TEMPUS
PARTE II - New Life
POST IV
PARTE II - New Life
POST IV
"A Ilha de Aureus é o último lugar seguro da Sociedade. Construída em tempos imemoriais, toda a sua estrutura é feita de magia. Indetectável pelos Humanos, Aureus se mantém como posto de abrigo e ensino da Sociedade. Contando com o Instituto, a Cidadela e várias vilas, além de áreas livres e florestas, a Ilha é o ponto mais sagrado da Sociedade. Moradias garantidas, todos os bens necessários, correio e restaurantes".
Naell jogou para trás o grande folheto do Instituto.
"Lixo total" Resmungou.
Virginnie riu, rasgando seu próprio folheto sem nem o abrir, e o jogou no lixo, junto com o do irmão.
"Como é lá, de verdade, Naell?" Perguntou, se esparramando na cama do garoto.
"O Instituto é um lugar gigantesco, e cheio de regras, mas as aulas são legais. Já a Cidadela realmente tem casas legais ou bonitas, mas a gente que tem que fazer a maior parte das tarefas. Fora que qualquer um lá tem preconceito com a gente, menos alguns poucos amigos que eu fiz" Ele suspirou, voltando a limpar sua espada já absurdamente limpa e brilhante. Suas mãos precisavam fazer alguma coisa, enquanto a mente estava cheia de preocupações. "Ninguém quer entrar na floresta, mas é um lugar bonito lá, e o resto da ilha é totalmente horrível: tudo é artificial, ou encantado para parecer simplesmente lindo. Uma droga de lugar."
A garota assentiu, perdida em pensamentos. Ela nunca tivera ilusões sobre como seria quando tivesse que abandonar as aulas em casa com os pais e partir para Aureus, com suas aulas no Instituto, os alunos e principalmente o gigantesco ódio que qualquer um ali sentiria por ela ser um "híbrido indesejável".
"A gente que escolhe as casas?"
"Sim. Você vai morar comigo, normalmente é o quê irmãos fazem. As casas também são separadas em Anjos e Demônios, duas raças não podem morar juntas na mesma casa, mas algumas possuem mais de dez moradores, todos amigos ou conhecidos. Normalmente os Demônios acabam morando sozinhos, da mesma forma que os Anjos costumam morar juntos, entre amigos e parentes. Um ou outro Anjo que mora sozinho, normalmente os extremamente ricos, os que são filhos de Humanos ou os perturbados mentalmente, como o Gault".
Ele riu, lembrando do amigo e de suas tendências meio pervertidas.
"Ele é um tarado, fique longe dele!" Sorriu ele para a irmã.
Ela fez uma careta, pensando em ter de passar um ano numa ilha longe de tudo, cheia de preconceituosos e, agora, um tarado. Suspirou.
"Mesmo assim, você vai acabar se adaptando. E pode me chamar, sempre que precisar matar uns idiotas moralistas" Disse o irmão, carinhosamente, abraçando a garota.
"Eu vou aprender magia?"
Naell fez uma careta.
"Não, nós não podemos aprender magia na escola. Nós dois, eu quero dizer. Nossa magia não é branca ou negra, não tem jeito". Ele viu que a irmã ficara decepcionada, e emendou: "Mas sempre temos um jeitinho, afinal..."
Ele fez um pequeno gesto, e um livro flutuou até ele.
"...nós somos parte dos Ainnion!".
Jamiel olhou para os dois lados, antes de abrir o lustroso armário polido que lhe pertencia. Era um armário extremamente bem feito, de aço polido como a lâmina de uma espada nova, cada porta estreita com exatos trinta centímetros de largura por um metro de altura. Três prateleiras do mesmo material dentro de cada armário, e uma placa com o nome de cada dono em cada porta. Mesmo assim, era um armário de design espartano, minimalista, sem adornos ou enfeites, assumindo um ar sério e prático. O Demônio se sentiu satisfeito ao se ver totalmente sozinho na sala de armários. A porta fora devidamente trancada com um longo e complicado encantamento, e ele tinha tempo o suficiente para fazer o trabalho.
Sussurrou um feitiço e deu sua contra-senha, escrevendo com o dedo os símbolos corretos na poeira de dentro de seu armário. Imediatamente as coisas que haviam ali sumiram, sendo substituídas por um disforme embrulho de panos, do tamanho de um bebê. Com cuidado, o homem o retirou do armário e o escorregou para um bolso mágico em seu sobretudo. Checando novamente o lugar, ele resmungou os feitiços de proteção e suas coisas reapareceram no devido lugar. Satisfeito, trancou o armário e destrancou a porta, levando o embrulho consigo.
Os corredores longos da Central estavam quase vazios, mas isso era normal. O Governo da Sociedade dividira seus departamentos em centenas de prédios há quase setenta anos, livrando a Terra Santa de Sindarä de abrigar os milhares de departamentos e escritórios que abarrotavam suas dependências. Agora havia uma grande e impessoal construção para praticamente cada função que um membro da Sociedade poderia desempenhar. Jamiel passou pelos cubículos envidraçados onde ficavam "guardados" os Caçadores - responsáveis pela procura e apreensão de criminosos e malfeitores - e sorriu para os que o cumprimentavam. Era difícil não se sentir intimidado pela figura alta e majestosa do Ainnion, e aqueles que o viram em ação jamais esqueceram dos tempos em que ele fora chefe do setor de Caçadores. O moreno abriu uma porta dupla e passou pelas fileiras intermináveis de Anjos e Demônios que cuidavam da Vigilância, usando longas mesas quadriculadas que simulavam o posicionamento de cada rua, prédio, mar ou lugar onde membros da Sociedade estivessem. Gnevard, o chefe da Vigilância o cumprimentou, sério e calado como sempre, o encarando firmemente com seu único olho dourado restante.
"Problemas, Chefe Gnevard?" Perguntou Jamiel, sério. O homem a sua frente era famoso pelo modo com que perdera o olho direito, numa luta contra um Famir. Mas mais lendária ainda era a maneira com que ele agia numa batalha. Ainda contavam pelos corredores sobre o estado que Yerald Mão-Branca chegara no hospital depois de uma luta com ele. Dizia que o que sobrara do vilão chegara pelo correio.
"O de sempre" Rosnou o homem, em seu jeito de capitão de batalha que vira guerras demais para relaxar outra vez. "Lutas entre Anjos e Demônios, rumores sobre os Justos, leis estúpidas do Conselho sendo aprovadas... Disseram que vão reativar os Corretores Literários, é um absurdo!"
Jamiel desviou seus pensamentos para Nyara. Era com certeza acabaria arranjando alguma confusão em seu próprio trabalho, se a história dos Corretores fosse verdadeira.
"E tivemos problemas com Gadriel de novo" Terminou Gnevard, suspirando alto. "Aquela menina é mais lisa que um bagre ensaboado. Nós tínhamos duas ordens: não tirar o olho dela, e impedir que se encontrasse com aquele Demônio maldito. E ela conseguiu fugir!"
"Estão sem pistas dele?" Perguntou Jamiel, repentinamente nervoso. Ele sabia muito bem o quê iria acontecer se aqueles dois voltassem a se encontrar.
"Nenhuma! Se aquele Conselho estúpido parasse de tentar criar um passado decente para nós e se preocupasse com o agora, poderiam assinar uma busca contra ele. Mas não!"
Jamiel concordou, e Gnevard foi chamado em uma das mesas da Vigilância, alguém dizia que estava vendo um elfo comer sua árvore no jardim. O moreno continuou andando, pensamentos sobre como as coisas estavam ruins agora. Tocou a espada que carregava no cinto, e sentiu-se um pouco mais confiante com este gesto. Destrancou a porta ao fim da sala da Vigilância e entrou no ambiente fresco e silencioso dos arquivos gerais, andando depressa para não ficar muito tempo perto daqueles documentos. Ao longe, ouviu um grito e um barulho alto que parecia mil serras cortando um troco particularmente grande.
"Malditos estagiários" Resmungou, antes de destrancar a próxima porta e se ver na sala confortável onde trabalhava.
Mesas e escrivaninhas ficavam dispersas, em qualquer lugar, como se alguém simplesmente as tivessem deixado lá por acaso. As paredes eram forradas de um tecido vermelho escuro, a cor dos Demônios. Ele afundou os pés no carpete avermelhado que cobria todo o chão da sala grande e muito alta. Não havia janelas, elas não eram necessárias, e a cada tanto um cilindro prateado e oco se elevava do chão. Jamiel andou até sua mesa, onde uma pilha gigantesca de papéis se amontava, alguns deles dando a impressão que estavam ali há um bom tempo. Sobre o tampo lustroso da mesa de mogno pesado, apenas um porta-lápis abarrotado, um caderno e o porta retrato duplo, com a foto de Nyara e outra dos filhos. Ele girou a chave dourada da primeira gaveta e abriu uma delas. Tirou de lá uma pasta amarelada e grossa, fechada com dezenas de cordões prateados. Era um documento do Arquivo Geral, um relativamente poderoso, de sete correntes.
Jamiel trabalhava num dos setores mais antigos da Sociedade, um dos três grandes setores negros. Os setores negros, qualquer criança poderia informar, eram "Guerra", "Justiça" e "Inteligência", cada um deles englobando uma miríade de setores menores, como os de Vigilância, os Bibliotecários, Arquivadores, Limpa-Ruas e até mesmo setores escusos e cheios de segredos como o Setor 34 ou o insondável "Catálogo 12". Jamiel passara por vários setores, desde seu início como um Caçador até mesmo num trabalho de duas semanas como Limpa-Ruas, quando decidiram que ele era o homem certo para lidar na Sala Vermelha, como chefe do Esquadrão de Defesa. Nesta posição tão privilegiada ele possuia sob seu comando nada menos que cento e trinta e sete setores menores, inclusive os que ele já trabalhara antigamente. Mais que uma honra, era também uma gigantesca responsabilidade, e uma grande dor de cabeça, visto a pilha de relatórios que estava sobre sua mesa. O homem lançou um olhar sujo para os papéis enfadonhos, que relatariam horas e horas de vigilância numa ruazinha com um único morador da Sociedade, numa noite de verão em que nada aconteceria.
Mas as promoções não se davam por habilidade e capacidade apenas, mas também pelo poder. Os Arquivos que a Sociedade acumulava quase sempre não eram normais. Feitiços poderosos se enraigavam neles, os tornando quase selvagens e, geralmente, malignos. Para trancá-los em suas salas, a Sociedade adotara o sistema de correntes, e dividiam a periculosidade de um documento pelo número de correntes que ele possuía. Da primeira corrente, onde qualquer empregado poderia lidar com o arquivo em questão, até a décima segunda, onde apenas os doze membros do Conselho poderiam abrí-los ou enfrentá-los. Quanto mais alto era seu poder, mais correntes você podia abrir, e maior era seu cargo. As sete correntes que prendiam a pasta em suas mãos eram mais que apenas uma defesa contra o quê quer que o arquivo guardasse, era também símbolo de seu poder, visto que poucas pessoas poderiam lidar com documentos de nível tão alto. E Jamiel tinha poder suficiente para lidar com arquivos de até dez correntes.
Tirando seus pensamentos de tudo o mais, ele murmurou um encantamento e as sete correias de prata que seguravam o documento sumiram, ao mesmo tempo que um clima pesado caía sobre a mesa dele. Concentrado, abriu a pasta amarelada e sentiu o toque rude de magia perigosa que o atacou quase imediatamente. Usando sua força de vontade e um olhar irritado para a papelada que o aguardava depois daquele serviço, começou a ler.

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