quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Capítulo 9

Birthday Eve

Capítulo 9

A ressaca. As cartas. A mentira revelada.


Uma árvore de Natal muito amassada piscava fracamente diante da luz matutina que entrava pela janela escancarada. Eve estava caída no chão, dormindo pesadamente, enquanto ao seu redor se amontoavam Tristan, Josh, George e Riza. Somente o zumbido irritante em sua cabeça que conseguiu acordá-la. Abriu um olho, e imediatamente sentiu o gosto amargo invadir sua boca. Sua língua parecia uma lixa, e a cabeça parecia pesar uma tonelada, além de doer como se alguém a tivesse rachado ao meio com marretadas.
Ficou de quatro no chão, e começou a se erguer, uma das mãos apoiando a cabeça dolorida, enquanto raspava a língua nos dentes, tentando diminuir um pouco o gosto e a sensação. Um carro passou na rua, a música alta fazendo sua dor de cabeça explodir mais ainda, e a fazendo fechar os olhos e apertar os ouvidos com as mãos.
Ressaca.
A palavra espiralou em sua cabeça como sempre acontecia ao se deparar com o desconhecido, mas a informação veio só, sem explicação alguma, como deveria ser. A garota procurou com os olhos alguma coisa que não conhecesse, e viu uma garrafa esquisita nas mãos de George. Encarou o rótulo.
Vod...
Sua cabeça estava muito estranha. A ruiva se arrastou até a cozinha, os passos fazendo sua dor piorar, e cada minúsculo som parecia uma explosão de barulho. Ligou a cafeteira, mais tateando que realmente vendo a pequena máquina, e esperou até o líquido de gosto forte e meio amargo ficar pronto. Uma montanha de louça suja se empilhava precariamente na pia, e havia farinha por todo lado.
Sem forças para encontrar um copo limpo ou alguma caneca ou xícara, ela tirou a jarra da cafeteira e tomou ali mesmo, deixando um pouquinho escorrer pelo queixo. Aquilo aliviou bastante o gosto e a sensação da boca, mas ela ainda precisaria de algo para a dor de cabeça.
Quando tentava extrair alguma informação de seu banco de dados relativo a remédios para dor, Tristan surgiu na porta, muito despenteado e rumou direto para a cafeteira, tomando da jarra como ela. Então desabou na cadeira ao seu lado, segurando a jarrinha nas mãos.
“Bom dia” Disse ele, tão baixo que ela mal conseguiu ouvir. E havia algum tipo de zumbido em seus ouvidos que dificultava mais ainda.
Ela tentou um sorriso, mas só saiu uma careta meio torta.
“’Dia” Sussurrou ela, cansada.
O castanho lhe tocou o braço.
“Dor de cabeça?” Perguntou, repentinamente carinhoso.
Ela assentiu, mas parou rápido, o movimento lhe lançando pontadas de dor.
“Eu não devia ter te dado vinho” Resmungou ele. “Nem cerveja, ou vodka, ou rum ou...”
A garota começou a rir, e rir fez piorar sua dor, mas ela não conseguia parar. Tristan remexeu numa gaveta e jogou um comprimido para ela, então deu uma lavadinha num copo e o encheu de água, tomando ele mesmo uma aspirina.
Eve tomou o remédio, meio engasgando por ter de engoli-lo sem mastigar, e suspirou, cansada.
“Vá deitar um pouco” Disse o garoto, começando a lavar um pouco da louça. “Em alguns minutos você estará bem melhor”.
Ela sorriu, agradeceu e começou a sair da cozinha, quando parou na porta e se virou.
“Tristan?” Chamou.
“Huh?”
“Acho que meu BrainSys parou de funcionar”
E saiu, deixando o garoto recolhendo os cacos do prato que derrubara com o susto.

Riza ajeitou a mala mais uma vez, alisou sua roupa e trocou o peso do corpo para a outra perna. Sentia-se muito deslocada, com tantas pessoas passando apressadas por ela. Tentara usar uma de suas roupas mais discretas, e se movera para um canto estratégico, mas mesmo assim se sentia incomodada. Foi então que percebeu uma agitação ali perto, e muitos garotos começaram a se acotovelarem. Alguém soltou um assovio, e ela sorriu. Eve estava chegando.
A garota vestia-se normalmente, sem qualquer maquiagem, decote ou jóia, mas era simplesmente tão linda que atraia olhares de qualquer maneira. Não pela primeira vez, Riza se perguntou como a garota ficaria em trajes de festa. Claro que ela tivera um relance daquilo durante o Natal, mas sabia que havia muitas possibilidades ainda para deixar a menina ainda mais bela. E Tristan ainda mais tímido.
Eve parecia uma criancinha na loja de brinquedos. O aeroporto parecia encantá-la irremediavelmente, e ela girava a cabeça ruiva para todos os lados, tentando absorver o máximo de informação possível. Ela ainda trazia leves olheiras sob os olhos de esmeralda, mas a ressaca terrível devia já ter passado.
A morena sorriu, a abraçou a amiga. A ruiva havia prendido seus cabelos tão longos, que chegavam até abaixo dos joelhos, com um laço e parecia realmente fofa, com os olhos brilhando de alegria.
“Faça uma boa viagem” Disse-lhe a ruiva, e a mais velha agradeceu.
Tristan lhe deu um abraço apertado, e despenteou de leve seus cabelos. Ele sempre fazia isso, principalmente agora que parecia ter passado por algum tipo de super-crescimento e, mesmo sendo mais novo, era mais alto que ela. Logo ela ficaria para trás, e teria que ficar na ponta dos pés para abraçá-lo. Deixaria o posto de “irmã mais velha” para se tornar apenas a “irmãzinha”.
Josh a abraçou também, e a girou no ar, fazendo-a rir.
“Boa viagem, Rizzie” Exclamou ele, sempre brincalhão e chamativo, fazendo algumas pessoas lhes lançarem olhares. Que logo se desviavam para Eve.
“E aí, Riz? Como está a cabeça, Eve?”
A voz forte e grossa fez a morena estremecer. Quase derrubou sua mala, e arrependeu-se de imediato de ter vindo com roupas tão simples.
“Parou de doer” Contou a ruiva. “E meu BrainSys voltou a funcionar!”
O Dr. George sorriu.
“George tem uma teoria sobre a pane no seu sistema, Eve” Riu-se Josh.
O doutor pigarreou, e assumiu o tom profissional que o fazia parecer tão inteligente e sério.
“Acredito que o álcool, assim como pode nublar sua mente, acabou desestabilizando seu sistema. Acredito que os criadores do BrainSys não pensaram que a usuária podia...” Ele sorriu. “Tomar um porre”
Até mesmo Tristan riu. Eve corou imediatamente, a garota que não via problema algum em ficar completamente nua na frente de desconhecidos ficara subitamente muito envergonhada em menção à sua pequena aventura na noite anterior. Os amigos servem pra muitas coisas. E uma delas é te lembrar de tudo que você fez quando estava tão bêbada que mal podia dizer seu próprio nome.
George voltou-se para Riza.
“Não sabia que você viajava nessa época, achei que só o Josh que passava o Ano Novo com a mãe.”
“Meus pais estão ficando preocupados. Mamãe está dizendo que quando ela voltar a me ver eu já estarei casada e com três filhos. Mas são só alguns dias na Espanha, estarei de volta antes do início das aulas”.
Eve lembrou-se dos comentários dos amigos sobre a escola. Seria ótimo poder entrar numa escola e estudar junto com seu dono, Riza e Josh.
George sorriu.
“Talvez vocês tenham alguma surpresa esse ano” Disse misteriosamente. Então piscou, fazendo o coração da morena perder o compasso e saiu, se despedindo com um aceno.
Avançou alguns metros, passou perto de uma linda loura que piscou para ele sedutoramente.
O caminho do médico se desviou acentuadamente até que ele parasse perto da moça.
“Não nos conhecemos de algum lugar?” Perguntou ele, chegando perto demais dela.
Josh assoviou, abismado.
“Fico impressionado com a sorte que esse cara tem com as garotas”.
Tristan deu de ombros.
“Fico impressionado como ele consegue garotas com essas cantadas tão horríveis”.
Josh estufou o peito.
“Pois saiba que o Rayman, da classe C, me ensinou umas cantadas infalíveis”.
Riza agarrou sua mala com tanta força que o plástico pareceu estalar. O barulho das rodinhas da mala se transformaram num guincho pavoroso que seria facilmente confundido com os da carruagem do inferno.
“Vamos, Eve” Comandou ela. “Vamos procurar um banheiro”.
A última coisa que a ruiva pôde ouvir da conversa dos garotos, antes de ser puxada para um banheiro por Riza foi “Então você chega pra ela e diz ‘Por acaso seu pai é um pirata?’ e quando ela disser que não e perguntar por que, você fala ‘Porque você é um tesouro’”...


Eve estava em seu quarto, sentada no chão, entretida com um livro que ela achara na estante da sala. Aquele parecia ser o dia mais frio do ano, mesmo com o aquecedor ligado no máximo, e ela estava dividida entre ficar no tapete felpudo e macio ou se esforçar para buscar um cobertor, quando Tristan bateu na porta do seu quarto. Ela levantou, repentinamente animada, e colocou o livro sobre a cama, antes de abrir a porta.
“Eve, você deu seu endereço para alguém?” Perguntou ele, entrando no quarto depois de checar se ela estava vestida. Acidentes anteriores lhe garantiram esse hábito.
“Não. Nem pras moças do telefone”.
A garota ainda se lembrava direitinho das aulas de Tristan sobre como lidar com telemarketing. Havia todo um processo de descobrir quem estava falando e recusar rapidamente qualquer produto antes que a moça lhe apresentasse argumentos o suficiente. Josh conseguia tornar tudo mais fácil: ele desligava assim que ouvia voz do outro lado da linha.
“Chegou uma carta para você”.
O envelope era comum, branco, com o endereço da casa de Tristan batido à máquina num dos lados do envelope. Sobre o nome da rua, se destacava o destinatário.
Eve Bell
Ela sentiu um arrepio. Sem saber por que, sabia, intimamente, que não gostaria de abrir aquele envelope. Girou a carta, e o lado do remetente estava em branco.
“O interessante é que não foi apenas uma” Disse-lhe Tristan, mostrando as mãos.
Ele trazia nada menos que seis envelopes iguais aquele, com o mesmo endereço e sem o remetente. Em todos eles, na tinta agourenta de impressão, se via o nome da ruiva.
“Você sabe o quê é isso?”
“Não” Murmurou ela. “Não”.
Tremendo levemente e desejando jogar tudo aquilo no fogo, ela abriu o primeiro envelope. Dentro, uma única folha dobrada.
Eve tirou a folha do envelope, desdobrou-a e leu. Seu rosto perdeu toda a cor. Ela deu dois passos para trás, a mão cobrindo a boca, totalmente espantada. Tristan procurou os olhos dela, tentando entender sua reação, mas ela se desviou dele, entrou no banheiro e trancou a porta.
“O quê foi, Eve?” Gritou ele, batendo na porta do banheiro. “O que dizia a carta?”
“Nada” Gritou ela do outro lado. Ele ouviu ela rasgando as cartas e então o som da descarga. E mais uma vez. E outra. Parecia que ela queria se livrar daquilo a qualquer custo. “Foi engano”.
“Como assim, engano?” Berrou ele, tentando abrir a porta. Estava trancada a chave. “Abra a porta, Eve!”
“Não!” Gritou ela, do outro lado. “Não foi nada, não se preocupe. Fique tranqüilo, pode ir embora”
“Eve!”
“Vá embora!”
Ele ouviu soluços. Quando ia tentar se jogar contra a porta, para arrombá-la, ouviu a campainha.
“Espere aí, Eve” Gritou, e desceu. Por via das dúvidas, tirou a chave da porta do quarto e o trancou por fora. Pelo menos ela não poderia deixá-lo de fora do quarto.
Desceu as escadas, e a campainha soou mais uma vez.
Abriu a porta, e encarou o visitante desconhecido.
Devia ter cerca de quarenta anos. Alto, forte, com uma barba aparada e castanha. Seus cabelos bem cortados também eram castanhos, marcados de algumas mechas grisalhas. A face esquerda era tomada quase inteira por uma grande e funda cicatriz, lhe dando uma aparência sinistra.
Seus olhos muito verdes faiscaram na direção de Tristan.
“Então é você o cúmplice desta loucura?”
Tristan engoliu em seco. O homem avançou, e o rapaz deu alguns passos para trás. O desconhecido fechou a porta com um baque seco atrás de si. Seus olhos de esmeralda lançavam faíscas de puro ódio em direção ao garoto.
“Onde está a garota? Onde você a está escondendo?”
“Eu não entendo!” Respondeu. “Quem é o senhor? O que está dizendo? O que o senhor quer de mim?”
O homem da cicatriz o olhou fixamente. Então seus olhos se encheram de alguma emoção profunda.
“Eu só quero saber onde ela está. Não vou fazer nada contra vocês, só quero ela de volta”
A voz entrecortada do desconhecido fez o coração de Tristan se apertar.
“De quem você está falando? Quem é você?”
O homem da cicatriz o encarou por um longo segundo de silêncio.
“Eu sou o pai de Eve Bell”

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