TEMPUS
PARTE II - New Life
POST III
PARTE II - New Life
POST III
Virginnie se espreguiçou, sorriu um pouco e então decidiu intervir pelo pai.
"Mãe, o pai tá ficando roxo" Disse ela, rindo.
Jamiel sentiu na mesma hora um sopro suave, e então Nyara estava abraçando a filha e rindo com ela, quase do outro lado do jardim. Suas armas estavam todas nos devidos lugares, até mesmo o cinto com a espada embainhada. Naell deu de ombros, e riu, batendo de leve nas costas do pai.
"Às vezes eu esqueço" Resmungou o homem, caminhando em direção às garotas.
"E mamãe faz você lembrar" Riu-se o filho, indo em direção à mãe e a irmã.
Olhando para a forma delicada de Nyara, com a pele suave e branca, os cabelos negros e os olhos azuis, era fácil imaginar que ela tinha um histórico mediano com batalhas, ainda mais sendo uma Anja, sem poder jamais matar alguém sem definhar até morrer no processo, e que deveria ter algum emprego burocrático, ou bucólico, talvez cuidando de pessoas, de crianças, ou preenchendo papéis, ou plantando flores. Era quase impossível adivinhar que Nyara sempre fora uma das maiores ladras da Sociedade, com habilidades além da imaginação para roubar, incapacitar e ameçar adversários. Ela nunca fora uma garota-problema, realmente, sua ficha estava totalmente limpa (exceto por uma pequena situação que há muito ela já quitara a dívida com a Sociedade), mas todos os líderes da Sociedade concordaram que era muito melhor manter ela dentro de seus domínios, trabalhando para o governo, do quê fora. Principalmente com a disposição dela de abrir portas ou janelas, de preferência que não lhe pertenciam, e "retirar" as coisas que estavam atrás delas. 'O melhor guardião é sempre um ladrão' era o lema do Setor 34, um conjunto de escritórios na sede do governo da Sociedade, cujas responsabilidades era controlar atividades ilícitas e proteger objetos considerados perigosos. Nyara entrara no Setor 34 com dezenove anos, no posto de escrivã de catálogos para objetos raros, porém inofensivos. Aos vinte anos, quando ficou grávida pela primeira vez, era a chefe do esquadrão designado para coletar, catalogar e vigiar objetos que ameaçassem a segurança interna e externa da sociedade.
Suas habilidades constavam desde arrombamentos de cofres mágicos e incapacitação de líderes de organizações perigosas até mesmo uma tendência de olhar malignamente e rondar pela casa quando alguém roubava os biscoitos do pote. Normalmente a resistência da família, durante estes interrogatórios sobre os biscoitos, durava apenas alguns segundos, antes do culpado se entregar, rogar por perdão e jurar não repetir o crime.
O casal de irmãos entrou na casa, discutindo animadamente sobre espadas, lutas e a cara do pai ao perceber que estava sendo atacado. Jamiel sentou-se sob a árvore, e colocou a esposa em seu colo.
"Você está bem melhor do quê antes" Disse ele, beijando seu pescoço. "Chega a assustar".
"Você sabe que numa luta séria eu perderia" Retrucou ela, tentando focar sua mente, mesmo com as "distrações" dele.
"Nunca se sabe" Respondeu, meio num rosnado, enquanto a derrubava no chão e ficava por cima dela. Seus beijos começaram a ficar mais intensos e famintos, mas ela conseguiu reunir forças e sanidade o suficiente para afastá-lo um pouco.
"As crianças logo irão para a ilha, que tal você se conter mais um pouco?" Disse, arfando e corada.
"Duas semanas!" Exclamou ele, como se ela tivesse dito algo inumano. "Eu não posso aguentar tanto assim!"
Nyara sorriu, acariciando lentamente o rosto de seu marido. Treze anos de casamento, pensou ela, repentinamente. Tão pouco tempo, quase nada.
Jamiel girou seu corpo, deixando ela por cima dele, e segurou seu rosto com as mãos.
"Nós vamos ficar juntos" Disse ele, tão firmemente que poderia ser verdade. "Para sempre".
"Eu quero saber como iremos para outro mundo" Exigiu ela, firmemente. O homem se ergueu, colocando ela no colo novamente, ambos sentados na grama.
Jamiel estalou os dedos, quase sem perceber, e um pequeno galho seco voou para sua mão. Ele escolheu um trecho de terra nua, perto deles, e desenhou um círculo no chão, meio torto.
"Pelas minhas pesquisas, cheguei numa história bem intrigante, que bateu perfeitamente com alguns fatos que eu pude testemunhar pessoalmente" Disse ele, assumindo um ar professoral. Ela apenas ouvia, totalmente atenta.
"Para cada ação ou decisão que tomamos, um novo futuro surge, e milhares morrem. Entre uma escolha e outra, surgem dezenas de futuros, um para cada opção, e as ações e transformações que tais decisões causam. Se escolhermos uma coisa, os mundos onde escolhíamos as outras opções desaparecem, e surgem os novos futuros, baseados na escolha que tomamos. Você consegue entender isso?"
"Sim." Respondeu ela, concentrada nas palavras dele. "Mas não parece muito real".
Ele sorriu.
"Não parece, mas é assim que a coisa funciona. Há muito, muito tempo, no início de tudo, doze futuros surgiram. Estes, ao invés de morrerem, se tornaram Universos completos, e iguais. Cada um destes Universos é regido por um ser supremo e todo poderoso, que simplesmente é um único ser, em suas várias faces. Doze faces, doze Universos. Por seu poder extremo, cada um deles governa o próprio Universo em poder absoluto."
Nyara engoliu em seco.
"Os Doze Deuses Absolutistas" Sussurrou.
"Os nossos Deuses" Assentiu ele. "Um para cada Universo, doze faces do mesmo Criador. No começo, todos iguais, e com o passar das eras, as eras ainda de escuridão e Nada, foram se modificando, assumindo formas e tendo seus próprios projetos. Para cada um deles, um Universo inteiro para tomar conta. Assim, cada Universo acabou se tornando diferente do outro, deixaram de serem espelhos uns dos outros e assumiram seus futuros próprios. É claro que um ou outro possui características em comum com outro, alguns podem parecer até iguais, mas sempre há uma diferença, alguma decisão que os alterou para sempre".
Ele desenhou um segundo círculo, perto do primeiro. Visto de longe, poderiam até parecer iguais, mas eram desiguais, se examinados atentamente.
"Os Deuses não poderiam deixar que alguma informação, alguma coisa, de um Universo passasse para outro. Isso poderia provocar terríveis interferências, poderia criar futuros imprevisíveis ou destruír futuros que já estivessem garantido que aconteceriam. Desta forma, eles criaram doze camadas, que circundassem seus Universos, doze barreiras que protegessem seus mundos. A palavra certa para nomear essa barreira se perdeu faz muito, muito tempo, mas os registros mais recentes, de apenas alguns milhares de anos atrás, as chamam de Eximeres".
Jamiel desenhou uma fina linha separando os dois círculos, os dois Universos.
"As Eximeres, assim como os Deuses Absolutistas e os Universos, são apenas faces de um todo único. E cada uma recebe um nome, mesmo que sejam a mesma coisa. Os nomes reais destas Eximeres também se perderam, só os Deuses os sabem, na verdade, mas são coisas tão abstratas que respondem à Fé, e não ao nome"
"Como assim?" Perguntou ela, lentamente. Aquilo tudo era um pouco irreal demais para ser absorvido tão rapidamente.
"As barreiras, as Eximeres, não são feitas de algum material. São feitas de sentimentos, de crenças, de fé pura. Se alguém crê que elas existam, elas passam a existir. Se alguém deixa de acreditar, elas enfraquecem. Se todos os seres do Universo deixarem de acreditar numa Eximere, a força do Deus Absolutista consegue durar mais alguns bilhões de anos, mas depois ele precisará de uma ajuda. É por este motivo que sabemos destas coisas, para que acreditemos nas Eximeres e elas possam continuar existindo. E por serem baseadas em Fé, não importa o nome que a gente dê para elas, elas saberão qual delas está sendo invocada."
Ele parou e sorriu para ela, maroto.
"Por isso é bom você começar a acreditar nessas coisas, ou elas vão acabar desmanchando!"
"Continuando... As Eximeres estão bem enfraquecidas, pois sua existência é quase ignorada por todos. Desta forma, surgem "buracos", nelas. A maior parte é menor que um átomo, e dura minusculas frações de tempo, partes de um segundo. Mas outras são imensas, do tamanho de uma janela comum, e duram meses. Numa das minhas viagens, encontrei uma destas janelas."
Ele desenhou outra Eximere, mas desta vez ela estava partida ao meio, com um espaço.
"Passar para outro mundo é coisa absurdamente simples, com um furo daquele tamanho na Eximere que rodeia nosso Universo. O mundo em que cheguei era exatamente igual ao nosso, mas vários e vários anos a frente. Acredito que duas ou três décadas. O lugar em que saí era o mesmo de onde eu tinha partido, mas algumas coisas estavam bem diferentes. Não encontrei ninguém, mas também não andei muito. Tinha medo de me afastar demais da janela e perdê-la, ou então que ela fechasse quando eu não estivesse por perto. Nunca se sabe quando buracos daquele tamanho vão abrir, ou se fechar. Poderia levar séculos para outro surgir, e ele poderia estar do outro lado do mundo. Fiquei uma semana lá, até o buraco começar a fechar, foi quando eu voltei."
"Você esteve em outro mundo?" Perguntou ela, espantada. Ok, isso era demais, para qualquer um.
"Por pouco tempo. Mas estar em outro mundo me trouxe muitos conhecimentos. Você sabe como é fácil de absorver histórias que as coisas têm pra contar. Eu peguei algumas histórias bem interessantes".
Ele desenhou no chão uma forma que parecia uma bacia, e outra que se assemelhava à um cordão, ou colar, com uma pedra como pingente.
"As histórias daquele mundo contam de um mineral que pode transformar magia. Ele é forjado por tempestades de energia mágica, que caem na terra. As tempestades mágicas nossas são recentes demais, não deu tempo para esse tipo de coisa se formar ainda, completamente, mas as daquele mundo estavam completas. A pedra de energia poderia transformar a energia da luz que sai de você em energia das trevas, como a minha. Isso acabaria com nosso problema, desde que você usasse a pedra o tempo todo, e não afetaria sua magia, já que ela só transforma a magia em excesso que você libera".
"Um filtro para minha magia liberada" Concluiu ela, sorrindo. Dane-se a loucura, se aquilo existia, ela ia encontrar.
"A segunda lenda, e a mais intrigante, fala de uma arma, uma coisa, que fica andando pelos mundos. É a única coisa que pode deslizar pelas Eximeres, sem ter de encontrar perfurações nelas. A coisa fica numa bacia, mas também pode assumir qualquer forma, qualquer consistência e tem mais poder que os Doze Deuses Absolutistas. Sua forma, geralmente, é um líquido de prata pura, que fica flutuando dentro desta bacia. Mesmo sendo líquida, se você tentar colocar algo dentro da bacia, ela é como sólida, uma substância totalmente impenetrável, e se tirá-la da bacia ela flutua no ar, como gás. Pode ser moldada em qualquer forma, e não tem massa definida, você pode encher uma caixa de fósforos com ela, ou um oceano, e sempre haverá a mesma quantidade da coisa."
"Isso não existe" Resmungou ela. Era a loucura-mor. A campeã do dia.
"Todos os mundos possuem lendas sobre essa coisa. Diferentes versões, mas sempre a descrevendo com a mesma aparência, as mesmas propriedades. Ela é a energia pura, a causa de guerras ancestrais, pois qualquer um pode tomá-la para si, e quem a possuir é mais poderoso que um Deus. No mundo em que estive, ela é chamada de Arma dos Deuses. Aqui, Irmã da Morte. Em livros antigos que pesquisei, livros guardados às sete chaves, em cofres ancestrais da Sociedade, livros que decididamente vieram de outros Universos, ela é chamada de Arma Maldita, de Senhora do Poder, de Filha dos Deuses..."
"Coisinha simpática, não acha?" Resmungou a moça, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha, e encarando o desenho de bacia, no chão.
"Um único nome que é usado por todos os mundos. 'Soneta', a arma invencível. Ninguém sabe em qual mundo a Soneta está, mas se ela perceber que estamos atravessando alguma Eximere, irá se interessar por nós. Por isso, se você encontrar qualquer coisa parecida com a Soneta, qualquer coisa mesmo, não pegue, não toque, não aceite, não olhe, e saia de perto. Principalmente, não deixe ela te tocar, nem a aceite. Quem a possuir, imediatamente despertará a atenção de tudo que existe nos doze mundos. Deuses, seres, Anjos, Demônios, Humanos, criaturas das trevas, criaturas da luz... Qualquer coisa tem um instinto quase total por querer a Soneta."
Nyara sentiu um arrepio, e se encolheu mais, contra o peito do marido.
"Isso tudo, porque a Soneta possui uma característica mais terrível que todas as outras que ela já tem. Mais terrível que a forma, que as habilidades, ou que o poder".
"O quê?" Sussurrou a mulher.
Jamiel a abraçou, ele mesmo sentindo frio, por suas próprias palavras.
"Ela é viva".

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