Birthday Eve
Capítulo 10
A fuga. A garota perdida. O aliado.
O choque foi tão grande que Tristan achou que tinha engolido a língua. Num único instante tudo desmoronou a sua frente, e o chão sumiu debaixo de seus pés. O homem da cicatriz diante dele conseguira, numa única frase, mexer profundamente com ele.
“Eu sou o pai de Eve Bell” Se frases possuíssem gosto, aquela teria gosto de ácido. O gigante avançou em sua direção, vasculhando a casa com os olhos.
“ONDE ESTÁ MINHA FILHA?” Trovejou, empurrando-o para o lado.
Tristan perdeu o equilíbrio com o empurrão e caiu por cima de uma mesinha. O homem pareceu decidir vasculhar o andar de cima primeiro, e subiu correndo as escadas. Repentinamente a decisão surgiu na mente do rapaz.
Ele não podia deixar o homem da cicatriz pegar Eve. Fosse mentira ou verdade, o medo nos olhos da garota quando recebera as cartas era real. Ele não queria acreditar que ela estava mentindo o tempo todo. Ironicamente, era muito mais fácil crer que a ruiva fora criada sob medida em laboratório que ela ter pais.
Levantou, e percebeu então que a queda lhe garantira um fundo corte no braço, que agora vertia sangue. Não havia tempo para se preocupar com isso. Com a chave do quarto de Eve na mão, ele correu escada acima. Um estrondo surgiu, vindo do segundo andar. Ele correu mais forte, e viu que o homem estava socando, furioso, a porta do quarto da garota.
Maldita hora que ele colocara uma plaquinha com o nome dela na porta.
Ao alcançar o último degrau, o homem se virou para ele. Seus olhos estavam injetados de ódio, as esmeraldas que antes eram tão iguais às de Eve, agora não podiam ser mais diferentes, carregadas de maldade e raiva. Fosse ou não o pai dela, Tristan jamais permitiria que aquele gigante cicatrizado pusesse suas mãos na ruiva.
O homem pareceu perceber a chave na mão apertada de Tristan.
“ABRA A PORTA!” Berrou, e se lançou contra o rapaz.
Tristan fora uma criança solitária. Sua única amiga era Riza, outra menina que passava muito tempo sozinha. Seus pais decidiram que ele deveria ter amigos fora da escola, e que seria bom algum exercício. Por isso ele fora matriculado numa pequena escola de Judô que havia perto de sua casa. Passara mais da metade da vida tendo aulas do esporte. Fora os longos cursos que tivera sobre outras artes marciais. Se havia algo que ele podia se orgulhar, era a grande quantidade de troféus e medalhas que habitava sua prateleira no quarto.
Sua mente se clareou. Todos os pensamentos secaram, exceto a concentração afiada como uma lâmina e o único objetivo: incapacitar o adversário.
Seu corpo girou. O salto do homem lhe garantira um impacto bom, mas nenhuma possibilidade de manobrar caso Tristan se desviasse. O giro o tirara do alcance do homem, e então suas mãos avançaram. Um golpe seco e rápido estalou na nuca desprotegida do adversário. O homem perdera o equilíbrio totalmente. Tristan avançara, e sua perna bateu fundo contra o rim direito do invasor. Este se dobrou para frente, em agonia, e Tristan mandou às favas a técnica elegante de luta e chapou um soco direto na cara do homem. Fora um soco carregado com mais que força, havia uma dose terrível de culpa, fúria e instinto de sobrevivência. E mais que isso: um medo terrível do que aconteceria se Eve fosse levada.
Ele sentiu sua mão adormecer. O soco fora forte demais até mesmo para ele. No mesmo instante, o atacante desabou no chão, semi-consciente.
Tristan correu até a porta e destrancou-a, entrando no quarto num rompante.
Eve estava sangrando. Era uma experiência totalmente nova para ela, e nem um pouco agradável. Não era como as panquecas, a pele quente da bochecha de seu dono, nem mesmo como a névoa doce da bebida. Era doloroso, incomodava e trazia uma sensação horrível.
Suas roupas não eram apropriadas para o frio que fazia. Estava vestida com um pijama de flanela e apenas um casaco de moletom por cima. Seus pés estavam dormentes, e suas mãos tremiam incontrolavelmente. O suor da corrida que ela empreendia estava tão gelado que parecia penetrar nos ossos. Sentia-se horrível, o gosto de bile em sua língua. Vomitara três vezes no banheiro da casa de seu dono, agora tão distante como um sonho. Não havia volta para ela. Fora encontrada, descoberta. Era o fim dos dias de sonho dela. O frio era mais que um incômodo, era uma prova que seu conforto estava irremediavelmente perdido.
Tropeçou nos próprios pés. As palmas das mãos deixavam um rastro de respingos vermelhos na neve. Os pedacinhos de vidro se enterravam nas mãos quando ela tentava fechá-las, então as deixava aberta, jogando gotinhas de sangue para todos os lados. E suas pernas também estavam muito arranhadas da excursão rápida no telhado da casa de seu dono.
Não, não era mais “seu dono”. Ela perdera até mesmo isso. Agora, havia apenas “Tristan”. E, para ela, o medo e insegurança. O fim.
Seus pés tropeçaram uns nos outros. O frio embotava sua mente. Caiu com o rosto na neve, mas não tinha forças para vira-lo. E então, o frio foi substituído pelo vazio. E Eve achou que havia morrido.
Um vento cortante entrava pela janela totalmente despedaçada. Mais adiante, uma cadeira retorcida estava caída no telhado, vidro moído em todo o quarto e nas telhas quebradas. Eve fora esperta e rápida. Sem outra saída e sem força o suficiente para quebrar a porta, sua última esperança fora jogar a cadeira contra a janela sem grades e descer pelo telhado.
Ela era muito mais leve que ele, e bem menor. A calha retorcida e o rastro de telhas quebradas deixavam óbvio que ela descera por ali, e depressa.
Havia marcas de sangue na janela e na parede. Ela devia ter enfiado as mãos no vidro moído para conseguir se içar para fora. Um gosto estranho surgiu na boca de Tristan ao ver o sangue da ruiva.
Andou até o banheiro, mas as cartas já tinham ido pela descarga. O que ficara, porém, era um cheiro ardido que ele reconheceu na hora. Ela havia vomitado ali, talvez de puro nervosismo.
Girou o corpo e saiu, resoluto, pela porta. O homem da cicatriz ainda demoraria um pouco para acordar, mas fora por culpa daquele idiota que o rapaz perdera um tempo precioso, e agora Eve poderia estar longe demais. Irritado, chutou o estômago do invasor, e então o arrastou até um canto do corredor, onde um dos cantos do aquecedor se projetava para fora. Foi até seu quarto e voltou com um punhado de tiras de plástico reforçado que usava para prender feixes de cabos de computador. Até mesmo com alicates era difícil de cortar aquela coisa, e era impossível se livrar dela com as mãos nuas. Prendeu os pulsos do invasor juntos, e então prendeu-o no cano do aquecedor. Era uma estrutura antiga, de aço, sem ferrugem nenhuma. Demoraria um bom tempo para que ele conseguisse se livrar daquilo.
Antes de sair, lembrou-se de revistar os bolsos do desacordado. Encontrou um cartão plástico de identificação, uma carteira, chaves e um soco inglês. Enfiou tudo nos próprios bolsos e então saiu da casa, trancando a porta da rua e levando a chave consigo.
Na entrada, um carro preto com aparência de novo aguardava.
Tristan olhou para todos os lados, encontrando então uma trilha de pegadas quase encobertas pela neve. Havia uns salpicos de sangue junto às pegadas.
Agradecendo pelas aulas de direção que Riza lhe dera há poucas semanas, ele usou as chaves do homem da cicatriz para destrancar o carro.
O homem da cicatriz estava furioso. Não esperava que o garoto pudesse surpreende-lo assim, e não gostara nem um pouco. Seus pulsos doíam com aquelas tiras de plástico infernais, e seus estômago estava muito dolorido do chute do rapaz. Um filete de sangue escorria de seu nariz até sua boca. Não havia dúvidas que o soco do pequeno desgraçado quebrar seu nariz.
Puxou seus braços, com tanta força que seus músculos saltaram dos braços e ameaçavam romper a camisa. Um som horrível soou pela casa inteira, e suor brotou em sua testa. Um estalo altíssimo surgiu, e então o cano do aquecedor estourou, saindo da parede. Com mais um pouco de força a tira em seus pulsos também estourou, e ele se viu finalmente livre. Correu até o quarto de Eve, sabendo que com toda certeza o rapaz trancara a porta da rua e saltou para o telhado, pulando do segundo andar até chegar na calçada. Ajeitou a camiseta, e enfiou a mão no bolso. Vazio.
Levantou seu olhar e encontrou apenas a rua deserta, onde deveria estar seu carro. Suspirou alto.
Realmente, o mundo estava cheio de caras muito filhos da puta.
Mãos fortes agarraram seus ombros. Ela sentiu seu corpo ser içado, e então foi carregada. Não conseguia mais sentir seu corpo, apenas sensações muito vagas. Um zumbido entrava por seus ouvidos, e o vazio em sua cabeça lhe fez entender que o BrainSys estava em forma pior que ela. O álcool de antes e o frio de agora poderiam causar danos permanentes no que quer que estivesse implantado em sua cabeça.
Ela foi jogada sem cerimônia num chão muito duro. Portas bateram, e tudo ficou muito escuro. Novamente portas bateram, e então o chão começou a tremer e sacolejar. Ela sentiu o movimento. Tentou se encolher para ficar um pouco mais aquecida, mas seu corpo não respondia mais a seus movimentos. Alguém, que estava junto com ela ali, jogou um cobertor sobre seu corpo. Mas ela sabia que não estavam lhe fazendo uma gentileza.
Se suas lágrimas não tivessem se esgotado completamente, ela teria chorado.
O grande furgão negro partiu. Tristan sentiu a língua parecendo uma lixa na boca seca. Os óculos escuros que roubara o tornaram quase irreconhecível. Puxou um papel do bolso e pegou uma caneta que estava solta no painel a sua frente. Anotou rapidamente a placa do carro que levava Eve em suas entranhas. Então pegou o celular e discou.
Arty estava escrevendo um novo Firewall. Muito melhor que o anterior, diga-se de passagem. Desta vez ele não seria pego pelos caras de antes. Nada de defesas caindo em cinco segundos, agora ele estaria por cima, e iria roubar cada byte que eles pudessem, antes de destruir seus bancos de dados e até queimar seus HDs. Seria uma grande vingança pelo que tinham feito.
Seu celular tocou. Sem desviar os olhos da tela, apanhou o aparelho e apertou uma tecla. Imediatamente o som começou a sair das grandes caixas de som de seu computador, enquanto ele poderia falar facilmente pelo microfone que estava diante de sua boca.
“Eu já te disse que...” Começou, mas a voz da outra linha estava séria demais para agüentar reclamações suas.
“Arty, aqui é o Tristan. Eu quero que você preste muita atenção no que vou dizer agora. Você vai rastrear um carro para mim. Tudo sobre ele, inclusive de quem é e para onde vai. Então vai enviar todas essas informações pro meu celular. E quero isso agora.”
A voz de Tristan jamais fora tão gelada. Arty se viu imediatamente abrindo seu rastreador e colocando os números que ele ditava. Antes mesmo de pensar, já mandava todas as informações para o celular do rapaz.
“O que está acontecendo?”
Uma tela se abriu em seu computador. Num grande mapa das ruas da cidade, um ponto vermelho avançava rapidamente, cortando o caminho e correndo cada vez mais. Logo atrás dele, o ponto negro que era Tristan o seguia, de uma distância razoavelmente inocente, mas sem nunca perder de vista o inimigo.
“Eles pegaram Eve” Disse a voz fria do outro lado da linha. Arty sentiu os pelos de seus braços se arrepiarem.
“E agora vão pagar”.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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