Um conto simples e curto, quase um teste de descrição e formação de cena. Alguma pouca violência, uso de arcaísmos e neologismos, insinuação sexual.
Na Taverna, apenas os suores noturnos e vinho sempre presente. Mas uma escrava a venda pode ser a perdição de alguns...
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Toquem a música do morto.
Um bater de palmas ritmado, um clap-clap-clop que espantava o silêncio ali fora. O vinho rodava solto, em vapores ópios que poriam por terra qualquer homem, enquanto o calor daquelas brumas alcoólicas faziam suar, por mais que o inverno impiedoso estivesse lá fora.
Algumas cocotes deslizavam pela taberna suarenta, distribuindo sorrisos e acenos, poses e apelos, enterradas até os talos em seda, pérolas, uísque, anáguas encardidas e pulseiras tilintantes. Uma revoada de peles e rendas espreitavam por baixo dos vestidos de barras encardidas, enquanto elas se distribuíam nos colos e peitos dos homens, esfregando-se neles, rindo tolamente, embriagadas, se endemoniando nos braços de trabalhadores suados e bêbados endinheirados, porcas e tão essencialmente femininas, com a ferocidade pelo dinheiro e luxos que apenas uma mulher poderia ter.
Talvez uma cerveja ou duas pudesse dar uma molhada na garganta, um pouco de alívio, uns dois dedos de consolo nos peitos de uma das cocotes também não seria de todo mal, as vidas eram difíceis, e as estradas, perigosas.
Com um gesto, a bebida veio, espumante num copo que passara por muitas bocas e poucos panos, carregada de promessas bem-cumpridas de esquecimento e relaxamento. Uma das vadias que estava de plantão já se aproximava, encadelada, se empertigando como se quisesse ser servida ali mesmo, cheia de doçura ansiosa por dinheiro.
As moedas correram de mãos, e logo ela já se deitava, rabo para cima, no colo cansado, mas ainda assim querendo um pouco daquilo. Não havia nada em seus olhos, fora o brilho turvo do ouro que carregava, e do quanto mais ela desejava. Meio como uma terrível fome, voraz como um Cérbero, ganas de luxúria e poder lhe comendo as tripas encardidas de bebida barata.
O velho desdentado empoçou ao lado, meio caindo de trôpego, meio anestesiado pelos muitos copos que foram lhe passados. Perto dele, a mercadoria esperava, olhos quietos, trapos lhe cobrindo o corpo, a cara toda emporcalhada de fuligem e hematomas nos braços longos. Um dos porcos ali lhe jogou um pedaço de pão, e a mercadoria comeu, voraz e estupidamente grata, comendo o pão como um cancro devorando a carne humana. Depois, limpou as fuças na barra do vestido destruído que trajava, e seu gesto lhe limpou toda a cara, exibindo os olhos azuis como lagos longínquos que os bardos viviam decantando.
Logo bêbados torpes ofereciam dinheiro ao velho desdentado, tentando tomar as carnes de sua mercadoria, e passar a noite ali no estábulo enlameado, ouvindo-a gritar. Um deles, mais abastado como se podia dizer, passou um torrão de moedas tão grande que os outros se calaram. O velho então, terrivelmente consciente agora, aproveitou as boas fortunas e tentou vender a mercadoria ali mesmo, carnes quentes e braços trabalhadores, dentes bons e costumes domesticados, servindo de cama e mesa, como ele mesmo bem disse. A mercadoria deixara os olhos caírem, safiras mirando entorpecidamente o soalho de terra batida e sujeira pisoteada. Boa voz, acrescentou o velhote desdentado, poderia cantar ou gemer, tanto aprouvesse ao novo dono.
Lentamente as apostas se tornaram altas, e a taverna se empertigou, aproximando os narizes batatudos para observar de perto o carnaval que se desenrolava no banco penso ali do canto.
Um dos coiotes carniceiros, pensando com a bucha e não com as cabeças, ofereceu tal quantia que uma gota de silêncio pairou sobre a taverna hiperlotada. Com um sorriso gutural, estendeu as mãos ávidas para tomar-lhe posse, mas outra maior foi oferecida, e o porco engoliu a língua, avexado e jogado como lixo. Olhos se arregalaram, e a mercadoria passou de mãos, a garganta seca pela loucura que havia cometido, passou as mãos sobre nova posse, sentindo o toque virginal de peles quentes e pernas suaves.
Sob um coro de gritos e estrondo de alaúdes, içou a posse e a levou para fora, gargalhando como demônios, tentando disfarçar o estranho poder que sentia que a posse lhe oferecia.
Derrubou a vaca no chão como se fosse batatas, e arrancou as calças de si mesmo, tremelhicando de ansiedade, pronto para desferir seu poder já meio estremecido contra a mercadoria maltrapilha. Um sorriso cortou suas faces embarbeadas, e tomou-lhe os braços, jogando-a de pé, prensada contra os fundilhos do estábulo, roçando a madeira pobre e molhada em suas nádegas brancas e apetitosas. Seu novo dono, a idéia era quase boa demais para ser verdade, ela era toda gostosa de se comer, e talvez seu gosto fosse parte dos paraísos.
Rasgou-lhe os trapos, e pouco lhe pensou se a posse suja tivesse que andar nua por aí, antes disso lhe arregaçaria tanto que nem poderia andar, por mais vestida que estivesse. Mirou-se para se enterrar nela, e talvez lhe surrar, enquanto se fartava, por tal vil criatura ter lhe custado tanto quanto poderia ser possível. Estava quase atingindo-a, cortando-lhe a carne entre as pernas macias quando sentiu a voz comer sua mente, derrubar sua vontade e seu poder.
A posse imunda murmurou-lhe nos ouvidos por um instante, tal refrão que lhe tornou branco como mármore, e impotente diante de sua cara mercadoria. Sua mão quente como os infernos escaldantes lhe seguraram a arma, ainda em riste, e a torceram até lágrimas quentes lhe chegarem aos olhos. Não ouve gritos, pois a boca fervente dela lhe esmagou os lábios, e os dentes perolados morderam sua língua com força. Ainda segurando seu dote, ela lhe soltou a língua e enterrou os dentes na junção de seu pescoço, mordendo como cobra, mas ignorando a sopa de sangue quente que melou o corpo nu, seus dedos arranharam o peito suado do prisioneiro. As unhas se tornaram como garras sanguinárias, e seu punho afundou na carne como se atravessasse gordurosa manteiga.
Com um sibilar de triunfo sórdido, a posse trouxe para fora o coração pulsante do desgraçado, e o esmagou como se fosse apenas carne vadia. Sem gritos, sem lamúrias, ele escorreu por seus braços e jazeu no chão imundo de gelo, de terra e de lama. Emporcalhada de sangue, ela limpou-se nos trapos que antes vestira. Lépida como um lobo das neves, trajou-se com as vestes de seu antigo dono, agora morto aos seus pés como ela desejara. Num momento, estava lá, no outro, já se fora.
O demônio voraz correu pelas sombras, e afundou em trevas ao nascer do sol, descendo de volta para seu trono de ossos, em algum inferno longínquo.
Toquem agora a música do morto, pois a rainha está voltando.

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