quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PARTE I - Side - POST I

TEMPUS

PARTE I - Side

POST I

A derrota era o sabor. Um gosto amargo e pútrido de derrota, quando, na verdade, era apenas uma vitória. Uma das vitórias com gosto de derrota.
Ali no meio estava o último sobrevivente. O último guerreiro, o quê restara de pé depois da chacina. Seus longos cabelos negros estavam ensebados com sangue e lama, os olhos verdes cansados e baixos, vazios de força, de vida, de significado. Todo o resto de seu corpo era coberto por uma armadura, manchada de vermelho e de negro. A espada em suas mãos era longa e fina, negra como uma sombra, e estava mole em seu braço, como se ele não tivesse mais forças para segurá-la.
O céu negro cobriu os corpos, as vísceras, o sangue. O gosto de derrota não abrandou com a chuva gelada que chorou sobre o campo de batalha, e nem abrandaria. O gosto nunca sairia de sua boca.
Naell sentiu que aquele era, sem dúvida, o fim para ele. Não podia mais lutar, nem gritar, nem continuar em frente. A chuva que lavava o sangue de sua armadura nem mesmo era um alívio para seus músculos cansados e doloridos. Ele jamais teria descanso agora. O fim estava ali, espreitando das sombras, e quando Naell finalmente o atingira, descobrira que tudo era uma ilusão. Não haveria fim agora, fim para sua dor e seu sofrimento. Sua culpa.
O homem ficou parado, ali, por horas, como se esperasse alguma maldição divina que lhe cairia sobre os ombros e apagasse sua existência. Nada lhe aconteceu, pois até mesmo esta benção lhe fora negada. Mas o som surgiu, sorrateiro e escuso, entrando em seus ouvidos.
Nem chegava a ser propriamente um som. Era como um eco, um ruído morto que agora era relembrado. Uma memória sonora há muito esquecida. Sentiu-se arrepiar, mesmo guerreiro de muitas batalhas que era, ainda lhe havia consciência o suficiente para que cada célula de seu corpo maldito lhe dissesse para fugir dali.
Antes de poder completar qualquer pensamento, a figura encapuzada surgiu diante de si. Vestia-se da cabeça aos pés com um manto negro e longo, que se arrastava pelo chão e descia por seu corpo magro em ondas sombrias. Atrás de suas costas, doze espadas de prata despontavam, nenhuma delas embainhada. Aquelas espadas jamais dormiam.
"Bom dia" Disse a figura, remexendo nas profundesas de sua capa. "Desculpe a demora".
A espada nas mãos do homem finalmente escorregou da palma suada e sangrenta e caiu no chão, com um estrépido abafado pela lama molhada de chuva. Os trovões cessaram naquele momento, e até o murmúrio da chuva se ausentou, mesmo que ainda chovesse.
"Quem é você?" Disse Naell, a língua embolada de cansaso, de dor e daquele maldito gosto de derrota que lhe subia pela garganta como uma cobra.
"Não importa" Respondeu a figura, ainda ocupada em remexer seus bolsos. "Quem é você?"
Um profundo silêncio caiu sobre os dois, enquanto o encapuzado desistia de procurar algo em seus bolsos e agora se ocupava em alisar a frente de seu manto, como se já soubesse a resposta que Naell lhe daria, e isso pouco lhe interessasse.
"Eu... não sei". Murmurou o homem. A figura assentiu, meio dando de ombros.
"Era o quê eu imaginava" Comentou, desnecessariamente.
A chuva agora descia gelada. Ou talvez já estivesse fria, e ele nem percebera em suas horas de miséria. Ele já tiritava de frio, mas a figura negra nem se mexera. Verdade seja dita, nem as dobras de seu manto se moviam.
"Eu tenho uma proposta" Revelou o encapuzado, enquanto eles observavam os abutres descerem sobre os mortos, prevendo um banquete profano.
"Qual seria?" Suspirou Naell, quase desinteressado. Os abutres não sabiam divir o alimento, atacavam uns aos outros no desespero pela comida. Mas havia tantos corpos ali, eles se fartariam antes de precisarem lutar...
"O quê você me daria... para ter sua vida de volta?"
O homem virou sua cabeça tão rápido que o pescoço estalou.
"Vida de volta?"
"Exato. Qual o preço que você pagaria para... ter outra chance? Para que eu devolvesse sua vida toda, e você pudesse vivê-la de novo... Do jeito que quisesse... Evitando os erros que achasse melhor evitar...?"
Naell caiu de joelhos na lama, aos pés da figura negra, enfiando a testa na terra úmida, enquanto lágrimas corriam por seu rosto.
"Qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer coisa..." Soluçou ele. "Tudo, eu lhe daria tudo!"
"Até mesmo a Soneta?"
Os soluços foram cortados. A cabeça de Naell se levantou, suja do lodaçal onde se enfiara. Um brilho de ódio e ganância insana correu por seus olhos, mas ele hesitou. A mão, que já corria para a espada caída ali perto parou em pleno movimento. Ele segurou o cinto, e desamarrou, com cuidado quase paternal, o pequeno saquinho de couro macio que havia ali. Sua mão tremia enquanto ele elevava o objeto até o encapuzado.
O outro o pegou com reverência, e o objeto sumiu nas profundesas de sua capa feita de sombras.
Um frio terrível se afundou nos ossos de Naell, e ele apertou os punhos fechados contra o peito. Sua respiração saía em jorros doloridos, enquanto pela primeira vez se via sem o precioso objeto. A Soneta dos Deuses.
A figura lhe deu as costas, e se afastou, as doze espadas sem bainha lhe encarando.
"Eu..." Arfou Naell. "Você... fez uma promessa".
Doze fios de espada se encostaram na carne desprotegida de seu pescoço. Se antes o frio descomunal lhe atingira, isso que ele sentia agora devia ser de outro mundo. Era um frio tão grande que queimava sua pele, que faria o Inferno parecer uma tardezinha no parque, que lhe dizia que nenhuma tortura ou força poderia vencer a dor que aquilo lhe traria.
"Você é um tolo, Naell Ainnion" Disse-lhe a figura. "E terá o destino que os tolos recebem, pois é isso que você merece. Pois bem, terás sua vida de volta. Sem lembranças, sem idéias, sem nada do quê você já tem. Seu poder ficará aqui, neste campo de batalha, dormindo no leito feito do sangue que você derramou".
Um trovão ecoou na distância, e a chuva engrossou, subitamente.
"O destino dos tolos não é a morte, pois essa é a recompensa dos vivos. Os tolos evitam-na, como se fugissem do próprio demônio. Os tolos têm medo da morte e da dor, do julgo que os espera, e do vazio que pode ser seu castigo. Pois não queres viver? Seu descanso lhe foi negado, como tudo neste mundo um dia lhe será."
A chuva formou um rio ao redor de seu corpo, uma espiral de água e gelo, que lhe partiu a armadura, os ossos e açoitou sua carne, como que um ferro em brasa. Os trovões ecoavam direto dentro de sua cabeça, e raios perfuravam seu corpo. Quando abriu a boca para gritar, uma torrente de água a invadiu, abrindo caminho por dentro de sua garganta, enchendo seu corpo.
"Agora vai-te".
A chuva corria por seu corpo, a água lhe pressionava como se fosse esmagá-lo. A torrente que lhe invadia o corpo agora corria em suas veias, alimentava seus órgãos, queimando e destruíndo seu corpo. A profanação não tinha objetivo de purificar as carnes, nem a alma. Apenas destruía, na sede voraz de lhe tirar até mesmo a vida, quando tudo o mais se fora.
"Diga, Naell".
Seus ouvidos estouraram, mas ele continuava a ouvir os raios e os trovões. Seus olhos foram perfurados, mas ele ainda podia ver as espirais de água, e mesmo quando seu coração parou, ele ainda vivia.
"Diga".
Toda sua mente gritava, tudo nele parecia pronto para explodir. Seria o seu fim, ali, na torrente das águas do Inferno e do Céu?
"Diga".
Sua boca se abriu mais ainda, como se quisesse abarcar todo o mundo, e tudo silenciou por um momento. O ar saiu de sua garganta, passando pelas cordas vocais, enquanto sua língua e lábios moldavam a palavra...
"TEMPUS!"
Então houve silêncio.


Em outro mundo, em outra história, homens guardavam suas vidas com todo o segredo. Entre as duas raças que disputavam um mundo manchado de erros, entre vidas que eram um segredo, uma maldição e uma bênção, ali construíam suas histórias, sobre os espólios de destruições passadas. Homens de poder e de saber, homens fracos e tolos.
O som das doze badaladas era abafado. Um choro alto e forte se ouviu, um grito de corpo e alma que encontrava o mundo. Uma lágrima correu a face de um homem, e uma mulher, exausta e destruída pelo esforço começou a rir alto, forte, claro, alegre.
Uma nova vida nascia.

Nenhum comentário:

 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB