terça-feira, 13 de outubro de 2009

Capítulo 5

Birthday Eve
Capítulo 5

A guitarra. A música. O ciúmes.

Os olhos de Eve entraram lentamente em foco, enquanto ela ainda sentia os efeitos do sono. Seu braço estava marcado, pois ela dormira sobre ele, e sentia o ombro doer levemente, num mal-jeito. Deu uns passos vacilantes pra fora da cama, se dirigindo aos tropeções até a cadeira onde estavam suas roupas. Agarrou elas e algumas roupas de baixo limpas, se dirigindo ao banheiro. Tomou um banho rápido, mas suficiente para despertá-la completamente, e então vestiu-se, incomodada com o tal sutiã, que a apertava e agarrava de uma maneira incômoda. Abriu a porta do quarto, sentindo o cheiro adocicado de café-da-manhã, mas também ouviu um toque leve, quase um ressoar, distante e baixo. Curiosa, desceu as escadas, percebendo o som aumentar o volume a cada passo seu.
Então o som parou subitamente, e ela ouviu resmungos. Seu dono devia estar fazendo aquiles sons, lá da sala.
Abriu a porta, ainda mais curiosa que antes, e espiou Tristan, que estava sentado no chão, com a guitarra nova em seu colo. Ele girava e girava as chaves da guitarra, tentando afiná-la. Apertou mais um pouco uma das chaves e fez a corda vibrar, espalhando um som agudo, mas ainda assim bem baixo. Enquanto ainda vibrava, ele voltou a esticar a corda, até parecer satisfeito.
"Vai ficar espiando daí da porta?" Disse ele, ainda de cabeça baixa, trabalhando em outra corda. Pega de surpresa, Eve corou de leve, enquanto entrava, arrastando os pés descalços no tapete. Tristan sorriu para ela, levantando a cabeça.
"Bom dia, Eve"
Ela sorriu de volta.
"Bom dia!"
Um sorriso meio abobado surgiu no rosto dele, com a exclamação dela. Tentando disfarçar que corara com sua aproximação, ele voltou a lidar com as cordas. Cuidadosamente, mantinha longe de sua mente o pequeno beijo de boa-noite que ela lhe dera no dia anterior. Eve sentou-se a sua frente, examinando a guitarra do rapaz. Num instante, ele terminou de afinar o instrumento, e plugou um longo cabo negro na guitarra.
"Afinadíssima!" Riu ele, puxando para perto um aplificador, de tamanho médio, que trouxera para a sala. "Agora, vamos ver..."
Ele plugou a outra ponta do cabo no aplificador, e girou lentamente o botão de volume.
"Não muito alto, não queremos incomodar os vizinhos" Piscou ele, para ela. Então, fez as cordas vibrarem novamente, todas ao mesmo tempo.
O som que saiu do amplificador, centenas de vezes mais alto e claro que o da guitarra sozinha, fez Eve pular de susto. Rapidamente ele abaixou o som, olhando receoso para ela.
"Eu só... Assustei" Disse ela, interrompendo-o. Ele ergueu o volume novamente, mas um pouco menos que antes. "Não sabia que o som ia ficar tão alto".
"A guitarra não tem muita força, precisa do amplificador. Eu comprei esse faz uns anos, está bem velhinho, mas ainda é um dos melhores que já vi" Tristan sorriu tranquilizador para ela.
Ela observava sua guitarra negra.
"É tão bonita..."
Sorrindo orgulhoso, como um pai falando de sua filha, ele lhe explicou que era seu presente de aniversário, que iria substituir a velha guitarra que ele tinha.
"Personalizada, proteção contra riscos na pintura e o braço é bem mais confortável que a anterior. Acabamento feito à mão e com correia, pra poder pendurar no ombro e tocar de pé. Uma preciosidade" Dizia ele.
Então ele ajeitou a guitarra, segurou uma das cordas com a ponta dos dedos, e começou a dedilhar lentamente algumas notas soltas. Rapidamente os sons desconexos se tornaram uma melodia suave. Os sons se mesclavam numa cadeia com um ritmo envolvente, e num instante parecia que ela estava longe, observando enquanto Tristan fechava os olhos lentamente, totalmente absorvido pela música que saltava das cordas do instrumento.
O toque se repetia, a melodia soltando agora notas tristes, mas numa cadência suave. Eve sentiu-se subitamente perdida e distante, a música entrando por seus ouvidos devagar, mas sem interrupção. E então a voz de Tristan surgiu, entre as notas cada vez mais fortes e cada vez mais tristes.
"Life it seens will fade away" cantou, e um arrepio desceu pela coluna da menina. "Drifting further everyday"
O som da guitarra crescia, enchendo o ar com vibrações estranhas e belas. E a voz dele, acompanhando perfeitamente as notas se mesclava a música, formando uma espécie de som único, entrando pelos ouvidos e invadindo o corpo da ruiva, num lamento que a deixava cada vez mais entregue e cada vez mais assustada.
"Getting lost within myself,
Nothing matters, no one else
I have lost the will to live
Simply nothing more to give
There is nothing more for me
Need the end to set me free
"
O coração dela se apertou, subitamente. Nada parecia tão simplesmente desesperador quanto ouvir a voz dele dizendo aquelas palavras. O som se tornava uma espécie de feitiço mortal, correndo dentro de seu corpo, pulsando em suas veias, substituindo seu sangue e corroendo sua pele, sua carne e seus ossos...
"Things not what they used to be
Missing one inside of me
Deadly loss this can't be real
Emptiness is filling me
To the point of agony
Growing darkness taking dawn
I was me, but now...
he's gone...
"
O toque suave o fez parar imediatamente. O som se interrompeu no meio de uma nota, e ele apertou as cordas contra o corpo da guitarra, impedindo-as de soar. Os dois dedos que tocavam seus lábios escorregaram lentamente por seu queixo, até o abandonarem. Seus olhos se encontraram, e os dela estavam cheios de lágrimas, refletindo uma tristeza tão profunda que tudo que ele pôde fazer foi se amaldiçoar até a última geração. Quase derrubou a guitarra do colo, ao acorrer para abraçá-la, apertar seu rosto delicado contra seu peito, e murmurar-lhe desculpas.
"Foi uma péssima escolha, tudo bem, já passou, não precisa ficar assim, olha, já parei, já acabou, vamos Eve..."
O aperto que se formara em seu peito subitamente sumiu, e seu corpo relaxou. Levantou os olhos úmidos e encontrou os olhos dele, fortes, preocupados, receosos e muito arrependidos. Deu um sorriso fraco, e percebeu o papelão que estava fazendo.
"Eu... Me desculpa. Eu sou uma idiota"
"Claro que não, claro que não, fui eu que fiz uma péssima escolha, eu devia ter cantado algo alegre pra você, me perdoe..."
Os dois dedos novamente pousaram em seus lábios e ele se calou. Ela sorriu, mais forte agora.
"Cante de novo. Mas... Outra música. Uma bonita."
Tristan revirou seu cérebro. Precisava ser algo realmente especial. Algo que a fizesse sorrir, e não algo simplesmente depressivo que a fizesse chorar de novo.
Então a guitarra cantou novamente. E desta vez era um som muito diferente. Forte, vibrante, de uma alegria e diversão incontestáveis. E quando ele começou a cantar, era um canto diferente, tão estranho e engraçado que ela começou a rir.
"Have you ever been to American wedding?
Where is the vodka, where's marinated herring?"
Where is the supply that gonna last three days?
Where is the band that like Fanfare
Gonna keep it goin' 24 hours
"
Ela riu tanto que esqueceu completamente as lágrimas. Quando a música terminou, ele emendou de novo a introdução, e voltou a cantá-la desde o começo. Mas desta vez ela cantou junto com ele, e sua voz era tão bela e tão harmoniosa que ele tropeçou nas notas e errou praticamente a música toda, parando totalmente de cantar, algumas vezes, apenas para ouvir a voz dela. Mas ela sorria tanto que nem percebeu a atenção dele, e seus erros.
"Nothing gets these people going
Not even Gipsy Kings,
Nobody talks about my Supertheory
of Supereverythings!
So be you Donald Trumo
Or be an Anarchist,
Make sure that your wedding
Doesn't end up like this...
"


A campainha os interrompeu por um instante, e Riza entrou, carregando uma sacola, ajudada por Josh. Ao verem os dois sentados no tapete, cantando e, no caso de Tristan, tocando. Não se fizeram de rogados. Jogaram-se no tapete também, e logo começaram uma longa rodada de músicas, se esquecendo totalmente do café da manhã que esfriava na cozinha.
Foi quando Riza sugeriu uma música para Tristan, e os dois começaram a tocar, que Eve percebeu o problema.
As notas eram novamente tristes, mas não tanto quanto antes. Ela procurou se controlar e não deixar a música envolvê-la tanto quanto antes, e parou para prestar atenção no dueto que se iniciava.
O tom de Tristan, solitário, ecoou pela sala docemente, enquanto ele cantava de forma suave.
"I want you to know I love the way you laugh,
I wanna hold you high and steal your pain away
I keep your photograph, I know it serves me well
I wanna hold you high and steal your pain...
"

E então Riza juntou sua voz à de Tristan. Era era afinada, e sua voz era suave e feminina, tão bela e tão apaixonada que Eve teve que resistir bravamente a não se deixar levar pela música. Mas as palavras que os dois trocavam fizeram uma chama se acender em seu coração, e foi como se ela tivesse bebido o mais amargo veneno. Um gosto de fel brotou em sua boca, e seus olhos se estreitaram. Riza agira com ela como uma melhor amiga, uma irmã mais velha até. Mas ali, trocando aquelas frases com Tristan, Eve sentiu uma vontade quase animal de atacá-la, de tirá-la de perto do rapaz que tocava a guitarra. Seus punhos se cerraram, e as unhas se fincaram nas palmas das mãos. Afastou-se devagar e discretamente, querendo ir o mais longe possível daquela cena.

"'Cause I'm broken when I'm lonesome,
And I don't feel right, when you're gone away...
"

Ela se virou, e interrompendo totalmente a canção, avisou que ia tomar café. Tristan encostou sua guitarra de volta no suporte e desligou o amplificador. Talvez se Eve não estivesse tão inexplicavelmente furiosa, teria percebido que ele cantara o tempo todo olhando para ela.

Nenhum comentário:

 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB