quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PARTE II - New Life - POST II

TEMPUS

PARTE II - New Life

POST II



Naell abriu os olhos, encarando o teto do quarto, ainda meio adormecido. Içou-se da cama e cambaleou até o banheiro. Suas mãos erraram por perto do espelho, derrubaram a escova dentro da pia e a pasta no chão. Resmungando consigo mesmo, ele apanhou suas coisas, e começou sua higiene matinal, se esquecendo completamente de seu aniversário.
Só depois que saiu do banheiro, se trocou e abriu a porta do quarto que se lembrou que agora estava com doze anos. Sorriu, repentinamente feliz, e começou a assoviar alegremente enquanto descia as escadas. Estava na porta da cozinha quando uma garota se jogou contra ela, quase o derrubando no chão, e o beijando na bochecha.
"Feliz aniversário!" Gritou ela, em seu ouvido.
Rindo, o garoto a segurou pela cintura e a rodou pelo ar, enquanto ela soltava gritinhos.
"Obrigado, Gin!" Riu ele de volta, finalmente a colocando novamente no chão.
"Seu idiota, quase me matou" Resmungou ela, um sorriso nos lábios, e socando o braço dele. "Parabéns".
Ele a abraçou propriamente, e ficaram assim por um minuto inteiro, como dois irmãos que se gostavam muito mesmo.
"E então..." Disse ele, soltando-a. "Cadê meu presente?"
Virginnie colocou uma mecha de cabelos negros para trás da orelha.
"Seu interesseiro" Disse, estreitando os olhos. "Quem disse que te comprei presente?"
Naell a encarou, e então sorriu malignamente.
"Pois se você não comprou... Serei obrigado a torturá-la!"
Ela estirou a língua para ele, e lhe deu as costas.
"Pois eu não comprei nada".
Assim que terminou de falar, sentiu o mundo rodar, quando ele a agarrou e a jogou sobre o ombro, como um saco de batatas. O irmão entrou na cozinha, a carregando, enquanto ela esperneava, socando suas costas largas. Jamiel, que tomava uma xícara de café, já na mesa, sorriu diante da cena.
Naell crescera bastante, naqueles doze anos, pensou o pai. O garoto era alto e forte, excelente espadachim e de mente afiada. Seus olhos verdes contrastavam com seus cabelos negros, lisos e longos, que lhe chegavam ao meio das costas. Era um guerreiro nato, como qualquer Demônio se orgulharia de ser, e logo logo já poderia despertar a atenção das garotas. Isso é, pensou o pai com amargura, se existisse alguma garota que quisesse sair com um híbrido indesejado.
Virginnie, por outro lado, era mais nova, mais gentil e delicada. Nem por isso era mais fraca, tinha a força de um homem, mesmo sendo uma garotinha de cabelos negros e olhinhos verdes e alegres. Era uma maluca total, não tinha as frescuras de uma garotinha mimada, e adorava as brincadeiras do irmão, mesmo que envolvessem ela cair, se arranhar ou, como era o caso, ser carregada como um saco de batatas. A garota era sua preocupação maior, era a mais sucetível aos preconceitos da Sociedade, e havia sempre a chance de sua beleza superar algum preconceito e algum desgraçado começar a namorar com ela.
Ainda bem, pensou Jamiel, sorrindo malignamente para a xícara, que Naell era o perfeito irmão mais velho ciumento.
"Não acredito que você ainda está nessa de que o Naell vai me impedir de conhecer algum garoto, pai" Reclamou a menina, toda despenteada e corada, depois do "passeio" com o irmão.
"Ei!" Disseram os dois, Naell e Jamiel, juntos.
"Eu não estava pensando em nada disso" Mentiu o pai, se perguntando se aquele tipo de intuição dela era natural ou mágica. Talvez devesse imaginar que ele era óbvio demais, simplesmente.
"Eu não vou falhar" Retrucou Naell, estufando o peito e fazendo uma careta maligna. Virginnie o socou na barriga que ele encolhera, e ele se dobrou para a frente.
"Sem brigas na cozinha" Comandou Nyara, aparecendo num avental e fazendo uma fila de pratos e travessas cheias flutuarem atrás de si. Com um gesto displicente seu, a comida pousou sobre a mesa já arrumada, espalhando um cheiro ótimo pela cozinha. Ela desfez o coque frouxo de seus cabelos, e sorriu, repentinamente esquecida da pequena troca de gentilezas entre os irmãos.
"Feliz aniversário, Naell!" Gritou ela, agarrando o filho mais velho num abraço apertado, que o deixou vermelho na mesma hora. Com um sorriso, o pai se juntou ao abraço, deixando o filho mais corado ainda.
"Oh, meu filhinho já está com doze anos!" Chorou falsamente a mãe. "Já é um homem feito, vou ficar aqui, abandonada e..."
"Não se preocupe" Interveio Jamiel. "Eu estarei aqui para consolá-la".
Um instante de silêncio caiu sobre a cozinha antes de...
"Tire suas mãos daí, antes que eu te esfole vivo" Resmungou ela, corando um pouco.
Os pais soltaram o filho, que se endireitou, meio sem jeito. Então Jamiel fez o gesto de agarrar alguma coisa em pleno ar e um longo embrulho surgiu em suas mãos. Ele sorriu, maroto, antes de entregá-lo ao filho.
"Um presentinho meu e de sua mãe" Anunciou ele.
O garoto imediatamente rasgou o papel de embrulho, voraz, e deu de cara com a bainha de couro macio, o metal gelado e bem moldado, as pequenas pedras de enfeite, e deixou o queixo cair, diante da belíssima espada.
Todos na Sociedade carregavam armas, e normalmente as usavam constantemente. Mas dos onze aos dezesseis, era mais comum que a criança usasse alguma espada velha dos pais, normalmente a primeira espada que estes usassem. Sempre havia, é claro, os que não se adaptavam com as armas da família, mas receber uma espada nova assim era bem incomum. A velha espada de Jamiel, que era a que o filho carregava, era de folha larga, mas curta demais para o gosto do garoto, que acabava por limitar seu estilo de luta. Já a da mãe, que ficara com a filha, era longa, mas fina demais, sem peso para ataques. A que estava em suas mãos, porém, era totalmente diferente: uma espada de lâmina longa, mas mais grossa que a espada da mãe, feita de metal negro, como era bem comum entre os Demônios, e uma única fina linha de prata, que começava desde a ponta da espada, percorrendo a lâmina, passando pelo cabo, até chegar na pequena esfera de prata que era o fim do cabo. Na junção da lâmina com o cabo, duas asas se projetavam, do mesmo material da espada, com pequenas formas de penas entalhadas, como as asas de um pássaro, mas negras como o resto da espada. No meio delas, um cristal prateado, ao mesmo tempo um enfeite e um depósito de energia para emergências, que Naell aos poucos encheria.
Sem palavras, ele abraçou os pais, sorrindo. Nyara fez um carinho nos cabelos do filho, emocionada também.
Virginnie se aproximou, e entregou outro pacote ao irmão, que se revelou um cinto para pendurar a sua espada nova na cintura, de couro negro como a bainha da arma, e com a fivela prateada. Ele a abraçou, rindo, e se perguntando como ela conseguira guardar o segredo sobre a espada dele, por tanto tempo.
"Foi bem difícil de forjar essa" Comentou o pai, abraçando a cintura da mulher. "Bem geniosa, eu achei".
"Eu não vi muitos problemas para moldar" Disse a mãe. "O metal aceitou bem as formas que eu tinha imaginado".
Os dois começaram uma pequena discussãozinha sobre como a espada fora forjada, com as reclamações de Jamiel rebatidas pelos argumentos de Nyara.
Os irmãos, vendo que os pais estavam em mais um de suas briguinhas, sentaram-se a mesa e começaram a tomar café, contentes.


O quintal dos Ainnion já tinha visto várias batalhas entre os membros da família, e aquela seria apenas mais uma delas. Na verdade, desde que Jamiel derrotara trinta e sete Lirells numa única luta, não acontecia nenhuma batalha séria no jardim. Nyara e a filha sentaram-se na sombra de uma das árvores, carregando maçãs, enquanto Jamiel e Naell desembainhavam suas espadas, sorrindo um para o outro em desafio.
"Uma batalha séria" Disse o pai, estalando o pescoço. "Mas sem truques baixos".
"Oras, sem truques baixos não seria uma batalha de Demônios" Respondeu o filho, alongando-se.
"Hum" Ponderou o pai. "Você tem razão".
Suas mãos se moveram tão rápido que os olhos não poderiam acompanhar o gesto. Um raio saltou delas, indo em direção do aparentemente despreparado Naell. Deixando o fingimento de lado, ele bloqueou o raio com a lâmina, avançando alguns passos enquanto murmurava um rápido encantamento. Jamiel, ouvindo as palavras do filho, conjurou para si uma barreira, ao mesmo tempo em que ficava em posição de defesa. A chuva de pequenos relâmpagos do filho foi absorvida por seu escudo, mas ele não previu a grossa fumaça que cobriu todo o campo de batalha, vindo de algum encantamento apenas murmurado por Naell. Na mesma hora, fechou seus olhos e apurou os ouvidos, bem a tempo de evitar o ataque que o filho lhe desferia.
Os dois se encararam, lâminas cruzadas, antes de cada um pular para trás, dar um passo para a frente e voltar à carga, ataques desferidos violentamente, precisos e mortais. O estilo de Jamiel era ligeiramente do de Naell. O pai preferia manter uma proximidade do alvo, alternando ataques precisos, mas mais fracos, com ataques pesados, desestabilizando o adversário, que nem ao menos poderia saber qual tipo de ataque viria em seguida. Quando o oponente estivesse cansado, Jamiel atacava violenta e pesadamente, rapidamente desarmando o inimigo e o jogando por terra. Já Naell tinha um estilo mais limitado, por ainda estar em desenvolvimento, que prezava mais ataques ágeis, que se esgueirassem pela defesa adversária e desarmassem o mais rápido possível o inimigo. Fora isso, o garoto se mantinha um pouco mais afastado, e usava socos e chutes, fora a espada, para lutar.
Os dois estilos, um contra o outro, se tornavam uma dança perigosa, onde ataques improváveis valiam muito, e defesas ágeis e resistência garantiam a sobrevivência. Naell sentiu o leve toque de sua espada na camiseta do pai, mais ou menos no flanco direito, mas logo um golpe forte, utilizando a parte chata da lâmina, o desnorteou e o afastou, quase caíndo para trás. Ele abaixou um pouco, como se estivesse sem equilírio, e aproveitou para passar uma rasteira no homem, que previu seu plano poucos segundos antes de receber o ataque, tempo suficiente para preparar uma defesa apropriada, mas sem conseguir armar uma resposta. O próximo golpe de Naell tentou atingir sua cabeça, mas ele defendeu com a lâmina, e pulou para trás, ao mesmo tempo que o garoto também se afastava.
Eles estavam suados, cansados, e a espada nova de Naell já estava pesada em seus braços. Era maior e tinha mais peso que a antiga espada. Ele limpou um arranhão que estava em sua bochecha, e tentou dar um ataque desesperado, se jogando contra o pai, de espada em punho. O homem fez um movimento, novamente muito mais rápido que se poderia perceber, e o garoto se chocou violentamente com o chão, onde o pai deveria estar.
Na mesma hora, sentiu o toque gelado do aço em sua nuca.
"Morto" Anunciou o homem, seu tom estranhamente sério.
Ele embainhou sua espada. Naell se levantou e sorriu, constrangido.
"Perdi de novo" Suspirou.
"Você é ótimo, filho" Riu-se Jamiel, perdendo a postura séria de batalha. "Um dos melhores espadachins que já vi. Mas tem muito o quê aprender, realmente".
Ele colocou as mãos na cintura, estufando o peito orgulhosamente, assim como fazia o filho, quando queria cantar vantagem.
"Ninguém derrota este Demônio aqui".
Foi neste instante que ele sentiu o inimigo às suas costas. Seus olhos se arregalaram de surpresa, o inimigo devia ter uma facilidade enorme em ocultar a si mesmo, e disfarçar sua presença, sua magia, e suas intenções. Ele sentiu o toque frio de uma lâmina em seu pescoço, que deslizou lentamente pela pele, até estar em posição onde qualquer movimento que ele fizesse acabaria em decapitação. A outra espada do astuto inimigo se mantinha em suas costas, um aviso gelado que qualquer gesto seu acabaria com ele morto. Delicadamente e muito lentamente, Jamiel tentou tocar sua espada, mas percebeu que ela não estava mais na bainha. Na verdade, nem a bainha ou o cinto estavam mais em sua cintura! Sua atenção se voltou para todas as armas que ele tinha escondido sob as roupas, mas não conseguia mais sentir nenhuma. Nem mesmo a faca da bota. Poderoso, forte, silencioso. Só havia uma palavra que descrevia todas aquelas habilidades, uma única classificação para o tipo de inimigo que o ameaçava. A figura atrás de si era um ladrão. E um dos melhores, sem dúvida.
Jamiel sentiu a respiração quase inexistente do ladrão tocar seu rosto, quando os lábios do inimigo se colaram à sua orelha. Uma voz macia e quente sussurrou para ele, fazendo sua pele se arrepiar e seu corpo estremecer.
"Morto".


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Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB