domingo, 16 de maio de 2010

Capítulo 21

Birthday Eve

Capítulo 21

Arty. A irmã. Aliança.



Arty sorriu vivamente ao ver Eve sã e salva, e era uma pena que estava daquele jeito, pois adoraria poder abraçá-la. A garota tinha lágrimas nos cantos dos olhos, e Riza parecia machucada, enquanto os rapazes ficavam mais para trás, sem jeito.
“Oras, eu não estou morto, pra quê essas caras?” Resmungou o homem, dando um peteleco num tubo chato que o atrapalhava. Vê-lo na cama de hospital, com ataduras e milhares de fios e tubos em seu corpo era realmente horrível, e Eve sentiu seu coração se quebrar.
“Arty...” Disse ela, abafado. Então ela o abraçou com cuidado, e ele sentiu o perfume suave dela, e sorriu, agradecido.
George bateu de leve na perna do irmão, mas Arty não percebeu. O médico engoliu em seco, e desviou o olhar.
“Então é verdade que...” Começou.
“Não dá pra explodir uma dinamite num lugarzinho apertado e sair inteiro, mano” Disse o outro, conformado. “Podia ser muito pior, e não me importo muito mesmo”.
Ele apontou para a cadeira de rodas que aguardava do outro lado da cama.
“Passei a maior parte de minha vida sobre uma cadeira com rodinhas. Não vai fazer diferença nenhuma. Tenho meus braços e todos os meus dedos, posso continuar a trabalhar. Nada vai mudar, só vou ter que dar uma reformada em meu banheiro”.
Mesmo com sua fala animada, a visão de seus braços e tronco enfaixados e o cobertor escondendo suas pernas para sempre inutilizadas era terrível demais para aguentar. Eve e Riza se abraçaram e soluçaram juntas, baixinho, enquanto Tristan e Josh se aproximavam. Sarah estava no corredor, do lado de fora do quarto, esperando pacientemente.
“Não liguem pra tudo isso” Disse Arty, fazendo um gesto com a mão. “Tenho coisas mais importantes para dizer”.
Ele se ajeitou na cama, e suspirou, fechando os olhos e tirando os óculos.
“Há um homem que se chama Mallick. Esse não é o nome dele, e acho que apenas ele, no mundo inteiro, deve saber seu verdadeiro nome. Mallick fez muita coisa, e lutou em várias guerras, dos mais diversos modos. Ele é um estrategista natural, e tem uma inteligência afiada e horrível. Para ele, tudo é guerra. O país, para ele, está acima de qualquer coisa que exista. E ele faz qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para ter mais poder.”
Eve se arrepiou, e Tristan tentou colocar um braço ao redor dos ombros dela, mas ela se moveu para a frente, talvez sem perceber sua intenção, e ficou fora de seu alcance.
“Mallick não tem escrúpulos, e tem uma visão bem distorcida das coisas. Ele me tirou da cadeia, há anos, e me enfiou num laboratório. A maior parte do sistema que o país usa hoje foi inventada por mim, e assim ele foi meu chefe por um bom tempo”.
Arty olhou para fora, era difícil revelar aquilo olhando nos olhos verdes e lindos da ruiva à sua frente.
“Eu jamais conseguiria fugir daquele lugar. Era simplesmente impossível. Mas Mallick sempre pensa muito mais a frente que nós, então ele armou um plano que me libertaria, aparentemente. Nunca mais teria de ficar naquele laboratório, mas eu tinha que ficar escondido. E relatar tudo, tudo que acontecesse na rede para ele. E caso algum serviço surgisse, eu o faria em meu novo esconderijo. Eu sempre pensei que seria uma oportunidade de ouro. Criaria o esconderijo perfeito, e nunca mais teria que olhar para aquele monstro. Era, é claro, apenas uma ilusão. Mallick tem olhos por toda a parte, e nada se esconde dele.”
Ele olhou para Eve, mas evitou seus olhos.
“Desde o dia que Riza me contou sobre você, Eve, eu comecei a mandar relatórios para Mallick. Contava tudo que sabia sobre você, sobre a empresa que você foi criada. Gravei minhas conversas com Tristan durante o episódio que você foi raptada e mandei uma cópia para ele. Tudo, tudo, ele sabia. Eu sou um grande, um sórdido, espião.”
A temperatura da sala começou a cair, enquanto o silêncio reinava. Arty estava sufocando, de medo, de vergonha, de ódio de si mesmo. Ele precisava terminar, contar tudo, antes que não tivesse mais chance.
“O endereço que eu dei ao Tristan, do laboratório, era falso. O governo sabe como eu trabalho, e eles possuem cópias de todos os meus códigos. Mallick invadiu o meu rastreamento e implantou um resultado falso. Na verdade, se você tivesse ido para lá, ele iria te capturar, Eve. Ele... Ele... Mallick não te considera humana. Ele acha que, por você ter sido feita em laboratório, não é uma pessoa de verdade. Ele quer te examinar, descobrir como você foi feita. E então ele quer criar um exército particular de pessoas como você para lutar nas guerras que possam acontecer... E para isso, ele... precisa te destruir, Eve. Ele quer te matar”.
A ruiva tremia. Suas mãos se fecharam, agarrando uma ponta da coberta de Arty. Ela parecia que ia desabar, e todos se precipitaram para segurá-la, mas então tudo passou. Eve levantou a cabeça, e seus olhos verdes faiscavam. Ninguém, além de Tristan, vira aquela expressão nela. O castanho sorriu discretamente.
“Eu não vou deixar” Disse ela. Arty pareceu confuso, e ela sorriu largamente. “Ele não vai colocar as mãos em mim. Ele nunca vai me capturar. Eu vou ter uma vida normal, e não importa quantas pessoas queiram destruir isso, nenhuma delas vai vencer”.
Arty suspirou.
“Fico feliz com isso” Ele baixou a cabeça. “Eu não vou mais mexer com computadores. Nunca mais. Isso só causou desgraça para as pessoas. Vou sair do país, acho. Algum lugar sem internet”.
Eve o encarou.
“Você vai desistir?”
O tom que ela usou era de arrepiar, e Arty quase engoliu a língua.
“N-Não é isso, Eve, entenda, eu apenas... não quero trazer mais problemas pra você, entende?”
“Você me denunciou, Arty” Disse ela, o forçando a encará-la. “Você acha que se Mallick for mesmo que apenas um terço do que eu imagino ele te deixaria sair do país? Você é um gênio, Arty, e sabe tudo sobre o governo. Se você tentar algo assim, vai voltar pra prisão. Ou então vai ser morto.”
Tristan não deixou de ficar orgulhoso ao ver como ela tinha evoluído. Eve parecia muito mais consciente do mundo ao seu redor, e com certeza ela era inteligente. Às vezes, ao ponto de assustar.
“Arty, você é o único que pode fazer algo” Continuou ela. “Mallick não vai deixar eu ou você em paz até que coloque suas mãos na gente. Não adianta nós ficarmos nos escondendo a vida inteira. Ao invés de esperar que ele dê o próximo passo, nós vamos atacar. E se ele tentar outro movimento, nós estaremos preparados.”
Arty se animou um pouco, mas não muito.
“Mas como podemos fazer isso?”
“Arty, você construiu o sistema do governo. Você sabe como tudo funciona. Eu não entendo muito de computadores, mas sei que computação é matemática, e isso eu conheço. E na matemática, é possível fazer tudo, se você tiver imaginação o suficiente. Você já tem as bases, o sistema é seu. Pense nas possibilidades, não são muitos que conhecem tão a fundo como você a computação. Como eles poderiam ter atualizado ou incrementado seus códigos? O que eles poderiam ter construído em cima de seu sistema? Como você poderia construir algo que vencesse o seu próprio sistema antigo e mais o que eles fizeram? Onde estão as falhas de seu sistema antigo? Computação evolui rápido, um código de anos atrás já deve estar desatualizado, mas construir tudo de novo seria perda de tempo para eles. Tudo que eles poderiam fazer então...”
“...são correções de segurança!” Exclamou ele. “E criptografias novas, eles não iriam reconstruir tudo, realmente, mas as camadas alternadas de código que fiz já estão falhas, e para implementarem construções complexas eles teriam de refazer boa parte do código, e talvez houvessem conflitos. Eles devem ter usados novos códigos, rodando em cima do meu, e isso pode ser explorado! Claro, é muito difícil... Eu precisaria construir um computador do zero, pra começar, algo monstruoso, de múltiplos núcleos, cadeias alternadas, e precisaria ser algo realmente especial. Resfriado com hidrogênio líquido. HD's gigantescos, e um sistema operacional totalmente novo. Eu precisaria usar equações quânticas. Ondas alternadas. Bytes mutantes. Cadeias aleatórias...”
Arty colocou os óculos, e parecia novamente agitado. Idéias brotavam dele como se alguma barragem tivesse rompido em seu cérebro.
“Eu nunca tinha pensado em algo assim. Um sistema feito para derrotar um sistema. Se eu conseguir construir isso, ficaremos com muito mais poder que Mallick. Poderemos derrotá-lo enfim! Nunca mais ter que me esconder! Poder finalmente patentear minhas invenções, sem nenhuma preocupação!”
Tristan sorriu. Eve parecia ter acendido alguma coisa na alma do homem. Ela virou para eles.
“Eu posso contar com vocês?” Disse ela.
Como se fossem um só, todos concordaram.
“Qual o plano, Eve?” Perguntou Josh, animado como nunca. Ela sorriu para ele.
“Sei que é pedir demais de todos vocês, mas preciso realmente de ajuda. Tristan, você é o melhor com computadores, você pode ajudar o Arty? Duas cabeças vão pensar melhor que uma, e quatro mãos vão acelerar o trabalho. Riza... Você sabe tudo de veículos e motores. Se algum dia algo acontecer, e eu estiver sozinha, preciso saber me virar. Você pode me ensinar a dirigir, e outras coisas?”
Riza assentiu, sorrindo, mas ainda meio triste, e Tristan a abraçou protetoralmente, concordando com sua parte no plano também.
“George, eu preciso saber mais sobre mim mesma. Você pode fazer um levantamento de tudo que eu consigo ou sei fazer? Preciso saber se eu tenho alguma alergia também, ou algum problema. E eu preciso também de mais aulas de luta, Tristan, se eu puder pedir. E Josh...”
Ela olhou para o amigo loiro, que esperava, excitado.
“Eu não quero Sarah nisso. Ela também está em risco agora, afinal ela também foi feita em laboratório. Preciso de sua ajuda para protegê-la. Ela não pode acabar nas mãos do Mallick, entendeu?”
Então ela sorriu, colocando uma mecha ruiva rebelde atrás da orelha.
“E agora eu preciso de uma coisa muito importante. É vital para que tudo dê certo”
Todos se mexeram em expectativa. Ela abriu um grande sorriso e seus olhos brilharam como esmeraldas.
“Eu não tomei café da manhã e estou morrendo de fome. Quem sabe fazer panquecas?”
E o quarto explodiu em gargalhadas.

Aos poucos a rotina foi se acertando. Eve conseguiu encenar uma grande explicação na escola, e suas aulas voltaram ao normal. Riza estava começando a lhe ensinar a dirigir e a cozinhar, e morar com outra garota era realmente muito mais divertido que a ruiva imaginara. Mesmo que às vezes tivesse que mandar sua própria cabeça idiota calar a boca e parar de pensar num castanho idiota.
Tristan sentiu realmente a falta da ruiva em sua casa, e quando não estava estudando ou construindo um super-computador com Arty, ele criava planos de como conquistar Eve de volta. Pensar nela doía demais, e ele mergulhava no trabalho, soldando placas e construindo programas complexos. Arty, que demorou mais alguns dias para poder voltar a seu esconderijo, sob uma licença especial de George, estava realmente satisfeito com o desempenho de seu “aprendiz”, e ia de um lado para o outro em sua grande cadeira de rodas reforçada, construindo aos poucos o mais incrível computador do mundo.
Riza parecia ter superado um pouco o que Robert lhe fizera. Sorria menos e parecia mais cansada, e decididamente mais madura, mas ainda era Riza, afinal. Decidira, porém, quebrar de vez todas as relações amorosas que poderia ter, e trancou bem fundo qualquer sentimento do tipo em seu coração, decidindo que, por enquanto, estava ferida demais para começar algo novo com alguém. Eve às vezes tentava conversar com ela sobre isso, mas na maior parte do tempo evitavam os assuntos nesse campo, as duas feridas por quem amavam e realmente decepcionadas com os rumos de seus relacionamentos amorosos.
Sarah e Josh eram um caso esquisito. Ele tentava investir na relação que tinham, que não passara daquele primeiro beijo, e ela parecia ignorá-lo. A garota era incrível e absolutamente inteligente, com habilidades que superavam as de Eve em muitos aspectos, mas ainda era praticamente uma criança. Ela mantinha alguns traços bem característicos de Eve, como às vezes congelar no lugar para ficar admirando coisas absolutamente normais, como um caminhão de bombeiros e o rádio da cozinha. Sua maior paixão, porém, eram peixes, e com o dinheiro que Josh lhe dera, ela iria comprar um aquário para seu quarto. A relação entre ela e Eve ainda era estranha, duas completas desconhecidas repentinamente se descobrindo irmãs não era algo simples de lidar.
E era por isso que Eve ficou nervosa ao sair da sala e encontrar uma garota do primeiro ano que esperara no corredor por longos minutos por ela. Os garotos se acotovelavam e quase esmagavam uns aos outros na ânsia de correr até ela para admirar a beleza de tirar o fôlego daquela aluna nova, e para se apresentarem formalmente à ela, mesmo que a mais nova aluna da Academia Melody tratasse a todos com apenas um sorriso, um “muito prazer” e rapidamente os ignorasse, como se eles tivessem ido embora de repente.
A ruiva sorriu nervosamente e segurou Juliet, Line e Paul, e os arrastou até a loira, que estava incrível no uniforme de inverno da escola, brincando distraidamente com sua gravata.
“Pessoal, esta é minha irmã, Sarah. Sarah, estes são Paul, Line e Juliet, meus amigos”.
O corredor ficou em silêncio mortal. Todos os olhos pulavam da ruiva para a loira, como se tentassem somar uma equação terrivelmente complexa e muito injusta sobre a divisão de beleza entre as famílias do mundo.
Line se adiantou, sorrindo, e ainda ligeiramente chocada.
“Eu sou Caroline, mas pode me chamar de Line. Muito prazer” Ela beijou o rosto da outra. “Eu não sabia que Eve tinha uma irmã”.
Paul se adiantou a apertou a mão da menina, também se apresentando.
“Eve veio primeiro para a cidade” Contou Sarah. “Eu fiquei com nossa família mais um tempo, mas nossos pais decidiram que eu também deveria vir. Já faz algum tempo que eu e Eve não nos vemos, então é normal que ela não tenha comentado muito sobre mim”.
Juliet a beijou no rosto também, mas uma análise mais apurada em seus olhos mostraria que ela estava quase pulando em cima da loira e a agarrando na frente de todo mundo. Paul segurou discretamente seu braço, rezando para que ela percebesse que estava quase salivando em cima das duas irmãs perfeitas.
Tentou desviar a atenção.
“Se vocês duas são assim...” Comentou, rindo. “Imagino como são seus pais...”
O corredor inteiro começou a tentar resolver uma nova equação de beleza para conseguir imaginar que tipo de casal dá a luz àquele tipo de irmãs.
Eve e Sarah deram sorrisos idênticos, como se compartilhassem alguma piada secreta. Elas tinham ensaiado toda a história alguns dias antes.
“Acho que vocês não iriam acreditar” Disseram juntas. Então se encararam, surpresas, e riram. Algumas garotas que passavam no corredor decidiram que a vida era injusta demais e que jamais falariam novamente com aquelas duas. Há um limite, entenda, e aquilo era inaceitável. Era uma verdadeira afronta, aquelas duas!
Sarah e Eve trocaram algumas palavras, e a loira se distanciou, sabendo que forçar sorrisos por tanto tempo causaria rugas em seu rosto. Ela decidiu ir ao banheiro e retocar a leve maquiagem que usava, e ficar um pouco longe daqueles olhares cobiçosos de todos e da alegria idiota de sua “irmã”. Ela precisava de um pouco de paz, ou ficaria louca.
Outra loira estava defronte ao espelho do banheiro, passando batom nos lábios. Não era nem de longe tão absurdamente bela como Sarah, mas também era linda. Pela aparência, devia ser mais velha, talvez na mesma classe que a panaca ruiva. Sarah começou a construir um sorriso de alegria e animação, quando a outra virou os olhos para encarar o reflexo de Sarah.
“Não precisa fingir que está feliz em me ver” Disse, suavemente. De mentirosa profissional para mentirosa profissional. Sarah ficou aliviada, e tirou o rímel da bolsa.
“Então você é irmã da ruiva” Disse a mais velha, tirando o pó compacto de sua bolsinha.
“Infelizmente” Suspirou a mais nova, separando os cílios com delicadeza e esmero.
Clarisse sorriu largamente.
“Problemas familiares?”
“Talvez”
Elas encaravam o reflexo uma da outra, enquanto davam os toques finais em suas maquiagens já impecáveis.
“Ela é tão irritante
“Nem me fale”
Bom dia Clarisse, como você está?” Imitou uma.
Sarah, você é a melhor irmã do mundo!” Imitou a outra.
Elas fingiram que iam vomitar.
“Seria ótimo se ela desaparecesse”.
“Sumisse completamente”.
“Nunca mais desse as caras por aqui”.
“Tem um ótimo rio ali perto, muito discreto, sabia?”
“Huum, não tão discreto como aquele matagal aos fundos da escola”
“Ninguém nunca descobriria”.
“Sem provas”.
Elas viraram uma para a outra ao mesmo tempo, e sorriram juntas.
“Sarah Bell”
“Clarisse Johnson”
Elas apertaram as mãos, e então guardaram as suas coisas.
“Sabe, não é fácil encontrar alguém inteligente nessa escola” Disse Clarisse, satisfeita, enquanto esperava por Sarah.
“Eu digo o mesmo, é realmente um alívio quando encontramos uma” Respondeu Sarah.
As duas se encararam, piscaram uma para a outra marotamente e então armaram sorrisos perfeitos de inocência e doçura. Juntas, saíram do banheiro.

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Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB