quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PARTE II - New Life - POST V

TEMPUS

PARTE II - New Life

POST V


Nyara apertou os lábios, enquanto examinava a longa espada prateada. Era uma coisa monstruosa, de quase dois metros de lâmina e trinta centímetros de largura na folha de aço. Devia ser tão pesada que somente um monstro de verdade poderia manuseá-la.
Toda a lâmina estava manchada de um sangue escuro e fétido, que parecia mais uma gosma que sangue de verdade. Atrás dela, dezesseis assistentes de alto nível aguardavam.
Ela apanhou a prancheta que um deles lhe estendia e examinou os dados que haviam ali.
"Alguém poderia classificar isto?"
Do outro lado da mesa, afastados cautelosos vinte passos da arma, uma turma de alunos do último ano do curso de Justiça, voltado para "habilidades de catalogação e cuidado de objetos nefastos", a observaram, receosos. Era quase irritante ver aquele bando de medrosos tentando uma vaga para um emprego que mataria a maior parte deles, se continuassem assim. Ao fundo, uma pequena mocinha loura levantou a mão, séria.
"Nível 8" Disse ela, com certeza na voz.
Nyara elevou uma sobrancelha delicada e negra.
"Discorra" Disse ela, casualmente, observando a lâmina. Aquilo era uma armadilha, afinal, e a garota caíra como uma patinha.
"Pela quantidade de sangue na lâmina, pelo tamanho e pela forma, pelo peso e pela habilidade necessária para manuseá-la" Disse a moça, encarando a mulher nos olhos. Afinal, Nyara não era muito mais velha que ela, talvez uns três ou quatro anos, aparentemente.
"Você está totalmente errada" Rebateu a morena, sorrindo calmamente. "Esta lâmina é de Nível 2, na verdade".
A surpresa da turma foi evidente.
Nyara começou observou a classe do último ano da mesma escola que ela estudara. Ela lembrava muito bem de sua própria turma. A maior parte de seus antigos colegas teria agarrado aqueles franguinhos que a observavam, pranchetas na mão, e os triturado de olhos fechados. Suspirou. Não se faziam mais catalogadores como antigamente.
"Ao vermos uma arma deste tamanho e de aparência tão perigosa, imediatamente a posicionamos num nível alto. Mas não é a forma ou a aparência que definem um objeto como perigoso. É a quantidade de magia que ele possuí. Todas as armas que são utilizadas pela Sociedade possuem nível 0, por não carregar magia alguma. As armas encantadas, mais perigosas, possuem o Nível 1. O que irá definir se uma arma é extremamente perigosa, o suficiente para ser apreendida, catalogada e guardada por nós, do Setor 34, é a magia que habita dentro dela, além de seus poderes. Enquanto vocês não aprenderem a ignorarem a forma e se concentrarem na magia, vocês não serão aprovados."
Ela olhou para a loirinha, que agora olhava desafiante para ela.
"Você receberá nota 2 hoje, por ter se guiado unicamente pela forma, e ter ignorado a magia que há nesta lâmina."
O resto da turma riu, quando a garota - que devia ser algum tipo de sabe-tudo - corou de vergonha e abaixou a cabeça.
"Vocês" Continuou Nyara. "Que nem sequer responderam a pergunta, receberão um 0. Dispensados".
A turma saiu reclamando e arrastando os pés, resmungando contra a mulher. Nyara fez um gesto para os assistentes, que imediatamente lacraram a arma em uma caixa de vidro enfeitiçado e a levaram. Krina se aproximou, trazendo um copo.
"O melhor café humano" Disse ela. "Ainda está quente".
"Milagre" Resmungou a mulher, tomando um longo gole.
"Parece que não teremos formandos este ano" Comentou a mulher, de cabelos loiros. Era uma Anja poderosa, se formara na mesma turma que a morena.
"Não são um décimo do que a gente era" Retrucou ela. "Um bando de mimadinhos que só têm olhos pro salário alto que a gente ganha aqui".
"Eles não têm noção de nada" Concordou a outra. "Da próxima vez, vou fazer a Ulla dar a aula. As cicatrizes dela vão despertar eles pra realidade".
Nyara riu. Então vestiu sua jaqueta. Na mesma hora, seu bracelete esquentou levemente, e ela encarou a peça de metal liso. Um código surgiu lentamente no aço que o formava.
"Temos um artigo fazendo bagunça lá em cima" Gemeu ela. "Até mais, Krin. Obrigada pelo café".
Krina deu de ombros, sorrindo. Então seu próprio bracelete esquentou e ela saiu correndo.

Dois homens altos aguardavam na frente da porta de metal negro. Nyara mostrou sua identificação para eles, já começando a ouvir os sons abafados que vinham de trás da porta. Algo estava saindo de controle bem rápido ali dentro. Os homens levaram apenas alguns segundos para destrancarem a porta, mas ela usou este tempo para sacar suas espadas gêmeas, ativar um escudo de proteção e preparar mentalmente um feitiço que já estava na ponta de sua língua. A magia brotava dela tão fortemente que os dois guardiões estremeceram, a energia da luz dela os prensando contra a parede. Nyara avançou.
Assim que cruzou a linha vermelha que havia após a porta, esta se fechou, e as luzes se acenderam. Ou melhor, parte das luzes, pois um bom pedaço das longas tiras luminosas fora arrancada das paredes. O cheiro de Aris, a substância que podia gerar luz, era forte na sala, e alguns rastros brilhavam fracamente no chão. Nyara sentiu seu coração desacelerar um pouco, suas costas ficaram mais retas e seus músculos relaxaram um pouco. Para um desconhecido, aquilo deveria significar que ela baixava a guarda, mas na verdade seu corpo entrava no estado de total concentração.
Sua percepção foi aditivada com mágica, agora se um grão de poeira dançasse no ar, ela saberia. Sua audição clareou, e ela pôde avaliar que a cento e dois metros havia confusão. Correu silenciosamente até lá, vencendo a distância em instantes.
Uma outra turma de calouros estava espalhada na sala adjacente. Duas assistentes levantavam escudos para protegê-los, enquanto uma Catalogadora, recém-formada, corria de um lado para o outro, atacando uma forma escura que brotava de um vaso de cerâmica. O vaso era bem alto e devia ser pesado, pintado de esmalte vermelho como sangue. A sombra que saía dele tinha uma pressão mágica esmagadora, as próprias paredes da sala lentamente se envergavam em sua direção.
Nyara saltou graciosamente para dentro da sala, parando na frente da turma assustada. Suas espadas ficaram em posição de combate.
"Sërë te las ta frikawa" Murmurou ela, deixando a magia correr em suas palavras. Imediatamente a criatura de fumaça foi envolvida num círculo de luz que a prendeu pela cintura.
Nyara virou para as assistentes congeladas de medo.
"Círculo de magia número 13, controle de artefatos, classe 3, e uma caixa." As duas piscaram tolamente, meio atordoadas. "É PRA HOJE!"
Seu berro as despertou. Imediatamente uma delas conjurou um balde de tinta roxa e um grande pincel, quase do tamanho de seu braço, e começou a pintar o chão com uma profusão de signos de Cedros. A outra agarrou seu bracelete e disparou algumas ordens, imediatamente fazendo surgir uma grande caixa de vidro e uma corrente de bronze.
A criatura de sombra conseguiu se livrar do círculo bem neste instante. Seus longos braços varreram parte dos símbolos desenhados no chão, e Nyara gritou um aviso. Correu, as espadas em suas mãos. Num gesto rápido, enfiou uma delas no cinto e agarrou a corrente de bronze das mãos da assistente. Murmurou um feitiço rápido, e saltou sobre o braço da criatura.
Pulou e avançou pelo braço, os pés magicamente leves afundando um pouco na "carne" de poeira e cinza. Fez um laço com a corrente e o girou, adicionando um feitiço enquanto o lançava.
O laço se apertou ao redor do pescoço da coisa. Nyara se postou na nuca da criatura e enfiou a segunda espada no cinto. Pulou para baixo, agarrada na corrente. Bateu no braço da criatura e saltou para o lado, plantou os pés na parede alta do salão e voltou a pular, correu na vertical pelas costas do monstro, antes de mais uma vez usar a parede como apoio, até pular para o chão, quase dois metros abaixo.
Quando os saltos de suas botas bateram no piso empoeirado da sala, o monstro de pó e fumaça já estava envolvido completamente pela corrente. As assistentes terminavam os últimos retoques nos símbolos do chão. Nyara sentiu os elos de bronze cortarem a pele de suas mãos, quando a criatura começou a se debater com força. Seus músculos se retesaram com o esforço, e os saltos pareciam a ponto de perfurar o chão, mas ela não se moveu um milímetro.
A magia escrita ficou pronta. Os símbolos se iluminaram até parecerem sóis roxos, e simplesmente saltaram do chão, se grudando ao corpo da criatura. Um estrondo horrível se ouviu, enquanto a magia escrita empurrava a criatura de volta para seu vaso. Nyara contou até três e deu um puxão na corrente, trazendo-a toda de volta, e sacando novamente suas espadas. A criatura entrou completamente no vaso, e as Assistentes avançaram com a caixa, prendendo o vaso dentro dela.
A morena prensou a palma de sua mão contra o vidro mágico da caixa, e murmurou uma única palavra. Uma grossa tranca surgiu no vidro, acompanhada de um cadeado tão grande quanto o punho da mulher. Imediatamente o cadeado estalou, trancando a caixa, e um número 8 surgiu no vidro.
Os escudos dos alunos caíram, e estes avançaram, correndo para a porta. A Catalogadora escorregou contra a parede, meio chorando, meio babando. As duas Assistentes conjuraram uma cadeira para Nyara, que esta aceitou, agradecida.
"Muito obrigada, Senhora Ainnion" Sorriram elas. Nyara fez um gesto com a mão, mostrando que não fora nada.
"A senhora precisa de mais alguma coisa?"
Nyara começou a curar suas mãos, e os arranhões nas pernas. Seus pés reclamavam dentro das botas subitamente apertadas.
"Um dia". Murmurou ela. As Assistentes elevaram as sobrancelhas, confusas. "Um único dia só mexendo com papelada chata e normal."
Nyara deu um grande suspiro, se levantando e começando a arrastar a inútil catalogadora pela gola da camisa.
"Seria o paraíso".

PARTE II - New Life - POST IV

TEMPUS

PARTE II - New Life

POST IV


"A Ilha de Aureus é o último lugar seguro da Sociedade. Construída em tempos imemoriais, toda a sua estrutura é feita de magia. Indetectável pelos Humanos, Aureus se mantém como posto de abrigo e ensino da Sociedade. Contando com o Instituto, a Cidadela e várias vilas, além de áreas livres e florestas, a Ilha é o ponto mais sagrado da Sociedade. Moradias garantidas, todos os bens necessários, correio e restaurantes".
Naell jogou para trás o grande folheto do Instituto.
"Lixo total" Resmungou.
Virginnie riu, rasgando seu próprio folheto sem nem o abrir, e o jogou no lixo, junto com o do irmão.
"Como é lá, de verdade, Naell?" Perguntou, se esparramando na cama do garoto.
"O Instituto é um lugar gigantesco, e cheio de regras, mas as aulas são legais. Já a Cidadela realmente tem casas legais ou bonitas, mas a gente que tem que fazer a maior parte das tarefas. Fora que qualquer um lá tem preconceito com a gente, menos alguns poucos amigos que eu fiz" Ele suspirou, voltando a limpar sua espada já absurdamente limpa e brilhante. Suas mãos precisavam fazer alguma coisa, enquanto a mente estava cheia de preocupações. "Ninguém quer entrar na floresta, mas é um lugar bonito lá, e o resto da ilha é totalmente horrível: tudo é artificial, ou encantado para parecer simplesmente lindo. Uma droga de lugar."
A garota assentiu, perdida em pensamentos. Ela nunca tivera ilusões sobre como seria quando tivesse que abandonar as aulas em casa com os pais e partir para Aureus, com suas aulas no Instituto, os alunos e principalmente o gigantesco ódio que qualquer um ali sentiria por ela ser um "híbrido indesejável".
"A gente que escolhe as casas?"
"Sim. Você vai morar comigo, normalmente é o quê irmãos fazem. As casas também são separadas em Anjos e Demônios, duas raças não podem morar juntas na mesma casa, mas algumas possuem mais de dez moradores, todos amigos ou conhecidos. Normalmente os Demônios acabam morando sozinhos, da mesma forma que os Anjos costumam morar juntos, entre amigos e parentes. Um ou outro Anjo que mora sozinho, normalmente os extremamente ricos, os que são filhos de Humanos ou os perturbados mentalmente, como o Gault".
Ele riu, lembrando do amigo e de suas tendências meio pervertidas.
"Ele é um tarado, fique longe dele!" Sorriu ele para a irmã.
Ela fez uma careta, pensando em ter de passar um ano numa ilha longe de tudo, cheia de preconceituosos e, agora, um tarado. Suspirou.
"Mesmo assim, você vai acabar se adaptando. E pode me chamar, sempre que precisar matar uns idiotas moralistas" Disse o irmão, carinhosamente, abraçando a garota.
"Eu vou aprender magia?"
Naell fez uma careta.
"Não, nós não podemos aprender magia na escola. Nós dois, eu quero dizer. Nossa magia não é branca ou negra, não tem jeito". Ele viu que a irmã ficara decepcionada, e emendou: "Mas sempre temos um jeitinho, afinal..."
Ele fez um pequeno gesto, e um livro flutuou até ele.
"...nós somos parte dos Ainnion!".

Jamiel olhou para os dois lados, antes de abrir o lustroso armário polido que lhe pertencia. Era um armário extremamente bem feito, de aço polido como a lâmina de uma espada nova, cada porta estreita com exatos trinta centímetros de largura por um metro de altura. Três prateleiras do mesmo material dentro de cada armário, e uma placa com o nome de cada dono em cada porta. Mesmo assim, era um armário de design espartano, minimalista, sem adornos ou enfeites, assumindo um ar sério e prático. O Demônio se sentiu satisfeito ao se ver totalmente sozinho na sala de armários. A porta fora devidamente trancada com um longo e complicado encantamento, e ele tinha tempo o suficiente para fazer o trabalho.
Sussurrou um feitiço e deu sua contra-senha, escrevendo com o dedo os símbolos corretos na poeira de dentro de seu armário. Imediatamente as coisas que haviam ali sumiram, sendo substituídas por um disforme embrulho de panos, do tamanho de um bebê. Com cuidado, o homem o retirou do armário e o escorregou para um bolso mágico em seu sobretudo. Checando novamente o lugar, ele resmungou os feitiços de proteção e suas coisas reapareceram no devido lugar. Satisfeito, trancou o armário e destrancou a porta, levando o embrulho consigo.
Os corredores longos da Central estavam quase vazios, mas isso era normal. O Governo da Sociedade dividira seus departamentos em centenas de prédios há quase setenta anos, livrando a Terra Santa de Sindarä de abrigar os milhares de departamentos e escritórios que abarrotavam suas dependências. Agora havia uma grande e impessoal construção para praticamente cada função que um membro da Sociedade poderia desempenhar. Jamiel passou pelos cubículos envidraçados onde ficavam "guardados" os Caçadores - responsáveis pela procura e apreensão de criminosos e malfeitores - e sorriu para os que o cumprimentavam. Era difícil não se sentir intimidado pela figura alta e majestosa do Ainnion, e aqueles que o viram em ação jamais esqueceram dos tempos em que ele fora chefe do setor de Caçadores. O moreno abriu uma porta dupla e passou pelas fileiras intermináveis de Anjos e Demônios que cuidavam da Vigilância, usando longas mesas quadriculadas que simulavam o posicionamento de cada rua, prédio, mar ou lugar onde membros da Sociedade estivessem. Gnevard, o chefe da Vigilância o cumprimentou, sério e calado como sempre, o encarando firmemente com seu único olho dourado restante.
"Problemas, Chefe Gnevard?" Perguntou Jamiel, sério. O homem a sua frente era famoso pelo modo com que perdera o olho direito, numa luta contra um Famir. Mas mais lendária ainda era a maneira com que ele agia numa batalha. Ainda contavam pelos corredores sobre o estado que Yerald Mão-Branca chegara no hospital depois de uma luta com ele. Dizia que o que sobrara do vilão chegara pelo correio.
"O de sempre" Rosnou o homem, em seu jeito de capitão de batalha que vira guerras demais para relaxar outra vez. "Lutas entre Anjos e Demônios, rumores sobre os Justos, leis estúpidas do Conselho sendo aprovadas... Disseram que vão reativar os Corretores Literários, é um absurdo!"
Jamiel desviou seus pensamentos para Nyara. Era com certeza acabaria arranjando alguma confusão em seu próprio trabalho, se a história dos Corretores fosse verdadeira.
"E tivemos problemas com Gadriel de novo" Terminou Gnevard, suspirando alto. "Aquela menina é mais lisa que um bagre ensaboado. Nós tínhamos duas ordens: não tirar o olho dela, e impedir que se encontrasse com aquele Demônio maldito. E ela conseguiu fugir!"
"Estão sem pistas dele?" Perguntou Jamiel, repentinamente nervoso. Ele sabia muito bem o quê iria acontecer se aqueles dois voltassem a se encontrar.
"Nenhuma! Se aquele Conselho estúpido parasse de tentar criar um passado decente para nós e se preocupasse com o agora, poderiam assinar uma busca contra ele. Mas não!"
Jamiel concordou, e Gnevard foi chamado em uma das mesas da Vigilância, alguém dizia que estava vendo um elfo comer sua árvore no jardim. O moreno continuou andando, pensamentos sobre como as coisas estavam ruins agora. Tocou a espada que carregava no cinto, e sentiu-se um pouco mais confiante com este gesto. Destrancou a porta ao fim da sala da Vigilância e entrou no ambiente fresco e silencioso dos arquivos gerais, andando depressa para não ficar muito tempo perto daqueles documentos. Ao longe, ouviu um grito e um barulho alto que parecia mil serras cortando um troco particularmente grande.
"Malditos estagiários" Resmungou, antes de destrancar a próxima porta e se ver na sala confortável onde trabalhava.
Mesas e escrivaninhas ficavam dispersas, em qualquer lugar, como se alguém simplesmente as tivessem deixado lá por acaso. As paredes eram forradas de um tecido vermelho escuro, a cor dos Demônios. Ele afundou os pés no carpete avermelhado que cobria todo o chão da sala grande e muito alta. Não havia janelas, elas não eram necessárias, e a cada tanto um cilindro prateado e oco se elevava do chão. Jamiel andou até sua mesa, onde uma pilha gigantesca de papéis se amontava, alguns deles dando a impressão que estavam ali há um bom tempo. Sobre o tampo lustroso da mesa de mogno pesado, apenas um porta-lápis abarrotado, um caderno e o porta retrato duplo, com a foto de Nyara e outra dos filhos. Ele girou a chave dourada da primeira gaveta e abriu uma delas. Tirou de lá uma pasta amarelada e grossa, fechada com dezenas de cordões prateados. Era um documento do Arquivo Geral, um relativamente poderoso, de sete correntes.
Jamiel trabalhava num dos setores mais antigos da Sociedade, um dos três grandes setores negros. Os setores negros, qualquer criança poderia informar, eram "Guerra", "Justiça" e "Inteligência", cada um deles englobando uma miríade de setores menores, como os de Vigilância, os Bibliotecários, Arquivadores, Limpa-Ruas e até mesmo setores escusos e cheios de segredos como o Setor 34 ou o insondável "Catálogo 12". Jamiel passara por vários setores, desde seu início como um Caçador até mesmo num trabalho de duas semanas como Limpa-Ruas, quando decidiram que ele era o homem certo para lidar na Sala Vermelha, como chefe do Esquadrão de Defesa. Nesta posição tão privilegiada ele possuia sob seu comando nada menos que cento e trinta e sete setores menores, inclusive os que ele já trabalhara antigamente. Mais que uma honra, era também uma gigantesca responsabilidade, e uma grande dor de cabeça, visto a pilha de relatórios que estava sobre sua mesa. O homem lançou um olhar sujo para os papéis enfadonhos, que relatariam horas e horas de vigilância numa ruazinha com um único morador da Sociedade, numa noite de verão em que nada aconteceria.
Mas as promoções não se davam por habilidade e capacidade apenas, mas também pelo poder. Os Arquivos que a Sociedade acumulava quase sempre não eram normais. Feitiços poderosos se enraigavam neles, os tornando quase selvagens e, geralmente, malignos. Para trancá-los em suas salas, a Sociedade adotara o sistema de correntes, e dividiam a periculosidade de um documento pelo número de correntes que ele possuía. Da primeira corrente, onde qualquer empregado poderia lidar com o arquivo em questão, até a décima segunda, onde apenas os doze membros do Conselho poderiam abrí-los ou enfrentá-los. Quanto mais alto era seu poder, mais correntes você podia abrir, e maior era seu cargo. As sete correntes que prendiam a pasta em suas mãos eram mais que apenas uma defesa contra o quê quer que o arquivo guardasse, era também símbolo de seu poder, visto que poucas pessoas poderiam lidar com documentos de nível tão alto. E Jamiel tinha poder suficiente para lidar com arquivos de até dez correntes.
Tirando seus pensamentos de tudo o mais, ele murmurou um encantamento e as sete correias de prata que seguravam o documento sumiram, ao mesmo tempo que um clima pesado caía sobre a mesa dele. Concentrado, abriu a pasta amarelada e sentiu o toque rude de magia perigosa que o atacou quase imediatamente. Usando sua força de vontade e um olhar irritado para a papelada que o aguardava depois daquele serviço, começou a ler.

PARTE II - New Life - POST III

TEMPUS

PARTE II - New Life

POST III


Virginnie se espreguiçou, sorriu um pouco e então decidiu intervir pelo pai.
"Mãe, o pai tá ficando roxo" Disse ela, rindo.
Jamiel sentiu na mesma hora um sopro suave, e então Nyara estava abraçando a filha e rindo com ela, quase do outro lado do jardim. Suas armas estavam todas nos devidos lugares, até mesmo o cinto com a espada embainhada. Naell deu de ombros, e riu, batendo de leve nas costas do pai.
"Às vezes eu esqueço" Resmungou o homem, caminhando em direção às garotas.
"E mamãe faz você lembrar" Riu-se o filho, indo em direção à mãe e a irmã.
Olhando para a forma delicada de Nyara, com a pele suave e branca, os cabelos negros e os olhos azuis, era fácil imaginar que ela tinha um histórico mediano com batalhas, ainda mais sendo uma Anja, sem poder jamais matar alguém sem definhar até morrer no processo, e que deveria ter algum emprego burocrático, ou bucólico, talvez cuidando de pessoas, de crianças, ou preenchendo papéis, ou plantando flores. Era quase impossível adivinhar que Nyara sempre fora uma das maiores ladras da Sociedade, com habilidades além da imaginação para roubar, incapacitar e ameçar adversários. Ela nunca fora uma garota-problema, realmente, sua ficha estava totalmente limpa (exceto por uma pequena situação que há muito ela já quitara a dívida com a Sociedade), mas todos os líderes da Sociedade concordaram que era muito melhor manter ela dentro de seus domínios, trabalhando para o governo, do quê fora. Principalmente com a disposição dela de abrir portas ou janelas, de preferência que não lhe pertenciam, e "retirar" as coisas que estavam atrás delas. 'O melhor guardião é sempre um ladrão' era o lema do Setor 34, um conjunto de escritórios na sede do governo da Sociedade, cujas responsabilidades era controlar atividades ilícitas e proteger objetos considerados perigosos. Nyara entrara no Setor 34 com dezenove anos, no posto de escrivã de catálogos para objetos raros, porém inofensivos. Aos vinte anos, quando ficou grávida pela primeira vez, era a chefe do esquadrão designado para coletar, catalogar e vigiar objetos que ameaçassem a segurança interna e externa da sociedade.
Suas habilidades constavam desde arrombamentos de cofres mágicos e incapacitação de líderes de organizações perigosas até mesmo uma tendência de olhar malignamente e rondar pela casa quando alguém roubava os biscoitos do pote. Normalmente a resistência da família, durante estes interrogatórios sobre os biscoitos, durava apenas alguns segundos, antes do culpado se entregar, rogar por perdão e jurar não repetir o crime.
O casal de irmãos entrou na casa, discutindo animadamente sobre espadas, lutas e a cara do pai ao perceber que estava sendo atacado. Jamiel sentou-se sob a árvore, e colocou a esposa em seu colo.
"Você está bem melhor do quê antes" Disse ele, beijando seu pescoço. "Chega a assustar".
"Você sabe que numa luta séria eu perderia" Retrucou ela, tentando focar sua mente, mesmo com as "distrações" dele.
"Nunca se sabe" Respondeu, meio num rosnado, enquanto a derrubava no chão e ficava por cima dela. Seus beijos começaram a ficar mais intensos e famintos, mas ela conseguiu reunir forças e sanidade o suficiente para afastá-lo um pouco.
"As crianças logo irão para a ilha, que tal você se conter mais um pouco?" Disse, arfando e corada.
"Duas semanas!" Exclamou ele, como se ela tivesse dito algo inumano. "Eu não posso aguentar tanto assim!"
Nyara sorriu, acariciando lentamente o rosto de seu marido. Treze anos de casamento, pensou ela, repentinamente. Tão pouco tempo, quase nada.
Jamiel girou seu corpo, deixando ela por cima dele, e segurou seu rosto com as mãos.
"Nós vamos ficar juntos" Disse ele, tão firmemente que poderia ser verdade. "Para sempre".
"Eu quero saber como iremos para outro mundo" Exigiu ela, firmemente. O homem se ergueu, colocando ela no colo novamente, ambos sentados na grama.
Jamiel estalou os dedos, quase sem perceber, e um pequeno galho seco voou para sua mão. Ele escolheu um trecho de terra nua, perto deles, e desenhou um círculo no chão, meio torto.
"Pelas minhas pesquisas, cheguei numa história bem intrigante, que bateu perfeitamente com alguns fatos que eu pude testemunhar pessoalmente" Disse ele, assumindo um ar professoral. Ela apenas ouvia, totalmente atenta.
"Para cada ação ou decisão que tomamos, um novo futuro surge, e milhares morrem. Entre uma escolha e outra, surgem dezenas de futuros, um para cada opção, e as ações e transformações que tais decisões causam. Se escolhermos uma coisa, os mundos onde escolhíamos as outras opções desaparecem, e surgem os novos futuros, baseados na escolha que tomamos. Você consegue entender isso?"
"Sim." Respondeu ela, concentrada nas palavras dele. "Mas não parece muito real".
Ele sorriu.
"Não parece, mas é assim que a coisa funciona. Há muito, muito tempo, no início de tudo, doze futuros surgiram. Estes, ao invés de morrerem, se tornaram Universos completos, e iguais. Cada um destes Universos é regido por um ser supremo e todo poderoso, que simplesmente é um único ser, em suas várias faces. Doze faces, doze Universos. Por seu poder extremo, cada um deles governa o próprio Universo em poder absoluto."
Nyara engoliu em seco.
"Os Doze Deuses Absolutistas" Sussurrou.
"Os nossos Deuses" Assentiu ele. "Um para cada Universo, doze faces do mesmo Criador. No começo, todos iguais, e com o passar das eras, as eras ainda de escuridão e Nada, foram se modificando, assumindo formas e tendo seus próprios projetos. Para cada um deles, um Universo inteiro para tomar conta. Assim, cada Universo acabou se tornando diferente do outro, deixaram de serem espelhos uns dos outros e assumiram seus futuros próprios. É claro que um ou outro possui características em comum com outro, alguns podem parecer até iguais, mas sempre há uma diferença, alguma decisão que os alterou para sempre".
Ele desenhou um segundo círculo, perto do primeiro. Visto de longe, poderiam até parecer iguais, mas eram desiguais, se examinados atentamente.
"Os Deuses não poderiam deixar que alguma informação, alguma coisa, de um Universo passasse para outro. Isso poderia provocar terríveis interferências, poderia criar futuros imprevisíveis ou destruír futuros que já estivessem garantido que aconteceriam. Desta forma, eles criaram doze camadas, que circundassem seus Universos, doze barreiras que protegessem seus mundos. A palavra certa para nomear essa barreira se perdeu faz muito, muito tempo, mas os registros mais recentes, de apenas alguns milhares de anos atrás, as chamam de Eximeres".
Jamiel desenhou uma fina linha separando os dois círculos, os dois Universos.
"As Eximeres, assim como os Deuses Absolutistas e os Universos, são apenas faces de um todo único. E cada uma recebe um nome, mesmo que sejam a mesma coisa. Os nomes reais destas Eximeres também se perderam, só os Deuses os sabem, na verdade, mas são coisas tão abstratas que respondem à Fé, e não ao nome"
"Como assim?" Perguntou ela, lentamente. Aquilo tudo era um pouco irreal demais para ser absorvido tão rapidamente.
"As barreiras, as Eximeres, não são feitas de algum material. São feitas de sentimentos, de crenças, de fé pura. Se alguém crê que elas existam, elas passam a existir. Se alguém deixa de acreditar, elas enfraquecem. Se todos os seres do Universo deixarem de acreditar numa Eximere, a força do Deus Absolutista consegue durar mais alguns bilhões de anos, mas depois ele precisará de uma ajuda. É por este motivo que sabemos destas coisas, para que acreditemos nas Eximeres e elas possam continuar existindo. E por serem baseadas em Fé, não importa o nome que a gente dê para elas, elas saberão qual delas está sendo invocada."
Ele parou e sorriu para ela, maroto.
"Por isso é bom você começar a acreditar nessas coisas, ou elas vão acabar desmanchando!"
"Continuando... As Eximeres estão bem enfraquecidas, pois sua existência é quase ignorada por todos. Desta forma, surgem "buracos", nelas. A maior parte é menor que um átomo, e dura minusculas frações de tempo, partes de um segundo. Mas outras são imensas, do tamanho de uma janela comum, e duram meses. Numa das minhas viagens, encontrei uma destas janelas."
Ele desenhou outra Eximere, mas desta vez ela estava partida ao meio, com um espaço.
"Passar para outro mundo é coisa absurdamente simples, com um furo daquele tamanho na Eximere que rodeia nosso Universo. O mundo em que cheguei era exatamente igual ao nosso, mas vários e vários anos a frente. Acredito que duas ou três décadas. O lugar em que saí era o mesmo de onde eu tinha partido, mas algumas coisas estavam bem diferentes. Não encontrei ninguém, mas também não andei muito. Tinha medo de me afastar demais da janela e perdê-la, ou então que ela fechasse quando eu não estivesse por perto. Nunca se sabe quando buracos daquele tamanho vão abrir, ou se fechar. Poderia levar séculos para outro surgir, e ele poderia estar do outro lado do mundo. Fiquei uma semana lá, até o buraco começar a fechar, foi quando eu voltei."
"Você esteve em outro mundo?" Perguntou ela, espantada. Ok, isso era demais, para qualquer um.
"Por pouco tempo. Mas estar em outro mundo me trouxe muitos conhecimentos. Você sabe como é fácil de absorver histórias que as coisas têm pra contar. Eu peguei algumas histórias bem interessantes".
Ele desenhou no chão uma forma que parecia uma bacia, e outra que se assemelhava à um cordão, ou colar, com uma pedra como pingente.
"As histórias daquele mundo contam de um mineral que pode transformar magia. Ele é forjado por tempestades de energia mágica, que caem na terra. As tempestades mágicas nossas são recentes demais, não deu tempo para esse tipo de coisa se formar ainda, completamente, mas as daquele mundo estavam completas. A pedra de energia poderia transformar a energia da luz que sai de você em energia das trevas, como a minha. Isso acabaria com nosso problema, desde que você usasse a pedra o tempo todo, e não afetaria sua magia, já que ela só transforma a magia em excesso que você libera".
"Um filtro para minha magia liberada" Concluiu ela, sorrindo. Dane-se a loucura, se aquilo existia, ela ia encontrar.
"A segunda lenda, e a mais intrigante, fala de uma arma, uma coisa, que fica andando pelos mundos. É a única coisa que pode deslizar pelas Eximeres, sem ter de encontrar perfurações nelas. A coisa fica numa bacia, mas também pode assumir qualquer forma, qualquer consistência e tem mais poder que os Doze Deuses Absolutistas. Sua forma, geralmente, é um líquido de prata pura, que fica flutuando dentro desta bacia. Mesmo sendo líquida, se você tentar colocar algo dentro da bacia, ela é como sólida, uma substância totalmente impenetrável, e se tirá-la da bacia ela flutua no ar, como gás. Pode ser moldada em qualquer forma, e não tem massa definida, você pode encher uma caixa de fósforos com ela, ou um oceano, e sempre haverá a mesma quantidade da coisa."
"Isso não existe" Resmungou ela. Era a loucura-mor. A campeã do dia.
"Todos os mundos possuem lendas sobre essa coisa. Diferentes versões, mas sempre a descrevendo com a mesma aparência, as mesmas propriedades. Ela é a energia pura, a causa de guerras ancestrais, pois qualquer um pode tomá-la para si, e quem a possuir é mais poderoso que um Deus. No mundo em que estive, ela é chamada de Arma dos Deuses. Aqui, Irmã da Morte. Em livros antigos que pesquisei, livros guardados às sete chaves, em cofres ancestrais da Sociedade, livros que decididamente vieram de outros Universos, ela é chamada de Arma Maldita, de Senhora do Poder, de Filha dos Deuses..."
"Coisinha simpática, não acha?" Resmungou a moça, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha, e encarando o desenho de bacia, no chão.
"Um único nome que é usado por todos os mundos. 'Soneta', a arma invencível. Ninguém sabe em qual mundo a Soneta está, mas se ela perceber que estamos atravessando alguma Eximere, irá se interessar por nós. Por isso, se você encontrar qualquer coisa parecida com a Soneta, qualquer coisa mesmo, não pegue, não toque, não aceite, não olhe, e saia de perto. Principalmente, não deixe ela te tocar, nem a aceite. Quem a possuir, imediatamente despertará a atenção de tudo que existe nos doze mundos. Deuses, seres, Anjos, Demônios, Humanos, criaturas das trevas, criaturas da luz... Qualquer coisa tem um instinto quase total por querer a Soneta."
Nyara sentiu um arrepio, e se encolheu mais, contra o peito do marido.
"Isso tudo, porque a Soneta possui uma característica mais terrível que todas as outras que ela já tem. Mais terrível que a forma, que as habilidades, ou que o poder".
"O quê?" Sussurrou a mulher.
Jamiel a abraçou, ele mesmo sentindo frio, por suas próprias palavras.
"Ela é viva".

PARTE II - New Life - POST II

TEMPUS

PARTE II - New Life

POST II



Naell abriu os olhos, encarando o teto do quarto, ainda meio adormecido. Içou-se da cama e cambaleou até o banheiro. Suas mãos erraram por perto do espelho, derrubaram a escova dentro da pia e a pasta no chão. Resmungando consigo mesmo, ele apanhou suas coisas, e começou sua higiene matinal, se esquecendo completamente de seu aniversário.
Só depois que saiu do banheiro, se trocou e abriu a porta do quarto que se lembrou que agora estava com doze anos. Sorriu, repentinamente feliz, e começou a assoviar alegremente enquanto descia as escadas. Estava na porta da cozinha quando uma garota se jogou contra ela, quase o derrubando no chão, e o beijando na bochecha.
"Feliz aniversário!" Gritou ela, em seu ouvido.
Rindo, o garoto a segurou pela cintura e a rodou pelo ar, enquanto ela soltava gritinhos.
"Obrigado, Gin!" Riu ele de volta, finalmente a colocando novamente no chão.
"Seu idiota, quase me matou" Resmungou ela, um sorriso nos lábios, e socando o braço dele. "Parabéns".
Ele a abraçou propriamente, e ficaram assim por um minuto inteiro, como dois irmãos que se gostavam muito mesmo.
"E então..." Disse ele, soltando-a. "Cadê meu presente?"
Virginnie colocou uma mecha de cabelos negros para trás da orelha.
"Seu interesseiro" Disse, estreitando os olhos. "Quem disse que te comprei presente?"
Naell a encarou, e então sorriu malignamente.
"Pois se você não comprou... Serei obrigado a torturá-la!"
Ela estirou a língua para ele, e lhe deu as costas.
"Pois eu não comprei nada".
Assim que terminou de falar, sentiu o mundo rodar, quando ele a agarrou e a jogou sobre o ombro, como um saco de batatas. O irmão entrou na cozinha, a carregando, enquanto ela esperneava, socando suas costas largas. Jamiel, que tomava uma xícara de café, já na mesa, sorriu diante da cena.
Naell crescera bastante, naqueles doze anos, pensou o pai. O garoto era alto e forte, excelente espadachim e de mente afiada. Seus olhos verdes contrastavam com seus cabelos negros, lisos e longos, que lhe chegavam ao meio das costas. Era um guerreiro nato, como qualquer Demônio se orgulharia de ser, e logo logo já poderia despertar a atenção das garotas. Isso é, pensou o pai com amargura, se existisse alguma garota que quisesse sair com um híbrido indesejado.
Virginnie, por outro lado, era mais nova, mais gentil e delicada. Nem por isso era mais fraca, tinha a força de um homem, mesmo sendo uma garotinha de cabelos negros e olhinhos verdes e alegres. Era uma maluca total, não tinha as frescuras de uma garotinha mimada, e adorava as brincadeiras do irmão, mesmo que envolvessem ela cair, se arranhar ou, como era o caso, ser carregada como um saco de batatas. A garota era sua preocupação maior, era a mais sucetível aos preconceitos da Sociedade, e havia sempre a chance de sua beleza superar algum preconceito e algum desgraçado começar a namorar com ela.
Ainda bem, pensou Jamiel, sorrindo malignamente para a xícara, que Naell era o perfeito irmão mais velho ciumento.
"Não acredito que você ainda está nessa de que o Naell vai me impedir de conhecer algum garoto, pai" Reclamou a menina, toda despenteada e corada, depois do "passeio" com o irmão.
"Ei!" Disseram os dois, Naell e Jamiel, juntos.
"Eu não estava pensando em nada disso" Mentiu o pai, se perguntando se aquele tipo de intuição dela era natural ou mágica. Talvez devesse imaginar que ele era óbvio demais, simplesmente.
"Eu não vou falhar" Retrucou Naell, estufando o peito e fazendo uma careta maligna. Virginnie o socou na barriga que ele encolhera, e ele se dobrou para a frente.
"Sem brigas na cozinha" Comandou Nyara, aparecendo num avental e fazendo uma fila de pratos e travessas cheias flutuarem atrás de si. Com um gesto displicente seu, a comida pousou sobre a mesa já arrumada, espalhando um cheiro ótimo pela cozinha. Ela desfez o coque frouxo de seus cabelos, e sorriu, repentinamente esquecida da pequena troca de gentilezas entre os irmãos.
"Feliz aniversário, Naell!" Gritou ela, agarrando o filho mais velho num abraço apertado, que o deixou vermelho na mesma hora. Com um sorriso, o pai se juntou ao abraço, deixando o filho mais corado ainda.
"Oh, meu filhinho já está com doze anos!" Chorou falsamente a mãe. "Já é um homem feito, vou ficar aqui, abandonada e..."
"Não se preocupe" Interveio Jamiel. "Eu estarei aqui para consolá-la".
Um instante de silêncio caiu sobre a cozinha antes de...
"Tire suas mãos daí, antes que eu te esfole vivo" Resmungou ela, corando um pouco.
Os pais soltaram o filho, que se endireitou, meio sem jeito. Então Jamiel fez o gesto de agarrar alguma coisa em pleno ar e um longo embrulho surgiu em suas mãos. Ele sorriu, maroto, antes de entregá-lo ao filho.
"Um presentinho meu e de sua mãe" Anunciou ele.
O garoto imediatamente rasgou o papel de embrulho, voraz, e deu de cara com a bainha de couro macio, o metal gelado e bem moldado, as pequenas pedras de enfeite, e deixou o queixo cair, diante da belíssima espada.
Todos na Sociedade carregavam armas, e normalmente as usavam constantemente. Mas dos onze aos dezesseis, era mais comum que a criança usasse alguma espada velha dos pais, normalmente a primeira espada que estes usassem. Sempre havia, é claro, os que não se adaptavam com as armas da família, mas receber uma espada nova assim era bem incomum. A velha espada de Jamiel, que era a que o filho carregava, era de folha larga, mas curta demais para o gosto do garoto, que acabava por limitar seu estilo de luta. Já a da mãe, que ficara com a filha, era longa, mas fina demais, sem peso para ataques. A que estava em suas mãos, porém, era totalmente diferente: uma espada de lâmina longa, mas mais grossa que a espada da mãe, feita de metal negro, como era bem comum entre os Demônios, e uma única fina linha de prata, que começava desde a ponta da espada, percorrendo a lâmina, passando pelo cabo, até chegar na pequena esfera de prata que era o fim do cabo. Na junção da lâmina com o cabo, duas asas se projetavam, do mesmo material da espada, com pequenas formas de penas entalhadas, como as asas de um pássaro, mas negras como o resto da espada. No meio delas, um cristal prateado, ao mesmo tempo um enfeite e um depósito de energia para emergências, que Naell aos poucos encheria.
Sem palavras, ele abraçou os pais, sorrindo. Nyara fez um carinho nos cabelos do filho, emocionada também.
Virginnie se aproximou, e entregou outro pacote ao irmão, que se revelou um cinto para pendurar a sua espada nova na cintura, de couro negro como a bainha da arma, e com a fivela prateada. Ele a abraçou, rindo, e se perguntando como ela conseguira guardar o segredo sobre a espada dele, por tanto tempo.
"Foi bem difícil de forjar essa" Comentou o pai, abraçando a cintura da mulher. "Bem geniosa, eu achei".
"Eu não vi muitos problemas para moldar" Disse a mãe. "O metal aceitou bem as formas que eu tinha imaginado".
Os dois começaram uma pequena discussãozinha sobre como a espada fora forjada, com as reclamações de Jamiel rebatidas pelos argumentos de Nyara.
Os irmãos, vendo que os pais estavam em mais um de suas briguinhas, sentaram-se a mesa e começaram a tomar café, contentes.


O quintal dos Ainnion já tinha visto várias batalhas entre os membros da família, e aquela seria apenas mais uma delas. Na verdade, desde que Jamiel derrotara trinta e sete Lirells numa única luta, não acontecia nenhuma batalha séria no jardim. Nyara e a filha sentaram-se na sombra de uma das árvores, carregando maçãs, enquanto Jamiel e Naell desembainhavam suas espadas, sorrindo um para o outro em desafio.
"Uma batalha séria" Disse o pai, estalando o pescoço. "Mas sem truques baixos".
"Oras, sem truques baixos não seria uma batalha de Demônios" Respondeu o filho, alongando-se.
"Hum" Ponderou o pai. "Você tem razão".
Suas mãos se moveram tão rápido que os olhos não poderiam acompanhar o gesto. Um raio saltou delas, indo em direção do aparentemente despreparado Naell. Deixando o fingimento de lado, ele bloqueou o raio com a lâmina, avançando alguns passos enquanto murmurava um rápido encantamento. Jamiel, ouvindo as palavras do filho, conjurou para si uma barreira, ao mesmo tempo em que ficava em posição de defesa. A chuva de pequenos relâmpagos do filho foi absorvida por seu escudo, mas ele não previu a grossa fumaça que cobriu todo o campo de batalha, vindo de algum encantamento apenas murmurado por Naell. Na mesma hora, fechou seus olhos e apurou os ouvidos, bem a tempo de evitar o ataque que o filho lhe desferia.
Os dois se encararam, lâminas cruzadas, antes de cada um pular para trás, dar um passo para a frente e voltar à carga, ataques desferidos violentamente, precisos e mortais. O estilo de Jamiel era ligeiramente do de Naell. O pai preferia manter uma proximidade do alvo, alternando ataques precisos, mas mais fracos, com ataques pesados, desestabilizando o adversário, que nem ao menos poderia saber qual tipo de ataque viria em seguida. Quando o oponente estivesse cansado, Jamiel atacava violenta e pesadamente, rapidamente desarmando o inimigo e o jogando por terra. Já Naell tinha um estilo mais limitado, por ainda estar em desenvolvimento, que prezava mais ataques ágeis, que se esgueirassem pela defesa adversária e desarmassem o mais rápido possível o inimigo. Fora isso, o garoto se mantinha um pouco mais afastado, e usava socos e chutes, fora a espada, para lutar.
Os dois estilos, um contra o outro, se tornavam uma dança perigosa, onde ataques improváveis valiam muito, e defesas ágeis e resistência garantiam a sobrevivência. Naell sentiu o leve toque de sua espada na camiseta do pai, mais ou menos no flanco direito, mas logo um golpe forte, utilizando a parte chata da lâmina, o desnorteou e o afastou, quase caíndo para trás. Ele abaixou um pouco, como se estivesse sem equilírio, e aproveitou para passar uma rasteira no homem, que previu seu plano poucos segundos antes de receber o ataque, tempo suficiente para preparar uma defesa apropriada, mas sem conseguir armar uma resposta. O próximo golpe de Naell tentou atingir sua cabeça, mas ele defendeu com a lâmina, e pulou para trás, ao mesmo tempo que o garoto também se afastava.
Eles estavam suados, cansados, e a espada nova de Naell já estava pesada em seus braços. Era maior e tinha mais peso que a antiga espada. Ele limpou um arranhão que estava em sua bochecha, e tentou dar um ataque desesperado, se jogando contra o pai, de espada em punho. O homem fez um movimento, novamente muito mais rápido que se poderia perceber, e o garoto se chocou violentamente com o chão, onde o pai deveria estar.
Na mesma hora, sentiu o toque gelado do aço em sua nuca.
"Morto" Anunciou o homem, seu tom estranhamente sério.
Ele embainhou sua espada. Naell se levantou e sorriu, constrangido.
"Perdi de novo" Suspirou.
"Você é ótimo, filho" Riu-se Jamiel, perdendo a postura séria de batalha. "Um dos melhores espadachins que já vi. Mas tem muito o quê aprender, realmente".
Ele colocou as mãos na cintura, estufando o peito orgulhosamente, assim como fazia o filho, quando queria cantar vantagem.
"Ninguém derrota este Demônio aqui".
Foi neste instante que ele sentiu o inimigo às suas costas. Seus olhos se arregalaram de surpresa, o inimigo devia ter uma facilidade enorme em ocultar a si mesmo, e disfarçar sua presença, sua magia, e suas intenções. Ele sentiu o toque frio de uma lâmina em seu pescoço, que deslizou lentamente pela pele, até estar em posição onde qualquer movimento que ele fizesse acabaria em decapitação. A outra espada do astuto inimigo se mantinha em suas costas, um aviso gelado que qualquer gesto seu acabaria com ele morto. Delicadamente e muito lentamente, Jamiel tentou tocar sua espada, mas percebeu que ela não estava mais na bainha. Na verdade, nem a bainha ou o cinto estavam mais em sua cintura! Sua atenção se voltou para todas as armas que ele tinha escondido sob as roupas, mas não conseguia mais sentir nenhuma. Nem mesmo a faca da bota. Poderoso, forte, silencioso. Só havia uma palavra que descrevia todas aquelas habilidades, uma única classificação para o tipo de inimigo que o ameaçava. A figura atrás de si era um ladrão. E um dos melhores, sem dúvida.
Jamiel sentiu a respiração quase inexistente do ladrão tocar seu rosto, quando os lábios do inimigo se colaram à sua orelha. Uma voz macia e quente sussurrou para ele, fazendo sua pele se arrepiar e seu corpo estremecer.
"Morto".


PARTE II - New Life - POST I

TEMPUS

PARTE II - New Life

POST I


Como se poderia imaginar que, entre a multidão, estariam anjos ou demônios? Seria até engraçado imaginar que alguém que estivesse ao lado poderia ser, quem sabe, um Anjo. Eles não teriam asas e auréolas, nem os demônios possuiríam chifres e caudas longas e pontudas, mas seriam, mesmo assim, não-humanos. A Sociedade existe há tanto tempo que mesmo os mais entendidos do mundo e da vida se esqueceram que eles estavam lá. Iguais aos homens e mulheres que existiam aos bilhões, mas, ao mesmo tempo, tão diferentes.
Dizem as lendas mais antigas do mundo, e da Sociedade, que dois seres uniram seus poderes uma única vez, e salvaram o mundo de uma era de trevas e ignorância, expulsando as crenças tolas e perigosas do mundo, e trazendo um tempo novo de luz, sabedoria e ciência. Reinaram então, absolutos, sobre seu novo mundo. Um deles carregava o poder da escuridão e da morte, enquanto o outro tirava sua força da luz e da vida, e por serem tão diferentes sua união não conseguiu perdurar. Cada qual criou sua própria raça, os Demônios, senhores da treva e da batalha, e os Anjos, filhos da beleza e moldadores da vida.
A lenda está quase totalmente errada, mas acerta na parte em que as raças nunca conseguiram trabalhar juntas. Enquanto os Anjos brilhavam em sua magia pura e bela, os Demônios batalhavam em suas sangrentas guerras pelo poder da escuridão. E jamais um deles aceitaria se unir com algum outro da raça inimiga.
A Sociedade existe há tanto tempo que eles até se esqueceram dos verdadeiros motivos desta inimizade, mas conseguiram pelo menos se organizar em relativa paz. E desta paz, veio o abandono das antiquíssimas línguas antigas, compartilhadas pelos dois povos, e as primeiras relações, cercadas de segredos, com os humanos. Da união entre um membro da Sociedade e um humano comum, invariavelmente nascia uma criança pertencente a Sociedade, mas que se diria entre um Anjo e um Demônio?
Nada se podia originar de tal profana relação, estabeleceram os mais antigos filósofos, e os mais sábios entre os sábios. Pois se um Anjo perderia seus poderes e morreria se matasse um ser vivo por vontade própria, os Demônios também perdiam sua vida em contato prolongado com um Anjo. Fora isso, que tipo de criatura maldita nasceria desta união? Não seria Anjo ou Demônio, não poderia usar qualquer magia, nem teria qualquer poder ou direito. Uma vida fadada a não acontecer, era o quê decidiram os antigos das duas raças, chegando num acordo. Uma vida que não merecia ser vivida.
Numa das menores vilas da Sociedade, cercada de pés de trigo e campos sem fim, numa casa no começo da rua, morava um Demônio de nome Jamiel.
Na verdade, ele era um dos mais poderosos Demônios do mundo, e em seu sangue corria a benção da imortalidade. Ele não deveria estar ali, naquela casa de janelas quadradas e fotos nas paredes, jogado em um canto remoto do mundo, praticamente no meio do mato. Sua posição e sua linhagem deveriam estar em alguma metrópole da Sociedade, cercado de empregados, de dinheiro e de pessoas sem nenhuma utilidade prática, além de elogiá-lo constantemente.
Já Nyara era uma Anja, e seu poder, ainda que não tão grande quanto de vários Anjos, era forte o suficiente para viver num confortável e luxuoso apartamento numa grande cidade, onde poderia seguir os passos de seus antepassados e trazer mais brilho ao nome de sua família. Sua beleza e sua vitalidade, com a suspeita de que era uma imortal também, lhe garantiriam, com toda a certeza, um rico e próspero marido, uma fortuna em suas mãos, uma vida de luxo e poder.
Mas Nyara escolhera se casar com Jamiel, e assim a maldição começou. Pois, como se não bastasse o casamento de um Demônio com uma Anja, ela ficara grávida, e um garoto nasceu, o primeiro fruto de seu casamento.
Os cabelos do garoto eram negros, e seus olhos eram verdes, sua pele era branca e seu choro era forte, claro que ele se tornaria um poderoso guerreiro, mas sua vida era a de um renegado, de um maldito. Um híbrido indesejado.
No ano seguinte, a segunda cria amaldiçoada do casal veio ao mundo. Desta vez, era uma menina, com os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos verdes, a mesma sina sobre sua vida. Naell e Virginnie, dois nomes tão poderosos que há muito já haviam sido esquecidos pelo povo. Nomes que carregavam mais destino que qualquer maldiçãozinha social que poderiam receber. Jamiel, Nyara, Naell e Virginnie, a pequena família Ainnion, todos na aconchegante casa, isolados do resto do mundo em seu reino particular.
Doze anos haviam se passado desde o nascimento de Naell quando Jamiel, seu pai, fechou os grandes tomos de pesquisa que ele mesmo redigira a próprio punho, colocara sua espada na cintura e suspirara.
"Jamiel?" Perguntou sua mulher, passando os braços ao redor de sua cintura. "Está tudo bem?".
Ele esfregou a mão contra a barba mal-feita que ele descuidadamente deixara crescer, e suspirou mais uma vez, antes de girar e receber propriamente o abraço de Nyara.
"Acho que cheguei ao limite" Respondeu.
Nyara estremeceu levemente, se agarrando ainda mais ao marido.
Quando um Anjo vive ao lado de um Demônio, como eles viviam, só há um destino: o Demônio, por mais forte que seja, irá definhar e morrer. Jamiel sabia deste destino desde quando tinha seis anos. E descobrira que não se importava nenhum pouco, desde quando vira Nyara pela primeira vez.
Talvez fossem os longos cabelos negros que ela tinha, tão parecidos com os seus próprios, mas muito mais brilhantes e sedosos, ou talvez fosse seus delicados olhos azuis, sua pele branca e suave, sua voz calma e doce... Uma união de tudo isso, decidira. Não importava o preço a pagar, ele não podia viver sem ela. E, como um Demônio que ele era, ignorara todas as regras e conselhos, e finalmente a teve para si, para todo o sempre, para toda a eternidade.
Mas ele era um Demônio poderoso. Não podia simplesmente se conformar e morrer. Ele era ganancioso como só uma criatura das trevas pode ser, e astuto como um verdadeiro Ainnion. Desde o instante que se mudara ali com a esposa, suas pesquisas começaram. Se recusava, totalmente, a definhar lentamente ali, ao lado dela, e a deixar sozinha. A eternidade não era o suficiente para satisfazer seu desejo por ela, ele tinha que continuar ao seu lado, sem parar para coisas supérfulas como simplesmente morrer.
A energia branca que naturalmente saía de Nyara, como uma aura de magia da luz em excesso, era veneno puro para Demônios, se em contato prolongado. Um veneno lento, que matava aos poucos. Num dia, tudo bem, no outro, alguns tremores, e então, a morte. Mas muito lentamente, como se se deleitando ao matar o inimigo. Jamiel tentara diversas formas de abordar o problema. O primeiro, é claro, fora aniquilar essa energia. Em dois meses, ele já sabia como, mas isso significava que Nyara jamais poderia fazer magia de novo.
Então pensara em coisas mais abstratas, como direcionar a energia para algum recipiente. Suas experiências não deram nada certo, não havia nada que pudesse conter energia mágica pura. Como ondas curtas de magia, não havia problema, mas acumular tamanho poder... Tudo era frágil demais para conter algo assim. Era como tentar guardar raios dentro de sacos de papel.
Depois foram outras idéias, várias envolvendo sua própria magia. Nada efetivo.
"Não há nada, neste mundo, que possa fazer com quê um Demônio possa viver ao lado de um Anjo sem ser afetado por sua magia" Determinou ele, em voz alta.
O peso de suas palavras foi como blocos de aço sobre Nyara, e seu coração se apertou imediatamente, afundando no desespero. Mas ela se conteve, engoliu os gritos e o choro, e o encarou fortemente.
"E o quê faremos?"
Ele se soltou do abraço dela, e imediatamente ela sentiu frio, sem os braços dele ao seu redor. O moreno se jogou novamente em sua cadeira, e girou distraídamente uma pena nas mãos.
"Acho que é óbvio, muito óbvio".
Então, levantou num pulo, assustando ela. Ele foi até o armário, abriu uma das portas, e tirou uma mala de viagens. Ela engoliu em seco, quase sentindo vertigens com o pensamento negro que lhe ocorreu.
"Nós vamos procurar em outro mundo".

PARTE I - Side - POST I

TEMPUS

PARTE I - Side

POST I

A derrota era o sabor. Um gosto amargo e pútrido de derrota, quando, na verdade, era apenas uma vitória. Uma das vitórias com gosto de derrota.
Ali no meio estava o último sobrevivente. O último guerreiro, o quê restara de pé depois da chacina. Seus longos cabelos negros estavam ensebados com sangue e lama, os olhos verdes cansados e baixos, vazios de força, de vida, de significado. Todo o resto de seu corpo era coberto por uma armadura, manchada de vermelho e de negro. A espada em suas mãos era longa e fina, negra como uma sombra, e estava mole em seu braço, como se ele não tivesse mais forças para segurá-la.
O céu negro cobriu os corpos, as vísceras, o sangue. O gosto de derrota não abrandou com a chuva gelada que chorou sobre o campo de batalha, e nem abrandaria. O gosto nunca sairia de sua boca.
Naell sentiu que aquele era, sem dúvida, o fim para ele. Não podia mais lutar, nem gritar, nem continuar em frente. A chuva que lavava o sangue de sua armadura nem mesmo era um alívio para seus músculos cansados e doloridos. Ele jamais teria descanso agora. O fim estava ali, espreitando das sombras, e quando Naell finalmente o atingira, descobrira que tudo era uma ilusão. Não haveria fim agora, fim para sua dor e seu sofrimento. Sua culpa.
O homem ficou parado, ali, por horas, como se esperasse alguma maldição divina que lhe cairia sobre os ombros e apagasse sua existência. Nada lhe aconteceu, pois até mesmo esta benção lhe fora negada. Mas o som surgiu, sorrateiro e escuso, entrando em seus ouvidos.
Nem chegava a ser propriamente um som. Era como um eco, um ruído morto que agora era relembrado. Uma memória sonora há muito esquecida. Sentiu-se arrepiar, mesmo guerreiro de muitas batalhas que era, ainda lhe havia consciência o suficiente para que cada célula de seu corpo maldito lhe dissesse para fugir dali.
Antes de poder completar qualquer pensamento, a figura encapuzada surgiu diante de si. Vestia-se da cabeça aos pés com um manto negro e longo, que se arrastava pelo chão e descia por seu corpo magro em ondas sombrias. Atrás de suas costas, doze espadas de prata despontavam, nenhuma delas embainhada. Aquelas espadas jamais dormiam.
"Bom dia" Disse a figura, remexendo nas profundesas de sua capa. "Desculpe a demora".
A espada nas mãos do homem finalmente escorregou da palma suada e sangrenta e caiu no chão, com um estrépido abafado pela lama molhada de chuva. Os trovões cessaram naquele momento, e até o murmúrio da chuva se ausentou, mesmo que ainda chovesse.
"Quem é você?" Disse Naell, a língua embolada de cansaso, de dor e daquele maldito gosto de derrota que lhe subia pela garganta como uma cobra.
"Não importa" Respondeu a figura, ainda ocupada em remexer seus bolsos. "Quem é você?"
Um profundo silêncio caiu sobre os dois, enquanto o encapuzado desistia de procurar algo em seus bolsos e agora se ocupava em alisar a frente de seu manto, como se já soubesse a resposta que Naell lhe daria, e isso pouco lhe interessasse.
"Eu... não sei". Murmurou o homem. A figura assentiu, meio dando de ombros.
"Era o quê eu imaginava" Comentou, desnecessariamente.
A chuva agora descia gelada. Ou talvez já estivesse fria, e ele nem percebera em suas horas de miséria. Ele já tiritava de frio, mas a figura negra nem se mexera. Verdade seja dita, nem as dobras de seu manto se moviam.
"Eu tenho uma proposta" Revelou o encapuzado, enquanto eles observavam os abutres descerem sobre os mortos, prevendo um banquete profano.
"Qual seria?" Suspirou Naell, quase desinteressado. Os abutres não sabiam divir o alimento, atacavam uns aos outros no desespero pela comida. Mas havia tantos corpos ali, eles se fartariam antes de precisarem lutar...
"O quê você me daria... para ter sua vida de volta?"
O homem virou sua cabeça tão rápido que o pescoço estalou.
"Vida de volta?"
"Exato. Qual o preço que você pagaria para... ter outra chance? Para que eu devolvesse sua vida toda, e você pudesse vivê-la de novo... Do jeito que quisesse... Evitando os erros que achasse melhor evitar...?"
Naell caiu de joelhos na lama, aos pés da figura negra, enfiando a testa na terra úmida, enquanto lágrimas corriam por seu rosto.
"Qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer coisa..." Soluçou ele. "Tudo, eu lhe daria tudo!"
"Até mesmo a Soneta?"
Os soluços foram cortados. A cabeça de Naell se levantou, suja do lodaçal onde se enfiara. Um brilho de ódio e ganância insana correu por seus olhos, mas ele hesitou. A mão, que já corria para a espada caída ali perto parou em pleno movimento. Ele segurou o cinto, e desamarrou, com cuidado quase paternal, o pequeno saquinho de couro macio que havia ali. Sua mão tremia enquanto ele elevava o objeto até o encapuzado.
O outro o pegou com reverência, e o objeto sumiu nas profundesas de sua capa feita de sombras.
Um frio terrível se afundou nos ossos de Naell, e ele apertou os punhos fechados contra o peito. Sua respiração saía em jorros doloridos, enquanto pela primeira vez se via sem o precioso objeto. A Soneta dos Deuses.
A figura lhe deu as costas, e se afastou, as doze espadas sem bainha lhe encarando.
"Eu..." Arfou Naell. "Você... fez uma promessa".
Doze fios de espada se encostaram na carne desprotegida de seu pescoço. Se antes o frio descomunal lhe atingira, isso que ele sentia agora devia ser de outro mundo. Era um frio tão grande que queimava sua pele, que faria o Inferno parecer uma tardezinha no parque, que lhe dizia que nenhuma tortura ou força poderia vencer a dor que aquilo lhe traria.
"Você é um tolo, Naell Ainnion" Disse-lhe a figura. "E terá o destino que os tolos recebem, pois é isso que você merece. Pois bem, terás sua vida de volta. Sem lembranças, sem idéias, sem nada do quê você já tem. Seu poder ficará aqui, neste campo de batalha, dormindo no leito feito do sangue que você derramou".
Um trovão ecoou na distância, e a chuva engrossou, subitamente.
"O destino dos tolos não é a morte, pois essa é a recompensa dos vivos. Os tolos evitam-na, como se fugissem do próprio demônio. Os tolos têm medo da morte e da dor, do julgo que os espera, e do vazio que pode ser seu castigo. Pois não queres viver? Seu descanso lhe foi negado, como tudo neste mundo um dia lhe será."
A chuva formou um rio ao redor de seu corpo, uma espiral de água e gelo, que lhe partiu a armadura, os ossos e açoitou sua carne, como que um ferro em brasa. Os trovões ecoavam direto dentro de sua cabeça, e raios perfuravam seu corpo. Quando abriu a boca para gritar, uma torrente de água a invadiu, abrindo caminho por dentro de sua garganta, enchendo seu corpo.
"Agora vai-te".
A chuva corria por seu corpo, a água lhe pressionava como se fosse esmagá-lo. A torrente que lhe invadia o corpo agora corria em suas veias, alimentava seus órgãos, queimando e destruíndo seu corpo. A profanação não tinha objetivo de purificar as carnes, nem a alma. Apenas destruía, na sede voraz de lhe tirar até mesmo a vida, quando tudo o mais se fora.
"Diga, Naell".
Seus ouvidos estouraram, mas ele continuava a ouvir os raios e os trovões. Seus olhos foram perfurados, mas ele ainda podia ver as espirais de água, e mesmo quando seu coração parou, ele ainda vivia.
"Diga".
Toda sua mente gritava, tudo nele parecia pronto para explodir. Seria o seu fim, ali, na torrente das águas do Inferno e do Céu?
"Diga".
Sua boca se abriu mais ainda, como se quisesse abarcar todo o mundo, e tudo silenciou por um momento. O ar saiu de sua garganta, passando pelas cordas vocais, enquanto sua língua e lábios moldavam a palavra...
"TEMPUS!"
Então houve silêncio.


Em outro mundo, em outra história, homens guardavam suas vidas com todo o segredo. Entre as duas raças que disputavam um mundo manchado de erros, entre vidas que eram um segredo, uma maldição e uma bênção, ali construíam suas histórias, sobre os espólios de destruições passadas. Homens de poder e de saber, homens fracos e tolos.
O som das doze badaladas era abafado. Um choro alto e forte se ouviu, um grito de corpo e alma que encontrava o mundo. Uma lágrima correu a face de um homem, e uma mulher, exausta e destruída pelo esforço começou a rir alto, forte, claro, alegre.
Uma nova vida nascia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Capítulo 6

Birthday Eve
Capítulo 6

As compras. O hacker. O furgão misterioso.


Eve ajeitou mais uma vez a bolsinha em seu ombro, nervosa. Os tênis não apertavam mais seus pés, nem o sutiã parecia incomodar tanto. O conjunto quente e rosa claro que usava já lhe era um prazer, e não mais um incômodo. Ela pensou que deveria ter colocado mais coisas na bolsa, e estava quase indo fazer isso quando Tristan apareceu no hall de entrada, carregando um grande envelope pardo. O sorriso dela se abriu, com um traço de nervosismo, talvez.
"Desculpe a demora" Disse ele, esfregando a mão direita na nuca. "Não conseguia achar isso aqui".
"Onde vamos?" Perguntou ela, os olhos verdes se acendendo e brilhando de curiosidade. Aqueles olhos eram os mais belos que o rapaz já tinha visto na vida.
Pensando bem, tudo nela era simplesmente perfeito demais. Seus cabelos ruivos eram de uma cor vibrante, quente, que jamais poderia ser simplesmente natural. A pele era branca como leite, os olhos brilhavam numa matiz de esmeralda que parecia uma pedra preciosa de verdade. As curvas, os traços, a voz, o cheiro... Tudo nela fora criado meticulosamente para encantar qualquer homem que colocasse os olhos nela. Eve era o desejo de qualquer criatura masculina que existisse no planeta.
"Onde vamos?" Repetiu ela, estranhando a imobilidade dele.
"Ao supermercado" Respondeu ele, corando por ter ficado tão perdido em seus pensamentos. Pensamentos com ela. "Precisamos comprar mais comida, e algumas outras coisas".
Ele destrancou a porta da frente, e a deixou passar primeiro, para uma fria manhã de Dezembro, e o primeiro vislumbre dela do mundo.
As ruas estavam enfeitadas para o Natal. Guirlandas e azevinhos enfeitavam portas e paredes das casas, luzinhas coloridas piscavam, entremeadas nos galhos das árvores, quase invisíveis na luz fresca da manhã de inverno. A rua e as calçadas estavam cobertas de uma finíssima camada de geada, a neve ainda não chegara, e parecia que não viria naquele ano. Alguns carros estavam estacionados na beira da calçada, cobertos também de geada, enquanto alguns pássaros que ficaram por ali faziam uma algazarra nas árvores e nos telhados. Andaram em silêncio por alguns minutos, em direção ao centro da cidade, com os olhos de Eve quase pulando para fora das órbitas de tão surpresa que ela estava com tudo. Seu cérebro despejava milhares de informações ao mesmo tempo, explicando cada coisa, descrevendo cada sentimento que ela tinha. Se seu QI não fosse tão alto, ela jamais conseguiria absorver todo aquele conhecimento repentino.
As ruas do centro já estavam movimentadas, com muitos correndo para fazerem as compras de última hora para o Natal. Pararam num cruzamento, e Tristan segurou a mão da ruiva para atravessarem a rua. Ela ficou surpresa ao sentir o toque gelado dele, mas gostou mesmo assim. Seu dono sempre cuidava tão bem dela.
Um velho vestido de vermelho ("Papai Noel" disse sua mente, e ela deu um risinho com o nome) tocava um sininho, numa esquina. Quando passaram por ele, o velhote enfiou rispidamente algumas balas nas mãos da garota. Tristan mal olhou para ele, mas parou ao ver que Eve não o seguia. Ela parara na frente do velho ranzinza e se pusera na ponta dos pés, dando um beijo na bochecha coberta pela barba falsa e torta.
"Obrigada, Papai Noel" Sorriu ela, antes de se afastar e voltar para perto de Tristan.
David, velho, cansado, com dores terríveis nas costas e um emprego de Papai Noel fajuto que lhe garantia pouquíssimo para complementar a já escassa aposentadoria, sorriu verdadeiramente pela primeira vez em anos. Era estranho pensar como uma jovem com o espírito de uma criança podia fazer seu Natal muito mais feliz.
Eve girou a balinha de cereja nos dedos, verdadeiramente fascinada. Então a enfiou na boca, mas o gosto a feliz engasgar.
Tristan suspirou.
"Eve, tire o papel da bala antes de colocar ela na boca..."

O supermercado não estava tão cheio quanto Tristan previra. Na verdade, parecia até bem vazio, julgando pelas ruas apinhadas. Eve se encantou com as gôndolas cheias de frutas, e com as grandes árvores enfeitadas que havia no lugar. Na verdade, ela parecia verdadeiramente uma criança, os olhos brilhando ao empurrar o carrinho de compras por entre as prateleiras, sorrindo com as surpresas que aguardavam em cada esquina. Mais de uma vez Tristan teve que correr para alcançá-la, enquanto ela disparava pelo corredor, visando alguma coisa que havia lhe despertado a atenção. Quando finalmente pararam no caixa, a garota ficou um minuto inteiro olhando, estupefata, para a esteira rolante onde colocavam os produtos. Saíram pouco depois, carregados de sacolas.
"O quê é isso?" Perguntou ela, apontando para um ramo de visco, que estava estrategicamente posicionado no teto, bem acima de suas cabeças.
"É... Visco" Disse ele, corando levemente. Certo, ela iria em frente e ele não teria que contar porque diabos aquele porcaria estava pendurada lá e...
"Mas porque tem azevinho no teto?"
Tristan corou duas vezes mais.
"Er... A tradição diz... Bem, quer dizer... Se duas pessoas... hum... Ficarem embaixo do visco juntas, bem, elas devem..." Ele engoliu em seco. "Se beijarem".
A garota examinou cuidadosamente a posição da planta, então olhou para ele.
"Bem, então temos que nos beijar" Disse, orgulhosa de seu raciocínio lógico.
Ela se aproximou rápido demais.
"Eve!"
O beijo estalou em sua bochecha, bem em cima daquele outro, de boa noite, que ele recebera dois dias antes. Não sabia se ficava aliviado ou se ficava decepcionado.
Ela o puxou pela mão, arrastando-o para outro lugar, sem deixar tempo que ele se decidisse.


O cheiro predominante era de queijo. Forte, meio rançoso até. Entrava pelas narinas e entorpecia o cérebro, enquanto parecia bater de frente com os sentidos do olfato como um caminhão descontrolado.
"Como você consegue viver nesse lugar?" Resmungou Riza, franzindo o nariz. O lugar era grande até, mas completamente coberto de máquinas e cabos. De espaço livre, sobrava apenas um cubículo, onde ficava a mesa, os três monitores e os dois teclados. CDs, consoles de video-game, placas de computador, aparelhos desmontados... Tudo ocupava um espaço tremendo, e tudo fedia a queijo. Ela mal aguentava ficar ali dois minutos, que diria passar semanas trancada naquele muquifo.
"Você não entende a beleza e a arte deste lugar, querida" Disse, saíndo de dentro das entranhas de uma das máquinas. Sua barriga era gigante, e o rosto era tão inchado de gordo que os pequenos óculos pareciam sumir na cara. Os dedos roliços ajeitaram o ralo cabelo oleoso, enquanto a pele encharcada de suor parecia pronta para romper, de tão frágil e pálida que era. Sem constrangimento algum, ele se coçou lentamente na frente dela, antes de bocejar e se jogar na grande cadeira com rodinhas, feita sob medida para seu tamanho monstruoso.
"Você devia tratar melhor sua única visita feminina na vida, Arty" Disse ela, olhando com certa repugnância para o chão imundo. "E devia fazer uma faxina de vez em quando. Eu acho que vi um rato ali".
"É de estimação" Cortou Arty, ajeitando os óculos na cara. "A que devo a visita?"
De repente o olhar dela ficou sério. Sua posição mudou, para mais concetrada. O franzir de nojo de seu nariz se dissolveu, e ela se aproximou, sem se perturbar pelos sons nojentos que seus sapatos faziam ao bater no que quer que cobrisse o chão.
"Um amigo recebeu uma encomenda, comprada pela internet. Agora ele quer devolver, mas o site sumiu." Resumiu a garota.
"Mas que droga, Riza" Resmungou Arty. "Achei que era um troço interessante, não um site que saiu do ar."
"Eu não disse que o site saiu do ar. Eu disse que sumiu".
Os olhos do homem brilharam quando a ficha caiu. Ele agarrou o papel que estava na mão dela e se dirigiu rapidamente ao seu computador, digitando o endereço do site assustadoramente rápido, seus dedos gordos batucando no teclado com leveza impressionante.
Logicamente o site não abriu. Sem piscar, ele abriu páginas e mais páginas, digitou coisas, resmungou consigo mesmo. Riza encostou numa mesa. Então rapidamente desencostou.
"Cuidado, eu estava fazendo umas experiências aí". Avisou ele, tarde demais.
Cinco minutos depois ele se voltou para ela.
"O site jamais existiu. Nunca foi cadastrado, o domínio nunca foi comprado. Não existe registro algum sobre ele na internet toda, nem mesmo um único traçozinho" Ele enxugou a testa com um lenço imundo. "Sumiu".
Ela se aproximou. Já sabia que seria assim. Quem quer que tivesse feito Eve, tinha uma tecnologia milhares de anos acima da atual. E parecia fazer qualquer coisa para sumir com suas pistas.
"Aqui está a hora e o endereço que a encomenda foi entregue". Disse ela, lhe dando outro papel. "Consegue tirar algo disso?".
Arty voltou-se para o computador de novo.
Um minuto inteiro se passou, até que uma impressora quase escondida numa montanha de embalagens vazias de salgadinhos deu sinal de vida, fazendo Riza pular de susto. Uma única folha impressa a laser rolou para a bandeja. Com um gesto do homem, ela a pegou.
Era uma foto colorida. Um furgão preto aparecia na foto. A rua era a de Tristan. Os vidros do veículo eram totalmente negros.
"Uma câmera tirou essa foto, trinta segundos antes desse horário aqui" Explicou ele. "O computador já está procurando na internet por este carro".
Um alerta soou no computador, e Arty virou novamente para a máquina. Riza ficou atrás dele, espiando por cima de seu ombro. As telas do computador iam e vinham tão rápido que ela não conseguia acompanhar.
"Achei" Resmungou ele, para si mesmo.
Seus dedos corriam furiosamente no teclado.
"A empresa não tem nome, nem registro oficial. É muito mais legal do que eu achei que seria. Mas tudo tem um número de IP. Parece que o carro foi comprado por ela, usando um nome falso. A compra foi dois dias antes da entrega. Deve ter sido quando o site abriu. O computador está escaneando o número de IP da máquina deles".
Riza acompanhou aquilo em silêncio. Então Arty deu um grito.
"ESTOU DENTRO!"
Ela se debruçou mais ainda. Na tela, minúsculas letras brancas corriam num fundo negro. Números, nomes, códigos. Pouco mais de cinco segundos depois, um gigantesco alerta vermelho tomou a tela toda. Um alarme soou, e Arty ficou branco.
Uma animação surgiu, uma única linha vermelha rompendo dezenas de linhas pretas. Era como um raio que rompesse dezenas de escudos. E então a tela ficou negra e o computador desligou.
O grito de Arty foi uma mistura de palavrão e choro. Ele socou a tela, derrubando-a para atrás da mesa. Riza estremeceu quando ouviu o monitor se quebrar.
O homem passou um lenço sobre a testa mais uma vez.
"Eu escrevi aquele Firewall. São trinta camadas de segurança máxima. Um computador da NASA levaria horas para romper minha segurança" Ele disse, lento e baixo. "Eles me hackearam em três segundos, acabaram com minha máquina. Vai levar dias para que eu recupere tudo".
O outro monitor continuava ligado. Um ícone piscava na tela.
"Isso foi tudo que eu consegui pegar".
Ele apertou um botão. No mesmo instante, dezenas de impressoras se ligaram ao mesmo tempo, imprimindo a mesma mensagem. Perto da mão de Riza, uma folha caiu, ainda quente da impressão. Ela a pegou, a testa se franzindo. Arty suspirou alto, indo pegar outro monitor para substituir o quê quebrara. Havia uma única palavra na folha branca.
HON

Capítulo 5

Birthday Eve
Capítulo 5

A guitarra. A música. O ciúmes.

Os olhos de Eve entraram lentamente em foco, enquanto ela ainda sentia os efeitos do sono. Seu braço estava marcado, pois ela dormira sobre ele, e sentia o ombro doer levemente, num mal-jeito. Deu uns passos vacilantes pra fora da cama, se dirigindo aos tropeções até a cadeira onde estavam suas roupas. Agarrou elas e algumas roupas de baixo limpas, se dirigindo ao banheiro. Tomou um banho rápido, mas suficiente para despertá-la completamente, e então vestiu-se, incomodada com o tal sutiã, que a apertava e agarrava de uma maneira incômoda. Abriu a porta do quarto, sentindo o cheiro adocicado de café-da-manhã, mas também ouviu um toque leve, quase um ressoar, distante e baixo. Curiosa, desceu as escadas, percebendo o som aumentar o volume a cada passo seu.
Então o som parou subitamente, e ela ouviu resmungos. Seu dono devia estar fazendo aquiles sons, lá da sala.
Abriu a porta, ainda mais curiosa que antes, e espiou Tristan, que estava sentado no chão, com a guitarra nova em seu colo. Ele girava e girava as chaves da guitarra, tentando afiná-la. Apertou mais um pouco uma das chaves e fez a corda vibrar, espalhando um som agudo, mas ainda assim bem baixo. Enquanto ainda vibrava, ele voltou a esticar a corda, até parecer satisfeito.
"Vai ficar espiando daí da porta?" Disse ele, ainda de cabeça baixa, trabalhando em outra corda. Pega de surpresa, Eve corou de leve, enquanto entrava, arrastando os pés descalços no tapete. Tristan sorriu para ela, levantando a cabeça.
"Bom dia, Eve"
Ela sorriu de volta.
"Bom dia!"
Um sorriso meio abobado surgiu no rosto dele, com a exclamação dela. Tentando disfarçar que corara com sua aproximação, ele voltou a lidar com as cordas. Cuidadosamente, mantinha longe de sua mente o pequeno beijo de boa-noite que ela lhe dera no dia anterior. Eve sentou-se a sua frente, examinando a guitarra do rapaz. Num instante, ele terminou de afinar o instrumento, e plugou um longo cabo negro na guitarra.
"Afinadíssima!" Riu ele, puxando para perto um aplificador, de tamanho médio, que trouxera para a sala. "Agora, vamos ver..."
Ele plugou a outra ponta do cabo no aplificador, e girou lentamente o botão de volume.
"Não muito alto, não queremos incomodar os vizinhos" Piscou ele, para ela. Então, fez as cordas vibrarem novamente, todas ao mesmo tempo.
O som que saiu do amplificador, centenas de vezes mais alto e claro que o da guitarra sozinha, fez Eve pular de susto. Rapidamente ele abaixou o som, olhando receoso para ela.
"Eu só... Assustei" Disse ela, interrompendo-o. Ele ergueu o volume novamente, mas um pouco menos que antes. "Não sabia que o som ia ficar tão alto".
"A guitarra não tem muita força, precisa do amplificador. Eu comprei esse faz uns anos, está bem velhinho, mas ainda é um dos melhores que já vi" Tristan sorriu tranquilizador para ela.
Ela observava sua guitarra negra.
"É tão bonita..."
Sorrindo orgulhoso, como um pai falando de sua filha, ele lhe explicou que era seu presente de aniversário, que iria substituir a velha guitarra que ele tinha.
"Personalizada, proteção contra riscos na pintura e o braço é bem mais confortável que a anterior. Acabamento feito à mão e com correia, pra poder pendurar no ombro e tocar de pé. Uma preciosidade" Dizia ele.
Então ele ajeitou a guitarra, segurou uma das cordas com a ponta dos dedos, e começou a dedilhar lentamente algumas notas soltas. Rapidamente os sons desconexos se tornaram uma melodia suave. Os sons se mesclavam numa cadeia com um ritmo envolvente, e num instante parecia que ela estava longe, observando enquanto Tristan fechava os olhos lentamente, totalmente absorvido pela música que saltava das cordas do instrumento.
O toque se repetia, a melodia soltando agora notas tristes, mas numa cadência suave. Eve sentiu-se subitamente perdida e distante, a música entrando por seus ouvidos devagar, mas sem interrupção. E então a voz de Tristan surgiu, entre as notas cada vez mais fortes e cada vez mais tristes.
"Life it seens will fade away" cantou, e um arrepio desceu pela coluna da menina. "Drifting further everyday"
O som da guitarra crescia, enchendo o ar com vibrações estranhas e belas. E a voz dele, acompanhando perfeitamente as notas se mesclava a música, formando uma espécie de som único, entrando pelos ouvidos e invadindo o corpo da ruiva, num lamento que a deixava cada vez mais entregue e cada vez mais assustada.
"Getting lost within myself,
Nothing matters, no one else
I have lost the will to live
Simply nothing more to give
There is nothing more for me
Need the end to set me free
"
O coração dela se apertou, subitamente. Nada parecia tão simplesmente desesperador quanto ouvir a voz dele dizendo aquelas palavras. O som se tornava uma espécie de feitiço mortal, correndo dentro de seu corpo, pulsando em suas veias, substituindo seu sangue e corroendo sua pele, sua carne e seus ossos...
"Things not what they used to be
Missing one inside of me
Deadly loss this can't be real
Emptiness is filling me
To the point of agony
Growing darkness taking dawn
I was me, but now...
he's gone...
"
O toque suave o fez parar imediatamente. O som se interrompeu no meio de uma nota, e ele apertou as cordas contra o corpo da guitarra, impedindo-as de soar. Os dois dedos que tocavam seus lábios escorregaram lentamente por seu queixo, até o abandonarem. Seus olhos se encontraram, e os dela estavam cheios de lágrimas, refletindo uma tristeza tão profunda que tudo que ele pôde fazer foi se amaldiçoar até a última geração. Quase derrubou a guitarra do colo, ao acorrer para abraçá-la, apertar seu rosto delicado contra seu peito, e murmurar-lhe desculpas.
"Foi uma péssima escolha, tudo bem, já passou, não precisa ficar assim, olha, já parei, já acabou, vamos Eve..."
O aperto que se formara em seu peito subitamente sumiu, e seu corpo relaxou. Levantou os olhos úmidos e encontrou os olhos dele, fortes, preocupados, receosos e muito arrependidos. Deu um sorriso fraco, e percebeu o papelão que estava fazendo.
"Eu... Me desculpa. Eu sou uma idiota"
"Claro que não, claro que não, fui eu que fiz uma péssima escolha, eu devia ter cantado algo alegre pra você, me perdoe..."
Os dois dedos novamente pousaram em seus lábios e ele se calou. Ela sorriu, mais forte agora.
"Cante de novo. Mas... Outra música. Uma bonita."
Tristan revirou seu cérebro. Precisava ser algo realmente especial. Algo que a fizesse sorrir, e não algo simplesmente depressivo que a fizesse chorar de novo.
Então a guitarra cantou novamente. E desta vez era um som muito diferente. Forte, vibrante, de uma alegria e diversão incontestáveis. E quando ele começou a cantar, era um canto diferente, tão estranho e engraçado que ela começou a rir.
"Have you ever been to American wedding?
Where is the vodka, where's marinated herring?"
Where is the supply that gonna last three days?
Where is the band that like Fanfare
Gonna keep it goin' 24 hours
"
Ela riu tanto que esqueceu completamente as lágrimas. Quando a música terminou, ele emendou de novo a introdução, e voltou a cantá-la desde o começo. Mas desta vez ela cantou junto com ele, e sua voz era tão bela e tão harmoniosa que ele tropeçou nas notas e errou praticamente a música toda, parando totalmente de cantar, algumas vezes, apenas para ouvir a voz dela. Mas ela sorria tanto que nem percebeu a atenção dele, e seus erros.
"Nothing gets these people going
Not even Gipsy Kings,
Nobody talks about my Supertheory
of Supereverythings!
So be you Donald Trumo
Or be an Anarchist,
Make sure that your wedding
Doesn't end up like this...
"


A campainha os interrompeu por um instante, e Riza entrou, carregando uma sacola, ajudada por Josh. Ao verem os dois sentados no tapete, cantando e, no caso de Tristan, tocando. Não se fizeram de rogados. Jogaram-se no tapete também, e logo começaram uma longa rodada de músicas, se esquecendo totalmente do café da manhã que esfriava na cozinha.
Foi quando Riza sugeriu uma música para Tristan, e os dois começaram a tocar, que Eve percebeu o problema.
As notas eram novamente tristes, mas não tanto quanto antes. Ela procurou se controlar e não deixar a música envolvê-la tanto quanto antes, e parou para prestar atenção no dueto que se iniciava.
O tom de Tristan, solitário, ecoou pela sala docemente, enquanto ele cantava de forma suave.
"I want you to know I love the way you laugh,
I wanna hold you high and steal your pain away
I keep your photograph, I know it serves me well
I wanna hold you high and steal your pain...
"

E então Riza juntou sua voz à de Tristan. Era era afinada, e sua voz era suave e feminina, tão bela e tão apaixonada que Eve teve que resistir bravamente a não se deixar levar pela música. Mas as palavras que os dois trocavam fizeram uma chama se acender em seu coração, e foi como se ela tivesse bebido o mais amargo veneno. Um gosto de fel brotou em sua boca, e seus olhos se estreitaram. Riza agira com ela como uma melhor amiga, uma irmã mais velha até. Mas ali, trocando aquelas frases com Tristan, Eve sentiu uma vontade quase animal de atacá-la, de tirá-la de perto do rapaz que tocava a guitarra. Seus punhos se cerraram, e as unhas se fincaram nas palmas das mãos. Afastou-se devagar e discretamente, querendo ir o mais longe possível daquela cena.

"'Cause I'm broken when I'm lonesome,
And I don't feel right, when you're gone away...
"

Ela se virou, e interrompendo totalmente a canção, avisou que ia tomar café. Tristan encostou sua guitarra de volta no suporte e desligou o amplificador. Talvez se Eve não estivesse tão inexplicavelmente furiosa, teria percebido que ele cantara o tempo todo olhando para ela.

Capítulo 4

Birthday Eve
Capítulo 4

Os absorventes. A risada. O beijo.

Tristan colocara o colchão de volta na cama, e olhara bem ao redor. A montanha de jornais velhos que estavam sobre a escrivaninha já havia sido descartada, e o chão fora limpo com cuidado. Ele colocara um tapete quente no quarto e testara o pequeno aquecedor. Depois de espanar o pó da cadeira e da mesa de cabeceira da cama, ele ainda livrara o pequeno guarda-roupa da maior parte das coisas. Por fim ele trocou os lençóis e fronhas da cama, colocou os travesseiros de volta e jogou por cima os cobertores. Aproximou o nariz de um dos cobertores felpudos e torceu para que Eve não reparasse no leve cheiro de coisa guardada por muito tempo que eles emanavam.
Colocou o abajur de volta na mesinha de cabeceira, abriu a porta do banheirinho anexo e o supriu com papel, e abriu a sacola que Riza lhe dera. Escova, pasta de dentes, pente, escova de cabelo... A garota pensara em tudo, e ainda fizera questão de comprar coisas consideradas “importantes” para não deixar nada faltando: batom, lápis para olhos, pó e algumas outras quinquilharias de maquiagem que Tristan jamais vira na vida.
Ele guardou as coisas nas gavetas do banheiro, deixou sabonete, xampu e condicionador na prateleirinha de dentro do box e pegou a última coisa da sacola. A caixinha escorregou de sua mão e caiu no chão, espalhando seu conteúdo. Dezenas de saquinhos macios e brancos caíram de qualquer jeito no piso. Ele estava guardando as coisas de volta na caixa quando percebeu o quê eram.
Seus olhos quase saltaram das órbitas quando se viu com mãos cheias de absorventes, enquanto corava tanto que sentiu-se arder. No ímpeto de vergonha, derrubou todos os absorventes novamente, e virou-se para sair do banheiro imediatamente. Saiu com tanta pressa do banheiro, que só percebeu Eve quando foi tarde demais.
Ele perdeu o ar quando viu a garota no quarto, totalmente nua e segurando uma pilha de roupas íntimas nas mãos. Tristan ficou roxo de vergonha, deu um passo em falso para trás, tropeçou na vassoura que tinha largado no quarto, sentiu o cabo de madeira bater secamente contra suas costas e nuca e caiu para frente, derrubando Eve com ele.
A primeira coisa que ele sentiu depois do impacto foi um suave cheiro de flores, enquanto seu rosto estava pressionado contra algo macio e quentinho. Tateou, meio tonto, e sua mão pousou em algo arredondado e suave. Sentindo-se cada vez mais confuso, levantou a cabeça.
Os olhos de Eve o encontraram. Ele estava caído por cima dela, e foi então que se lembrou que ela estava nua. A ruiva parecia surpresa com alguma coisa. Os olhos dele deixaram os dela e deu uma espiada no que estava embaixo de sua mão.
A porta se abriu bem devagar, e Josh colocou a cabeça para dentro do quarto, silenciosamente. Seus olhos bateram na figura de Tristan caído sobre a nua Eve, uma de suas mãos num dos seios dela. Os olhos dos amigos se encontraram.
Josh deu um sorriso para o amigo, fez um sinal de positivo com o polegar e saiu, fechando a porta silenciosamente.
“NÃO É O QUÊ TÁ PARECENDO!!!”


O loiro tocou cuidadosamente no galo que arranjara graças ao ataque do amigo usando comida congelada. Seu olho roxo e o galo na testa faziam um conjunto interessante, e Riza ainda ria. Tristan estava completamente corado, e olhava embasbacado para sua própria mão direita. A garota sentiu que era melhor não perguntar o quê acontecera no quarto de hóspedes.
A porta da cozinha se abriu e Eve abriu os braços, dado uma pequena voltinha ao redor de si mesma.
“E então, como ficou?” Perguntou ela com um sorriso.
A calça de moletom macio era perfeita para ficar em casa, e se moldava totalmente ao corpo incrível da menina. Para combinar com a calça preta, ela vestia uma camiseta de mangas compridas, totalmente branca, que mesmo sendo larga ainda assim mostrava suas formas perfeitas e seu seios grandes e bem feitos. Ela calçava um par de tênis comum, e parecia confortável naquelas roupas, além de estar muito linda. Para completar seu visual, ela deixara seus longos cabelos ruivos descerem livremente por suas costas. E eram tão compridos que lhe chegavam quase até os joelhos. Ela sorriu mais ainda, mas parecia preocupada com a opinião deles.
“Está perfeita!” Disse Riza, sorrindo também. Josh assentiu, e Tristan rapidamente baixou a cabeça de novo, as imagens de sua mente o fazendo corar mais ainda, mas também assentiu.
Eve então estreitou os olhos, parecendo pensativa. Moveu-se para trás e para frente, sem sair do lugar, e balançou os braços. Então, com as sobrancelhas unidas, numa carinha de concentração profunda, colocou uma de suas mãos por baixo da camiseta que usava. Ela deslizou o braço pelas costas, e fez mais umas caretas, até que subitamente enfiou sua mão na outra manga e a tirou, trazendo o sutiã branco consigo.
Com um suspiro de alívio, encarou a peça, enquanto Josh arregalava os olhos e Tristan parecia ter se esquecido de como se fazia para respirar.
“Incomoda” Disse Eve, em tom de explicação.
“Será que eu comprei muito pequeno?” Perguntou Riza, se aproximando da garota. “Era o maior que tinha na loja...”
Sem aviso nenhum, ela se postou defronte a menina e levantou a camiseta da garota. Com seu corpo na frente de Eve, os dois não podiam ver o quê elas estavam fazendo. Josh levantou-se para espiar, mas Tristan o puxou de volta.
“Não está apertado, você só vai ter que se acostumar, Eve” Ela sorriu para a garota, enquanto abaixava de volta a blusa da ruiva. “Realmente, Josh exagerou aqui em você, não?”
Eve não percebeu o olhar fulminante que a morena dava para seus seios. Josh não perdeu a piada.
“Fiz pensando em você, Riza, meu bem” Crocitou ele. Imediatamente, a garota pulou sobre ele e começou a apertar seu pescoço.
“MORRA SEU MALDITO!!!”
Um som musical e doce encheu a cozinha. Riza parou de esganar o garoto, mas não o soltou. O som continuava, e todos os olhos se voltaram para Eve. A ruiva estava meio dobrada, os braços ao redor da barriga, e ria livremente. Sua gargalhada era tão viva, tão bonita e simplesmente perfeita que por um minuto todos ficaram como em transe. Então, num rompante, Josh começou a gargalhar também, enquanto Eve ria de se acabar. Tristan não agüentou e começou a rir também, e logo até Riza os acompanhava.
Lágrimas de riso escorriam pelo rosto da ruiva, quando ela finalmente se acalmou.
“Não teve graça” Resmungou a morena, mas seu sorriso estragava o efeito reclamão.

A noite caiu rápido sobre a casa, e Riza montou em sua motocicleta, fazendo com ela um ronco ensurdecedor que fez Eve se esconder atrás de Tristan, mesmo com seu cérebro lhe explicando o quê diabos era aquela coisa. Josh montou em sua bicicleta e cada um foi para um lado, rumo às próprias casas. Tristan trancou a porta e apagou as luzes de fora.
“Quer mais bolo, Eve?” Perguntou, enquanto trancava a porta do quintal. A garota negou com a cabeça, entretida em recolher os garfos e pratos de plástico colorido. Fora um dia cansativo, e muito interessante. O garoto guardou suas coisas e se espreguiçou. Ele completara dezessete anos, mas nem percebera realmente. A aparição de Eve tirara toda a atenção de seu aniversário.
Ele levou os presentes dos amigos para seu quarto. Riza e Josh insistiram em buscarem seus presentes, durante a tarde. O jogo de Josh e o grande livro que Riza lhe dera eram ótimos, mas ele quase não deu atenção à isso, preocupado em fazer a ruiva se sentir confortável naquela casa.
Quando saiu do quarto, a garota estava parada no corredor. Ela havia trocado suas roupas com pijamas de flanela, quentinhos e confortáveis, apenas calças compridas e uma camiseta de mangas longas. Era incrível como ela parecia simplesmente linda em qualquer roupa que usasse. Os pensamentos do castanho opinaram que até mesmo se ela estivesse vestindo trapos ainda pareceria a garota mais linda do mundo.
Ele corou.
“Boa noite, Eve... hã...”
“Boa noite!” Sorriu ela, agitada e luminosa como sempre. Tristan entrou numa espécie de transe, com aquele sorriso lindo direcionado a ele, e por isso só percebeu que ela estava perigosamente perto quando já era tarde demais.
Os lábios dela, quentes como fogo, se encostaram suavemente na pele de sua bochecha corada. Foi um único instante, mas todo o corpo do rapaz respondeu imediatamente. Foi a primeira vez em sua vida que sentiu aquele ímpeto selvagem de agarrar a ruiva pela cintura e beijá-la tão profundamente que tudo o mais desaparecesse. Ela se afastou, deixando para trás seu perfume suave de flores.
Tristan ficou, acariciando a própria bochecha.

Capítulo 3

Birthday Eve
Capítulo 3

A melhor amiga. A promessa. A comida congelada.

Riza encarou o reflexo do espelho, e apanhou a fita métrica. Respirou fundo, sentindo o ar entrar nos pulmões. Ajeitou os discretos óculos de aro fino em seu rosto, e sentiu as mãos tremerem de nervosismo. Algo gelado subia em sua garganta, enquanto encarou seu torço nu. A fita escorregou pela pele enquanto era ajustada. Ela marcou a medida com os dedos e soltou o resto da fita, aproximando o valor para perto de seus olhos.
"NENHUM CENTÍMETRO!" Berrou, jogando a fita métrica na pia e agarrando o pote de creme. "VOCÊ ME GARANTIU CENTÍMETROS EM DIAS, SEU MALDITO CHARLATÃO!".
O pote bateu profundamente no fundo da lata do lixo. Ela agarrou as bordas da pia com a mão, respirando fundo mais uma vez. Colocou uma das mãos na nuca, e sentiu a tensão que seus nervos ali exibiam.
"Relaxa, Riza" Sussurrou para si mesma. "Eles vão crescer, eles vão crescer".
Então sorriu pro espelho.
"Isso aí garota, bola pra frente. Sem motivo pra ficar nervosa"
O celular sobre a pia tocou, e seu sorriso quebrou. Agarrou o aparelho, abrindo o flip e o levando até o ouvido.
"O QUÊ FOI, CARAMBA?"


Tristan quase derrubou o telefone quando a garota gritou, do outro lado da linha. Josh elevou uma sobrancelha.
"Crise de mulher" Disse o castanho, apenas movendo os lábios e sem produzir som algum.


Levou quase meia hora para que a garota chegasse. Ela perdera quase quinze minutos se encarando no espelho e soltando frases de encorajamento para si mesma. Riza fizera questão de vir de moto, roncando alto o motor. Encostou em frente a casa de Tristan, deu um tapinha no seu lindo presente de aniversário de dezoito anos e apertou a campainha. A porta se escancarou imediatamente, e o sorriso aliviado do rapaz a recebeu.
"Riza, graças a Deus" Sorriu ele. "Entre"
Ela foi praticamente puxada para dentro e arrastada para a cozinha, onde Josh estava ocupado descascando uma banana tão lentamente que a fruta estaria podre antes dele terminar.
"O quê houve, pessoal?" Perguntou ela, sentando-se numa cadeira.
Os próximos minutos foram uma mistura de loucura, perplexidade e ficção científica. Uma garota comprada pela internet, feita em laboratório e nas medidas especificadas por Josh. E mais bizarrice ainda, o site não existia mais e havia algo sobre andar nua por aí.
"Vocês estão me dizendo..." Disse ela, por fim. "Que Josh encontrou um site suspeito e, achando se tratar de bonecas infláveis ou outra merda assim, comprou, na verdade, uma garota feita sob medida. E que agora vocês querem devolvê-la, mas não sabem como, pois o site foi tirado do ar?"
"Exatamente" Assentiu Tristan, mas o loiro franziu a testa.
"E..." Continuou ela. "Foi ela que fez esse seu olho roxo, Jozua?"
Josh fechou a cara diante da maneira que ela o chamara.
"Não. Foi o Tristan."
Riza sorriu largamente, e mostrou o polegar levantado para o amigo.
"Esse é meu garoto" Riu ela.
O loiro rosnou alto, mas então ficou sério.
"Ela é igualzinha ao modelo que eu montei no site. Mesmas medidas, mesmo rosto. Até mesmo o QI que eu coloquei! Ela zerou TETRIS em 15 minutos!"
Riza pareceu realmente impressionada.
"E onde está a garota-presente?"
Tristan subiu as escadas e bateu de leve na porta de seu próprio quarto. Com cuidado, abriu uma fresta da porta e espiou a escuridão suave lá dentro.
"Eve? Está acordada?"
"Acho que sim" Respondeu a voz sonolenta da garota. Ele sentiu pena dela.
"Trouxemos uma pessoa pra te conhecer. Você pode se trocar e esperar aí?"
"Tudo bem"
Ele fechou a porta e desceu as escadas. Riza já o esperava na sala.
"Ela vai se trocar e então nós subimos".
"Por que ela precisa se trocar? Qualquer roupa serve"
Josh deu um risinho pelo nariz.
"Ela dorme peladinha" Disse ele, num sorriso.
Riza encarou o garoto, enquanto Tristan corava e abaixava a cabeça.
"Agora entendo porque você não está se esforçando nenhum pouco para devolvê-la" Resmungou a garota. Então sorriu, levantando a mão num gesto em que o indicador e o polegar estavam muito próximos, como se medissem algo pequenino. "Acha que ela vai se interessar por você, meu pequeno amigo?"
Tristan fingiu uma tosse forçada, enquanto disfarçava o riso. Mas Josh apenas sorriu.
"Ora, ora, Riza. A cada dia você está mais despeitosa comigo"
Tristan arregalou os olhos e começou a fazer gestos por trás da garota, sinalizando para o amigo que era melhor calar a boca. Os olhos da moça se estreitaram.
Com um rosnado selvagem, ela o agarrou pelo pescoço com as duas mãos.
"CALE A BOCA SEU MALDITO VIADO DOS INFERNOS!!!" Berrou ela, tentando esganá-lo. Tristan acorreu, separando os dois e praticamente carregando a amiga para fora da sala. Ela tentou escapar e voltar para o pescoço do loiro, que arfava e engasgava no chão da sala.
"Calma, Riza, calma. É só brincadeira" Disse o castanho. A garota tremia ainda quando se empertigou e de um sorrisinho superior muito amarelo para o amigo.
"O que vem de baixo não me atinge" Recitou ela.
"Senta num prego então" Gritou Josh, lá da sala.
Num grito, a moça avançou. Rolando os olhos, Tristan voltou a tentar separá-los.


Eve apertou o cinto e sentou na cama, ligando as luzes do quarto. A janela fechada não deixava a luz do dia entrar, mas seu estômago avisava que estava quase na hora do almoço. Ela inspecionou o quarto de seu dono. A cama de solteiro, o guarda-roupa, a cômoda e a porta do banheiro eram comuns, e ela rapidamente os assimilou. Então vinha a escrivaninha com o computador, a televisão num canto com a coisa que seu cérebro imediatamente lhe disse que era um PlayStation 2, uma prateleira baixa de caixas e outras coisas, uma coisa ("Guitarra" disse-lhe sua mente) pendurada na parede e outra num suporte, num ponto privilegiado do quarto. Ela afundou seus pés descalços no tapete fofo que havia no chão. Então levantou da cama e deitou no tapete. Era uma sensação gostosa estar ali, e o quarto tinha cheiro bom.
A porta se abriu devagar, e Eve imediatamente levantou do tapete. Uma moça entrou, os curtos cabelos muito negros contrastando com os olhos azuis, por trás de... "óculos". A garota a observou.
"Oi" Disse a ruiva, sem notar o olhar assassino que a outra carregava. "Eu sou Eve".
"Riza" Disparou a garota, mais uma ameaça que uma apresentação. "Prazer".
Sem saber muito o quê fazer, ela esperou enquanto a outra a observava. Josh e seu dono entraram no quarto, fechando a porta.
Riza inspecionou criticamente a garota.
“Ela tem boas proporções, odeio admitir que o Josh fez um ótimo trabalho”.
“Hey, isso meio que me faz o pai dela, não?”
Três pares de olhos o miraram.
“Não”.
O tom conjunto de Eve, Riza e Tristan o irritaram.
“Olha, eu não sabia o quê estava fazendo, certo?” Gritou ele, sua paciência no limite. “Eu não tinha intenção de te dar uma garota de verdade de presente!”
“O problema, Jozua” Disse Riza, séria. “É que você nunca sabe o quê está fazendo. Nem toda brincadeira é engraçada, e algumas podem acabar machucando de verdade”.
Um engasgo embolou-se na garganta do rapaz. Tristan desviou os olhos da cena, mas Riza continuou a encarar o loiro firmemente. Josh baixou a cabeça, por fim.
“Eu sei” Murmurou. “Eu errei ao colocar a Eve nesta história, e todos vocês. Eu... eu vou concertar tudo isso, pode acreditar”.
Ele deu um sorriso confiante, repentinamente voltando ao seu jeito despreocupado.
“Eu sempre cumpro minhas promessas”.
Riza soltou um bufo, voltando para Eve.
“Então que tal me pagar aquela grana que você pegou emprestada de mim...?”


“Certo” Determinou a morena, ajeitando seu penteado delicadamente. “Nós não sabemos quanto tempo Eve vai ficar com a gente, e isso pode demorar alguns dias, ou até semanas. Ela precisa de roupas e outras coisas, e precisamos decidir onde ela vai ficar”.
“Bem, já que fui eu que comprei...” Disse Josh, novamente soltando um olhar desejoso para a menina, que estava sentada do outro lado da mesa.
“Ela vai ficar aqui, é óbvio” Cortou Tristan. “Vou limpar e arrumar o quarto de hóspedes, você vai ficar bem confortável, Eve”.
A ruiva sorriu, feliz por poder ficar com seu dono.
“Depois disso, precisamos de roupas para ela. Agora que eu sei as medidas dela, vou comprar algumas e já trago. Sapatos e roupa de baixo também. Você tem alguma preferência, Eve?”
A garota pensou um pouco.
“Eu...” Disse ela com um sorriso. “Gosto de ficar sem roupas”.
Tristan corou tanto que pulou completamente o tom vermelho e foi para algo quase roxo. Josh arregalou tanto os olhos que eles quase saltaram de seu rosto e caíram na mesa. Apenas Riza continuou impassível.
“Está frio, Eve. Você vai precisar de roupas para sair de casa” Disse a morena, pacientemente.
“Frio?” Perguntou a menina, curiosa. Seu cérebro lhe informava o que era frio, mas não parecia em nada com o que ela estava sentindo. “Eu não estou com frio...”
Riza levantou um dedo e apontou para um canto da cozinha. Um cano negro subia do chão e entrava na parede ali, e havia um regulador afixado na parede.
“A casa do Tristan tem regulador de temperatura, por meio do aquecedor do porão. Por isso nós não estamos com frio. Mas lá fora está bem gelado, é Dezembro afinal”.
Ela voltou-se para os amigos.
“Então eu vou sair e comprar algumas roupas. Em algumas horas estarei de volta”. Ela pareceu vacilar.
Tristan tirou algo do bolso e entregou para ela. Um pedaço de plástico negro.
“Compre o quê for necessário” Ele piscou para ela. “E algo pra você também, por todo esse trabalho”.
“Não... Tristan, eu...”
“Ora, vamos. Você sabe que sempre gostei de te dar presentes, Ris” Ele sorriu largamente. “Aceite”
Ela suspirou.
“Obrigado.”
Eve se ajeitou, repentinamente desconfortável na cadeira. Riza deu um tchauzinho pra eles e logo o alto ronco de sua moto foi desaparecendo, conforme ela ia se distanciando.
Tristan começou a abrir os armários da cozinha.
“Eve, se importa em comer comida congelada?” Perguntou ele, repentinamente consciente da baixíssima quantidade de comida que havia na casa. Ele teria de fazer compras em breve.
“Não, mas...” Ela começou, vacilante. “Comida congelada não é... dura?”
Josh começou a gargalhar, mas Tristan apenas sorriu gentilmente.
“Não, a gente esquenta ela. Ela é feita em fábricas e a gente compra pronta.”
Então engoliu em seco. A garota levantou repentinamente, caminhando até ele e tirando o pacote de comida semi-pronta de suas mãos. Eve encarou a embalagem por um longo segundo.
“Então... é como eu” Disse ela, baixo. Ela lhe estendeu a embalagem, e deu de ombros. “É gostoso?”
Tristan pareceu perdido. Os olhos dele encontraram os dela com um brilho diferente.
“Delicioso” Respondeu ele. Então pareceu despertar.
Ela sorriu radiante, e saiu da cozinha, seu cérebro lhe instruindo sobre procurar um banheiro. Josh tocou o olho roxo que o amigo lhe dera, então olhou a porta por onde a menina tinha saído. Se aproximou do amigo, jogando um braço por sobre os ombros dele.
“Isso foi bem estranho, meu amigo” Tristan segurou o pacote congelado de comida com força, preparando-se para quebrar ossos com aquilo, caso viesse outra bobagem em sua direção. Josh soltou um assovio cafajeste, enquanto dava uma espiada para a porta, novamente.
“Ela é bem gostosa, afinal”
“Ela é um ser humano, não uma boneca inflável, seu grande idiota”
“Que tal se a gente testasse antes de devolver? Só pra não perder a viagem...”
E Josh levou o segundo nocaute do dia.
 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB