quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Capítulo 14

Birthday Eve

Capítulo 14

A canhota. Os irmãos. Robert Patterson.


O movimento foi rápido demais. Aos mãos dela o agarraram e giraram Tristan num movimento brusco demais. Num instante, cabelos vermelhos o cercavam como uma floresta em chamas, enquanto ele estava meio deitado sobre a maca, com as pernas ainda se apoiando no chão, e as mãos de Eve estavam ao redor de seu pescoço.
Os olhos verdes dela estavam vidrados, enquanto as mãos apertavam cada vez mais forte, mas nem de longe tão ferozmente como seria necessário para matá-lo. Sem muita opção e mortificado por fazer isso com a menina, ele usou suas mãos livres para bater com força nos pulsos dela. O choque imediatamente aliviou a pressão em seu pescoço, e ele desvencilhou-se de Eve, girou sobre ela, e pressionou o braço sobre sua garganta, imobilizando-a.
“O que diabos você está fazendo?” Gritou ele.
“Lean...” Berrou ela. “Eu vou te matar nem que isso seja a última coisa que eu faça!”
As mãos dela tentaram novamente apertar seu pescoço, mas George imediatamente enfiou uma dose forte de remédio no cateter que ela tinha no braço. Os olhos de Eve se desanuviaram e então ela pareceu recobrar a consciência.
“Tristan?” Perguntou, a voz repentinamente quebrada e rouca. “O que eu...?”
E desatou a chorar.

Levou um bom tempo para que Eve conseguisse se controlar. Ela passara as próximas horas entre um choro desesperado e profundamente arrependido e pedidos de perdão para Tristan. Ele sorriu, fez carinho em seus cabelos, confortou-a com palavras, mostrou seu pescoço para que ela visse que nenhuma marca ficara, riu, contou piadas, e nem com todo esse esforço conseguiu muito resultado. No fim, ela só parou quando caiu num sono exausto de esforço, remédios e emoção.
Tristan procurou no manual, mas nada encontrou sobre a possibilidade de Eve se transformar numa assassina em série. Ao fim de horas de profunda pesquisa, ele decidiu voltar a arrumar o manual, jurou por sua vida não olhar as páginas que Riza e Melissa guardavam e pode colocá-las de volta no grande livro. Então apanhou sua carteira, chaves e celular e decidiu sair, levando o livro debaixo do braço.
Melissa decidira que a situação estava bem melhor, e preparou uma bom café da manhã para todos. Josh dormira pouco durante a noite, mas depois de devorar duas porções colossais de comida materna estava muito melhor. George ainda lia suas anotações, então não estava urubuzando em cima de sua mãe, nada podia ser mais feliz que aquele momento.
Riza estava conversando com ele em um tom levemente civilizado, quando George se levantou e foi checar Eve. Quando voltou, sorria abertamente.
“Ela perguntou se estamos muito bravos com ela ainda” Contou.
Todos negaram imediatamente, em altas vozes. George os acalmou, levantando as mãos.
“Quando eu respondi isso, Eve perguntou se então nós poderíamos terminar com uma tortura tão terrível e levar para ela algumas dessas panquecas que cheiram tão gostoso”
Josh e Riza, que conheciam bem demais a adoração que a ruiva tinha por panquecas começaram a gargalhar, enquanto Melissa enchia um prato com as iguarias e George levava para dentro da salinha de plástico o café da manhã da garota, junto de uma jarra de suco.
Foi neste instante que Tristan chegou, carregado de sacolas e parecendo cansado, porém mais alegre. Ele deixou parte das sacolas na cozinha, agradecendo Melissa pela ajuda de alimentar aquele batalhão eternamente faminto (Riza bateu nele por isso), e levou outra leva de sacolas para seu quarto, antes de descer com apenas duas, e entrar no cubículo plástico.
Riza segurou sua mão por um segundo, lhe passando o máximo de força possível, e Josh piscou para ele. George discretamente pegou outra seringa de remédio. Eve parecia muito envergonhada e triste, a cabeça baixa sobre o prato que esvaziara numa fração de segundo.
“Eve?”
Ela levantou imperceptivelmente a cabeça ruiva.
“Eve, você está bem?” Tentou Tristan, mais uma vez.
“Você está com raiva de mim” Sussurrou ela, como uma criancinha envergonhada.
Ele sentou-se ao lado dela na cama e procurou sua mão.
“É claro que não, ruiva” Sorriu ele, e ela riu da maneira que ele a chamara. “Eu nunca ficaria com raiva de você.”
“Eu tentei te estrangular”.
Ele sorriu, e passou a mão pelos cabelos muito compridos dela. Eram tão bonitos, naquela cor forte e vibrante! Pareciam perfeitos demais para serem verdade, mas eram. Eram os cabelos de Eve, que combinavam tão estranhamente perfeitos com ela.
“Eu não chamaria aquilo de ‘estrangular’” Disse ele, em tom de zombaria. “Quer dizer, pela força que você estava fazendo, parecia mais que estava segurando meu pescoço. Essas garotinhas, cada dia mais fracas”
“Ei!” Disse ela, levantando completamente o rosto para ele. “Eu não sou assim fraca!”
"Não?” Retrucou ele, aproximando o rosto do dela. “Então como você não conseguiu nem deixar marca?”
Ela também aproximou o rosto do dele, e sentiu o cheiro de Tristan, e percebeu como gostava daquilo. Ele era seu dono novamente, mesmo com tudo que ela havia feito. E ela estava de volta para onde pertencia.
Tristan também sentia o cheiro profundamente floral da ruiva, e como aquele perfume podia fazer seu sangue correr muito mais rápido, ao ponto que as mãos queriam tocar a pele branca dela, estreitar-se num abraço ao redor da cintura fina da menina, tomar os lábios dela como seus para toda a eternidade.
“Eu não queria te machucar” Disse ela, baixa e lentamente, os lábios rubros se movendo com delicadeza ao redor das palavras, como se apenas para prender o olhar dele sobre aquela boca tão simplesmente apetitosa.
“Você nunca conseguiria me machucar” Sussurrou ele de volta, tão lentamente como ela. “Nem se quisesse”.
E, como se para interromper exatamente a concentração dos dois, que se aproximavam aos sussurros, a porta se abriu, e Arty entrou.

Tristan, derrotado mais uma vez pelas circunstâncias, se afastou da ruiva, que voltou a comer uma nova leva de panquecas que Riza lhe trouxera. George parecia paralisado, e Melissa cumprimentou o novo desconhecido.
“Eu vim cobrar Tristan” Sorriu o homem. Era tão estranho vê-lo fora do apertado espaço hiper-tecnológico onde vivia que Riza ficou até desorientada. Não deixou de perceber, porém, que ele usava a mesma camiseta que no dia que ela o contatara, e pelo cheiro de queijo nacho que ela emanava, não era apenas coincidência. Sem nenhum apreço pela boa educação, o homem coçou-se e bocejou, estendendo a mão suada para Tristan, que discretamente se encolheu.
“Eu ainda não tenho o seu dinheiro, Arty” Disse o rapaz. “Se você puder esperar um ou dois dias...”
“Eu decidi cobrar de outra forma” Respondeu o homem. “Não quero o seu dinheiro. Fico com a ruiva”.
Josh, Riza e Tristan imediatamente se postaram entre ele e Eve. O punho de Tristan se fechou. Não fazia muito tempo que ele já derrubara homens adultos, e estava disposto a lutar com o homem se ele quisesse tomar Eve dele.
Arty negou com um gesto da mãozorra inchada.
“Não quero a garota realmente, seus idiotas. Eu li o e-mail que você me mandou, e rastreei ele também. O que eu quero é examiná-la, só isso. Nunca vi um computador num ser humano, e seria interessante dar uma olhada em como funciona.”
Ninguém se moveu.
“O meu irmão pode examiná-la à vontade, e eu não?”
“Irmão?” Perguntou Riza.
Arty apontou para George.
“Vai dizer que ele nunca contou?”
Todos os olhos se dirigiram para o médico, que ainda estava paralisado. Ele sorriu, ainda em choque.
“Que surpresa, mano”.

Arty e Tristan estavam com Eve, e Riza, Josh, George e Melissa estavam sentados na cozinha.
"É sério isso?” Perguntou Josh. “Arty é seu irmão?”
George suspirou.
“Sim, ele é meu irmão mais velho. Na verdade, o irmão do meio. Eu sou o caçula”.
Ele estremeceu.
“Faz séculos que eu não o vejo. Arty saiu de casa quando eu ainda estava na faculdade. Da última vez que o vi foi duas semanas depois de minha formatura, fui visitá-lo na cadeia”.
Riza abriu a boca, em choque.
“Ele foi preso?”
“Sim. Por interceptação e venda de informações do Governo. No fim ele foi libertado, deixaram ele sair da cadeia por ter ajudado a resolver vários crimes cibernéticos e ele passou uns anos desenvolvendo tecnologia pro governo. Não soube mais sobre ele desde que desapareceu num desses esconderijos subterrâneos da inteligência. Acho que ele acabou fugindo de lá e voltou aos negócios como Hacker mercenário.”
George se mexia, incomodado.
“Ele sempre foi assim. Mamãe ficava doida com o jeito dele. Nunca se importou com nada, a não ser computadores. Nunca se deu bem com pessoas de verdade. Éramos tão diferentes que sempre brigávamos e depois do que aconteceu...” Ele parou, e engoliu em seco. “Bem, ele fugiu e não nos falamos mais. É isso aí.”
Riza estendeu a mão para segurar a dele, mas Melissa já afagava o médico, com ternura. Ele pareceu mais calmo. Sorriu para ela, e a morena levantou, indo ver o que acontecia no cubículo.
Arty mostrava para Tristan um notebook e uma espécie de antena ligada nele.
“No manual estavam as freqüências e protocolos que o sistema usava” Explicou para eles. “Fiz este captador para poder me conectar ao cérebro dela e poder extrair informações. Simples e fácil, uma cópia do sistema e poderei voltar para casa, e descobrir quem inventou um dispositivo assim”
Ele iniciou o programa, e códigos correram pela tela.
“Viu? Meu captador é perfeito, detectou ela de primeira.” Sorriu, e seu dedo muito gordo bateu na tecla de Enter.
A tela ficou completamente negra, e uma única palavra surgiu.
Pekëtalavás
Arty digitou furiosamente no teclado, mas nada modificou a estranha palavra. Eve coçou a cabeça, mas não percebeu nada de diferente, mesmo que em algum lugar de seu cérebro, o BrainSys lutava contra aquela invasão. Repentinamente pensou que aquilo, de certa forma, era uma violação de sua privacidade.
A tela mudou.
Kité
E apagou.
Arty voltou a digitar, bateu no seu dispositivo, xingou por longos minutos. Até que enfim a mensagem surgiu de novo.
Pekëtalavás
“O que diabos é ‘piquêtolavrás’?” Falou alto, e muito irritado.
Eve se aproximou da tela e espiou seu conteúdo.
“’piqué-ta-lá-váz’” Corrigiu ela. “Significa ‘Permissão Negada’”
Todos os olhos se grudaram nela.
“Como você sabe, pirralha?” Disse Arty, bruscamente.
Ela deu de ombros.
“Eu sei, simplesmente” Ela olhou para a tela. “Não gosto disso. Não parece certo vocês tentarem entrar no BrainSys”.
A tela tremeluziu.
“Desliguem isso, por favor.”
Kité
Eve espiou a tela.
“Significa ‘finalizar’”
E a tela apagou de novo.
Antes que Arty pudesse xingar, Tristan segurou o braço de Eve.
“Eve, pode me fazer um favor?”
“Claro!” Sorriu ela.
“Nós vamos conectar uma última vez, tá?” Disse ele. Ela pareceu incomodada, mas assentiu.
“Quando eu disser, você vai pensar que não quer nos deixar entrar, tudo bem, como fez antes, tudo bem?”
Ela assentiu.
“Arty, conecte”.
A tela surgiu na Permissão Negada. Ninguém digitou nada, pois Tristan impediu.
“Eve, nos faça sair”.
A tela trocou imediatamente para a segunda mensagem, e apagou.
“Ela controla o sistema?” Rugiu Arty. “Me deixe entrar, dê as permissões para mim!”
Eve negou com a cabeça.
“Não quero ninguém entrando no meu cérebro.” Disse ela, firmemente. “Não sei porque, mas isso é importante. Não devo deixar nada entrar.”
Arty pareceu que ia avançar sobre ela, mas Tristan imediatamente agarrou o braço roliço, e o parou.
“Eu posso pagar em dinheiro, se quiser.”
“Não.” Suspirou o homem. “Não, tudo bem. Eu me esqueço que é uma garota, não um Servidor, que estou tentando invadir. Quando ela mudar de idéia, você me chama. Enquanto isso, a ajuda está paga. Obrigado”.
Ele desmontou seu aparato e saiu, sem se despedir.
Eve ajeitou uma mecha de seu cabelo, e Tristan finalmente reparou na coisa que o deixara meio incomodado o dia inteiro, o detalhe que deixara passar.
“Eve!” Falou ele, alto demais. A garota quase pulou da cama, e todos vieram correndo.
Tristan pareceu envergonhado, mas engoliu isso e mostrou a mão dela.
“Você é canhota?”
A garota olhou para a própria mão, como se só se desse conta disso naquele instante.
“Você me tocou com a mão esquerda quando acordou, e cumprimentou Arty com essa mesma mão, ajeitou o cabelo... Mas você é destra, não? Pelo menos era destra quando eu via você desenhar ou escrever...”
Eve apanhou um papel que estava ao lado da cama e uma caneta. Com a mão esquerda, escreveu seu próprio nome, na letra miúda e redonda que ela tinha. Então passou a caneta para a mão direita, e mostrou os garranchos que saíram.
“Sinto mais força na mão esquerda, mas eu era destra. Eu nem percebi que estava usando a outra mão, é como se eu tivesse feito isso a vida inteira.” Contou, meio assustada.
“O reboot deve ter mudado isso em você.” Teorizou o garoto, sentando-se na cama mais uma vez. “Outra coisa que mudou foi que você, de repente, sabia alguns golpes de luta, me derrubou de uma maneira muito controlada naquele ataque. E também sabia falar a língua esquisita do BrainSys”.
Riza assentiu.
Eve olhou para suas mãos, demorando-se mais na esquerda.
“Quando estavam me afogando... Naquela sala com todas as luzes, eles me perguntavam de uma coisa. Uma coisa que eu sabia, só que eu não podia saber. Eu forcei e forcei e não deixei a coisa entrar na minha cabeça, e então eu abri tudo, deixei tudo entrar, quando me enfiaram na água. Eu... Eu entrei num mar de informações e não sabia mais onde eu estava... Eu... Agora eu sei muita coisa, mas não sei se eu sei, entendem?” Ela pareceu se dar conta das próprias palavras. “Não, isso tá muito esquisito para entender...”
Riza sorriu.
“Não, Eve, eu acho que entendi. Todo mundo sabe fazer coisas, ou conhece coisas, mas não se lembra. Só quando a gente recebe o estímulo certo que lembra como fazer. Acho que é assim, mais forte com você, não tenha pressa. Não vamos te forçar a nada, você vai lembrando o que sabe aos poucos. Sabe nossos nomes, sabe onde está, lembra-se do que aconteceu, sabe escrever, falar nossa língua, usar garfo-e-faca, reconhece comidas... Sabe até que é uma fanática por panquecas, o que é o mais irritante de tudo”.
Eve pareceu assustada com a frase final da amiga.
“Por quê?”
“Porque como você consegue comer dois pratos de panquecas com molho e simplesmente não engorda?” Riza parecia realmente irritada. Melissa fechou a cara. “Eu nunca vi você fazer dieta, nunca vi você negar um doce, e nem uma grama! NEM UMA GRAMA!”
Eve começou a rir, naquela gargalhada doce que ela tinha. Riza e Melissa se juntaram para confidenciarem algum tipo de plano de roubo do manual para aprenderem a não engordar mais também.
“Eu não sei como funciona” Disse a ruiva, ainda rindo. “Mas eu nunca engordo, mesmo”.
Riza e Melissa estreitaram os olhos. A atmosfera estava cada vez mais pesada, e até Eve, que quase nunca se dava conta dessas coisas, percebeu.
“Mas não é assim também, eu tenho problemas com outras coisas normais”.
Melissa fez uma cara de dúvida.
“Você está aí há dois dias, e seu cabelo continua igualzinho. E olha o tamanho desses fios! Os meus quebrariam na hora se eu os deixasse crescer a esse ponto. E nunca vi uma pele assim, tem certeza que eles não fazem corpos sob medida, pra que eu arranje um pra mim?”
Riza assentiu, de cara feia.
"Diga-me um problema que você tem!” Exigiu.
Josh, Tristan e George tinham se afastado de costas até colarem na parede do cubículo, e agora avançavam de fininho até a abertura. O clima pesava toneladas, enquanto Eve pensava numa imperfeição sua que acalmasse as duas.
“Eu nunca encontro um sutiã que caiba em mim” Contou ela, sorrindo gentilmente “Pois meus seios são tão grandes que qualquer um fica apertado”.
Os três correram pela porta, e foram se esconder no segundo andar, enquanto as duas leoas raivosas avançavam sobre a pobre garotinha.

Depois de terem acabado com Eve, Melissa e Riza estavam na cozinha, preparando o almoço. George apareceu, sendo o mais velho era ele que deveria investigar o terreno, e as cumprimentou com um sorriso de tirar o fôlego.
“Oh minha deusa” Disse ele, se aproximando de Riza. “Não há nenhuma imperfeição que macule sua beleza”
A garota ficou completamente vermelha, mas George passou reto por ela e beijou, cavalheiro, a mão de Melissa. Riza arrancou o avental, enquanto a mais velha se desmanchava em risinhos, e rumou para fora da cozinha. Sua moto roncou longamente, enquanto ela tentava descobrir como podia ser tão idiota.
George era bem mais velho que ela, e era um homem lindo, experiente e maduro, nunca ela despertaria sua atenção. Já Melissa era a mulher mais bela que Riza já vira na vida, e além de tudo era uma mulher feita, bem sucedida, e muito mais madura que ela. Não, Riza tinha que tirar aquele sonho bobo da cabeça, e talvez um passeio no centro meio congelado da cidade a distraísse. Talvez pudesse fazer compras, ela queria sapatos novos, e tomar uma taça de sorvete com muita calda de morango, esquecendo-se por um instante que estava em dieta pós-Natal.
Estacionou sua moto, colocou a chave na bolsa e decidiu observar algumas vitrines. Um casal se beijava na praça, e ela passou por eles olhando insistentemente para o outro lado. Riza não tinha sorte com garotos, e nunca tivera um namorado de verdade. Para ser sincera, os beijos roubados de um Josh bêbado foram o ponto alto de sua vida amorosa. Chutou uma lata amassada que alguém jogara na calçada. Estava tão cansada de rastejar atrás de um médico cafajeste e se contentar com migalhas de atenção.
Ela não era linda, ela era uma verdadeira tábua mesmo depois de 18 anos, mas ela merecia mais que isso. Muito mais, decidira. Não ia mais ficar atrás de George, e não ia mais se contentar secretamente com as cantadas ridículas de Josh. Não! Era uma nova mulher, e agora ela iria encontrar uma outra pessoa! Alguém que a quisesse, realmente, alguém que ela quisesse.
Foi pensado profundamente nisso, que atravessou a rua e quase foi atropelada por outra moto. Ela caiu, meio na calçada meio na rua, e sentiu que ralara os joelhos. Era só o que faltava! O motociclista não buzinou, ao invés disso encostou a moto, e todo preocupado veio ver como ela estava.
“Você está bem? Não está machucada? Quer que eu te leve ao hospital?”
Ele estava tão aflito que até se esquecera de tirar o capacete, e só quando quase bateu o visor levantado na testa dela que percebeu isso. Ainda pedindo desculpas (mesmo que a culpa fora toda dela, idiotamente atravessando sem olhar) ele arrancou o capacete negro e o pôs de lado.
Riza se viu encarando grandes olhos castanhos muito gentis e decididamente preocupados, e um rosto de tirar o fôlego. Ele era lindo, lindíssimo, e devia ser uns dois ou três anos mais velho que ela. Tinha a pele levemente bronzeada, e um rosto masculino que arrancaram o ar dela. Até os cabelos, castanhos mais escuros e bem despenteados pelo capacete, deixavam ver que ele era decididamente um deus grego motoqueiro.
“Não, não, não foi nada” Sua voz disse antes da mente chegar lá. Ele pareceu ainda assustado, e ela se levantou, com a ajuda dele, mergulhando sua mão na dele, grande, forte e muito quente, e sorriu para ele.
“Viu? Estou inteira, ainda”.
O sorriso que ele lhe devolveu era perfeito, e todo o resto do mundo sumiu da cabeça dela.
“Qual o seu nome?” Perguntou ele, recolhendo seu capacete.
“Riza.” Disse ela, a voz não saindo fraca e boba como quando acontecia com George. Não, ela falara com confiança, com um sorriso, mesmo diante de um homem decididamente mais bonito que o médico. Devia ser sua resolução de ser uma nova mulher que fizera sua voz ficar mais forte, e mais gentil.
“Tem certeza que não quer mesmo ir ao hospital, Riza?” Perguntou ele. E como o nome dela soava bem, dito por aqueles lábios tão bem desenhados! E como ele a olhava de um jeito tão preocupado que era decididamente fofo.
“Tenho. Foi só o susto mesmo”
Ele sorriu mais uma vez para ela.
“Bem, já que é assim, posso tentar compensar o susto, te convidando para tomar sorvete comigo”.
Ela ficou surpresa com o convite. Será que sua resolução também a estava deixando mais bonita? Não era normal um cara daquele nível chamar uma garota como ela para sair, não é mesmo?
“Mas... Eu nem sei seu nome” Disse ela, mais para ganhar tempo que qualquer outra coisa.
“Robert Patterson” Disse ele, e então sorriu, segurando a mão dela e a guiando. “E como agora sabe, já pode sair comigo.”
“Mas...” A pele dele era quente, e ela sentiu os músculos de seu braço quando ele a guiou até sua motocicleta, que era também linda e decididamente potente.
“Vamos lá, gatinha” Disse ele. “Eu não mordo”.
Ele a chamara de gatinha?
“Você não está querendo que eu suba nessa moto, não é?”
“Você não vai cair, pode ficar tranquila”.
“Mas essa é uma Henry Domman” Disse ela, ainda espantada, enquanto ele lhe passava um capacete extra. “É uma moto profissional de corrida, deve custar uma fortuna!”
Ele levantou uma das sobrancelhas, enquanto sentava na moto e se preparava para ajudá-la a subir. Ela subiu sozinha, com uma desenvoltura que o impressionou.
“Uma garota bonita e ainda entende de motos?” Perguntou, levemente desconfiado.
“A minha está estacionada lá pra trás” Contou ela, corando um pouco. “Mas não é nem de longe bonita como essa. Olha esse motor!”
Ele sorriu.
“Eu devia atropelar mais gente” Pensou alto. “Parece que minha sorte está mudando”
Enquanto avançavam rapidamente pela rua, e o ronco poderoso da motocicleta rugia sob eles, Riza pensou uma última vez em George. E decidiu que a sorte dela é que estava mudando.

