TEMPUS
PARTE II - New Life
POST V
Nyara apertou os lábios, enquanto examinava a longa espada prateada. Era uma coisa monstruosa, de quase dois metros de lâmina e trinta centímetros de largura na folha de aço. Devia ser tão pesada que somente um monstro de verdade poderia manuseá-la.
Toda a lâmina estava manchada de um sangue escuro e fétido, que parecia mais uma gosma que sangue de verdade. Atrás dela, dezesseis assistentes de alto nível aguardavam.
Ela apanhou a prancheta que um deles lhe estendia e examinou os dados que haviam ali.
"Alguém poderia classificar isto?"
Do outro lado da mesa, afastados cautelosos vinte passos da arma, uma turma de alunos do último ano do curso de Justiça, voltado para "habilidades de catalogação e cuidado de objetos nefastos", a observaram, receosos. Era quase irritante ver aquele bando de medrosos tentando uma vaga para um emprego que mataria a maior parte deles, se continuassem assim. Ao fundo, uma pequena mocinha loura levantou a mão, séria.
"Nível 8" Disse ela, com certeza na voz.
Nyara elevou uma sobrancelha delicada e negra.
"Discorra" Disse ela, casualmente, observando a lâmina. Aquilo era uma armadilha, afinal, e a garota caíra como uma patinha.
"Pela quantidade de sangue na lâmina, pelo tamanho e pela forma, pelo peso e pela habilidade necessária para manuseá-la" Disse a moça, encarando a mulher nos olhos. Afinal, Nyara não era muito mais velha que ela, talvez uns três ou quatro anos, aparentemente.
"Você está totalmente errada" Rebateu a morena, sorrindo calmamente. "Esta lâmina é de Nível 2, na verdade".
A surpresa da turma foi evidente.
Nyara começou observou a classe do último ano da mesma escola que ela estudara. Ela lembrava muito bem de sua própria turma. A maior parte de seus antigos colegas teria agarrado aqueles franguinhos que a observavam, pranchetas na mão, e os triturado de olhos fechados. Suspirou. Não se faziam mais catalogadores como antigamente.
"Ao vermos uma arma deste tamanho e de aparência tão perigosa, imediatamente a posicionamos num nível alto. Mas não é a forma ou a aparência que definem um objeto como perigoso. É a quantidade de magia que ele possuí. Todas as armas que são utilizadas pela Sociedade possuem nível 0, por não carregar magia alguma. As armas encantadas, mais perigosas, possuem o Nível 1. O que irá definir se uma arma é extremamente perigosa, o suficiente para ser apreendida, catalogada e guardada por nós, do Setor 34, é a magia que habita dentro dela, além de seus poderes. Enquanto vocês não aprenderem a ignorarem a forma e se concentrarem na magia, vocês não serão aprovados."
Ela olhou para a loirinha, que agora olhava desafiante para ela.
"Você receberá nota 2 hoje, por ter se guiado unicamente pela forma, e ter ignorado a magia que há nesta lâmina."
O resto da turma riu, quando a garota - que devia ser algum tipo de sabe-tudo - corou de vergonha e abaixou a cabeça.
"Vocês" Continuou Nyara. "Que nem sequer responderam a pergunta, receberão um 0. Dispensados".
A turma saiu reclamando e arrastando os pés, resmungando contra a mulher. Nyara fez um gesto para os assistentes, que imediatamente lacraram a arma em uma caixa de vidro enfeitiçado e a levaram. Krina se aproximou, trazendo um copo.
"O melhor café humano" Disse ela. "Ainda está quente".
"Milagre" Resmungou a mulher, tomando um longo gole.
"Parece que não teremos formandos este ano" Comentou a mulher, de cabelos loiros. Era uma Anja poderosa, se formara na mesma turma que a morena.
"Não são um décimo do que a gente era" Retrucou ela. "Um bando de mimadinhos que só têm olhos pro salário alto que a gente ganha aqui".
"Eles não têm noção de nada" Concordou a outra. "Da próxima vez, vou fazer a Ulla dar a aula. As cicatrizes dela vão despertar eles pra realidade".
Nyara riu. Então vestiu sua jaqueta. Na mesma hora, seu bracelete esquentou levemente, e ela encarou a peça de metal liso. Um código surgiu lentamente no aço que o formava.
"Temos um artigo fazendo bagunça lá em cima" Gemeu ela. "Até mais, Krin. Obrigada pelo café".
Krina deu de ombros, sorrindo. Então seu próprio bracelete esquentou e ela saiu correndo.
Dois homens altos aguardavam na frente da porta de metal negro. Nyara mostrou sua identificação para eles, já começando a ouvir os sons abafados que vinham de trás da porta. Algo estava saindo de controle bem rápido ali dentro. Os homens levaram apenas alguns segundos para destrancarem a porta, mas ela usou este tempo para sacar suas espadas gêmeas, ativar um escudo de proteção e preparar mentalmente um feitiço que já estava na ponta de sua língua. A magia brotava dela tão fortemente que os dois guardiões estremeceram, a energia da luz dela os prensando contra a parede. Nyara avançou.
Assim que cruzou a linha vermelha que havia após a porta, esta se fechou, e as luzes se acenderam. Ou melhor, parte das luzes, pois um bom pedaço das longas tiras luminosas fora arrancada das paredes. O cheiro de Aris, a substância que podia gerar luz, era forte na sala, e alguns rastros brilhavam fracamente no chão. Nyara sentiu seu coração desacelerar um pouco, suas costas ficaram mais retas e seus músculos relaxaram um pouco. Para um desconhecido, aquilo deveria significar que ela baixava a guarda, mas na verdade seu corpo entrava no estado de total concentração.
Sua percepção foi aditivada com mágica, agora se um grão de poeira dançasse no ar, ela saberia. Sua audição clareou, e ela pôde avaliar que a cento e dois metros havia confusão. Correu silenciosamente até lá, vencendo a distância em instantes.
Uma outra turma de calouros estava espalhada na sala adjacente. Duas assistentes levantavam escudos para protegê-los, enquanto uma Catalogadora, recém-formada, corria de um lado para o outro, atacando uma forma escura que brotava de um vaso de cerâmica. O vaso era bem alto e devia ser pesado, pintado de esmalte vermelho como sangue. A sombra que saía dele tinha uma pressão mágica esmagadora, as próprias paredes da sala lentamente se envergavam em sua direção.
Nyara saltou graciosamente para dentro da sala, parando na frente da turma assustada. Suas espadas ficaram em posição de combate.
"Sërë te las ta frikawa" Murmurou ela, deixando a magia correr em suas palavras. Imediatamente a criatura de fumaça foi envolvida num círculo de luz que a prendeu pela cintura.
Nyara virou para as assistentes congeladas de medo.
"Círculo de magia número 13, controle de artefatos, classe 3, e uma caixa." As duas piscaram tolamente, meio atordoadas. "É PRA HOJE!"
Seu berro as despertou. Imediatamente uma delas conjurou um balde de tinta roxa e um grande pincel, quase do tamanho de seu braço, e começou a pintar o chão com uma profusão de signos de Cedros. A outra agarrou seu bracelete e disparou algumas ordens, imediatamente fazendo surgir uma grande caixa de vidro e uma corrente de bronze.
A criatura de sombra conseguiu se livrar do círculo bem neste instante. Seus longos braços varreram parte dos símbolos desenhados no chão, e Nyara gritou um aviso. Correu, as espadas em suas mãos. Num gesto rápido, enfiou uma delas no cinto e agarrou a corrente de bronze das mãos da assistente. Murmurou um feitiço rápido, e saltou sobre o braço da criatura.
Pulou e avançou pelo braço, os pés magicamente leves afundando um pouco na "carne" de poeira e cinza. Fez um laço com a corrente e o girou, adicionando um feitiço enquanto o lançava.
O laço se apertou ao redor do pescoço da coisa. Nyara se postou na nuca da criatura e enfiou a segunda espada no cinto. Pulou para baixo, agarrada na corrente. Bateu no braço da criatura e saltou para o lado, plantou os pés na parede alta do salão e voltou a pular, correu na vertical pelas costas do monstro, antes de mais uma vez usar a parede como apoio, até pular para o chão, quase dois metros abaixo.
Quando os saltos de suas botas bateram no piso empoeirado da sala, o monstro de pó e fumaça já estava envolvido completamente pela corrente. As assistentes terminavam os últimos retoques nos símbolos do chão. Nyara sentiu os elos de bronze cortarem a pele de suas mãos, quando a criatura começou a se debater com força. Seus músculos se retesaram com o esforço, e os saltos pareciam a ponto de perfurar o chão, mas ela não se moveu um milímetro.
A magia escrita ficou pronta. Os símbolos se iluminaram até parecerem sóis roxos, e simplesmente saltaram do chão, se grudando ao corpo da criatura. Um estrondo horrível se ouviu, enquanto a magia escrita empurrava a criatura de volta para seu vaso. Nyara contou até três e deu um puxão na corrente, trazendo-a toda de volta, e sacando novamente suas espadas. A criatura entrou completamente no vaso, e as Assistentes avançaram com a caixa, prendendo o vaso dentro dela.
A morena prensou a palma de sua mão contra o vidro mágico da caixa, e murmurou uma única palavra. Uma grossa tranca surgiu no vidro, acompanhada de um cadeado tão grande quanto o punho da mulher. Imediatamente o cadeado estalou, trancando a caixa, e um número 8 surgiu no vidro.
Os escudos dos alunos caíram, e estes avançaram, correndo para a porta. A Catalogadora escorregou contra a parede, meio chorando, meio babando. As duas Assistentes conjuraram uma cadeira para Nyara, que esta aceitou, agradecida.
"Muito obrigada, Senhora Ainnion" Sorriram elas. Nyara fez um gesto com a mão, mostrando que não fora nada.
"A senhora precisa de mais alguma coisa?"
Nyara começou a curar suas mãos, e os arranhões nas pernas. Seus pés reclamavam dentro das botas subitamente apertadas.
"Um dia". Murmurou ela. As Assistentes elevaram as sobrancelhas, confusas. "Um único dia só mexendo com papelada chata e normal."
Nyara deu um grande suspiro, se levantando e começando a arrastar a inútil catalogadora pela gola da camisa.
"Seria o paraíso".
