terça-feira, 13 de outubro de 2009

Capítulo 6

Birthday Eve
Capítulo 6

As compras. O hacker. O furgão misterioso.


Eve ajeitou mais uma vez a bolsinha em seu ombro, nervosa. Os tênis não apertavam mais seus pés, nem o sutiã parecia incomodar tanto. O conjunto quente e rosa claro que usava já lhe era um prazer, e não mais um incômodo. Ela pensou que deveria ter colocado mais coisas na bolsa, e estava quase indo fazer isso quando Tristan apareceu no hall de entrada, carregando um grande envelope pardo. O sorriso dela se abriu, com um traço de nervosismo, talvez.
"Desculpe a demora" Disse ele, esfregando a mão direita na nuca. "Não conseguia achar isso aqui".
"Onde vamos?" Perguntou ela, os olhos verdes se acendendo e brilhando de curiosidade. Aqueles olhos eram os mais belos que o rapaz já tinha visto na vida.
Pensando bem, tudo nela era simplesmente perfeito demais. Seus cabelos ruivos eram de uma cor vibrante, quente, que jamais poderia ser simplesmente natural. A pele era branca como leite, os olhos brilhavam numa matiz de esmeralda que parecia uma pedra preciosa de verdade. As curvas, os traços, a voz, o cheiro... Tudo nela fora criado meticulosamente para encantar qualquer homem que colocasse os olhos nela. Eve era o desejo de qualquer criatura masculina que existisse no planeta.
"Onde vamos?" Repetiu ela, estranhando a imobilidade dele.
"Ao supermercado" Respondeu ele, corando por ter ficado tão perdido em seus pensamentos. Pensamentos com ela. "Precisamos comprar mais comida, e algumas outras coisas".
Ele destrancou a porta da frente, e a deixou passar primeiro, para uma fria manhã de Dezembro, e o primeiro vislumbre dela do mundo.
As ruas estavam enfeitadas para o Natal. Guirlandas e azevinhos enfeitavam portas e paredes das casas, luzinhas coloridas piscavam, entremeadas nos galhos das árvores, quase invisíveis na luz fresca da manhã de inverno. A rua e as calçadas estavam cobertas de uma finíssima camada de geada, a neve ainda não chegara, e parecia que não viria naquele ano. Alguns carros estavam estacionados na beira da calçada, cobertos também de geada, enquanto alguns pássaros que ficaram por ali faziam uma algazarra nas árvores e nos telhados. Andaram em silêncio por alguns minutos, em direção ao centro da cidade, com os olhos de Eve quase pulando para fora das órbitas de tão surpresa que ela estava com tudo. Seu cérebro despejava milhares de informações ao mesmo tempo, explicando cada coisa, descrevendo cada sentimento que ela tinha. Se seu QI não fosse tão alto, ela jamais conseguiria absorver todo aquele conhecimento repentino.
As ruas do centro já estavam movimentadas, com muitos correndo para fazerem as compras de última hora para o Natal. Pararam num cruzamento, e Tristan segurou a mão da ruiva para atravessarem a rua. Ela ficou surpresa ao sentir o toque gelado dele, mas gostou mesmo assim. Seu dono sempre cuidava tão bem dela.
Um velho vestido de vermelho ("Papai Noel" disse sua mente, e ela deu um risinho com o nome) tocava um sininho, numa esquina. Quando passaram por ele, o velhote enfiou rispidamente algumas balas nas mãos da garota. Tristan mal olhou para ele, mas parou ao ver que Eve não o seguia. Ela parara na frente do velho ranzinza e se pusera na ponta dos pés, dando um beijo na bochecha coberta pela barba falsa e torta.
"Obrigada, Papai Noel" Sorriu ela, antes de se afastar e voltar para perto de Tristan.
David, velho, cansado, com dores terríveis nas costas e um emprego de Papai Noel fajuto que lhe garantia pouquíssimo para complementar a já escassa aposentadoria, sorriu verdadeiramente pela primeira vez em anos. Era estranho pensar como uma jovem com o espírito de uma criança podia fazer seu Natal muito mais feliz.
Eve girou a balinha de cereja nos dedos, verdadeiramente fascinada. Então a enfiou na boca, mas o gosto a feliz engasgar.
Tristan suspirou.
"Eve, tire o papel da bala antes de colocar ela na boca..."

O supermercado não estava tão cheio quanto Tristan previra. Na verdade, parecia até bem vazio, julgando pelas ruas apinhadas. Eve se encantou com as gôndolas cheias de frutas, e com as grandes árvores enfeitadas que havia no lugar. Na verdade, ela parecia verdadeiramente uma criança, os olhos brilhando ao empurrar o carrinho de compras por entre as prateleiras, sorrindo com as surpresas que aguardavam em cada esquina. Mais de uma vez Tristan teve que correr para alcançá-la, enquanto ela disparava pelo corredor, visando alguma coisa que havia lhe despertado a atenção. Quando finalmente pararam no caixa, a garota ficou um minuto inteiro olhando, estupefata, para a esteira rolante onde colocavam os produtos. Saíram pouco depois, carregados de sacolas.
"O quê é isso?" Perguntou ela, apontando para um ramo de visco, que estava estrategicamente posicionado no teto, bem acima de suas cabeças.
"É... Visco" Disse ele, corando levemente. Certo, ela iria em frente e ele não teria que contar porque diabos aquele porcaria estava pendurada lá e...
"Mas porque tem azevinho no teto?"
Tristan corou duas vezes mais.
"Er... A tradição diz... Bem, quer dizer... Se duas pessoas... hum... Ficarem embaixo do visco juntas, bem, elas devem..." Ele engoliu em seco. "Se beijarem".
A garota examinou cuidadosamente a posição da planta, então olhou para ele.
"Bem, então temos que nos beijar" Disse, orgulhosa de seu raciocínio lógico.
Ela se aproximou rápido demais.
"Eve!"
O beijo estalou em sua bochecha, bem em cima daquele outro, de boa noite, que ele recebera dois dias antes. Não sabia se ficava aliviado ou se ficava decepcionado.
Ela o puxou pela mão, arrastando-o para outro lugar, sem deixar tempo que ele se decidisse.


O cheiro predominante era de queijo. Forte, meio rançoso até. Entrava pelas narinas e entorpecia o cérebro, enquanto parecia bater de frente com os sentidos do olfato como um caminhão descontrolado.
"Como você consegue viver nesse lugar?" Resmungou Riza, franzindo o nariz. O lugar era grande até, mas completamente coberto de máquinas e cabos. De espaço livre, sobrava apenas um cubículo, onde ficava a mesa, os três monitores e os dois teclados. CDs, consoles de video-game, placas de computador, aparelhos desmontados... Tudo ocupava um espaço tremendo, e tudo fedia a queijo. Ela mal aguentava ficar ali dois minutos, que diria passar semanas trancada naquele muquifo.
"Você não entende a beleza e a arte deste lugar, querida" Disse, saíndo de dentro das entranhas de uma das máquinas. Sua barriga era gigante, e o rosto era tão inchado de gordo que os pequenos óculos pareciam sumir na cara. Os dedos roliços ajeitaram o ralo cabelo oleoso, enquanto a pele encharcada de suor parecia pronta para romper, de tão frágil e pálida que era. Sem constrangimento algum, ele se coçou lentamente na frente dela, antes de bocejar e se jogar na grande cadeira com rodinhas, feita sob medida para seu tamanho monstruoso.
"Você devia tratar melhor sua única visita feminina na vida, Arty" Disse ela, olhando com certa repugnância para o chão imundo. "E devia fazer uma faxina de vez em quando. Eu acho que vi um rato ali".
"É de estimação" Cortou Arty, ajeitando os óculos na cara. "A que devo a visita?"
De repente o olhar dela ficou sério. Sua posição mudou, para mais concetrada. O franzir de nojo de seu nariz se dissolveu, e ela se aproximou, sem se perturbar pelos sons nojentos que seus sapatos faziam ao bater no que quer que cobrisse o chão.
"Um amigo recebeu uma encomenda, comprada pela internet. Agora ele quer devolver, mas o site sumiu." Resumiu a garota.
"Mas que droga, Riza" Resmungou Arty. "Achei que era um troço interessante, não um site que saiu do ar."
"Eu não disse que o site saiu do ar. Eu disse que sumiu".
Os olhos do homem brilharam quando a ficha caiu. Ele agarrou o papel que estava na mão dela e se dirigiu rapidamente ao seu computador, digitando o endereço do site assustadoramente rápido, seus dedos gordos batucando no teclado com leveza impressionante.
Logicamente o site não abriu. Sem piscar, ele abriu páginas e mais páginas, digitou coisas, resmungou consigo mesmo. Riza encostou numa mesa. Então rapidamente desencostou.
"Cuidado, eu estava fazendo umas experiências aí". Avisou ele, tarde demais.
Cinco minutos depois ele se voltou para ela.
"O site jamais existiu. Nunca foi cadastrado, o domínio nunca foi comprado. Não existe registro algum sobre ele na internet toda, nem mesmo um único traçozinho" Ele enxugou a testa com um lenço imundo. "Sumiu".
Ela se aproximou. Já sabia que seria assim. Quem quer que tivesse feito Eve, tinha uma tecnologia milhares de anos acima da atual. E parecia fazer qualquer coisa para sumir com suas pistas.
"Aqui está a hora e o endereço que a encomenda foi entregue". Disse ela, lhe dando outro papel. "Consegue tirar algo disso?".
Arty voltou-se para o computador de novo.
Um minuto inteiro se passou, até que uma impressora quase escondida numa montanha de embalagens vazias de salgadinhos deu sinal de vida, fazendo Riza pular de susto. Uma única folha impressa a laser rolou para a bandeja. Com um gesto do homem, ela a pegou.
Era uma foto colorida. Um furgão preto aparecia na foto. A rua era a de Tristan. Os vidros do veículo eram totalmente negros.
"Uma câmera tirou essa foto, trinta segundos antes desse horário aqui" Explicou ele. "O computador já está procurando na internet por este carro".
Um alerta soou no computador, e Arty virou novamente para a máquina. Riza ficou atrás dele, espiando por cima de seu ombro. As telas do computador iam e vinham tão rápido que ela não conseguia acompanhar.
"Achei" Resmungou ele, para si mesmo.
Seus dedos corriam furiosamente no teclado.
"A empresa não tem nome, nem registro oficial. É muito mais legal do que eu achei que seria. Mas tudo tem um número de IP. Parece que o carro foi comprado por ela, usando um nome falso. A compra foi dois dias antes da entrega. Deve ter sido quando o site abriu. O computador está escaneando o número de IP da máquina deles".
Riza acompanhou aquilo em silêncio. Então Arty deu um grito.
"ESTOU DENTRO!"
Ela se debruçou mais ainda. Na tela, minúsculas letras brancas corriam num fundo negro. Números, nomes, códigos. Pouco mais de cinco segundos depois, um gigantesco alerta vermelho tomou a tela toda. Um alarme soou, e Arty ficou branco.
Uma animação surgiu, uma única linha vermelha rompendo dezenas de linhas pretas. Era como um raio que rompesse dezenas de escudos. E então a tela ficou negra e o computador desligou.
O grito de Arty foi uma mistura de palavrão e choro. Ele socou a tela, derrubando-a para atrás da mesa. Riza estremeceu quando ouviu o monitor se quebrar.
O homem passou um lenço sobre a testa mais uma vez.
"Eu escrevi aquele Firewall. São trinta camadas de segurança máxima. Um computador da NASA levaria horas para romper minha segurança" Ele disse, lento e baixo. "Eles me hackearam em três segundos, acabaram com minha máquina. Vai levar dias para que eu recupere tudo".
O outro monitor continuava ligado. Um ícone piscava na tela.
"Isso foi tudo que eu consegui pegar".
Ele apertou um botão. No mesmo instante, dezenas de impressoras se ligaram ao mesmo tempo, imprimindo a mesma mensagem. Perto da mão de Riza, uma folha caiu, ainda quente da impressão. Ela a pegou, a testa se franzindo. Arty suspirou alto, indo pegar outro monitor para substituir o quê quebrara. Havia uma única palavra na folha branca.
HON

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