"Desculpa, eu não sabia..." Disse, assustada.
Riza sentiu a mão forte e quente de Tristan em seu braço e corou também. Estava tão acostumada a gritar e bater nos garotos que se esquecera totalmente que Eve não estava nem um pouco acostumada com isso. Ela era extremamente inocente, e mesmo que o tal Brainsys parecesse ter conhecimento ilimitado, ela ainda não sabia quase nada do mundo real. Era muito mais delicada e assustada que qualquer pessoa com que Riza tivesse lidado até então.
Ela se aproximou e abraçou Eve, que pareceu se encolher ainda mais.
"Desculpa" Murmurou a morena. "Desculpa, Eve. Eu não devia ter gritado com você. Claro que não fez nada de mal, eu só fiquei muito surpresa" A ruiva parecia ainda meio vacilante. Riza se chutou mentalmente. "Não fique com medo, é muito incomum alguém conseguir fazer esses cálculos de cabeça, eu me assustei e acabei gritando com você... Por favor, me perdoe..."
Eve assentiu com a cabeça, e pareceu mais relaxada. A morena apertou delicadamente sua mão, e olhou para Tristan, mas este já estava de volta ao seu canto do quarto.
"Qual o nome completo do Picasso?" Perguntou Josh, mais para distraí-la que de interesse.
A voz de Eve começou vacilante e fraca, mas foi ganhando novamente confiança, enquanto ela falava.
"Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso" Respondeu ela, o espanhol perfeito saíndo de sua boca tranquilamente.
Então se calou, esperando a próxima pergunta. Riza lhe fez mais algumas, leves e nada de cálculo, e todas foram respondidas. Tristan ficou quieto.
Josh então pensou um pouco, vendo que a garota já estava bem mais relaxada.
"O quê tem na Área 51?"
Eve fechou os olhos imediatamente.
"Acesso Restrito. Insira a senha para prosseguir" Disse.
Um silêncio profundo caiu no quarto, enquanto todos a encaravam assustados. Josh suava frio.
Então a garota começou a rir.
"Desculpa, eu não resisti..." Disse ela, rindo mais ainda.
Envolvidos pela sua gargalhada e a piada logo todos riam.
Eve acendeu o abajur do quarto, voltando a se enfiar no meio dos cobertores. Seus olhos miraram o teto, completamente abertos quando ela já deveria estar há muito adormecida.
Revirou novamente as novas informações em sua mente. Então deitou de lado, escondendo a cabeça com os cobertores.
"Josh, por que teve que me perguntar aquilo?" Falou consigo mesma, chorosa. "Agora não consigo dormir..."
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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