Eve dormia, pela última vez no cubículo plástico. George e Melissa conversavam na cozinha, e Tristan estava em seu quarto, segurando um papelzinho muito amassado. Ficara horas olhando para ele.
Josh entrou, e sentou-se ao seu lado.
“Arty te deu o endereço, não é?” Perguntou o loiro.
“Sim. Desta vez parece de verdade. É a melhor chance que já tivemos”.
Os dois ficaram em silêncio, antes do loiro quebrá-lo mais uma vez.
“Você realmente vai devolver Eve?”
“Eu... Eu não posso ficar com ela, J., entenda. Eu... Não posso cuidar de uma garota, ficar com ela dentro de casa. Eu sei que ela é linda e tudo mais, mas não quero uma namorada que eu não amo.”
Josh olhou para a janela.
“E você vai devolvê-la para a empresa... Só porque você não a ama?”
Tristan olhou para o endereço em suas mãos.
“É complicado.”
“Quando vai contar pra ela? Ou você vai devolvê-la sem que ela nem saiba?”
“Eu vou contar. Vou contar.”
“Quando?” Insistiu o amigo.
“Depois do Ano-Novo. Então vou ligar lá e pedir para virem buscá-la. E acabou”.
“Depois do Ano-Novo” Repetiu Josh. Então levantou.
“Quer uma opinião sincera?” Perguntou, já à porta.
Tristan guardou o endereço no bolso.
“Não, obrigado”.
Josh saiu. E Tristan ficou olhando o teto, e pensando em como contaria a Eve que ele a devolveria para a loja que a criou. E não se permitiu pensar em por que seu coração doía tanto ao dizer a si mesmo que ele a mandaria embora.

Nenhum comentário:

 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB