quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Capítulo 16

Birthday Eve

Capítulo 16

O primeiro dia. O quadro. A possível rival.


Tristan levantou a arma e atirou contra o homem de preto. Os tiros seguiram-se um atrás do outro, como se jamais pudessem ter fim. Ele viu, quase como se em câmera lenta, o homem desmoronar para trás, caindo lentamente até tocar completamente o chão. A respiração dele cessava, os milhões de buracos de bala jorrando um sangue muito quente e vermelho.
O rapaz abaixou-se ao lado dele. O capuz não deixava que ele visse o rosto do inimigo, e ele precisava vê-lo. Queria ter o prazer de ver a vida fugir daquele rosto odioso. Arrancou o capuz com um movimento violento, enquanto sorria com selvageria.
Os olhos muito verdes de Eve o encaravam, enquanto sangue corria dos lábios entreabertos dela. A ruiva estava encharcada do próprio sangue, e seus lábios se abriram mais um pouco, afogados, e os olhos dela o encontraram.
“Por quê?” Perguntou ela, e então morreu.

Tristan acordou berrando. Num movimento rápido demais, caiu da cama, batendo a cabeça na mesa de cabeceira. O cobertor estava enrolado nele, sufocando-o, prendendo como correntes de fogo. Sua roupa estava empapada de suor, e se embolava nele junto com as cobertas. A testa ardia em dor pura, talvez pela gigantesca dor de cabeça que se formava, talvez pelo forte impacto.
A porta de seu quarto se abriu, e Eve entrou. Deus, como era bom vê-la assim viva. Os olhos dela não estavam mortos, mas sim carregados de preocupação. Ela correu até ele, e o ajudou a sentar-se na beira da cama.
Os braços dele não obedeciam ao cérebro, e a puxaram para um abraço sem fim. Ela correspondeu, suave e quentinha como sempre, enquanto ele soluçava e tentava se recuperar do medonho pesadelo.
“Já terminou, já terminou” Sussurrou ela, como uma mãe zelosa. Tristan engoliu o bolo que se formara em sua garganta mais algumas vezes e então pareceu ficar um pouco melhor. Apenas alguns arrepios o atravessavam, e ela o fez se deitar debaixo das cobertas.
Eve segurava sua mão, enquanto ele fechava os olhos e os cobria com o braço. Sua dor de cabeça não estava mais tão insuportável, e o toque gentil dela em sua mão o confortava mais ainda, parecendo levar a dor embora.
“De vez em quando” Começou ela, bem baixinho. “Eu também sonho... Com o que aconteceu”.
Ela fungou, e então deitou-se sobre ele, acima das cobertas, e o abraçou. Ele começou a fazer uma espécie de carinho em seus cabelos, e logo adormeceu. Bem devagarinho, ela deslizou para baixo das cobertas e o abraçou. Juntos, os pesadelos os deixaram em paz pelo resto da noite.

O ronco de motor quebrou o clima desconfortável da cozinha. Tristan e Eve estavam totalmente corados. Na verdade, o fato de terem acordado abraçados na mesma cama talvez não fosse tão constrangedor se Eve não dormisse completamente nua, mesmo no inverno. Ela ainda tinha grandes problemas com roupas, e acabara se acostumando a dormir do jeitinho que viera ao mundo.
A garota subiu para se trocar, e Tristan fingiu que dava um nó em sua própria gravata. O uniforme da Academia Melody seguia padrões rígidos e bem ultrapassados. Tristan usava calças azuis, camiseta branca, blusa azul e a gravata listrada das mesmas cores que o resto do uniforme. A gravata era essencial para a escola, e nela estavam bordados o brasão da Academia e seu lema. Tristan usava tênis, já que não estava mais tão frio e a neve já diminuíra bastante. Não era mais como quando ele era pequeno, quando precisava usar as botas até na classe.
O rapaz arrumou a bolsa e o estojo da guitarra. Os alunos da Academia tinham aulas semanais de música, e a escola possuía diversos clubes para bandas e gêneros musicais. Os famosos clubes estudantis, que disputavam praticamente à tapas o grande troféu de ouro de melhor clube, todos os anos.
Riza abriu a porta, e trouxe uma sacola abarrotada de coisas. Eve desceu, sorrindo, e girou para mostrar o uniforme que vestia.
A blusa branca fina e de mangas curtas destacava enormemente seus seios grandes, e a saia pequena e azul revelava as pernas perfeitas da menina. Tristan ficou novamente no estado babão que era praticamente um costume agora, mas Riza riu.
“Eve, você não quer sair com essa saia com o frio que está lá fora, é?”
A garota pareceu confusa, e ligeiramente decepcionada.
“Mas só tem saias lá em cima” Riza lhe trouxera os uniformes (apenas dois – completos) no dia anterior.
“Aqui estão os de inverno” Disse a mais velha, mostrando a sacola. “Eles não tinham na hora, eu passei lá e peguei.”
Ela omitiu descaradamente que eles não tinham um tamanho grande o suficiente para Eve. Não que ela fosse gorda, nem de longe, mas seus seios eram um verdadeiro estorvo na hora de comprar roupas.
A garota agradeceu, pegou as roupas e subiu. Tristan ficou em silêncio, e Riza achou melhor deixar o amigo em paz. Quando a ruiva desceu, usando agora mangas compridas, calça e blusa, ela trazia a gravata em mãos.
“Isso é um cinto? Eu sei que é pra por no pescoço, mas não entendi nada da parte de nós e tudo mais”.
Riza tirou um bolo de pano amassado do próprio bolso. Sua gravata.
“Não faço a menor idéia de como amarra isso, também” Disse ela, dando de ombros. “Eu não uso”.
“E recebe detenções por isso” Bocejou Tristan, tomando um pouco mais de suco. “Vem cá, Eve, eu amarro pra você”.
Ela se postou diante dele e lhe entregou a gravata. Tristan passou a tira de pano por baixo da gola da camisa dela e girou, num nó rápido e habilidoso. Então puxou, e a gravata estava perfeita na menina.
“Melody devia perceber que gravatas estão ultrapassadas. Principalmente para as garotas.” Resmungava Riza, enquanto Tristan a forçava a parar quieta e colocar aquela coisa no pescoço.
“Melody gosta da tradição. Nem em mil anos vai mudar alguma coisa. Por ela, a gente viria para a escola de carruagens”.
“Medoly? Mas não é... um prédio?” Perguntou Eve.
“Hannah Melody, a diretora. A Academia é dela, da família dela. É a professora Hannah que dita as regras da escola, e os uniformes.”
Eve pegou sua mochila, Tristan agarrou suas coisas e eles rumaram para a escola. Riza foi de moto, e os dois pegaram um ônibus, o que encantou totalmente a ruiva. Ainda sobravam muitas experiências novas para ela.
Quando chegaram na escola, a menina suspirou e rumou para um corredor diferente do de seu dono, e logo chegou até a classe.
Uma mulher alta e muito séria a agarrou pelo ombro quando ela tentou entrar. Os cabelos dela eram completamente negros, e seus olhos azuis pareciam faiscar. Ela usava óculos quadrados cuja moldura imitava algum tipo de madeira, e seu vestido longo e os sapatos altos a deixavam ainda maior e mais magra.
“Senhorrita Bell, eu presumo?” Ela tinha um jeito estranho de pronunciar algumas letras, e o BrainSys lhe informou que aquilo era chamado ‘sotaque’.
“Sim senhora” As regras de educação que Riza lhe dera nos dias anteriores seriam muito usadas, ao que parecia. A mulher pareceu aprovar a resposta da garota, ainda mais que Riza lhe mandara omitir as perguntas enquanto estivesse falando com ‘qualquer mulher alta, magra, com cara de coruja e óculos que parecem armas de tortura’. Não sabia quem era aquela, mas seria muito melhor se não perguntasse.
“Sou a Professorra Melody” Informou a mulher. “Dirretora da nossa nobre Academia. Seu primeirro dia?”
“Sim, senhora. Muito prazer em conhecê-la, senhora”
Educação e etiqueta. Horrível.
“Preciso que a senhorrita vá até meu escritórrio antes, parra receberr seu materrial. Depois eu a levarrei pessoalmente até sua classe”.
“Sim senhora. Obrigado senhora” Disse Eve. ‘O importante é não parece entediada. Fale cada ‘senhora’ como se fosse um prazer falar isso.’.
A Profa. Melody sorriu largamente, o que parecia ser algo muito raro.
“Faz muito tempo que não temos a sorrte de encontrarrmos uma dama tão educada como a senhorrita. Realmente a senhorrita é um grande ganho parra esta Academia”.
Ainda com o punho de ferro em seu ombro, Melody a guiou até o escritório. Todos que passavam pelas duas cumprimentavam educadamente a diretora, e um casalzinho que se beijava apaixonadamente repentinamente sumiu quando chegaram perto deles. No escritório, Eve foi convidada a adentrar a sala forrada de painéis de carvalho e mobília antiga, lindíssima. A garota examinou um quadro barroco pintado a óleo. Era a própria Academia, embora parecendo muito mais nova.
“Aqui estão seus livros.” Disse a diretora, lhe passando uma pilha de volumes. “Aqui a chave de seu arrmárrrio.”
A ruiva agradeceu mais uma vez, e a diretora novamente lhe sorriu. Então lhe deu um mapa da escola (mais uma rodada de agradecimentos educados) e finalmente a guiou para fora do escritório, até a sala. Durante esse meio-tempo a aula já devia ter começado, pois quando chegaram na porta uma professora já falava, e os alunos estavam sentados, os livros abertos.
Com a presença da diretora, a aula parou. A mulher alta empurrou a garota até a frente da classe, e a segurou mais uma vez pelo ombro. Eve encarou os quarenta e tantos alunos que apinhavam a grande classe e corou, baixando os olhos.
“Esta é nossa nova aluna. Esperro que a tratem bem. Porr favorr, senhorrita, apresente-se.”
Um giz foi enfiado na mão de Eve. Riza também lhe alertara sobre isso, era parte da tradição da Academia. Se fizesse bonito naquele instante, a diretora não lhe daria trabalho. Se errasse, teria de repetir a apresentação tantas vezes até que a classe estivesse irada com ela, e a ruiva já estaria totalmente humilhada. ‘Tradição, na Academia Melody, é sinônimo de Humilhação”.
A garota agradeceu pelo giz, bem baixinho, virou de costas devagar, escreveu seu nome na lousa com sua letra bem redonda e bonita, e voltou-se novamente para a classe. Respirando fundo, levantou os olhos e os dirigiu para algum ponto, na parede do fundo.
“Meu nome é Eve Bell, tenho 16 anos, vivi toda a minha vida no interior e me mudei a poucas semanas.” Começou ela. Então ela sentiu-se bem mais relaxada. O texto ensaiado estava bem guardado em sua mente, e todas aquelas mentiras sobre seu passado fluíam de forma natural. Desviou os olhos do ponto fixo e pareceu mais tranqüila, com sua fala se suavizando e afastando-se do tom de coisa decorada e mecânica. “Nunca freqüentei uma escola, eu tinha aulas apenas com meus pais, e minha especialidade ainda é desconhecida. Muito prazer em conhecê-los.”
Ela baixou os olhos de novo, e voltou a corar. A diretora não sorria, não se movia. A garota lembrou-se de repente do último passo, e devolveu-lhe o giz que apertara firmemente na mão, agradecendo novamente.
A sala esperava ainda o veredicto sobre a apresentação. Nem cochichos se ouviam. A diretora então voltou a apertar o ombro da ruiva. Parecia ser seu lugar favorito.
“Esperro que aprendam um pouco com a senhorrita Bell, principalmente sobre etiqueta. Porr favorr, senhorrita Holligan”.
A professora assentiu, e apontou para algum lugar mais pro meio da classe.
“Tem um lugar ali atrás da senhorita Julian. Seja bem-vinda, senhorita Bell.”
A garota agradeceu mais uma vez, e desta vez foi verdadeira em seu sorriso, e rumou rapidamente para a carteira vaga, sentando-se nela e empilhando seus livros sobre a mesa. Sua bolsa ficou debaixo da cadeira, bem guardadinha para que ela não levasse uma bronca por deixar as coisas jogadas no corredor. Guardou a chave de seu armário no bolso, e se concentrou na aula que recomeçava.
Como ela havia perdido dois dias já de aula, começara no meio da semana. Ao que parecia, as outras três pessoas que fizeram o teste de admissão com ela entraram em outras classes, e ela precisaria correr um pouquinho para acompanhar a matéria. A aula se revelou ser de matemática, mas ela não conseguia achar o livro certo, já que eles não possuíam títulos na capa.
“É o vermelho” Sussurrou alguém ao seu lado. Eve voltou-se para a pessoa, e viu uma garota de cabelos roxos, usando a gravata como um cinto. A menina piscou para ela, e mostrou o próprio livro, de capa vermelha. A ruiva sorriu de volta, agradecendo silenciosamente e pegou o vermelho, abrindo no terceiro capítulo, como estava escrito na lousa.
A aula era relativamente fácil, mas ao que parecia o material da Academia Melody era bem dividido. Havia o livro, onde a teoria, os textos e tudo mais estava, fora vários exercícios já resolvidos, usados como exemplos. Então havia uma série de livros menores, também separados por cores, que continham apenas exercícios para serem resolvidos no próprio livreto. Os livros de matéria, grandes, eram apelidados de “Intocáveis”, já que os alunos não deveriam escrever neles, fora o próprio nome. Os de exercícios eram chamados de “Livro de Tarefas”. Por último, tanto no Intocável quanto no de Tarefas havia exercícios extras, que deveriam serem feitos no caderno. Eve ficaria totalmente perdida no meio de tudo aquilo se Riza não lhe tivesse ensinado antes como funcionava o material escolar e a própria escola.
Em algum ponto da aula um sino alto soou, assustando Eve, ao que os outros que estavam mais perto riram um pouco. A primeira aula terminara, e começaria a segunda, que também era de matemática.
Quando a segunda aula terminou, todos levantaram e rumaram para fora. Eve os seguiu, e logo entraram em outra classe, cheia de mapas e quadros, onde teriam História com um homem muito velho e completamente careca. Ali o livro certo era o verde, e todos sentaram-se nas mesmas posições que da aula anterior.
Eve tinha quatro aulas antes do almoço, e quando o sinal tocou indicando o fim da quarta aula, ela rumou para fora, sem precisar seguir o resto. Passou pelo corredor principal, onde centenas de armários de aço ficavam. Ela olhou o número que aparecia no chaveiro que recebera da diretora, e leu apenas 21-B.
A garota de cabelos roxos a alcançou, e sorriu novamente.
“Eve, certo?” Perguntou. A ruiva assentiu. A garota lhe deu a mão. “Sou Caroline. Mas me chame de Line. Problemas em achar o armário?”
A de cabelos roxos era realmente falante, e foi discorrendo sobre a disposição dos armários e da escola em si.
“Os armários são divididos em blocos de cinqüenta. Temos o bloco A, o B, o C e assim por diante. Todos os blocos tem armários do 1 até o 50, então é fácil se perder. O meu é no bloco B, o seu também. 21, certo?”
Ela lhe apresentou a porta estreita de aço com uma placa onde o número se destacava. Eve enfiou a chave na fechadura e a girou, mostrando um espaço pequeno, limpo e totalmente vazio. Havia apenas uma prateleira na metade do armário, que tinha pouco mais de cinqüenta centímetros.
A menina enfiou seus livros ali, até os de Tarefas. Line correu até seu próprio armário, que ficava umas dez portas de distância do de Eve, e voltou com uma fita adesiva e um papel. Ela colou o quadrado branco na parte de dentro da porta do armário da ruiva.
“Seu horário. Eu tenho dezenas de cópias disso. Depois do almoço corra até aqui e pegue os livros que estão nas aulas. E aqui” Ela colou outro papel. “É as cores dos livros e o que elas significam. Em alguns dias você decora, é claro, mas é bom ter. Você pode enfeitar seu armário do jeito que quiser, pelo lado de dentro, mas eu recomendaria que você guardasse bebidas e cigarros em outro lugar. De vez em quando a gente tem os armários revistados”.
Line mostrou seu próprio armário, decorado com fotos e recortes sobre diversas bandas. Eve olhou para uma delas.
“Tristan tem uma dessas no quarto dele” Disse ela, mostrando uma foto de um bando ligeiramente esquisito e cabeludo.
“Tristan? O Heels? Você conhece ele?”
Hora da mentira.
“Eu moro com ele. Meus pais são amigos dos pais dele, então me deixaram morar na casa dele, pra que eu pudesse estudar aqui.”
“Cara, você veio de tão longe pra estudar nessa fossa?” A garota riu alto. “Mas você precisa me apresentar ao Heels. Ele é o melhor guitarrista desta escola”.
Ela começou a guiar Eve até a cafeteria, e a garota tentou engolir aquela sensação de raiva e desgosto que sempre lhe assolava quando alguma garota queria chegar perto demais de seu dono.

Eve carregou sua bandeja com um pouco de tudo, e agradeceu sorrindo muito a cada cozinheira de cara amarrada que jogava rispidamente comida em seu prato. A modernidade chegara em alguns pontos da Academia, e os custos mensais de seus almoços eram depositados em sua carteirinha de identificação, e cobrados no fim do mês, junto com as mensalidades. Eve levou seu prato até uma mesa vazia, e logo Line se juntou a ela. Logo em seguida Riza apareceu, apresentou-se a menina de cabelo roxo e se jogou no banco ao lado da ruiva.
“Não sei como alguém consegue entender geografia” Resmungou ela, começando a comer e tirando seus óculos por alguns minutos. “Terrível, terrível”.
“Onde estão Tristan e o Josh?” Perguntou Eve, entre uma garfada e outra.
“Tristan está por aí, logo ele chega, e o Jozua está com os amigos dele, criando algum plano idiota de como trazer bebidas alcoólicas pra escola sem que descubram.”
“Vodka na garrafa d’água” Disse Line, sonhadoramente. “Ninguém nunca descobriu”.
Riza a olhou de boca aberta, e a garota deu de ombros.
“Eu também sou uma rebelde sem causa. E quem é esse Jozua?”
A morena deu um sorriso sinistro.
“Acho que você o conhece. Ele está vindo aí”.
O loiro surgiu de repente, deslizando pelo banco até tentar roubar um beijinho na bochecha de Riza, que o espantou com apenas um olhar. Eve o beijou na face, como sempre fazia, e o garoto pareceu bem mais satisfeito. Line parecia ter congelado.
“Cadê o Tristan?” Perguntou ele, roubando a sobremesa de Eve, abrindo o pequeno potinho e comendo todo o conteúdo.
“Não sei. Já procurou na sala?”
Josh assentiu, e então olhou para a porta.
“Lá está o vagabundo, até mais, garotas. Prazer em te conhecer, menina roxa”
Line começou a se abanar com um guardanapo quando ele saiu.
“Aquele Josh. Como vocês conhecem ele?”
“Amigo de um amigo de um amigo meu” Disse Riza, evasivamente. Então reparou no olhar e no biquinho de Eve. “O que foi, ruiva?”
“Ele... Ele...” A garota fez um olhar de dor terrível. “Ele roubou meu pudim de chocolate”.

A última aula do dia era de Artes. Para essa não havia livros, segundo lhe contou Line. Ela a levou até outro prédio, e lhe jogou um avental muito sujo de tinta já seca.
“Você vai ter que comprar um. Enquanto isso, fique com o meu reserva.”
A sala de pintura era grande, muito iluminada, e com dezenas de cavaletes de madeira espalhados por todo o lugar. Não havia mesa para a professora, mas a mulher gordinha e muito animada já os esperava, sentada numa banqueta e comendo uma maçã.
“Muito bem, classe, sejam todos bem vindos! E você...” Ela examinou Eve com um olhar crítico. “Deve ser a nossa nova aluna, Srta. Bell. Já pintou antes?”
A garota negou.
“Não senhora”.
A mulher fez um gesto de dispensa.
“Sem esse negócio de senhora. Se você é minha aluna, me chame de professora, ou de Profa. Quimberly se quiser exagerar. Se você pintar bem, vai poder me chamar de Misty.”
“Certo, professora.”
A mulher sorriu.
“Pegue o primeiro cavalete, aqui na minha frente, vamos ver o que você consegue fazer.”
“Ei” Disse uma voz muito irritante. “Esse cavalete é meu!”
Eve e a professora viraram-se para a porta. Uma garota de cabelos loiros perfeitos as encarava. Ela era pequena, e delicada, mas tinha um porte e uma aura decididamente de alguém importante. Era linda, lindíssima, como uma boneca. Sua pele artificialmente bronzeada e o corpo perfeitamente esculpido arrancavam suspiros dos garotos da classe, mas a maior parte deles estava espiando a nova aluna, ruiva e peituda, e aprovando a mudança.
“Acho que não vi seu nome nele, senhorita Johnson” Disse a professora em tom cortante. “E acredito que a senhorita fará a gentileza de ceder o cavalete para a nova aluna, como eu mandei”
A garota não pareceu se abalar com o tom da professora, ou suas palavras.
“Eu sou a melhor pintora da classe, e esse é o cavalete com a melhor luz” Disse ela, empinando o nariz.
A professora lhe deu as costas, enquanto resto da turma se dirigia aos cavaletes. Line pegou um perto de Eve, mas o tirou do lugar para ficar atrás da garota.
“Detesto ficar na frente, obrigado pela cobertura, ruiva” Disse ela, passando pela garota. Parece que ‘ruiva’ era um apelido que pegava rápido.
A garota loira bufou alto, e pegou um cavalete no fundo da classe, com extrema má vontade, e ainda o arrastou fazendo um grande estardalhaço para ‘pegar uma quantidade minimamente decente de luz’.
“Clarisse Johnson é realmente nossa melhor pintora” Sussurrou a professora, mais para si mesma que para Eve. “Mas parece gostar demais de mostrar isso para todos. Onde está a arte, então?”
A mulher colocou uma tela em branco no cavalete de Eve, e lhe deu uma certa quantidade de potes de tintas, e um pote de vidro cheio de pincéis.
“Não se esqueça de comprar seu próprio material de pintura. Vou te passar uma lista no fim da aula. As telas são por conta da escola, a não ser que eu peça algum material mais específico. Quando terminar, lave os pincéis e tampe as tintas para não estragar. Você pode usar alguma das palhetas que estão naquela mesa para misturar as tintas, se quiser fazer novos tons”.
Eve assentiu.
A professora se virou para a classe.
“Não teremos um modelo hoje, quero uma pintura livre. Imaginem algo, não quero nada que esteja nessa sala. A melhor pintura vai ganhar espaço na nossa galeria.”
Line sorriu e cochichou para a ruiva a sua frente.
“É melhor que saiba pintar, ruivinha, ninguém mais agüenta olhar na cara da Clarisse que está na galeria”.
Ela apontou para uma parede e realmente ali estava uma grande quantidade de quadros. Todos eles mostravam a mesma face: a própria Clarisse, pintada em todos os ângulos, tons e luminosidades. Ao que parecia, a melhor pintura da turma prezava demais pintar o próprio rosto. Em todos os sentidos, já que ela era a única que usava maquiagem, fora algumas como Line que passavam quantidades exorbitantes de delineador, para fazerem jus a seus estilos.
“Podem começar, vocês têm uma hora, nem um minuto a mais.”
Alguns pareceram desconcertados, pintando ou pegando seus pincéis. Line começou a misturar as tintas em sua palheta manchada, e Clarisse já pintava. Com certeza outro auto-retrato. Eve decidiu ir buscar uma palheta enquanto pensava.
Olhando os quadros da galeria lembrou-se do quadro no escritório da diretora. Era lindo, e mostrava a própria Academia, décadas atrás. E se ela pintasse a Academia Melody, exatamente como a vira no dia que chegara pela primeira vez ali?
Fixou a imagem na mente. Pegou uma palheta média, que não a atrapalhasse, mas fosse útil. Escolheu um pincel de tamanho bom, e mergulhou-o na tinta. A imagem cresceu em sua mente, e se ajustou perfeitamente a tela retangular. Os gramados, ainda molhados da neve que derretera há pouco, os prédios brancos iluminados pela luz fraca do inverno.
A professora a examinava. Quando ela fora buscar a palheta, parecia pensativa, mas voltara com determinação, ajeitara a tela no cavalete e parecia concentrada, escolhendo um pincel e o banhando na tinta. Então a expressão de Eve mudou. Os olhos se fixaram em total concentração, e parecem mudar, brilhar. Era como se repentinamente toda a emoção os enchesse até transbordar, e como se vissem mundos que os meros mortais não podiam ver. A professora se arrepiou, e a ruiva começou a traçar formas na tela.
O desenho fluía rápido. Os borrões se ajeitavam, ganhavam contornos definidos, enquanto a tinta, ora vinda dos potes, ora vinda da palheta, construíam o que apenas Eve podia ver.
Line desviou os olhos de sua lua vermelha que pintava, e olhou para o que Eve fazia. Não podia ver a expressão da amiga, mas o desenho a deixou de boca aberta. A Academia Melody a encarava como se ela olhasse por uma janela. Eve terminara o desenho principal e pintava os detalhes, dava mais cor ao gramado que brilhava levemente, enchia o céu de cor suave, nuvens leves e luz.
Havia muito mais céu azul, a Academia estava perto, mas parecia reluzir, mesmo sem sol à vista. Eve pintava como vira a Academia em seu primeiro dia, bela e desconhecida, o céu azul refletindo sua felicidade. Era só bater os olhos no desenho, e não havia dúvida que Eve realmente gostava daquela escola. Até Line sentiu-se um pouquinho orgulhosa por estudar ali, só de olhar o que a ruiva pintava com tanto gosto.
A professora estava de queixo caído também, olhando as mãos da garota trabalharem rápido e com segurança. Faltava um pouco de técnica, as pinceladas não seguiam um padrão completo, algumas eram fortes e outras eram muito suaves, precisando de uma segunda camada de tinta sobre elas, mas o desenho era perfeito. Não era apenas um retrato fiel da escola, mas também uma pintura carregada de emoção. Felicidade, um pouco de nervosismo, curiosidade. Eram os sentimentos que Eve tivera ao ver a escola, e que agora transmitia usando apenas tinta.
Clarisse olhou por cima de outra imagem perfeita de seu próprio rosto, e viu o desenho da novata. Seu peito se apertou de ódio. Primeiro, seu cavalete era tirado. Depois, os vermes daquela classe não babavam mais por ela, mas pela ruiva. E agora... Aquela vadia ousava pintar um desenho ridículo daqueles e que com certeza a idiota da professora colocaria na galeria.
Seus olhos perfeitos se estreitaram. Era preciso uma intervenção rápida. Assinou seu desenho já pronto e apanhou o pote de tinta negra, cheio, e começou a rumar em direção a ruiva e a professora.
Uma de suas servas colocou um pé proposital ali. Até que a inútil era espertinha, entendia rápido as coisas. Mas ela nunca diria aquilo, afinal qualquer inteligência era nada comparada com a dela. Andando rapidamente com o pote destampado, ela tropeçou afetadamente no pé estendido e a tinta bateu com violência no quadro de Eve.
A maior parte caiu sobre Line, que estava idiotamente postada atrás da vagabunda. O resto bateu contra a idiota da professora, e um pouco sobre a vadia, mas um tanto conseguira derramar-se sobre o céu do quadro, deformando para sempre a pintura. Só haviam sobrado dez minutos de aula, era impossível pintar outro.
Ela começou a pedir desculpas, muito envergonhada, enquanto se levantava do chão. A professora a mandou lavar-se, e ela saiu, para começar a gargalhar já no corredor. Arrasada, Line jogou seu pincel no pote de água, e deu seu desenho por encerrado. Eve parecia espantada demais com aquele repentino acontecimento. Havia um pouco de tinta em seu cabelo, e um pouco sobre a manga direita da blusa. A professora estava encharcada, mas não parecia se importar, principalmente que a maior parte caíra em seu grande avental, mas parecia muito triste. Com certeza teriam outro rosto sorridente daquele vagabunda loira na galeria, e a ruiva perdera sua obra.
Eve colocou o pincel entre os dentes. A mancha preta se espalhava rapidamente pelo céu pintado, logo cairia sobre os prédios e seria o fim de seu desenho. Num gesto rápido ela colocou seu quadro de ponta cabeça.
Ainda com o pincel na boca ela misturou as cores de sua palheta, e pegou o próprio pote de tinta preta. Mergulhou seu pincel nele e começou a espalhar a tinta sobre o céu, que agora estava na parte de baixo do desenho ao contrário. A mancha espalhou-se, com Eve acrescentando e dando formas ao estrago. Logo o céu de pintura estava totalmente preto, e a garota aplicava uma segunda camada aos prédios, mesmo estando com seu quadro de ponta cabeça. Ela apenas inverteu mentalmente o desenho que estava em sua cabeça e logo a segunda camada de tinta escurecia os prédios. Ela escureceu o verde em sua palheta e repintou o gramado, aproveitou a luz que antes o céu claro emprestava ao desenho e a transformou em nova luz, adensando as sombras e delineando os raios pálidos sobre a Academia.
Pintava com voracidade, rapidamente e meticulosamente, sem se desconcentrar pelos alunos que abandonavam as próprias obras para verem o que ela fazia com seu desenho estragado por Clarisse.
Eve começou a pintar as estrelas, e uma lua delicada surgiu por trás da Academia, justificando a luz que o prédio recebia, a luz que antes era justificada pelo dia claro. Eve trocou os pincéis, arrumou os últimos detalhes e então colocou o desenho de volta na posição certa, assinando num cantinho com aquela assinatura que fizera no cartório.
Cansada, ela sentou no banquinho que havia ali perto, e começou a lavar os pincéis. Estava suja de tinta até os cotovelos, e havia arregaçado as mangas o quanto pôde antes de começar aquela verdadeira maratona para restaurar sua pintura.
Ao invés do desenho alegre da Academia de antes, agora havia uma perfeita cena noturna. Os prédios pareciam resplandecer à luz da lua, e o gramado brilhava levemente, talvez salpicado de minúsculos diamantes de orvalho. Onde havia nervosismo e curiosidade, agora a Academia estava envolta em mistério. E o desenho era tão lindo e perfeito como antes, ou talvez até mais, visto que desta vez todos acompanharam como a ruiva o fizera.
A professora sorriu, ainda abismada com a genialidade da nova aluna, e nem reparou quando Clarisse voltou, sorrindo.
“Temos um campeão!” Anunciou a professora. O sorriso de Clarisse se alargou. “Eve Bell e seu quadro receberão nota máxima e, se ela permitir, sua obra será exposta em nossa galeria, como inspiração para todos os estudantes e professores, principalmente os que se dedicam à pintura.”
A sala aplaudiu, verdadeiramente, talvez pela primeira vez com tanto entusiasmo. Então todos riram quando viram que a garota ficara realmente constrangida e baixara a cabeça, agradecendo baixinho. Ela era linda, inteligente, habilidosa e incrivelmente fofa.
Clarisse queria matá-la.
Todos se reuniram ao redor da ruiva e começaram a falar ao mesmo tempo, cumprimentando-a ou apenas querendo sua atenção, principalmente os garotos. Ela saiu cercada por todos, e Line ria alto. Quando Eve enfiava as coisas em sua bolsa e guardava a lista que a professora de Artes lhe passara, Clarisse a
interceptou.
“Você pode ter se saído bem nessa, mas eu não vou deixar você ficar com o meu lugar.” Sussurrou maldosamente a loira, apertando seu braço com toda a força que podia. As aulas de artes marciais com Tristan se provavam valorosas. A ruiva nem sentia o aperto, e a rival percebeu. “Eu vou acabar com você, sua biscate ruiva”.
Cuspindo porcamente aos pés da garota, a outra saiu, dando um encontrão proposital no ombro da outra. Infelizmente, para ela, foi uma péssima idéia. Eve estivera preparada para lutar a qualquer instante, e bater em seu ombro apenas deixou Clarisse dolorida pelo resto do dia.
Eve colocou a bolsa às costas e saiu. Fora um primeiro dia realmente emocionante, ela fizera até alguns amigos, e uma inimiga. Não poderia desejar dia melhor. Saiu da Academia, rumando para onde os amigos haviam combinado de esperá-la. Fez uma anotação mental. Precisava perguntar a Tristan o que era uma biscate.

Capítulo 15

Birthday Eve

Capítulo 15

A luta. O teste. A Academia Melody


Eve correu os olhos pelo jardim, a respiração calma, mas a pulsação batendo forte em seu pescoço. Uma de suas mãos estava projetada para a frente, a espera, enquanto a outra aguardava um pouco atrás da primeira. Era a esquerda que aguardava, já que ela batia mais forte.
O movimento atrás de si a pegou de surpresa apenas por um único segundo, e seu corpo girou numa espécie de pirueta, com a graça de uma dança e a violência de uma arma. O inimigo bloqueou imediatamente seu golpe, e ainda segurou a perna que pegara, fazendo em seguida um movimento rápido demais que a desequilibrou, mas que serviu para libertar sua perna cativa.
Eve sentiu mais que viu o golpe chegando, e o rechaçou usando o braço esquerdo, o que acabou sendo um erro, já que seu braço mais forte agora estava totalmente dormente com a força do impacto. Ela sentia que ainda não estava preparada para aquele tipo de luta feroz e sem reservas, mas dava o máximo de si, tentando desesperadamente sobreviver ao máximo naquilo.
Em desespero, lançou-se num ataque com as pernas, e derrubou o inimigo na grama, mas ele se recuperava rápido demais. Avançou contra ela e seus corpos se chocaram. Eve aproveitou o corpo-a-corpo e plantou alguns socos poderosos direto no nariz dele, mas teve que se afastar. Ela era fraca ainda, dificilmente bateria mais forte que ele.
Separaram-se e ficaram se examinando nos olhos, procurando fraquezas um no outro. O oponente correu em direção a ela, e no último instante a ruiva conseguiu se desviar, tentando também atingi-lo nas costas. A armadilha do oponente funcionara, quando a menina tentou pegá-lo por trás ele girou, derrubou-a com uma rasteira e subiu em cima dela, encostando a ponta dos dedos em sua garganta.
"Eu desisto”
Tristan sorriu, saiu de cima da ruiva e se espreguiçou. Tocou o nariz que inchava em seu rosto, e checou se não tinha sangue escorrendo. Eve demorou um pouco mais pra levantar, pois ainda estava tonta da queda, e então sorriu.
“E então, como foi?” Perguntou ela.
“Muito bom!” Sorriu o rapaz, repentinamente a abraçando. “Se você continuar assim, logo será capaz de vencer qualquer um! E de disputar nos torneios de karatê e judô também!”
Eve negou com a cabeça, e então correu até as toalhas e garrafas d’água. Ela não tinha o menor interesse em lutar nos grandes torneios inter-estaduais, como Tristan fazia. Não. Ela ainda nem ao menos sabia porque tivera tanta vontade que o garoto lhe ensinasse a lutar, mas seu maior desejo, e sua meta, era simplesmente vencer Tristan algum dia, mesmo que ela percebesse que a cada dia isso ficava mais difícil de se realizar.
Depois de tomar alguns muitos litros d’água, ela decidiu ir tomar banho. Tristan levou as toalhas e garrafas vazias para a cozinha, e decidiu começar a fazer o café da manhã, sabendo que Eve voltaria mais que faminta.
A primeira semana do novo ano viera e agora se fora, e ele ainda não tinha parado para conversar com ela sobre devolvê-la. A cada dia o pequeno cartão com o endereço que Arty lhe dera pesava em seu bolso e em sua consciência. Havia dias em que ele levantava da cama com a certeza que naquele dia falaria com Eve. E havia outros dias em que a simples idéia de mandá-la embora apertava seu coração como um punho de ferro.
As divagações terminaram em dor, pois em sua distração deixara gordura fervente espirrar em sua mão. Largou a frigideira e o ovo que fritava voou e espatifou-se no chão, sujando bastante o piso e seus tênis.
Xingando alto, ele abaixou-se para limpar a sujeirada, enquanto a dor nas mãos aos poucos sumia. Levantou a cabeça, e quase estourou o crânio contra o canto da mesa. Enfiou a cabeça inteira debaixo da torneira aberta e gritou mentalmente consigo mesmo. Não podia ficar assim, nesse jeito meio zumbi, meio lunático, em que passara os últimos dias. Se era pra tomar uma decisão, que tomasse de uma vez.
A porta se abriu, e alguém entrou na cozinha. Era agora, agora ou nunca, que ele diria isso a Eve. Que ele não a amava, que ele não poderia ficar com ela ali para sempre. Que talvez... não, que realmente era preciso devolvê-la para onde ela foi criada. Que encontrariam alguém melhor para ela, um namorado perfeito para ela, já que afinal era a namorada perfeita. Alguém que a respeitasse como era preciso, que lhe desse o carinho e amor que ela precisava, que pudesse oferecer um lar melhor, roupas melhores, uma vida mais fácil. Que não a arriscasse tanto, que não a deixasse ser levada por desconhecidos ou ter outro reboot, que soubesse entender o que se passava com ela. Que soubesse tudo sobre Eve Bell.
Tristan saiu de debaixo da torneira, espirrando água para todos os lados, e se dirigiu a quem entrara.
“Eve, eu...” Ele se calou. Riza o encarava, ligeiramente corada. Ela segurava um grosso envelope pardo, e pareceu vacilar um instante antes de sorrir para ele como sempre.
“Tristan, o que você está fazendo?” Ela estranhou “Você está completamente encharcado!”
Só agora que ele percebera que sua cabeça muito molhada deixara escorrer água para suas roupas. Ele deu de ombros.
“O que é isso?” Perguntou, voltando-se para o fogão e quebrando outro ovo na frigideira.
“Teste de admissão” Respondeu ela. “Onde está a ruiva?”
“Tomando banho”
Riza sorriu para ele.
“E por que você não está lá com ela, agora?”
Tristan deixou cair o segundo ovo do dia. Chega. Ele faria panquecas.
“Ei, estou só brincando!” Riu a morena, suspirando e sentando-se na mesa de jantar. Ela remexeu nas sacolas que haviam ali e tirou um saquinho de jujubas, começando a comê-las, sorrindo para si mesma.
“Novo namorado, Rizzie?”
Riza ficou vermelha como um pimentão. Sua boca se abriu de espanto, e ela deixou as jujubas caírem em seu colo. Então respirou fundo, fechou os olhos, e os abriu de novo, sorrindo.
“Sim!” Cantou ela. “Sim! Sim! Sim!”
Ela saltou da mesa e rodopiou pela cozinha, agarrando Tristan e o fazendo dançar uma esquisita valsa improvisada junto dela. O rapaz ria verdadeiramente, como há dias não conseguia, e não deixou de perceber a marca vermelha bem na base do pescoço dela.
“Acho que ele realmente deve estar muito íntimo, não?” Zombou ele, tocando a marca de chupão. Riza ficou vermelha de novo, e correu até a geladeira, tirando uma pedra de gelo e a envolvendo num guardanapo, para tentar esfregar a marca até desaparecer. Enquanto ela fazia isso, Tristan fez a massa de panquecas e jogou a primeira na frigideira.
“Mas e aí, eu conheço ele?”
“Não. Eu o encontrei na cidade. Ele quase me atropelou com a moto dele quando eu atravessei a rua distraída e...” Ela sorriu, abrindo os braços. “Então ele me pagou um sorvete, e depois fomos ao cinema e ele me beijou”.
Ela rodopiou mais uma vez, mas o deixou em paz, pois ele a ameaçou com a frigideira cheia de massa de panquecas.
“É o cara mais maravilhoso e lindo deste mundo!” Disse ela, terminando de rodar.
“Ei, estão falando de mim?” Josh entrou na cozinha, rindo alto, e abraçou Riza e a rodou até que ela estivesse tão tonta que precisava se apoiar na mesa pra não cair.
“Eu ouvi falar sobre namorados?” Perguntou o loiro, enfiando o dedo na massa de panqueca e roubando um pouco, apenas para ganhar um tapa de Tristan.
“Riz arranjou um cara” Contou Tristan. “Um do tipo ‘mãozinha’”.
Josh pareceu chocado.
“Uau, Rizze. Não sabia que você estava nesse ponto já. Um mãozinha logo de cara?”
“O que diabos é um mãozinha?” Perguntou a garota, meio assustada.
“Você sabe, aquele carinha legal... Que não consegue parar só nos beijinhos, e já vai...” Os gestos que Josh fazia eram muito mais esclarecedores que suas palavras. Riza fechou os olhos e tapou os ouvidos, ignorando completamente a explicação.
Eve finalmente desceu, os cabelos compridos ainda molhados. Ela trazia um secador na mão.
“Riza? Por que o secador morreu?” Perguntou ela, depois de cumprimentar os amigos.
Riza o enfiou na tomada e apertou alguns botões, nada aconteceu além de uma grande lufada de fumaça preta e um cheiro terrível de queimado. Ela desligou o aparelho e espiou pelo cano.
“Quem foi o imbecil crianção que enfiou algodão dentro do secador?” Perguntou ela.
Tristan largou o fogão.
“Acho que o correio chegou, já volto” Disse ele, saindo rápido da cozinha. Josh levantou também. “Vou ajudar ele... Correio, entende?” E fugiu também.
Riza e Eve bufaram juntas. A garota ruiva parecia ter se acostumado bastante com o mundo em geral, e já se comportava de uma maneira bastante feminina agora. Sua beleza arrebatadora já era comum para Riza, ainda provocava uma certa dose de inveja, mas nada que não pudesse ser superado.
As duas tentaram tirar o máximo possível do algodão do secador, mas não conseguiram fazê-lo voltar a funcionar. Dando de ombros, Eve deixou o aparelho sobre o balcão e sentou-se para comer, atacando as panquecas como sempre. Tristan tinha feito uma porção absurda de comida, talvez esperasse que os amigos viessem para “filar a bóia”.
Riza comeu também, e mostrou o envelope.
“Eve, depois a gente precisa conversar sobre essas coisas aqui.” Ela começou a falar bem alto. “Quando certos covardes estiverem por perto para ouvir também.”
A campainha soou e Tristan atendeu. Conversou um pouco e recebeu o pacote, agradecendo e decidindo que era hora de voltar e encarar as feras. Josh foi com ele, e eles comeram até terem acabado com todas as panquecas, suco e pãezinhos com manteiga.
Riza brigou com eles um pouco, mas não conseguia ficar mais tão brava como antes, com seu coração cantando de felicidade daquela maneira. Então, tentando esconder o sorriso que teimava pairar em seus lábios, ela mandou Josh e Tristan buscarem as ferramentas e darem um jeito no secador. Ela e Eve limparam a mesa e lavaram a louça, enquanto esperavam os garotos. Finalmente Riza foi buscá-los pelas orelhas, e traziam a grande caixa de ferramentas. Josh começou a desmontar o secador, enquanto Tristan, também pego pela morena, começava a limpar as peças que o amigo lhe entregava.
“Certo.” Disse Riza. Então tirou um maço de papéis e anotações do envelope. “Aqui está. Eve, guarde bem todos estes papéis, pois foi bem difícil consegui-los. Esta é sua certidão de nascimento. Como a gente não sabe bem que dia você nasceu mesmo, decidimos colocar dia 16 de Dezembro, um dia antes do aniversário do Tristan, afinal foi quando Josh fez o pedido. Estes aqui são seus outros documentos, título de eleitor, carteira de trabalho. Não vai precisar destes por enquanto, mas são importantes para certas coisas. Aqui também tenho outras coisas...”
Riza colocara os pais de Eve como desconhecidos. Na verdade, era muito esquisito ver um ano tão distante ser colocado como se ela nascera lá. Quantas lembranças e histórias ela teria de fabricar? Sua infância, seus primeiros aniversários, seus colegas da escola... Tudo seria uma imensa mentira que ela teria de decorar. E realmente era, pois Riza colocou diante dela um maço de anotações.
“Esta é sua vida, Eve. Posso imaginar como é terrível contar uma mentira assim, ter de conviver com isso, mas é necessário. Toda a sua vida antes do dia que você nos conheceu nunca existiu, mas você precisa conhecê-la de cor, e saber dizer cada pedacinho com naturalidade. Eu... Eu sinto muito, mas é necessário.” Eve assentiu, séria. “Mas veja pelo lado bom: você tem o resto da vida para ter lembranças de verdade, e com a gente ainda! Você vai ver, Eve, todos esses 16 anos não farão a menor falta daqui a uns aninhos!”
A garota sorriu, alegre novamente, e baixou os olhos para as anotações. Leria tudo aquilo com afinco, até estar tudo na ponta de sua língua.
A morena então decidiu dar continuidade a sua missão.
“Este é um teste de admissão, Eve” Explicou ela. “Como está nessas anotações, você teve até hoje aulas particulares, em casa. Por isso você não tem nenhum histórico escolar. Para entrar na nossa escola, terá de fazer este teste de admissão. É uma prova, bem comprida, que vai testar seus conhecimentos.”
Riza passou dois maços de papéis.
“Estas são provas antigas. Eu quero que você faça as duas, uma hoje e outra semana que vem, e vamos corrigi-las. Se você quer entrar na nossa classe, terá que acertar um bom número delas, e errar algumas. Se você zerar a prova, não entrará na escola, e se você gabaritar... Vai receber um diploma, sem nunca precisar cursar o Ensino Médio. Entendido?”
“Certo.”
Riza então tirou o último papel.
“Este é de verdade, Eve. Não foi falsificado como todos os outros, fora a carteira de trabalho. Ele é uma certidão de emancipação. É um dos documentos mais importantes que você tem. Com ele, você é considerada adulta. Poderá viver sozinha, arrumar um emprego, assinar seus próprios documentos e abrir contas no banco. Sem ele, as pessoas vão precisar da assinatura de seus pais, o que não é possível, enquanto você for menor de idade. É muito importante que você o guarde com cuidado, e depois nós precisamos registrar uma assinatura para você. Vou te ajudar nisso, okay?”
A garota assentiu, agradecendo.
Tristan então rasgou seu pacote, tirando o papel de embrulho que o envolvia, e o estendeu para ela. Era um grande livro, muito grosso, encapado em capa dura e com letras prateadas. Como título, “Eve Bell”.
Era o Manual. Encadernado, muito mais bonito e prático. Ela correu os olhos pelo índice, e sorriu, abraçando o livrão contra o peito.
“Muito obrigada” Disse ela, então plantou um beijo na bochecha do garoto. Tristan tossiu, baixando o rosto, escondendo o quanto estava corado, mas Riza percebeu. Josh terminou de desmontar, limpar e remontar o secador, e o ligou, deixando um jato de ar quente sair. Ele escondera o secador debaixo da mesa, e quando o ligou este se enfiava por baixo da camiseta de Eve, que estava ao seu lado. O forte secador fez a camiseta levantar bastante, expondo a pele lisa e branquinha da garota, e seu sutiã rosa. Tristan e Josh ficaram como que congelados, babando, até Riza arrancar o secador da tomada e expulsá-los para o quintal.
Quando voltou, Eve já fazia a prova de admissão, concentrada.

“Certo.” Disse a morena, escrevendo no alto da prova. “Certo. Certo. E... Certo”.
Ela jogou a prova contra a mesa, e suspirou.
“Você recebeu o diploma sem ir na escola, Eve”. Ela deu um meio-sorriso. “Você acertou a prova inteira, o que, no nosso caso, não é uma coisa tão boa.”
Ela mostrou as questões.
“Você não deve acertar questões dessas, ainda não tivemos essa aula, mas deve acertar essa, que nada mais é que uma introdução ao assunto da outra. E isso aqui deve ser feito assim, e aquele lá...”
A garota se perdeu totalmente em anotações e confusões, tentando acompanhar a fala rápida de Riza e os comentários ocasionais de Josh, que, como castigo, fazia o almoço. Tristan estava lavando a moto de Riza, como ‘recompensa’ por seu olhar babão no caso do secador.
Eve e Riza refizeram a prova, e Eve acertou uma boa parte, mas ainda assim mais que o esperado. Outra rodada de explicações. Na terceira vez, a ruiva pensou que sua cabeça ia explodir.

A Academia Melody de Ensino Médio e Estudos Musicais era imensa, estendendo-se em três prédios largos e baixos, num terreno grande e gramado. As aulas de Tristan, Josh e Riza já tinham começado. Eve estava lá, reunida com mais três pessoas – duas garotas loiras que pareciam gêmeas e um rapaz pequeno e assustado – para realizar o teste de admissão. Haviam reservado uma pequena sala para ela, com apenas quatro cadeiras, fora a mesa do professor. Ela terminou de preencher a sua ficha e a assinou, daquele jeito que Riza e ela haviam concordado e ela havia feito no cartório três dias antes. Os compridos números de seus documentos ela já sabia de cor, mas ainda assim fez questão de conferi-los, evitando algum erro indesejado.
Recebeu a prova. O maço de folhas se parecia muito com os que Riza lhe dera, e até mesmo algumas perguntas eram iguais. Ela começou a fazer, e então repentinamente pensou em estudar ali, e como seria ótimo aqui. Almoçar com os amigos, conhecer novas pessoas, ter aulas (mesmo que os conteúdos destas já estivessem em seu cérebro, graças ao BrainSys), ter lembranças reais para contar. Mas... E se ela não passasse?
O coração bateu na garganta. Repentinamente a prova pareceu muito difícil, e a caneta muito pesada. Será que ela colocara certo os números dos documentos? E se a assinatura estava diferente? E se ela acertasse de menos, ou de mais?
Engoliu em seco. Todo o conhecimento dela secou, e teve de reler cinco vezes a próxima pergunta para conseguir enfiá-la na cabeça. Eve estava sofrendo de um mal pavoroso, o qual já destruíra muitas e muitas pessoas, por todo o mundo. Ela deixou o queixo cair quando se deu conta disso.
“Deu branco”

Riza estacionou na porta da casa de Tristan. Ela realmente queria ver os resultados de Eve e cumprimentá-la, e depois poderia ter o resto do dia para passar com Robert. Ele falara sobre uma lanchonete que abrira perto da casa dele, e ele prometera deixar que ela dirigisse sua moto. Era o namorado perfeito.
Sorrindo, ela abriu a porta da casa, e Eve imediatamente se atirou sobre ela, chorando copiosamente. Levou mais de quinze minutos para a ruiva se acalmar, e ela chorara tanto sobre o uniforme de Riza que agora ela realmente precisava passar em casa para se trocar antes de sair.
Depois de confortá-la longamente, passando a mão nos cabelos dela, e sorrindo ao ver que a menina prendera seu longo cabelo em duas longas mechas, finalmente conseguiu arrancar algumas palavras da menina.
Tristan estava ainda na escola, junto com Josh. Eles haviam ligado para a morena com alguma história de rever os amigos e coisa e tal, mas Riza sabia que eles estariam ali para cumprir o resto da detenção que haviam recebido antes das férias. Era impressionante a memória de certos professores daquela escola.
“O que foi, Eve? Você não passou?”
Eve assentiu com a cabeça, e então negou.
“O que quer dizer?” Perguntou Riza, agora totalmente intrigada.
A ruiva estendeu o resultado, muito amassado e molhado de lágrimas. A nota de sua prova estava ali, assim como algumas anotações do professor que corrigira e o resultado final, se ela fora aprovada ou não.
“Eu...” Começou a menina. “Eu estava fazendo tão bem, e então eu fiquei nervosa e esqueci tudo. E quando eu lembrei como fazia, já estava quase acabando o horário, e eu tinha esquecido quais que eu devia acertar e errar, e eu me confundi e daí eu comecei a ficar mais nervosa ainda e o BrainSys começou a despejar informações pra que eu acertasse tudo, mas eu não podia acertar tudo, e daí...” Ela parou para respirar, finalmente. “Eu fiz... isso”.
Riza olhou para o resultado final.

Eve Bell

Total de acertos: 89


Resultado final: Aprovada.

“Não entendi qual o problema” Disse Riza. Eve bateu com o dedo no final do papel, e começou a fungar novamente.

Matriculada para o 2º semestre do 2º Ano

Eve fungou mais alto.
“Eu vou pro segundo ano, e vocês estão no terceiro! Eu nunca vou poder estudar junto com vocês!"

Capítulo 14

Birthday Eve

Capítulo 14

A canhota. Os irmãos. Robert Patterson.


O movimento foi rápido demais. Aos mãos dela o agarraram e giraram Tristan num movimento brusco demais. Num instante, cabelos vermelhos o cercavam como uma floresta em chamas, enquanto ele estava meio deitado sobre a maca, com as pernas ainda se apoiando no chão, e as mãos de Eve estavam ao redor de seu pescoço.
Os olhos verdes dela estavam vidrados, enquanto as mãos apertavam cada vez mais forte, mas nem de longe tão ferozmente como seria necessário para matá-lo. Sem muita opção e mortificado por fazer isso com a menina, ele usou suas mãos livres para bater com força nos pulsos dela. O choque imediatamente aliviou a pressão em seu pescoço, e ele desvencilhou-se de Eve, girou sobre ela, e pressionou o braço sobre sua garganta, imobilizando-a.
“O que diabos você está fazendo?” Gritou ele.
“Lean...” Berrou ela. “Eu vou te matar nem que isso seja a última coisa que eu faça!”
As mãos dela tentaram novamente apertar seu pescoço, mas George imediatamente enfiou uma dose forte de remédio no cateter que ela tinha no braço. Os olhos de Eve se desanuviaram e então ela pareceu recobrar a consciência.
“Tristan?” Perguntou, a voz repentinamente quebrada e rouca. “O que eu...?”
E desatou a chorar.

Levou um bom tempo para que Eve conseguisse se controlar. Ela passara as próximas horas entre um choro desesperado e profundamente arrependido e pedidos de perdão para Tristan. Ele sorriu, fez carinho em seus cabelos, confortou-a com palavras, mostrou seu pescoço para que ela visse que nenhuma marca ficara, riu, contou piadas, e nem com todo esse esforço conseguiu muito resultado. No fim, ela só parou quando caiu num sono exausto de esforço, remédios e emoção.
Tristan procurou no manual, mas nada encontrou sobre a possibilidade de Eve se transformar numa assassina em série. Ao fim de horas de profunda pesquisa, ele decidiu voltar a arrumar o manual, jurou por sua vida não olhar as páginas que Riza e Melissa guardavam e pode colocá-las de volta no grande livro. Então apanhou sua carteira, chaves e celular e decidiu sair, levando o livro debaixo do braço.
Melissa decidira que a situação estava bem melhor, e preparou uma bom café da manhã para todos. Josh dormira pouco durante a noite, mas depois de devorar duas porções colossais de comida materna estava muito melhor. George ainda lia suas anotações, então não estava urubuzando em cima de sua mãe, nada podia ser mais feliz que aquele momento.
Riza estava conversando com ele em um tom levemente civilizado, quando George se levantou e foi checar Eve. Quando voltou, sorria abertamente.
“Ela perguntou se estamos muito bravos com ela ainda” Contou.
Todos negaram imediatamente, em altas vozes. George os acalmou, levantando as mãos.
“Quando eu respondi isso, Eve perguntou se então nós poderíamos terminar com uma tortura tão terrível e levar para ela algumas dessas panquecas que cheiram tão gostoso”
Josh e Riza, que conheciam bem demais a adoração que a ruiva tinha por panquecas começaram a gargalhar, enquanto Melissa enchia um prato com as iguarias e George levava para dentro da salinha de plástico o café da manhã da garota, junto de uma jarra de suco.
Foi neste instante que Tristan chegou, carregado de sacolas e parecendo cansado, porém mais alegre. Ele deixou parte das sacolas na cozinha, agradecendo Melissa pela ajuda de alimentar aquele batalhão eternamente faminto (Riza bateu nele por isso), e levou outra leva de sacolas para seu quarto, antes de descer com apenas duas, e entrar no cubículo plástico.
Riza segurou sua mão por um segundo, lhe passando o máximo de força possível, e Josh piscou para ele. George discretamente pegou outra seringa de remédio. Eve parecia muito envergonhada e triste, a cabeça baixa sobre o prato que esvaziara numa fração de segundo.
“Eve?”
Ela levantou imperceptivelmente a cabeça ruiva.
“Eve, você está bem?” Tentou Tristan, mais uma vez.
“Você está com raiva de mim” Sussurrou ela, como uma criancinha envergonhada.
Ele sentou-se ao lado dela na cama e procurou sua mão.
“É claro que não, ruiva” Sorriu ele, e ela riu da maneira que ele a chamara. “Eu nunca ficaria com raiva de você.”
“Eu tentei te estrangular”.
Ele sorriu, e passou a mão pelos cabelos muito compridos dela. Eram tão bonitos, naquela cor forte e vibrante! Pareciam perfeitos demais para serem verdade, mas eram. Eram os cabelos de Eve, que combinavam tão estranhamente perfeitos com ela.
“Eu não chamaria aquilo de ‘estrangular’” Disse ele, em tom de zombaria. “Quer dizer, pela força que você estava fazendo, parecia mais que estava segurando meu pescoço. Essas garotinhas, cada dia mais fracas”
“Ei!” Disse ela, levantando completamente o rosto para ele. “Eu não sou assim fraca!”
"Não?” Retrucou ele, aproximando o rosto do dela. “Então como você não conseguiu nem deixar marca?”
Ela também aproximou o rosto do dele, e sentiu o cheiro de Tristan, e percebeu como gostava daquilo. Ele era seu dono novamente, mesmo com tudo que ela havia feito. E ela estava de volta para onde pertencia.
Tristan também sentia o cheiro profundamente floral da ruiva, e como aquele perfume podia fazer seu sangue correr muito mais rápido, ao ponto que as mãos queriam tocar a pele branca dela, estreitar-se num abraço ao redor da cintura fina da menina, tomar os lábios dela como seus para toda a eternidade.
“Eu não queria te machucar” Disse ela, baixa e lentamente, os lábios rubros se movendo com delicadeza ao redor das palavras, como se apenas para prender o olhar dele sobre aquela boca tão simplesmente apetitosa.
“Você nunca conseguiria me machucar” Sussurrou ele de volta, tão lentamente como ela. “Nem se quisesse”.
E, como se para interromper exatamente a concentração dos dois, que se aproximavam aos sussurros, a porta se abriu, e Arty entrou.

Tristan, derrotado mais uma vez pelas circunstâncias, se afastou da ruiva, que voltou a comer uma nova leva de panquecas que Riza lhe trouxera. George parecia paralisado, e Melissa cumprimentou o novo desconhecido.
“Eu vim cobrar Tristan” Sorriu o homem. Era tão estranho vê-lo fora do apertado espaço hiper-tecnológico onde vivia que Riza ficou até desorientada. Não deixou de perceber, porém, que ele usava a mesma camiseta que no dia que ela o contatara, e pelo cheiro de queijo nacho que ela emanava, não era apenas coincidência. Sem nenhum apreço pela boa educação, o homem coçou-se e bocejou, estendendo a mão suada para Tristan, que discretamente se encolheu.
“Eu ainda não tenho o seu dinheiro, Arty” Disse o rapaz. “Se você puder esperar um ou dois dias...”
“Eu decidi cobrar de outra forma” Respondeu o homem. “Não quero o seu dinheiro. Fico com a ruiva”.
Josh, Riza e Tristan imediatamente se postaram entre ele e Eve. O punho de Tristan se fechou. Não fazia muito tempo que ele já derrubara homens adultos, e estava disposto a lutar com o homem se ele quisesse tomar Eve dele.
Arty negou com um gesto da mãozorra inchada.
“Não quero a garota realmente, seus idiotas. Eu li o e-mail que você me mandou, e rastreei ele também. O que eu quero é examiná-la, só isso. Nunca vi um computador num ser humano, e seria interessante dar uma olhada em como funciona.”
Ninguém se moveu.
“O meu irmão pode examiná-la à vontade, e eu não?”
“Irmão?” Perguntou Riza.
Arty apontou para George.
“Vai dizer que ele nunca contou?”
Todos os olhos se dirigiram para o médico, que ainda estava paralisado. Ele sorriu, ainda em choque.
“Que surpresa, mano”.

Arty e Tristan estavam com Eve, e Riza, Josh, George e Melissa estavam sentados na cozinha.
"É sério isso?” Perguntou Josh. “Arty é seu irmão?”
George suspirou.
“Sim, ele é meu irmão mais velho. Na verdade, o irmão do meio. Eu sou o caçula”.
Ele estremeceu.
“Faz séculos que eu não o vejo. Arty saiu de casa quando eu ainda estava na faculdade. Da última vez que o vi foi duas semanas depois de minha formatura, fui visitá-lo na cadeia”.
Riza abriu a boca, em choque.
“Ele foi preso?”
“Sim. Por interceptação e venda de informações do Governo. No fim ele foi libertado, deixaram ele sair da cadeia por ter ajudado a resolver vários crimes cibernéticos e ele passou uns anos desenvolvendo tecnologia pro governo. Não soube mais sobre ele desde que desapareceu num desses esconderijos subterrâneos da inteligência. Acho que ele acabou fugindo de lá e voltou aos negócios como Hacker mercenário.”
George se mexia, incomodado.
“Ele sempre foi assim. Mamãe ficava doida com o jeito dele. Nunca se importou com nada, a não ser computadores. Nunca se deu bem com pessoas de verdade. Éramos tão diferentes que sempre brigávamos e depois do que aconteceu...” Ele parou, e engoliu em seco. “Bem, ele fugiu e não nos falamos mais. É isso aí.”
Riza estendeu a mão para segurar a dele, mas Melissa já afagava o médico, com ternura. Ele pareceu mais calmo. Sorriu para ela, e a morena levantou, indo ver o que acontecia no cubículo.
Arty mostrava para Tristan um notebook e uma espécie de antena ligada nele.
“No manual estavam as freqüências e protocolos que o sistema usava” Explicou para eles. “Fiz este captador para poder me conectar ao cérebro dela e poder extrair informações. Simples e fácil, uma cópia do sistema e poderei voltar para casa, e descobrir quem inventou um dispositivo assim”
Ele iniciou o programa, e códigos correram pela tela.
“Viu? Meu captador é perfeito, detectou ela de primeira.” Sorriu, e seu dedo muito gordo bateu na tecla de Enter.
A tela ficou completamente negra, e uma única palavra surgiu.
Pekëtalavás
Arty digitou furiosamente no teclado, mas nada modificou a estranha palavra. Eve coçou a cabeça, mas não percebeu nada de diferente, mesmo que em algum lugar de seu cérebro, o BrainSys lutava contra aquela invasão. Repentinamente pensou que aquilo, de certa forma, era uma violação de sua privacidade.
A tela mudou.
Kité
E apagou.
Arty voltou a digitar, bateu no seu dispositivo, xingou por longos minutos. Até que enfim a mensagem surgiu de novo.
Pekëtalavás
“O que diabos é ‘piquêtolavrás’?” Falou alto, e muito irritado.
Eve se aproximou da tela e espiou seu conteúdo.
“’piqué-ta-lá-váz’” Corrigiu ela. “Significa ‘Permissão Negada’”
Todos os olhos se grudaram nela.
“Como você sabe, pirralha?” Disse Arty, bruscamente.
Ela deu de ombros.
“Eu sei, simplesmente” Ela olhou para a tela. “Não gosto disso. Não parece certo vocês tentarem entrar no BrainSys”.
A tela tremeluziu.
“Desliguem isso, por favor.”
Kité
Eve espiou a tela.
“Significa ‘finalizar’”
E a tela apagou de novo.
Antes que Arty pudesse xingar, Tristan segurou o braço de Eve.
“Eve, pode me fazer um favor?”
“Claro!” Sorriu ela.
“Nós vamos conectar uma última vez, tá?” Disse ele. Ela pareceu incomodada, mas assentiu.
“Quando eu disser, você vai pensar que não quer nos deixar entrar, tudo bem, como fez antes, tudo bem?”
Ela assentiu.
“Arty, conecte”.
A tela surgiu na Permissão Negada. Ninguém digitou nada, pois Tristan impediu.
“Eve, nos faça sair”.
A tela trocou imediatamente para a segunda mensagem, e apagou.
“Ela controla o sistema?” Rugiu Arty. “Me deixe entrar, dê as permissões para mim!”
Eve negou com a cabeça.
“Não quero ninguém entrando no meu cérebro.” Disse ela, firmemente. “Não sei porque, mas isso é importante. Não devo deixar nada entrar.”
Arty pareceu que ia avançar sobre ela, mas Tristan imediatamente agarrou o braço roliço, e o parou.
“Eu posso pagar em dinheiro, se quiser.”
“Não.” Suspirou o homem. “Não, tudo bem. Eu me esqueço que é uma garota, não um Servidor, que estou tentando invadir. Quando ela mudar de idéia, você me chama. Enquanto isso, a ajuda está paga. Obrigado”.
Ele desmontou seu aparato e saiu, sem se despedir.
Eve ajeitou uma mecha de seu cabelo, e Tristan finalmente reparou na coisa que o deixara meio incomodado o dia inteiro, o detalhe que deixara passar.
“Eve!” Falou ele, alto demais. A garota quase pulou da cama, e todos vieram correndo.
Tristan pareceu envergonhado, mas engoliu isso e mostrou a mão dela.
“Você é canhota?”
A garota olhou para a própria mão, como se só se desse conta disso naquele instante.
“Você me tocou com a mão esquerda quando acordou, e cumprimentou Arty com essa mesma mão, ajeitou o cabelo... Mas você é destra, não? Pelo menos era destra quando eu via você desenhar ou escrever...”
Eve apanhou um papel que estava ao lado da cama e uma caneta. Com a mão esquerda, escreveu seu próprio nome, na letra miúda e redonda que ela tinha. Então passou a caneta para a mão direita, e mostrou os garranchos que saíram.
“Sinto mais força na mão esquerda, mas eu era destra. Eu nem percebi que estava usando a outra mão, é como se eu tivesse feito isso a vida inteira.” Contou, meio assustada.
“O reboot deve ter mudado isso em você.” Teorizou o garoto, sentando-se na cama mais uma vez. “Outra coisa que mudou foi que você, de repente, sabia alguns golpes de luta, me derrubou de uma maneira muito controlada naquele ataque. E também sabia falar a língua esquisita do BrainSys”.
Riza assentiu.
Eve olhou para suas mãos, demorando-se mais na esquerda.
“Quando estavam me afogando... Naquela sala com todas as luzes, eles me perguntavam de uma coisa. Uma coisa que eu sabia, só que eu não podia saber. Eu forcei e forcei e não deixei a coisa entrar na minha cabeça, e então eu abri tudo, deixei tudo entrar, quando me enfiaram na água. Eu... Eu entrei num mar de informações e não sabia mais onde eu estava... Eu... Agora eu sei muita coisa, mas não sei se eu sei, entendem?” Ela pareceu se dar conta das próprias palavras. “Não, isso tá muito esquisito para entender...”
Riza sorriu.
“Não, Eve, eu acho que entendi. Todo mundo sabe fazer coisas, ou conhece coisas, mas não se lembra. Só quando a gente recebe o estímulo certo que lembra como fazer. Acho que é assim, mais forte com você, não tenha pressa. Não vamos te forçar a nada, você vai lembrando o que sabe aos poucos. Sabe nossos nomes, sabe onde está, lembra-se do que aconteceu, sabe escrever, falar nossa língua, usar garfo-e-faca, reconhece comidas... Sabe até que é uma fanática por panquecas, o que é o mais irritante de tudo”.
Eve pareceu assustada com a frase final da amiga.
“Por quê?”
“Porque como você consegue comer dois pratos de panquecas com molho e simplesmente não engorda?” Riza parecia realmente irritada. Melissa fechou a cara. “Eu nunca vi você fazer dieta, nunca vi você negar um doce, e nem uma grama! NEM UMA GRAMA!”
Eve começou a rir, naquela gargalhada doce que ela tinha. Riza e Melissa se juntaram para confidenciarem algum tipo de plano de roubo do manual para aprenderem a não engordar mais também.
“Eu não sei como funciona” Disse a ruiva, ainda rindo. “Mas eu nunca engordo, mesmo”.
Riza e Melissa estreitaram os olhos. A atmosfera estava cada vez mais pesada, e até Eve, que quase nunca se dava conta dessas coisas, percebeu.
“Mas não é assim também, eu tenho problemas com outras coisas normais”.
Melissa fez uma cara de dúvida.
“Você está aí há dois dias, e seu cabelo continua igualzinho. E olha o tamanho desses fios! Os meus quebrariam na hora se eu os deixasse crescer a esse ponto. E nunca vi uma pele assim, tem certeza que eles não fazem corpos sob medida, pra que eu arranje um pra mim?”
Riza assentiu, de cara feia.
"Diga-me um problema que você tem!” Exigiu.
Josh, Tristan e George tinham se afastado de costas até colarem na parede do cubículo, e agora avançavam de fininho até a abertura. O clima pesava toneladas, enquanto Eve pensava numa imperfeição sua que acalmasse as duas.
“Eu nunca encontro um sutiã que caiba em mim” Contou ela, sorrindo gentilmente “Pois meus seios são tão grandes que qualquer um fica apertado”.
Os três correram pela porta, e foram se esconder no segundo andar, enquanto as duas leoas raivosas avançavam sobre a pobre garotinha.

Depois de terem acabado com Eve, Melissa e Riza estavam na cozinha, preparando o almoço. George apareceu, sendo o mais velho era ele que deveria investigar o terreno, e as cumprimentou com um sorriso de tirar o fôlego.
“Oh minha deusa” Disse ele, se aproximando de Riza. “Não há nenhuma imperfeição que macule sua beleza”
A garota ficou completamente vermelha, mas George passou reto por ela e beijou, cavalheiro, a mão de Melissa. Riza arrancou o avental, enquanto a mais velha se desmanchava em risinhos, e rumou para fora da cozinha. Sua moto roncou longamente, enquanto ela tentava descobrir como podia ser tão idiota.
George era bem mais velho que ela, e era um homem lindo, experiente e maduro, nunca ela despertaria sua atenção. Já Melissa era a mulher mais bela que Riza já vira na vida, e além de tudo era uma mulher feita, bem sucedida, e muito mais madura que ela. Não, Riza tinha que tirar aquele sonho bobo da cabeça, e talvez um passeio no centro meio congelado da cidade a distraísse. Talvez pudesse fazer compras, ela queria sapatos novos, e tomar uma taça de sorvete com muita calda de morango, esquecendo-se por um instante que estava em dieta pós-Natal.
Estacionou sua moto, colocou a chave na bolsa e decidiu observar algumas vitrines. Um casal se beijava na praça, e ela passou por eles olhando insistentemente para o outro lado. Riza não tinha sorte com garotos, e nunca tivera um namorado de verdade. Para ser sincera, os beijos roubados de um Josh bêbado foram o ponto alto de sua vida amorosa. Chutou uma lata amassada que alguém jogara na calçada. Estava tão cansada de rastejar atrás de um médico cafajeste e se contentar com migalhas de atenção.
Ela não era linda, ela era uma verdadeira tábua mesmo depois de 18 anos, mas ela merecia mais que isso. Muito mais, decidira. Não ia mais ficar atrás de George, e não ia mais se contentar secretamente com as cantadas ridículas de Josh. Não! Era uma nova mulher, e agora ela iria encontrar uma outra pessoa! Alguém que a quisesse, realmente, alguém que ela quisesse.
Foi pensado profundamente nisso, que atravessou a rua e quase foi atropelada por outra moto. Ela caiu, meio na calçada meio na rua, e sentiu que ralara os joelhos. Era só o que faltava! O motociclista não buzinou, ao invés disso encostou a moto, e todo preocupado veio ver como ela estava.
“Você está bem? Não está machucada? Quer que eu te leve ao hospital?”
Ele estava tão aflito que até se esquecera de tirar o capacete, e só quando quase bateu o visor levantado na testa dela que percebeu isso. Ainda pedindo desculpas (mesmo que a culpa fora toda dela, idiotamente atravessando sem olhar) ele arrancou o capacete negro e o pôs de lado.
Riza se viu encarando grandes olhos castanhos muito gentis e decididamente preocupados, e um rosto de tirar o fôlego. Ele era lindo, lindíssimo, e devia ser uns dois ou três anos mais velho que ela. Tinha a pele levemente bronzeada, e um rosto masculino que arrancaram o ar dela. Até os cabelos, castanhos mais escuros e bem despenteados pelo capacete, deixavam ver que ele era decididamente um deus grego motoqueiro.
“Não, não, não foi nada” Sua voz disse antes da mente chegar lá. Ele pareceu ainda assustado, e ela se levantou, com a ajuda dele, mergulhando sua mão na dele, grande, forte e muito quente, e sorriu para ele.
“Viu? Estou inteira, ainda”.
O sorriso que ele lhe devolveu era perfeito, e todo o resto do mundo sumiu da cabeça dela.
“Qual o seu nome?” Perguntou ele, recolhendo seu capacete.
“Riza.” Disse ela, a voz não saindo fraca e boba como quando acontecia com George. Não, ela falara com confiança, com um sorriso, mesmo diante de um homem decididamente mais bonito que o médico. Devia ser sua resolução de ser uma nova mulher que fizera sua voz ficar mais forte, e mais gentil.
“Tem certeza que não quer mesmo ir ao hospital, Riza?” Perguntou ele. E como o nome dela soava bem, dito por aqueles lábios tão bem desenhados! E como ele a olhava de um jeito tão preocupado que era decididamente fofo.
“Tenho. Foi só o susto mesmo”
Ele sorriu mais uma vez para ela.
“Bem, já que é assim, posso tentar compensar o susto, te convidando para tomar sorvete comigo”.
Ela ficou surpresa com o convite. Será que sua resolução também a estava deixando mais bonita? Não era normal um cara daquele nível chamar uma garota como ela para sair, não é mesmo?
“Mas... Eu nem sei seu nome” Disse ela, mais para ganhar tempo que qualquer outra coisa.
“Robert Patterson” Disse ele, e então sorriu, segurando a mão dela e a guiando. “E como agora sabe, já pode sair comigo.”
“Mas...” A pele dele era quente, e ela sentiu os músculos de seu braço quando ele a guiou até sua motocicleta, que era também linda e decididamente potente.
“Vamos lá, gatinha” Disse ele. “Eu não mordo”.
Ele a chamara de gatinha?
“Você não está querendo que eu suba nessa moto, não é?”
“Você não vai cair, pode ficar tranquila”.
“Mas essa é uma Henry Domman” Disse ela, ainda espantada, enquanto ele lhe passava um capacete extra. “É uma moto profissional de corrida, deve custar uma fortuna!”
Ele levantou uma das sobrancelhas, enquanto sentava na moto e se preparava para ajudá-la a subir. Ela subiu sozinha, com uma desenvoltura que o impressionou.
“Uma garota bonita e ainda entende de motos?” Perguntou, levemente desconfiado.
“A minha está estacionada lá pra trás” Contou ela, corando um pouco. “Mas não é nem de longe bonita como essa. Olha esse motor!”
Ele sorriu.
“Eu devia atropelar mais gente” Pensou alto. “Parece que minha sorte está mudando”
Enquanto avançavam rapidamente pela rua, e o ronco poderoso da motocicleta rugia sob eles, Riza pensou uma última vez em George. E decidiu que a sorte dela é que estava mudando.

Eve dormia, pela última vez no cubículo plástico. George e Melissa conversavam na cozinha, e Tristan estava em seu quarto, segurando um papelzinho muito amassado. Ficara horas olhando para ele.
Josh entrou, e sentou-se ao seu lado.
“Arty te deu o endereço, não é?” Perguntou o loiro.
“Sim. Desta vez parece de verdade. É a melhor chance que já tivemos”.
Os dois ficaram em silêncio, antes do loiro quebrá-lo mais uma vez.
“Você realmente vai devolver Eve?”
“Eu... Eu não posso ficar com ela, J., entenda. Eu... Não posso cuidar de uma garota, ficar com ela dentro de casa. Eu sei que ela é linda e tudo mais, mas não quero uma namorada que eu não amo.”
Josh olhou para a janela.
“E você vai devolvê-la para a empresa... Só porque você não a ama?”
Tristan olhou para o endereço em suas mãos.
“É complicado.”
“Quando vai contar pra ela? Ou você vai devolvê-la sem que ela nem saiba?”
“Eu vou contar. Vou contar.”
“Quando?” Insistiu o amigo.
“Depois do Ano-Novo. Então vou ligar lá e pedir para virem buscá-la. E acabou”.
“Depois do Ano-Novo” Repetiu Josh. Então levantou.
“Quer uma opinião sincera?” Perguntou, já à porta.
Tristan guardou o endereço no bolso.
“Não, obrigado”.
Josh saiu. E Tristan ficou olhando o teto, e pensando em como contaria a Eve que ele a devolveria para a loja que a criou. E não se permitiu pensar em por que seu coração doía tanto ao dizer a si mesmo que ele a mandaria embora.

Capítulo 13

Birthday Eve

Capítulo 13

O despertar. O manual. Tristan


Eve dormia, um sono exageradamente tranqüilo, a ponto da menina estar completamente imóvel. George abriu uma de suas pálpebras e apontou a lanterna direto para o olho muito verde que expusera. A dilatação não aconteceu.
Suspirando alto, ele guardou a lanterna, checou suas anotações no prontuário que pendurara aos pés da maca e anotou o estado da paciente. Então saiu do cubículo plástico e rumou para a cozinha, sentindo a necessidade imediata de café.
Melissa Malber estava lá, tomando uma grande xícara de um café preto forte e bem saboroso que ela preparara. Josh estava dormindo no quarto de Tristan, e Riza deveria estar fazendo o mesmo, no quarto de Eve. O médico examinou a mulher a sua frente.
Melissa engravidara aos vinte anos exatos. Ela jamais contara a ninguém quem era o pai da criança, e decidiu criá-la completamente sozinha. Em cinco anos, sua pequena indústria era uma mega empresa que lhe rendera uma fortuna considerável e uma vida mais que confortável. Mesmo agora, dezoito anos depois que contara aos pais que daria luz a um bebê e fora expulsa de casa, ela ainda conservava a beleza estonteante que sempre tivera. Os cabelos loiros eram lindíssimos, e pareciam brilhar na penumbra da cozinha. Seus olhos cor de safira eram absolutamente encantadores, e sua pele cuidadosamente bronzeada escondia a leve formação de rugas ao redor dos olhos enquanto algumas doses comedidas de tinta importada apagavam seus pouquíssimos cabelos brancos. Ela sorriu para ele, e foi como se um anjo o fizesse.
“Tem café na cafeteira” Informou ela. “E eu fiz um pouco de sopa, mesmo que acredito que ninguém vai comer até a garota acordar”.
Ela se recostou no balcão enquanto George extraía um pouco de café fresco da cafeteira.
“Doutor...”
“Me chame de George” Sorriu ele. “Por favor”.
“George, então. Quem é a garota? De onde ela veio?”
O homem sorriu olhando pela janela para a noite escura, carregada de nuvens pesadas de tempestade.
“Se eu contasse... Você não iria acreditar”.

Tristan estava acordado a horas. Toda vez que fechava os olhos, via os grandes olhos mortos do homem de preto. Ele lavara tanto as mãos que achava que logo arrancaria a pele, e mesmo assim ainda conseguia ver sangue nelas. O sangue escuro como tinta do homem que matara.
Bateu fortemente a parte de trás da cabeça na parede, como se isso pudesse interromper seus pensamentos negros. Não, nada poderia apagar seu crime. Mesmo que ninguém o culpasse.
Riza estava dormindo em seu colo. Ela conversara um longo tempo com ele, mas caíra no sono, exausta depois das horas sem fim no avião, quase morrendo de tão preocupada. Ela era assim, sorriu ele. A irmã mais velha, eternamente protetora.
Ele deu mais um gole no grande copo de leite com mel que ela lhe trouxera. Ele ainda lembrava, do dia em que seus pais brigaram e Mark, o sempre ocupado advogado que era seu pai, saíra de casa. ‘Por uns tempos’ ele dissera, para esfriar a cabeça.
Ele tinha sete anos, e Riza faria oito em duas semanas. Ela o procurara na gruta, onde ele sempre se escondia, e ficara com ele até a noite. Naquela vez ela também trouxera leite com mel, e eles falaram sobre seus sonhos, sobre as estrelas, sobre como ela gostaria de...
Tomou outro longo gole. Há tempos que o leite esfriara, mas ele não se importou. Riza falara sobre seus sonhos mais uma vez, e sobre vida e morte, dor e paixão, as sete pessoas com quem eles passariam uma semana sem se desgrudarem, e que tipo de sanduíches levariam para uma ilha deserta.
Ela ainda insistia em atum com maionese quando simplesmente desabara de sono no colo dele. O rapaz passou a mão por seus curtos cabelos negros, um carinho leve que ele sempre fazia nessas situações.
Uma vez ele dedicara toda uma tarde tediosa a examinar a opção de casar com Riza. A tarde acabou e ele ainda não havia chego a um veredito, mas agora ele sabia. Ela era a melhor amiga que alguém poderia ter, e estaria sempre ali, onde quer que fosse, exatamente quando ele precisasse. E quando não precisasse também.
“Ei, maninha” Murmurou ele no ouvido dela. “Que tal ir para a cama?”
Ela murmurou algo sobre rosbife, e ele riu baixinho.
Com cuidado, passou os braços por baixo do corpo dela, e a levantou. Riza não era tão leve como Eve, mas era tão pequena que mal se percebia a diferença. Ele a levou para o quarto da ruiva, e a deitou na cama. Então cobriu seu corpo com um dos grossos cobertores que havia dado à garota-presente e se foi, depois de deixar um beijo na testa da agora irmã.
Depois que ele se foi, Riza ainda chorou por algum tempo, meio de tristeza, meio de felicidade, até finalmente voltar a dormir.

O leite fizera algum efeito. Quando Riza o encontrou na manhã seguinte, ele estava profundamente adormecido, na pequena cadeira dura que havia ao lado da maca de Eve. Ele adormecera com a mão pálida dela entre as suas, e a cabeça estava pousada sobre a barriga da menina, como se ali fosse o mais confortável travesseiro de todos.
A morena pensou longamente se devia acordá-lo, depois de passar longos minutos nas nuvens ao ver aquela cena tão profundamente romântica. Uma pena, decidiu ela, que aqueles dois não simplesmente se davam conta de como eles eram um perto do outro, e como eram mais perfeitos que tudo quando estavam juntos.
“Quem dera que George fosse assim comigo” Resmungou ela baixo, enquanto gentilmente acordava Tristan.
“Que tem eu?” Perguntou o médico, entrando nessa hora. Riza derrubou o amigo da cadeira, literalmente, e sentou-se, agarrando a borda do fino colchão da maca e apertando o peito de susto, enquanto ficava vermelha como um pimentão ao sol.
“Riza? Que foi? Você está se sentindo bem?” Perguntou o médico, enquanto Tristan acordava com o impacto e despejava um jorro de palavrões e maldições. Não era o dia mundial do bom-humor para ele, ou pelo menos parecia.
“...pariu” Terminou ele, levantando-se, e dando de cara com o trio, sendo que Eve continuava no reboot, totalmente alheia ao resto do mundo.
“Desculpa!” Riza correu para ajudá-lo, mas tropeçou nos fios do desfibrilador e quase rasgou a parede do cubículo plástico. Humilhada por sua própria idiotice, resmungou algo sobre tomar café e correu escada acima, para gritar consigo mesma com a cara enfiada no travesseiro.
Tristan segurou a mão de Eve mais uma vez, e então saiu, sentindo o pescoço duro e as costas reclamando das horas passadas na posição desconfortável. George sorriu para si mesmo, enquanto tirava a pressão de Eve.

O computador o distraiu um pouco. Tristan precisava terminar de escrever o resto de seu novo programa, e com um pouco de sorte poderia vê-lo funcionando. Pensou que um dia daqueles ligaria para Arty para pedir umas dicas. Sorriu com a idéia. No mundo todo, só havia uma coisa que Arty não conseguia fazer com um computador: criar jogos. Ele simplesmente era péssimo em desenvolver um enredo e missões, histórias paralelas, personagens e tudo o mais que um jogo pedia.
Já Tristan desde pequeno gostava de jogar. Assim que ganhara seu primeiro computador, aos dez anos, a primeira coisa que quis aprender fora fazer seu próprio jogo. Quase desmaiara ao ver o tamanho das apostilas e equações que teria de estudar, mas jamais desistira.
Ele riu ao lembrar que passara uma semana praticamente trancado no quarto para escrever seu primeiro jogo. E da cara que seu pai fizera quando ele mostrara o microscópico joguinho estilo “MARIO” que ele criara. Mark lhe comprara um sorvete de quatro bolas e cobertura dupla, enquanto a mãe lutava com as teclas para jogar. Hellen era péssima com vídeo-games.
Mas a mãe designer de carros era excelente com lápis, papel e aquarela, e desenvolvera mais ainda suas habilidades de desenho ao adquirir alguns programas para seu trabalho. Fora ela que desenhara, pacientemente, muitos dos personagens que Tristan usara em seus jogos, além dos cenários, fundos e desenhos. E a mulher sempre sorridente e com a paciência infinita se encantara tanto com as idéias do filho como com os programas de modelagem em três dimensões.
E foi pensando em todas as horas que passara na frente do computador escrevendo jogos que ele lembrou porque não tinha a mínima chance com garotas.
“Que coisa de Nerd” Murmurou para si mesmo, decidindo por deixar para lá o programa. Abriu o navegador e decidiu checar seus e-mails.
E foi assim que encontrou o Manager.

Josh estava espumando. Sua mãe estava lá embaixo, toda derretida por aquele médico fajuto. Agora ele entendia como Tristan podia tratar o patife tão mal. Tudo bem, era irritante ver ele dando em cima de Eve, mas era absolutamente nojento ver ele dando em cima de sua mãe. Mãe é mãe, poxa! Elas deviam ser proibidas de ficar próximas de outro homem que não o pai da gente, e olhe lá.
A porta do quarto de Tristan se abriu.
“Josh, pode ir na papelaria e comprar um pacote de papel de impressão?” Perguntou o amigo, metendo a cabeça para fora do quarto. O barulho da impressora surgiu atrás dele, quando a porta foi aberta. “Pega o dinheiro no pote da cozinha”.
“Quanto de papel?” Perguntou ele.
Tristan pensou por um longo instante.
“Cinco pacotes grandes. E compre dois cartuchos para minha impressora. Pretos”.
Os olhos do loiro se arregalaram.
“Pra que tudo isso?”
Mas o amigo já tinha fechado a porta.

Tristan sentiu um alívio quando a última folha foi cuspida para fora da máquina. Ele precisara de três cartuchos no fim das contas, o que já usava, o que Josh comprara e um que encontrara na gaveta. Mais um cartucho colorido.
Ele ajeitou as folhas, e então foi até o escritório do pai, sempre empoeirado e trancado a chave.
Pegou a grande máquina de ferro que Mark usava para perfurar e encadernar os livros e documentos que imprimia, e voltou para seu quarto. Posicionou uma parte das folhas na máquina e quase pulou em cima dela para fazer os dois grandes pinos afiados cortarem uma dupla de círculos perfeitos em cada folha, separados o mesmo tanto. Colocou outra parte das folhas e apertou novamente, até que todas estivessem perfuradas.
Voltou para o escritório, guardou a máquina e pegou dois grandes pinos de plástico, do tamanho exato dos furos e que se pareciam com dois brancos parafusos, com porcas plásticas junto.
Passou os pinos pelos furos, atarraxou as porcas e sorriu, satisfeito com seu trabalho. Então colocou o hiper-grosso livro às costas e desceu as escadas, chamando todo mundo.

Josh sentiu o impacto na mesa quando Tristan colocou não muito delicadamente o grande livro feito em casa. Era da grossura de seu braço.
“Você imprimiu a Wikipédia?” Perguntou ele, cogitando seriamente aquela possibilidade. Nem os livros de informática que Tristan às vezes imprimia eram monstruosos assim, e ele se lembrava de quando a mãe do amigo o pegara imprimindo “só” duzentas páginas. Tempos duros.
“Não, idiota” Disse o ‘amigo’. “Isso, senhoras e senhores... É o Manual da Eve”.
Um instante de silêncio percorreu todos, então Josh, Riza, George e, incrivelmente, Melissa, saltaram para a frente, tentando agarrar o manual.
“O primeiro manual sobre uma mulher!” Gritou Jozua, que levou um tapa da mãe. George sentia o lado masculino concordar com Josh, o lado médico querer botar as mãos naquilo e o lado cafajeste querer aproveitar a linda visão que Melissa, praticamente deitada sobre a mesa, lhe proporcionava.
Tristan ficou com o manual.
“Eu o encontrei no meu e-mail. Ao que parece, caiu numa caixa de Spam por ser grande demais. Tive de separar o arquivo em dez partes para poder baixá-lo e imprimir.” Ele sorriu. “São três mil páginas, minha impressora simplesmente morreu quando terminou. E aqui pode haver a resposta para o que está acontecendo.”
Ele parou um instante.
“Mandei as informações de meu e-mail para Arty. Ele vai rastrear o e-mail e descobrir talvez de onde ele veio. Desta vez não é Entregas Elder, mas sim a verdadeira empresa que criou a Eve!”
Havia uma única palavra na capa do manual.
“MANAGER” Leu George. “’Gerenciamento’?”
“Na verdade, é uma espécie de abreviação de ‘Manual de Gerenciamento’” Corrigiu o castanho, abrindo num absurdamente extenso índice. Então começou a virar as páginas.
“Informações médicas” Disse George, de repente. Tristan, que parecia já esperar por isso, desatarraxou os pinos que reuniam as folhas e passou o capítulo para o médico.
“Teorias sobre a construção” Exclamou Riza, pegando aquele capítulo para ela.
“O que é um Homo Sinteticus” Falou Melissa, suavemente, apanhando as folhas para ela, como os outros.
“Como funciona o cérebro feminino!” Gritou Josh, as mãos indo em direção ao capítulo. Riza e Melissa chegaram antes dele e guardaram as folhas.
“Acho que isso vai ficar melhor com a gente” Disseram elas, juntas, rapidamente escondendo o capítulo. Josh, Tristan e George soltaram um grande suspiro, em uníssono.
“Talvez haja um capítulo sobre como as mulheres conseguem se aliar tão rapidamente” Resmungou Josh. Riza checou as folhas roubadas e sorriu largamente.
Finalmente, chegaram numa folha em branco, cuja única palavra era ‘Segundo’.
“O Manual é divido em Seções” Explicou Tristan, ainda virando as páginas. “Dentro delas, Capítulos, e dentro destes os Tópicos. São 5 seções: ‘Humano’, ‘BrainSys’, ‘Técnico’, ‘Erros’ e ‘Adicional’. O que procuramos é a Seção BrainSys, capítulo Reparações de Danos, tópico V: Reboot”.
Eles trafegaram por meia hora entre as páginas até encontrarem a certa. Tristan rapidamente copiou num pedaço de papel à parte o que dizia o tópico.

Reboot. Rep.Erro Nº 2178297483029. Quando o Hardware sofre danos acima da média, entra num estado de reparação acelerada, desligando o Software, o Hardware e todos os Periféricos de Hardware. O Case fica em estado semelhante à catatonia, enquanto o sistema se repara. Ao fim do processo, ocorre o Reboot, onde o Software carrega a BIOS de iniciação e dá a partida de reinício nos Periféricos. O Reboot pode demorar de um minuto até seis meses, dependendo do dano no Hardware. Caso não haja reparação, o sistema resetará completamente e irá desligar, esperando troca manual do Software, Hardware ou Periféricos com danos.
Ao fim do Reboot o Case pode sofrer de tiques nervosos, confusão espaço-temporal e dores de cabeça por períodos de alguns dias a oito semanas. A lista de analgésicos e controladores aceitados segue baixo:”

George copiou no bloco de receitas todos os remédios listados, e sentou-se repentinamente exausto e com dor de cabeça.
“Não entendi quase nada do que está escrito” Confessou. “Software? Hardware? Case?”
Riza também ficou em dúvida, enquanto Josh e Melissa estavam simplesmente vazios nos rostos, sem terem entendido absolutamente nada.
“Acredito que eu possa decifrar” Declarou Tristan. Ele leu várias vezes o texto, e então sorriu. “É nojento, mas é fácil”.
Ele pegou uma panqueca e a enfiou na boca, a fome voraz o atacando.
“Um computador é formado pelo Hardware, a máquina física, que podemos trocar e tocar, e o Software, os programas, que controlam a máquina. O BrainSys é formado desta forma: o computador implantado no cérebro de Eve, que seria o Hardware, e o BrainSys propriamente dito: um programa que lida com o banco de dados e distribui as informações.”
Ele pegou outra.
“O Case é um termo para... Digamos... Capa. É a caixa onde a máquina vai dentro, para não expor os componentes frágeis, e para transformar o computador numa coisa mais bonita e agradável. Como a lataria de um carro, que protege o motor. Neste caso o ‘Case’ é a própria Eve, já que é ela que protege o BrainSys dentro dela”.
“E dá o visual bonito” Sorriu Josh, levando uma cotovelada de Riza.
“O que o manual diz é simples:” Continuou o rapaz, tomando um gole de suco. “Se a máquina física sofrer algum dano muito sério, o programa tenta consertar o estrago, para isso ela desliga tudo e dá toda a atenção para o concerto. Como se fechassem a loja para que não houvesse clientes distraindo enquanto concertam o encanamento.”
“Os Periféricos?” Perguntou Riza.
“Isso. O computador é só o computador mesmo, a máquina. O monitor, o teclado, mouse, caixas de som... São chamados de periféricos. Eles são acoplados no motor principal, não são parte dele. Importantes, mas podem ser trocados sem ter de mudar algo dentro da máquina. Quando a gente troca de teclado, não precisa abrir o computador, entende. Acho que deve ter algo que coloque as informações no cérebro de Eve, e também alguns outros, para controlar o aparelho. Eles são desligados primeiro, deixando só a máquina funcionando. E depois ela desliga tudo o que não é importante, se concentrando no concerto.”
Ele olhou para Eve, lá na sala, dentro da salinha de plástico e máquinas a examinando o tempo todo.
“Eve fica nesse estado até que a máquina consiga se concertar. Então, o programa religa de novo, rodando a BIOS, que seria um programa mais básico que há, só pra ligar as partes físicas e ver se está tudo bem. Caso dê tudo certo, ele volta a funcionar normalmente, e a Eve sai deste coma.”
Então ele olhou para George.
"Mas se o programa não conseguir concertar o estrago, ele vai resetar. Vai eliminar tudo o que foi acrescentado nele, voltando ao estado de fábrica, que é como ele foi feito. Tudo que o banco de dados aprendeu, todos os registros que ele poderia ter guardado... Some tudo. E então ele desliga. Ele só volta a funcionar se alguém trocar manualmente a peça. Ou seja...”
George desviou os olhos para observar a paciente.
“...Abrir o crânio de Eve e trocar a peça quebrada” Terminou ele, no lugar de Tristan. “E se o BrainSys desligar, o que acontece? Se a Eve é humana, ela deve conseguir viver sem o sistema, não é? Afinal, eu não tenho nenhum computador na cabeça e estou vivo, não?”
“Não” Disse Riza, assustando a todos. Ela mostrou um dos papéis que estivera examinando. “Segundo isso, a gente não deve encarar Eve como alguém que teve um computador colocado no cérebro. O BrainSys não foi inserido nela, ele se desenvolveu junto com ela. Não é como um braço mecânico, mas um membro que foi enxertado nela. Se for tirado, ela sofrerá as conseqüências de ter perdido um membro como qualquer outro.”
Tristan virou furiosamente as páginas e leu o tópico específico, ficando branco logo em seguida.
“Riza tem razão. Aqui diz o mesmo: ‘Se o Sistema for desligado, o Case morrerá em 5 dias sem ele”.
Josh pegou o manual e o girou até as últimas páginas.
“Quando meu computador quebra, no manual tem uma lista de lugares onde posso comprar peças para substituir. Deve haver algo assim aqui.”
E quando eles se debruçaram para procurarem a lista, Eve acordou.

Ao primeiro gemido cansado da garota, todos estavam ao redor da cama. Tristan segurou sua mão.
“Eve?” Perguntou ele, a boca repentinamente seca. “Tudo bem com você?”
A garota elevou sua mão esquerda, até o rosto dele, numa carícia tão delicada e suave como uma pena.
Então ela tentou matar Tristan.

Capítulo 12

Birthday Eve
Capítulo 12

O resgate. O homem de preto. O reboot.


O medo é uma coisa extremamente poderosa. Em alguns, pode transformar sua vida num inferno vivo, em outros pode operar mudanças fantásticas. Em Tristan, o medo deixava uma sensação terrível de falta de ar, e uma pressão anormal na boca do estômago, como se tivesse levado um soco forte o suficiente para derrubar um elefante. Suas mãos suavam profusamente, e o cartão de segurança escorregava pelas palmas encharcadas. Sentia-se sufocado dentro do uniforme roubado, que o suor fizera grudar-se ao seu corpo como uma segunda pele quente demais.
Os corredores da Elder estavam completamente desertos, a exceção de uma única sentinela que fumava distraído perto de uma janela. O cano voou para a mão do rapaz antes que ele sequer percebesse, e derrubara o fumante com um golpe direto na cabeça. O corpo que sobrara estava com um galo muito feio e a respiração calma. O castanho o arrastara até uma das milhares de portas que havia ali e a destrancara usando seu cartão. Era um pequeno escritório atravancado com mais mesas que poderia comportar. O rapaz examinou o leitor de cartões, pensando em alguma maneira de evitar que abrissem a porta depois que ele trancasse o homem desacordado ali dentro.
A máquina nada mais era que uma caixa destacando-se da parede, onde ele enfiava completamente seu cartão, pela parte de cima da leitora. Quando o cartão era reconhecido, a luz na frente da caixinha se acendia, e uma foto surgia na pequena tela acoplada. Ele enfiou a mão nos bolsos, rezando para que encontrasse o que procurava. Dito e feito, tirou uma mão cheia de moedas. Não era uma solução luxuosa, mas serviria.
Enfiou uma moeda de dez centavos pela entrada do cartão. A caixinha acendeu uma luz vermelha e então desligou, travada. Demoraria algum tempo para que conseguissem concertar o dispositivo e abrirem a porta. O invasor sorriu nervosamente, esperava tirar Eve dali antes que alguém arrumasse aquilo.
A voz de Arty brotou diretamente no ouvido dele.
“Uma moeda na leitora. Que garoto mais inteligente. Onde aprendeu isso, na TV?”
“Cala a boca, Arty. Onde eu estou?”
Ele ouviu o barulho de um teclado sendo atacado furiosamente por dedos grossos como lingüiças. Então Arty mastigou lentamente um Doritos antes de falar. Era seu quarto pacote de salgadinhos.
“Avance mais dois blocos e então vire a direita. Você vai encontrar uma escada que sobe e uma que desce. Desça por ela. Eu aviso quando parar.”
Ele assentiu, sabendo que Arty o veria pelas câmeras de segurança que invadira. Sabia que podia confiar no homem, sua imagem jamais apareceria nas telas dos seguranças do depósito.
“Sou o homem invisível” Murmurou para si mesmo. Arty começou a rir do outro lado da linha, em deboche. O rapaz revirou os olhos e se chutou mentalmente. Concentrando-se, encontrou as escadas e começou a descer.
Demorou um bom tempo para Arty interromper sua descida, o avisando de guardas a frente. Dois homens troncudos o encontrariam em instantes. Olhou para os lados, procurando um esconderijo. Havia uma porta a seu lado. Destrancou-a e se enfiou por ela. A sala estava completamente escura, apenas um monitor estava ligado, à distância. Suspirou aliviado quando ouviu os passos dos seguranças sumindo ao longe.
“Quem é você?”
Uma mulher de rosto bondoso estava o encarando. Ela sorriu, preocupada.
“Nunca te vi aqui, você é novo?”
Sem saber o que fazer, ele assentiu com a cabeça. Não ouvira ela se aproximar, e a via parcialmente, pela luz que entrava pela janelinha de vidro da porta que ele mesmo fechara.
A moça boazinha lhe deu outro sorriso.
“Essa área é restrita, você não pode ficar aqui, desculpa” Ela lhe deu um olhar amável. “Mas posso fazer uma pergunta antes?”
Aquilo estava ficando perigoso. Ele deu de ombros e assentiu, sem falar uma única palavra.
Ela encostou uma arma em seu estômago, e a engatilhou com um estalo que pareceu vindo da própria morte.
“Por que você está se escondendo dos seguranças?”

Riza estava saindo do avião. O calor da Espanha a acertou em cheio do rosto, mesmo na época que estavam. Mesmo no aeroporto impessoal já podia divisar as cores e cheiros de sua terra natal. Seus pais se aproximaram, sorrindo. Ela sentiu seu coração se apertar de saudade. Abraçou os dois, e sentiu-se feliz por um único segundo, antes de encará-los.
“Mama. Papa” Disse ela. “Preciso voltar.”
Eles a encararam sem entender. Sua família esperara por ela por dias, estava ali para comemorar o ano-novo com eles!
“Por favor”
E algo no tom dela os convenceu a comprarem uma passagem de volta. Rezando para dar tempo e sentindo-se terrível por ter de abandonar os pais ali sem mais explicações, ela entrou no outro avião.
Seu celular ainda exibia a mesma mensagem, que recebera horas antes, ainda no vôo.
Pegaram Eve. Estou indo atrás deles. -Tristan

Josh estava com o corpo completamente enrijecido das longas horas da viagem de carro. Ao seu lado, sua mãe estava em silêncio, concentrada. Ele conseguira convencê-la a cancelarem a viagem e rumarem rapidamente de volta. Ele examinou seu celular. A mensagem de Tristan estava clara. O segundo torpedo viera com um endereço.
Mas ele ainda não entendia porque tivera de trazer o material que estava a seus pés, dentro da mochila.

O cano acertou a mulher com força anormal, direto no rosto. Ela cambaleou para trás e Tristan pulou sobre ela, derrubando-a e arrancando a arma de suas mãos. Ele apontou o revólver direto para a cabeça dela.
"Você nunca devia ter feito isso” Sussurrou, a voz gelada como um túmulo.
E então a mulher só viu escuridão.

A porta se abriu. Tristan sentia o coração explodindo de medo. Não queria pensar no que acabara de fazer, mas guardou a arma. Agora carregava duas, além do cano manchado de sangue que ele ainda carregava às costas, debaixo da camisa. Arty reclamava em seu ouvido, passando instruções entre um sermão e outro. Finalmente ele conseguiu chegar na porta dupla de aço, como um frigorífico.
“Do outro lado está a Eve, e acredito que mais cinco pessoas. Eles ainda estão torturando ela, acho que estão afogando a garota num barril”.
As palavras só endureciam mais ainda sua determinação. Ele não deixaria aquele lugar sem a garota, e derrubaria quantos fosse preciso para tirá-la de lá. Engatilhou a arma roubada, e segurou o cano com força na mão direita, a que batia mais forte. Então passou o cartão na porta.
E ela continuou trancada.

George tivera de invadir a casa de Tristan. Não fora bem uma invasão, já que ele tinha uma cópia da chave, que Tristan revelara estar enfiada dentro do grande vaso perto da porta, mas não se sentia muito melhor. Ainda mais que a preocupação era evidente em seu rosto, enquanto ele descarregava a grande caminhonete que trouxera. Moveu os móveis da sala para um canto, e a armou a estrutura de alumínio leve que trouxera. Então encaixou nos lugares a grande capa plástica, formando um cubículo transparente de pouco mais de três metros por outros três. Havia uma porta (na verdade, um retângulo cortado do plástico, que se enrolava e desenrolava como a entrada de uma tenda, e manobrou por ela a maca desmontável e os aparelhos.
Trouxera seu próprio gerador, pesado, mas pequeno, e agora o enchia de combustível. Ligou o esterilizador de ar nele, e também o desfibrilador. Sentiu arrepios em ter que usar aquela coisa em Eve, pois nem queria imaginar ter de fazer uma operação mais complicada na garota com apenas os materiais disponíveis, nenhuma equipe e naquela cabaninha abafada que montara no meio da sala.
Entrou na caminhonete e deu a partida. Tinha que buscar mais coisas, e tinha de ser rápido. Ligou o rádio, em busca de notícias e também de alguma música para acalmar um pouco os nervos.
Quando a notícia surgiu, ele já tinha carregado o carro e estava voltando. E quando a notícia terminou, ele tinha batido no caminhão.

Tristan passou novamente o cartão na máquina. A luz vermelha se acendeu. As palavras NÃO AUTORIZADO surgiram na telinha.
“Você pode me dar as permissões para entrar?” Disse ele, no microfone.
Arty suspirou.
“Não posso colocar um novo código no seu cartão sem estar com ele nas mãos. Você precisa de um cartão novo e...”
Tristan disparou dois tiros contra a leitora de cartões, e a porta se abriu imediatamente, parando na metade, como se emperrada.
“Obrigado, Arty” Disse ele, carrancudo. Era o fim de seu elemento surpresa.
Na verdade, não foi. Os cinco homens estavam tão entretidos em afogar Eve que eles foram pegos completamente desprevenidos.
Confiam demais na segurança. Pensou o rapaz. Dois homens avançaram em sua direção, levantando suas armas.
Tristan atirou no primeiro, mais distante, e este desabou no chão, se agarrando ao ombro perfurado e gritando. O segundo foi despachado com o cano de metal, velho amigo, que lhe tirou, entre outras coisas, alguns dentes da boca.
O terceiro homem atirou contra ele, mas Tristan rolou para longe a tempo. Disparou mais uma vez, e errou, acertando uma cadeira. Ficaram os dois em silêncio, imóveis, agachados. Tristan estava parcialmente seguro, atrás de uma empilhadeira abandonada no meio do caminho, e o homem se escondia atrás de uma pilha de caixotes de madeira.
O lugar onde estavam devia ser um depósito das encomendas que a empresa entregava. Era grande, atulhado e muito claro, com dezenas de grandes lâmpadas ligadas em todos os lugares. Tristan percebeu que algumas das lâmpadas estavam ligadas diretamente para as câmeras, impedindo a visão do que acontecia. Isso não tinha importância, imaginou, já que Arty estaria enviando loops para os homens da Elder, mas deveria sair logo dali, antes que alguém encontrasse os desacordados que ele espalhara por ali, junto com as máquinas quebradas de cartões.
O homem ficou impaciente e se mostrou um pouco, tentando mirar. Visivelmente era apenas um segurança comum, e não alguém com grandes treinamentos, já que foi algo muito idiota. O rapaz conseguiu atirar no braço do homem, e esse ficou atrás da caixa, sem a arma, que derrubara a ser atingido.
Tristan levantou, e andou até Eve e os outros dois homens, que estavam reunidos perto do tonel de água. O homem levantou a garota pelos cabelos e a jogou descuidadamente no chão. Ele abriu a boca para negociar alguma coisa.
Tristan descarregou sua arma nele.
Só haviam sobrado 3 tiros, e nenhum fora fatal. O homem simplesmente caíra para trás, enquanto o outro, talvez um médico, já que portava uma maleta e os apetrechos de medicina em suas mãos, fugiu gritando. O rapaz pensou em pegar a outra arma e derrubá-lo, mas decidiu que não valia a pena.
Ele se aproximou de Eve, e viu que a ruiva sangrava pelo nariz, além de ter vários hematomas e a visão turva e distante. Ela devia ter sido surrada algumas vezes, pelos cortes e marcas pelo corpo, e o saco laranja que estava vestindo estava rasgado em vários pontos. O rapaz nem queria imaginar o que faria se descobrisse que eles tinham se aproveitado dela.
Colocou sua cabeça ruiva em seu colo, e sorriu para ela quando os olhos verdes se focaram nele.
“Tristan” Murmurou ela, a voz muito rouca. Água e sangue saíam de sua boca machucada. O coração dele se apertou tremendamente. “Deixa... eu...”
“Não fale, Eve. Vai ficar tudo bem, fique tranqüila.”
Ela tentou levantar seu braço e tocá-lo, mas não conseguiu. Na verdade, mal sabia se aquilo era real ou sonho. Fosse o que fosse, era melhor do que qualquer coisa que já tivera ali.
“Deixa...” Ela tossiu, sentindo o gosto de sangue e a dor terrível. Mas precisava falar, precisava de uma resposta, antes que... “Deixa... eu... ser...”
Ele tinha lágrimas nos olhos, e uma dor terrível no coração.
“Sua?” Então ela sorriu debilmente, os olhos perdendo o foco. “As pessoas se beijam nessa hora, sabia?”
E desmaiou.

O homem de preto aguardava, caído. Tristan se aproximou dele. Havia sangue em todas as suas roupas, e o rapaz percebera que ele tomara um tiro na altura do estômago. Mas ainda assim estava acordado, e sorriu para ele.
Era o homem da cicatriz, percebeu. O homem que fizera o garoto dirigir a noite inteira acordado, que tentara convencê-lo de ser pai da Eve, e que fora algemado na casa. Como escapara?
“Ela é esperta, admito” Resmungou o homem, sangue vazando dos cantos de sua boca. “Ficou de bico calado o tempo todo. Mas você sabe que não tem pra onde ir” Ele riu, de um jeito repulsivo e sangrento. “Você acha que vai ficar com ela pra sempre, rapazinho? Acha que ganhou na loteria, de repente, e que a garota é só sua?”
Tristan sentiu um arrepio com aquelas palavras.
“Você não sabe nada sobre o Projeto Hon.” Ele cuspia sangue a cada palavra, e sua voz enfraquecia. “Não sabe sobre Parakuceruso ou...”
A luz deixava seus olhos. Seu peito subiu derradeiro, e então ele expirou, sangue, saliva, água e palavras venenosas.
“...Leandres...”
E então morreu.

Tristan amarrou Eve às suas costas, usando as mangas que ele rasgara da camiseta que usava. Revistara o corpo do homem da cicatriz, e encontrara poucas coisas. Uma, porém, era importante. Ao redor do pescoço do homem, havia uma plaquinha metálica, como as que os soldados usavam. Tentava não pensar nas palavras do homem, ou na morte que acabara provocando. Sentia-se um assassino. Até mesmo a mulher que o ameaçara ele não conseguira matar, apenas a desacordara e a amarrara, mas agora ele havia tirado a vida de alguém. Foram seus tiros que haviam findado a vida do homem sem nome, que era apenas o homem de preto. O homem da cicatriz falsa, que borrara com o sangue, que saíra nas mãos do rapaz.
Lágrimas se formavam em seus olhos enquanto ele saía da Elder. Usando uma cadeira, quebrara uma janela no térreo e fugira pelo jardim. O peso de Eve era quase inexistente, os jorros de medo, culpa, dor e adrenalina o fazendo escalar o muro em segundos. Agradeceu mentalmente Arty, por ter desligado remotamente o gerador elétrico da cerca, o que o impediu de ser eletrocutado.
Desceu do outro lado, e entrou no carro, arma em punho. Não seria pego numa armadilha qualquer, mas ficou aliviado ao descobrir que ninguém mexera no carro que ele... pegara emprestado.
Colocou Eve no banco do passageiro e ajeitou o cinto de segurança nela, então desceu o banco até ela ficar quase deitada. Entrou pelo lado do motorista, ligou o carro e começou a voltar, lembrando-se de perder algum tempo em longas voltas pela cidade e a estrada, antes de rumar discretamente de volta para sua casa. George não atendia ao celular.

Pararam em frente a casa, chegando juntos. Riza desceu do taxi, tirou suas malas de qualquer jeito do porta-malas e pagou o motorista. Josh desceu do carro e correu para ajudá-la, enquanto a belíssima mulher que era sua mãe se recostava no capô de seu carro.
Com um sorriso nervoso, eles se cumprimentaram. Então entraram pela porta já destrancada, e derem de cara com George, que tentava estancar o sangue da testa com uma grossa atadura.
“Calma, calma!” Disse ele, ao ver os olhares assustados. “Não foi nada, eu bati o carro, só isso. Foi um corte superficial, logo já para e...”
Seus olhos caíram na loura e linda mãe de Josh.
“Ora, Jozua, você não me disse que tinha uma irmã tão linda” Disse ele, repentinamente assumindo sua posição de conquistador. A mulher riu delicadamente, oferecendo-lhe a mão direita.
“Sou Melissa, mãe do Jozua”.
Ele se abaixou numa reverência para tocar a mão da mulher com seus lábios. Os cabelos loiros dela pareciam ouro puro, e seus olhos azuis pareciam feitos de safira. Ela sorriu, e isso tirou o fôlego do médico.
“Eu também não sabia que meu filho tinha um amigo tão encantador” Comentou ela, sorrindo mais ainda.
Josh parecia ter comido lixo, pela cara que fazia, e Riza ficara vermelha dos pés a cabeça, e parecia que ia explodir a qualquer instante.
Um carro parou derrapando, e ralou a caminhonete amassada de George. O homem gemeu levemente, ao ver o novo ferimento em seu querido carro, mas se concentrou ao ver Tristan correr em sua direção com a ruiva no colo. Eles ajudaram a carregar a menina, e entraram no cubículo de plástico montado na sala.
“Fora, todos vocês” Comandou George, tirando a pressão da garota. Examinou seu coração e ouviu seus pulmões. “Ela tem água nos pulmões, e muitos ferimentos. Tristan, me dê aquela caixa...”
E ficaram esperando.

Os olhos de Eve estavam abertos, mas ela continuava completamente estática, deitada na maca. George suspirou, enquanto ouvia atentamente o coração da garota.
“Ela está completamente bem, as marcas sairão em alguns dias. Felizmente ela não foi torturada por muito tempo e nem foi...” Ele parou, engolindo em seco. “Não se aproveitaram dela. Mas não há previsão de quando ela sairá deste estado... catatônico.”
Eles desviaram seus olhos para a ruiva, que continuava encarando o teto sem qualquer reação.
“Liguei para o Arty” Suspirou mais uma vez o médico. “Ele é o melhor para lidar com computadores, e achei que talvez fosse a parte eletrônica dela que estivesse a deixando assim”.
“E aí?” Perguntou Josh, em nome de todos.
“Arty acha que Eve está realizando um reboot” Disse ele.
Riza e Josh viraram imediatamente para Tristan, o que mais conhecia de computação ali.
“Ele quer dizer que ela está reiniciando” Explicou o garoto, cansado. “O BrainSys deve ter sido usado ao máximo, acredito que ela o usou para se distrair da tortura. O sistema entrou em colapso e desligou. Agora ele está ligando, checando se está tudo em ordem e tentando reparar os danos que sofreu. É comum com computadores que sofreram grandes danos.”
“Mas ela vai ficar bem, não é?” Perguntou Riza, assustada. “Ela não vai... Se esquecer da gente, não é?”
Tristan apertou a mão estranhamente gelada da ruiva, e se perdeu em pensamentos, olhando para ela. Em algum lugar de seu cérebro, um computador estaria tentando recuperar-se do trauma que sofrera.
“Não sei” Murmurou. “Eu não sei se vai ser realmente a Eve que vai acordar.”
Josh apertou a mão de Riza, e esta segurou a outra mão de Tristan. George colocou a mão no ombro do loiro, e a preocupada mãe de Jozua tocou suavemente a mão de Eve, a pele tão fria e delicada. Só lhes restava esperar, e rezar fervorosamente.
Para que Eve voltasse para eles.
 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB