TEMPUS
PARTE II - New Life
POST I
PARTE II - New Life
POST I
Como se poderia imaginar que, entre a multidão, estariam anjos ou demônios? Seria até engraçado imaginar que alguém que estivesse ao lado poderia ser, quem sabe, um Anjo. Eles não teriam asas e auréolas, nem os demônios possuiríam chifres e caudas longas e pontudas, mas seriam, mesmo assim, não-humanos. A Sociedade existe há tanto tempo que mesmo os mais entendidos do mundo e da vida se esqueceram que eles estavam lá. Iguais aos homens e mulheres que existiam aos bilhões, mas, ao mesmo tempo, tão diferentes.
Dizem as lendas mais antigas do mundo, e da Sociedade, que dois seres uniram seus poderes uma única vez, e salvaram o mundo de uma era de trevas e ignorância, expulsando as crenças tolas e perigosas do mundo, e trazendo um tempo novo de luz, sabedoria e ciência. Reinaram então, absolutos, sobre seu novo mundo. Um deles carregava o poder da escuridão e da morte, enquanto o outro tirava sua força da luz e da vida, e por serem tão diferentes sua união não conseguiu perdurar. Cada qual criou sua própria raça, os Demônios, senhores da treva e da batalha, e os Anjos, filhos da beleza e moldadores da vida.
A lenda está quase totalmente errada, mas acerta na parte em que as raças nunca conseguiram trabalhar juntas. Enquanto os Anjos brilhavam em sua magia pura e bela, os Demônios batalhavam em suas sangrentas guerras pelo poder da escuridão. E jamais um deles aceitaria se unir com algum outro da raça inimiga.
A Sociedade existe há tanto tempo que eles até se esqueceram dos verdadeiros motivos desta inimizade, mas conseguiram pelo menos se organizar em relativa paz. E desta paz, veio o abandono das antiquíssimas línguas antigas, compartilhadas pelos dois povos, e as primeiras relações, cercadas de segredos, com os humanos. Da união entre um membro da Sociedade e um humano comum, invariavelmente nascia uma criança pertencente a Sociedade, mas que se diria entre um Anjo e um Demônio?
Nada se podia originar de tal profana relação, estabeleceram os mais antigos filósofos, e os mais sábios entre os sábios. Pois se um Anjo perderia seus poderes e morreria se matasse um ser vivo por vontade própria, os Demônios também perdiam sua vida em contato prolongado com um Anjo. Fora isso, que tipo de criatura maldita nasceria desta união? Não seria Anjo ou Demônio, não poderia usar qualquer magia, nem teria qualquer poder ou direito. Uma vida fadada a não acontecer, era o quê decidiram os antigos das duas raças, chegando num acordo. Uma vida que não merecia ser vivida.
Numa das menores vilas da Sociedade, cercada de pés de trigo e campos sem fim, numa casa no começo da rua, morava um Demônio de nome Jamiel.
Na verdade, ele era um dos mais poderosos Demônios do mundo, e em seu sangue corria a benção da imortalidade. Ele não deveria estar ali, naquela casa de janelas quadradas e fotos nas paredes, jogado em um canto remoto do mundo, praticamente no meio do mato. Sua posição e sua linhagem deveriam estar em alguma metrópole da Sociedade, cercado de empregados, de dinheiro e de pessoas sem nenhuma utilidade prática, além de elogiá-lo constantemente.
Já Nyara era uma Anja, e seu poder, ainda que não tão grande quanto de vários Anjos, era forte o suficiente para viver num confortável e luxuoso apartamento numa grande cidade, onde poderia seguir os passos de seus antepassados e trazer mais brilho ao nome de sua família. Sua beleza e sua vitalidade, com a suspeita de que era uma imortal também, lhe garantiriam, com toda a certeza, um rico e próspero marido, uma fortuna em suas mãos, uma vida de luxo e poder.
Mas Nyara escolhera se casar com Jamiel, e assim a maldição começou. Pois, como se não bastasse o casamento de um Demônio com uma Anja, ela ficara grávida, e um garoto nasceu, o primeiro fruto de seu casamento.
Os cabelos do garoto eram negros, e seus olhos eram verdes, sua pele era branca e seu choro era forte, claro que ele se tornaria um poderoso guerreiro, mas sua vida era a de um renegado, de um maldito. Um híbrido indesejado.
No ano seguinte, a segunda cria amaldiçoada do casal veio ao mundo. Desta vez, era uma menina, com os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos verdes, a mesma sina sobre sua vida. Naell e Virginnie, dois nomes tão poderosos que há muito já haviam sido esquecidos pelo povo. Nomes que carregavam mais destino que qualquer maldiçãozinha social que poderiam receber. Jamiel, Nyara, Naell e Virginnie, a pequena família Ainnion, todos na aconchegante casa, isolados do resto do mundo em seu reino particular.
Doze anos haviam se passado desde o nascimento de Naell quando Jamiel, seu pai, fechou os grandes tomos de pesquisa que ele mesmo redigira a próprio punho, colocara sua espada na cintura e suspirara.
"Jamiel?" Perguntou sua mulher, passando os braços ao redor de sua cintura. "Está tudo bem?".
Ele esfregou a mão contra a barba mal-feita que ele descuidadamente deixara crescer, e suspirou mais uma vez, antes de girar e receber propriamente o abraço de Nyara.
"Acho que cheguei ao limite" Respondeu.
Nyara estremeceu levemente, se agarrando ainda mais ao marido.
Quando um Anjo vive ao lado de um Demônio, como eles viviam, só há um destino: o Demônio, por mais forte que seja, irá definhar e morrer. Jamiel sabia deste destino desde quando tinha seis anos. E descobrira que não se importava nenhum pouco, desde quando vira Nyara pela primeira vez.
Talvez fossem os longos cabelos negros que ela tinha, tão parecidos com os seus próprios, mas muito mais brilhantes e sedosos, ou talvez fosse seus delicados olhos azuis, sua pele branca e suave, sua voz calma e doce... Uma união de tudo isso, decidira. Não importava o preço a pagar, ele não podia viver sem ela. E, como um Demônio que ele era, ignorara todas as regras e conselhos, e finalmente a teve para si, para todo o sempre, para toda a eternidade.
Mas ele era um Demônio poderoso. Não podia simplesmente se conformar e morrer. Ele era ganancioso como só uma criatura das trevas pode ser, e astuto como um verdadeiro Ainnion. Desde o instante que se mudara ali com a esposa, suas pesquisas começaram. Se recusava, totalmente, a definhar lentamente ali, ao lado dela, e a deixar sozinha. A eternidade não era o suficiente para satisfazer seu desejo por ela, ele tinha que continuar ao seu lado, sem parar para coisas supérfulas como simplesmente morrer.
A energia branca que naturalmente saía de Nyara, como uma aura de magia da luz em excesso, era veneno puro para Demônios, se em contato prolongado. Um veneno lento, que matava aos poucos. Num dia, tudo bem, no outro, alguns tremores, e então, a morte. Mas muito lentamente, como se se deleitando ao matar o inimigo. Jamiel tentara diversas formas de abordar o problema. O primeiro, é claro, fora aniquilar essa energia. Em dois meses, ele já sabia como, mas isso significava que Nyara jamais poderia fazer magia de novo.
Então pensara em coisas mais abstratas, como direcionar a energia para algum recipiente. Suas experiências não deram nada certo, não havia nada que pudesse conter energia mágica pura. Como ondas curtas de magia, não havia problema, mas acumular tamanho poder... Tudo era frágil demais para conter algo assim. Era como tentar guardar raios dentro de sacos de papel.
Depois foram outras idéias, várias envolvendo sua própria magia. Nada efetivo.
"Não há nada, neste mundo, que possa fazer com quê um Demônio possa viver ao lado de um Anjo sem ser afetado por sua magia" Determinou ele, em voz alta.
O peso de suas palavras foi como blocos de aço sobre Nyara, e seu coração se apertou imediatamente, afundando no desespero. Mas ela se conteve, engoliu os gritos e o choro, e o encarou fortemente.
"E o quê faremos?"
Ele se soltou do abraço dela, e imediatamente ela sentiu frio, sem os braços dele ao seu redor. O moreno se jogou novamente em sua cadeira, e girou distraídamente uma pena nas mãos.
"Acho que é óbvio, muito óbvio".
Então, levantou num pulo, assustando ela. Ele foi até o armário, abriu uma das portas, e tirou uma mala de viagens. Ela engoliu em seco, quase sentindo vertigens com o pensamento negro que lhe ocorreu.
"Nós vamos procurar em outro mundo".
Dizem as lendas mais antigas do mundo, e da Sociedade, que dois seres uniram seus poderes uma única vez, e salvaram o mundo de uma era de trevas e ignorância, expulsando as crenças tolas e perigosas do mundo, e trazendo um tempo novo de luz, sabedoria e ciência. Reinaram então, absolutos, sobre seu novo mundo. Um deles carregava o poder da escuridão e da morte, enquanto o outro tirava sua força da luz e da vida, e por serem tão diferentes sua união não conseguiu perdurar. Cada qual criou sua própria raça, os Demônios, senhores da treva e da batalha, e os Anjos, filhos da beleza e moldadores da vida.
A lenda está quase totalmente errada, mas acerta na parte em que as raças nunca conseguiram trabalhar juntas. Enquanto os Anjos brilhavam em sua magia pura e bela, os Demônios batalhavam em suas sangrentas guerras pelo poder da escuridão. E jamais um deles aceitaria se unir com algum outro da raça inimiga.
A Sociedade existe há tanto tempo que eles até se esqueceram dos verdadeiros motivos desta inimizade, mas conseguiram pelo menos se organizar em relativa paz. E desta paz, veio o abandono das antiquíssimas línguas antigas, compartilhadas pelos dois povos, e as primeiras relações, cercadas de segredos, com os humanos. Da união entre um membro da Sociedade e um humano comum, invariavelmente nascia uma criança pertencente a Sociedade, mas que se diria entre um Anjo e um Demônio?
Nada se podia originar de tal profana relação, estabeleceram os mais antigos filósofos, e os mais sábios entre os sábios. Pois se um Anjo perderia seus poderes e morreria se matasse um ser vivo por vontade própria, os Demônios também perdiam sua vida em contato prolongado com um Anjo. Fora isso, que tipo de criatura maldita nasceria desta união? Não seria Anjo ou Demônio, não poderia usar qualquer magia, nem teria qualquer poder ou direito. Uma vida fadada a não acontecer, era o quê decidiram os antigos das duas raças, chegando num acordo. Uma vida que não merecia ser vivida.
Numa das menores vilas da Sociedade, cercada de pés de trigo e campos sem fim, numa casa no começo da rua, morava um Demônio de nome Jamiel.
Na verdade, ele era um dos mais poderosos Demônios do mundo, e em seu sangue corria a benção da imortalidade. Ele não deveria estar ali, naquela casa de janelas quadradas e fotos nas paredes, jogado em um canto remoto do mundo, praticamente no meio do mato. Sua posição e sua linhagem deveriam estar em alguma metrópole da Sociedade, cercado de empregados, de dinheiro e de pessoas sem nenhuma utilidade prática, além de elogiá-lo constantemente.
Já Nyara era uma Anja, e seu poder, ainda que não tão grande quanto de vários Anjos, era forte o suficiente para viver num confortável e luxuoso apartamento numa grande cidade, onde poderia seguir os passos de seus antepassados e trazer mais brilho ao nome de sua família. Sua beleza e sua vitalidade, com a suspeita de que era uma imortal também, lhe garantiriam, com toda a certeza, um rico e próspero marido, uma fortuna em suas mãos, uma vida de luxo e poder.
Mas Nyara escolhera se casar com Jamiel, e assim a maldição começou. Pois, como se não bastasse o casamento de um Demônio com uma Anja, ela ficara grávida, e um garoto nasceu, o primeiro fruto de seu casamento.
Os cabelos do garoto eram negros, e seus olhos eram verdes, sua pele era branca e seu choro era forte, claro que ele se tornaria um poderoso guerreiro, mas sua vida era a de um renegado, de um maldito. Um híbrido indesejado.
No ano seguinte, a segunda cria amaldiçoada do casal veio ao mundo. Desta vez, era uma menina, com os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos verdes, a mesma sina sobre sua vida. Naell e Virginnie, dois nomes tão poderosos que há muito já haviam sido esquecidos pelo povo. Nomes que carregavam mais destino que qualquer maldiçãozinha social que poderiam receber. Jamiel, Nyara, Naell e Virginnie, a pequena família Ainnion, todos na aconchegante casa, isolados do resto do mundo em seu reino particular.
Doze anos haviam se passado desde o nascimento de Naell quando Jamiel, seu pai, fechou os grandes tomos de pesquisa que ele mesmo redigira a próprio punho, colocara sua espada na cintura e suspirara.
"Jamiel?" Perguntou sua mulher, passando os braços ao redor de sua cintura. "Está tudo bem?".
Ele esfregou a mão contra a barba mal-feita que ele descuidadamente deixara crescer, e suspirou mais uma vez, antes de girar e receber propriamente o abraço de Nyara.
"Acho que cheguei ao limite" Respondeu.
Nyara estremeceu levemente, se agarrando ainda mais ao marido.
Quando um Anjo vive ao lado de um Demônio, como eles viviam, só há um destino: o Demônio, por mais forte que seja, irá definhar e morrer. Jamiel sabia deste destino desde quando tinha seis anos. E descobrira que não se importava nenhum pouco, desde quando vira Nyara pela primeira vez.
Talvez fossem os longos cabelos negros que ela tinha, tão parecidos com os seus próprios, mas muito mais brilhantes e sedosos, ou talvez fosse seus delicados olhos azuis, sua pele branca e suave, sua voz calma e doce... Uma união de tudo isso, decidira. Não importava o preço a pagar, ele não podia viver sem ela. E, como um Demônio que ele era, ignorara todas as regras e conselhos, e finalmente a teve para si, para todo o sempre, para toda a eternidade.
Mas ele era um Demônio poderoso. Não podia simplesmente se conformar e morrer. Ele era ganancioso como só uma criatura das trevas pode ser, e astuto como um verdadeiro Ainnion. Desde o instante que se mudara ali com a esposa, suas pesquisas começaram. Se recusava, totalmente, a definhar lentamente ali, ao lado dela, e a deixar sozinha. A eternidade não era o suficiente para satisfazer seu desejo por ela, ele tinha que continuar ao seu lado, sem parar para coisas supérfulas como simplesmente morrer.
A energia branca que naturalmente saía de Nyara, como uma aura de magia da luz em excesso, era veneno puro para Demônios, se em contato prolongado. Um veneno lento, que matava aos poucos. Num dia, tudo bem, no outro, alguns tremores, e então, a morte. Mas muito lentamente, como se se deleitando ao matar o inimigo. Jamiel tentara diversas formas de abordar o problema. O primeiro, é claro, fora aniquilar essa energia. Em dois meses, ele já sabia como, mas isso significava que Nyara jamais poderia fazer magia de novo.
Então pensara em coisas mais abstratas, como direcionar a energia para algum recipiente. Suas experiências não deram nada certo, não havia nada que pudesse conter energia mágica pura. Como ondas curtas de magia, não havia problema, mas acumular tamanho poder... Tudo era frágil demais para conter algo assim. Era como tentar guardar raios dentro de sacos de papel.
Depois foram outras idéias, várias envolvendo sua própria magia. Nada efetivo.
"Não há nada, neste mundo, que possa fazer com quê um Demônio possa viver ao lado de um Anjo sem ser afetado por sua magia" Determinou ele, em voz alta.
O peso de suas palavras foi como blocos de aço sobre Nyara, e seu coração se apertou imediatamente, afundando no desespero. Mas ela se conteve, engoliu os gritos e o choro, e o encarou fortemente.
"E o quê faremos?"
Ele se soltou do abraço dela, e imediatamente ela sentiu frio, sem os braços dele ao seu redor. O moreno se jogou novamente em sua cadeira, e girou distraídamente uma pena nas mãos.
"Acho que é óbvio, muito óbvio".
Então, levantou num pulo, assustando ela. Ele foi até o armário, abriu uma das portas, e tirou uma mala de viagens. Ela engoliu em seco, quase sentindo vertigens com o pensamento negro que lhe ocorreu.
"Nós vamos procurar em outro mundo".

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