Birthday Eve
Capítulo 18
A despedida. O site. A decisão.
A cada palavra de Tristan, o coração de Eve se endurecia. Ela não chorou, não gritou, não discutiu. Sua expressão era de pedra, seus olhos eram de gelo. Os dois icebergs cor de esmeralda o perfuravam com uma impassividade quase esmagadora. Era como se ela simplesmente não se importasse, como se estivesse certa que aquilo ocorreria, como se todo o tempo que estiveram juntos fora apenas um período sem importância, como se talvez ela o tempo todo estivesse apenas fingindo.
Ela não estava, mas quando os argumentos dele secaram, Eve estava vazia de qualquer emoção, como se as palavras dele a drenassem até que nada mais existisse em seu coração.
“Você está bem, Eve?” Perguntou o rapaz, suando frio. Qualquer reação seria bem vinda, desde uma lágrima até uma surra, qualquer coisa que não aquela frieza dela, aquele descaso.
“Sim, obrigada” Respondeu ela, e seu tom era vazio, vazio como a morte. O peito do castanho se apertou tanto que ele quase sufocou, mas tudo que ela fez foi levantar-se da cama e rumar para seu próprio quarto.
Tristan levantou também e a seguiu, correndo e tropeçando. Ela estava sentada na escrivaninha, mexendo nas gavetas.
“Eve, o que foi?” Perguntou ele, desesperado. “Fala alguma coisa!”
“Alguma coisa” Disse ela, com desprezo. Então sorriu, repentinamente. “Ahá! Sabia que tinha alguns desses por aqui!”
Ela tirou um maço ligeiramente amarrotado de envelopes comuns, brancos, próprios para cartas. Satisfeita, pegou uma caneta no pequeno porta-lápis de sua mesa e pensou um pouco no que escreveria.
“Você está com raiva de mim?” Cristo, ele era realmente irritante!
“Não. Agora eu agradeceria se pudesse ter um pouco de privacidade”
O corte fora profundo, e seu coração imediatamente começou a sangrar profusamente. Tristan cambaleou, e vagou para fora do quarto de Eve, sentindo que nada no mundo poderia aplacar aquela estranha dor que sentia, a dor que jamais conhecera.
Eve terminou suas cartas, trocou-se, apagou a luz e dormiu sem jantar. Na manhã seguinte, matou as aulas espetacularmente, dormindo até quase o meio-dia. Tristan não conseguira dormir, e logo que o sol raiou ele recebera uma irada visita de Riza, que finalmente fora informada de suas decisões. Josh o ignorou totalmente, e rumou direto para a escola, sem nem ao menos informar Riza de sua briga com o amigo, coisa que ficou nas mãos de Tristan.
O castanho recebeu uma metralhada de xingamentos, reclamações, maldições e alguns murros bem dados em sua cabeçona dura. A morena esperou pacientemente até que Eve, amassada e bocejando, desceu para almoçar.
A ruiva e ela subiram para o quarto, enquanto Tristan se forçava a fazer algo para comerem, pensando se algum dia conseguiria se curar daquele aperto esquisito no peito. Sentia-se fraco demais, e cansado de um jeito bizarro, como se tivesse corrido quilômetros sem fim. Talvez estivesse enlouquecendo, ou apenas a culpa e a dor o esmagavam aos poucos, um peso em seus ombros que não podia ser retirado.
Eve fazia as malas.
“Você não precisa ir embora, Eve!” Tentou Riza. “Vamos pra minha casa, por uns tempos, até tudo esfriar. Você vai ver, vai ser super divertido e podemos...”
“Não, Riza” Cortou ela, sorrindo docemente. “Não. Se o Tristan quer que eu volte para os que me criaram, então eu vou voltar”.
“Tristan não é seu dono!”
“Ele é sim” E o tom de sua voz não deixava margem para discussões. Riza engoliu em seco, segurando as lágrimas.
“O que vai acontecer com você?”
Eve suspirou, olhando pela janela.
“Não sei. Talvez eu fique uns tempos lá dentro, até arranjarem outra casa, ou talvez eles apaguem a minha memória. Pode ser até que eu seja morta...” Ela parou e riu. “Brincadeira! Eles não iam me matar, nem apagar minha memória, isso é coisa de ficção científica. Não, acho que eu vou ficar lá, talvez eu possa ir embora, morar em algum lugar. Eles me fizeram, acho que podem cuidar de mim”.
“Isso é tão...” Riza soluçou. “Triste, Eve. Não quero que você vá embora!”
Elas se abraçaram longamente.
“Se tudo der certo... Eu vou te visitar. Pode ficar tranquila, um dia desses eu ligo e apareço. Vamos almoçar juntas, e você vai me contar se casou com o Robert”
A morena riu.
“Eve! Eu não vou casar com ele. Pelo menos, não nos próximos anos. Sou muito nova pra isso, ou tá me chamando de velha?”
A ruiva a abraçou de novo, e então jogou as últimas roupas na mala e tentou fechá-la. Não conseguiu, sentou em cima da tampa e tentou forçá-la para baixo.
“Você é magra demais pra isso” Resmungou Riza, sentando na tampa também. Juntas, elas conseguiram fechar a mala, e sorriram. O quarto de Eve estava novamente um quarto de hóspedes vazio e abandonado. Ela dobrara as roupas de cama, limpara a escrivaninha e guardara seus objetos pessoais. Por via das dúvidas levara algumas roupas de frio, de verão, sua escova de dentes e a bolsinha com suas coisinhas de higiene. Levava também, no bolso da jaqueta, a foto que tiraram todos juntos no Natal.
“Você tem certeza que já quer ir?” Perguntou Riza, mais uma vez. Ela já sabia a resposta, de qualquer forma.
“Sim. Não quero mais ficar. Vai ser melhor assim, e sem muitas despedidas.”
Tristan a levou até a porta, junto com Riza. Ela apertou sua mão formalmente, e seus olhos ainda estavam em gelo. Então ela enfiou a mão no bolso e tirou uma pilha de envelopes endereçados, presos com um elástico.
“Gostaria de ter dado tchau pro Josh” Disse ela. “Você faria o favor de entregar as cartas por mim? Obrigada”.
Ela beijou Riza na bochecha e então se foi. Com o dinheiro que tinha, pagaria um táxi e dormiria um hotel. No dia seguinte tomaria outro táxi e iria para o lugar que Tristan lhe dera o endereço. Sem despedidas, sem lágrimas, sem nada. Exatamente como ela mais queria. Sabia que não aguentaria se despedir dos amigos diante das portas daquele lugar para onde iria.
Em silêncio, ela guardou as certezas que tinha. Era inteligente demais para acreditar que a deixariam ficar andando solta por aí, que pagariam casa, roupa e comida para ela em algum lugar. Aquele lugar não era um conto de fadas, era o mundo real, e no mundo real ela acabaria morta numa mesa de cirurgia, talvez atrás de um barracão. Seu corpo, seu nome, seus documentos, jamais seriam encontrados. Eve Bell sumiria, tão repentinamente como chegara. E ela achava que era melhor desta forma.
Josh chorara tudo que tinha pra chorar, e não sabia por quê. Dormira demais, bebera demais e soluçara demais, e se sentia vazio. Eve era uma parte de seu coração também, uma parte preciosa que agora se quebrava e desaparecia. Eve, que nascera em sua cabeça, que tomara café da manhã com ele, que estudara ao seu lado, que lhe pedira ajuda para alcançar o pote de biscoitos. A garota de olhos inocentes que dormia nua, que tinha o corpo de uma deusa, que tinha a voz de um anjo. Não era assim que deveria acabar, e ele sempre achou que não acabaria nunca.
Tristan era o único culpado, sempre egoísta e covarde. Era capaz de mandar Eve para o corredor da morte se isso livrasse seu próprio pescoço. Não merecia ter aquela garota, ele sim que deveria ficar com Eve. Que deveria ter uma garota perfeita lhe chamando de dono, de receber toda a atenção e amor dela. Ah se ele pudesse fazer o tempo voltar, ele jamais colocaria o endereço daquele maldito no pedido. Jamais.
Com um suspiro, ligou o computador. Talvez fosse coisa de idiota olhar para a página em branco, a página de erro que sempre surgia ao digitar aquele site, mas ele estava triste demais para se importar. Ficaria ali por algum tempo, na própria miséria, encarando um site que não existia enquanto lamentava o passado. Depois desceria e tomaria uma cartela de aspirinas, para matar aquela dor de cabeça infernal.
Com um suspiro cansado, ele digitou o endereço do site e esperou a página carregar. Será que ele deveria descer já e tomar o remédio? Faria efeito mais rápido assim, talvez. A página carregou completamente, e ele quase engoliu a língua.
Cansado de garotas chatas que nada têm a ver com você? Faça agora mesmo sua namorada perfeita!
Não era verdade, não podia ser verdade!
Está cada vez mais difícil arranjar uma garota que combine com seus gostos, não é verdade? Não seria perfeito se você pudesse encomendar uma garota personalizada, feita por você? Pois você pode! Basta clicar em Iniciar para criar sua namorada sob medida, por um preço camarada e com entrega em 24h, não importa onde você esteja!
Ele rolou a página até o estoque.
Que sorte a sua! Temos 1 namorada em estoque, encomende já a sua!
Josh parou. Ele realmente faria aquilo? Chamar Arty seria a melhor opção, ele poderia descobrir muito mais com aquilo, e com toda a certeza assim que o loiro fizesse uma encomenda o site imediatamente sumiria, como da outra vez. Mas era a única chance que tinha! A chance perfeita!
Não era isso que tanto desejara? Uma garota perfeita só para ele? Criar uma garota sob encomenda? Pois era exatamente o que estava diante dele.
“Você vai ver, Tristan” Murmurou ele, clicando em Iniciar.
O modelo em três dimensões surgiu na tela, vagando no espaço azul. Os botões, barras e campos surgiram ao seu redor. Desta vez ele faria certo, com toda a vontade. Nem que precisasse pagar milhões por aquela garota, ele criaria a mulher mais perfeita do mundo. E talvez, talvez, Eve desapareceria de sua mente. Ele faria algo que Tristan jamais conseguira: iria tomar a garota perfeita como sua namorada, noiva, esposa. Ele teria a vida que o amigo tivera e idiotamente desperdiçara. E jamais teria de se preocupar com a ruiva novamente.
E a faria totalmente diferente, desta vez. Nada de ruivas de olhos verdes, seria algo muito melhor. Seria a deusa perfeita, e apenas dele. Clicou sobre a imagem, e o primeiro campo obrigatório apareceu.
Nome:
Ele sorriu largamente. Talvez aqui valesse uma piadinha, uma homenagem que sem dúvida a ruiva iria gostar.
Sarah Ellie Bell
Havia uma tristeza sobre o castanho que não podia ser mensurada. Riza finalmente se compadecera dele, e o deixara mergulhado em sua própria dor. Ele estava deitado no sofá, largado de qualquer jeito, os fones nos ouvidos, as notas se soltando sem nexo. Havia em Tristan a profunda solidão, e o sentimento que ele queria a todo custo entender.
Eve tinha os olhos mais curiosos do mundo. Eles irradiavam aquela curiosidade natural para ela, como se fosse uma criança, e em tudo que pousavam começavam imediatamente a investigar. Às vezes ele a apanhava olhando tão fixamente para alguma coisa que era como se ela desmontasse mentalmente aquilo, examinasse em todas as minúcias, refletisse profundamente sobre o objeto que investigava. Seus olhos eram também límpidos, com aquele inocência carinhosa dela, e a cor verde se espalhava pelo mundo quando ela estava feliz, como se das orbes de esmeralda se derramasse o oceano esverdeado.
Tinha um sorriso largo, puro, que parecia vir sempre do fundo do coração, e que fazia seus olhos, outra vez eles, brilharem como estrelas. Ela sorria por qualquer coisa, e sua gargalhada musical surgia com qualquer brincadeira. Tinha as mãos mornas mais suaves que podiam existir, e seu corpo nunca estava frio ou rígido, ela sempre tinha calor a oferecer, como um pequeno sol radiante que habitava a casa.
A perseverança e a sinceridade que trazia jamais desvaneciam, continuavam sempre, pois eram partes dela. Ela parecia sempre carregar uma parte do coração dos outros em suas mãos, e na verdade era fácil demais entregá-lo à ela, sem qualquer explicação. Ao invés de parecer um animalzinho perdido, como tantas tentavam, ela tinha algo que deixava qualquer um confortável, e inspirava uma confiança que tornava fácil colocar-se inteiro nas mãos dela, sem reservas ou medos.
Tinha também uma maneira estranha de pensar sobre as coisas, como se viesse de outros mundos, e ao mesmo tempo que sabia tudo, não conhecia quase nada. Era uma espécie de forasteira, e ao mesmo tempo uma constante que não possuía começo ou fim.
Gotas de amor, girassol,
Mares de sal, beijo floral...
Pra falar deste tempo qual?
A canção soava estranha a seus ouvidos, distante. Ele conhecia aquela música, é claro, mas de onde viera? Quem a ensinara? E Eve era bela como o pôr do sol, sem qualquer timidez de se desnudar na frente dele, como se confiasse inteiramente nele, como se soubesse que ele jamais lhe faria algum mal. Ele fizera, é claro, no final ele a ferira como jamais imaginara poder. A pele dela tinha a cor da neve, mas era quente, sempre quente, e sempre perfumada, um cheiro suave de primavera, que poderia derreter o gelo que cobria a casa, que esfriava os cômodos, que congelara seu coração.
Do ventre exposto ao sol,
Das flores postas no postal,
Quantas caras nesse jornal!
Que era aquela dor que o feria tanto? Como ela podia gostar tanto de panquecas e comer tanto doce sem jamais engordar? Como conseguia sorrir não importando quanta desgraça estivesse diante dela, como ainda podia lhe olhar nos olhos quando tanto mal ele lhe fizera? E por que tanta solidão, tanto vazio, como se ele estivesse completamente sozinho no mundo, se fora apenas uma quase desconhecida que o deixara?
Foi quando a sede chamou,
Pra acordar nosso amor,
Fiz um tema na mão dela...
Era um vazio que se arrastava, se fundia, na verdade era um vazio diferente do puro oco. Ele não estava com nada dentro dele, ele estava com aquele vazio, aquele que era o oposto total de estar cheio. Era um vazio físico, uma anti-matéria que corroía seu peito, que devorava sua alma por mais espaço. Era um espaço em branco que queria mais espaço, que se alastrava como um câncer, debaixo de sua pele, atrás de seus olhos, por baixo de sua língua.
Já fez calor, temporal,
Você sem mim, tudo tão igual
Tudo bem, mas estou bem mal
Que era aquilo? E então... ele soube. Como pedra, como muros, como castelos que desabam sobre si. ”Eu sei que ela é linda e tudo mais, mas não quero uma namorada que eu não amo.” As montanhas desabaram, e os mares encheram os vales, inundando a sede, devorando a fome. ”E você vai devolvê-la para a empresa... Só porque você não a ama?”. Os deuses voltaram para exigirem suas parcelas no universo, e todas as criaturas vivas foram julgadas. Dois rolos compressores de um bilhão de milhões de toneladas passaram por cima dele, e nenhuma placa restou para ser anotada.
Na TV não tem canal,
Seu brilho tão sem vil cristal,
Só tem música em meu dial
Tristan Heels se estatelou contra o sofá, e o mundo desabou sobre ele, sem pena ou hesitação. As últimas pedras do norte se empilharam em sua cabeça, e nada mais restou dele. Exceto a certeza, a certeza profunda que na grande escala dos maiores idiotas que já tiveram a ousadia de botarem os pés no mundo, ele ganhava disparado. Teria que melhorar muito, muito mesmo, para se tornar simplesmente a criatura mais imbecil de toda a existência.
Mas o poema acenou
pra acordar nosso amor
Quando a noite me revela...
Os fones bateram no chão, e o som morreu. As últimas palavras sumiram em alguns murmúrios cheios de estática. A porta ficou aberta, a noite caiu sobre a sala, e o dia amanheceu. Tristan não voltou.
George tocou as palavras com as pontas dos dedos, como se pudesse agarrá-las. A noite que caía sobre a sala o dominava, e as últimas letras terminaram sob suas mãos, escorrendo para longe. A carta de Eve era curta, era tremendamente curta, não justificava cada minuto passado com ela, não fazia jus à vida que ela possuía. Ler aquilo era uma espécie de morte, muito bem arquitetada, complexamente simples, divinamente letal. A caneta não podia expressar a profundidade do que era Eve Bell, não podia explicar a dor que o atravessava.
Ele levantou, e cambaleou até o telefone. Enquanto discava, tocou novamente o papel manchado de sentimentos, e sentiu que aquilo era um adeus.
A voz que o atendeu não pôde confortá-lo.
Arty sentiu o aço cortar sua carne, mas mesmo assim não parou. A mesa avançou, impulsionada por suas pernas gordas, carregada por suas mãos inchadas. O sangue se derramou das palmas e manchou o chão imundo, mas a placa de aço finalmente conseguiu quebrar os últimos rebites que seguravam a trava de contenção. Satisfeito, enfiou os dedos machados de vermelho na abertura, e arrancou a placa metálica que ficava ao lado da porta. Sentindo-se quase anestesiado, acendeu o explosivo e o lançou no emaranhado de fios. Correu, o máximo que o corpo cansado demais conseguia, em direção a barricada que construíra com as mesas e servidores. Infelizmente, não conseguiu chegar a tempo.
Robert abriu a porta, e Riza se lançou em seus braços. O choro que brotava dela era desesperado, e doloroso demais. Vacilou, e ela se agarrava a ele como se fosse alguma espécie de porto, o único lugar que a impediria de cair. Ela não lhe contou, mas talvez não precisasse.
Line, Paul e Juliet liam as últimas linhas da ruiva. Era estranho, a garota viajara até lá e agora teria de voltar urgente para a cidade natal, um avô que morrera? Ela era nova demais para assumir as obrigações do trabalho de sua família, e parecia estranho demais que ela tivesse que pessoalmente fazer isso. Era esquisito perguntar se a pessoa tinha pai, mãe. Não perguntaram, ela não dissera. E era realmente bizarro descobrir que tão pouco conheciam sobre a amiga.
“Ela era legal. Uma ótima amiga.” Suspirou Juliet.
“Ela não morreu, sabia?” Replicou Paul, mas ele também estava triste.
Todos suspiraram.
“Podemos visitá-la um dia desses!” Sorriu Line, encantada com a própria idéia. “Telefonamos, ela bota uns colchões na sala dela e a gente passa um final de semana juntos!”
Juliet sorriu também.
“Ótima idéia!”
“E alguma de vocês sabe o endereço da Eve?” Cortou o castanho, olhando para o teto.
Com um grande suspiro, voltaram para a releitura de suas cartas.
Riza estava em silêncio, deitada sobre o peito do namorado. Robert lhe fazia um carinho suave nas costas, e ela sentia que não conseguiria mais chorar. Com suavidade, o beijou. Talvez se pudesse se inundar daquela sensação de vertigem que ele conseguia provocar nela, talvez pudesse esquecer um pouco aquela dor. Os carinhos se tornaram quentes, o quarto pareceu se incendiar. Riza sorriu largamente, aquela loucura de volta em seu corpo, as carícias mais profundas, os beijos mais molhados, os corpos mais suados.
“Me avise...” Disse Robert, entre beijos, e enquanto a livrava de sua blusa. “...quando quiser...”
Ela conseguiu soltar o cinto dele, estava ficando realmente boa naquilo. Os beijos voltaram, e ela se sentiu derreter conforme as mãos dele percorriam seu corpo.
“...parar” Completou ele, enfim, antes de voltar a beijá-la.
Mas, daquela vez, ela não avisou.

Capítulo 18
A despedida. O site. A decisão.
A cada palavra de Tristan, o coração de Eve se endurecia. Ela não chorou, não gritou, não discutiu. Sua expressão era de pedra, seus olhos eram de gelo. Os dois icebergs cor de esmeralda o perfuravam com uma impassividade quase esmagadora. Era como se ela simplesmente não se importasse, como se estivesse certa que aquilo ocorreria, como se todo o tempo que estiveram juntos fora apenas um período sem importância, como se talvez ela o tempo todo estivesse apenas fingindo.
Ela não estava, mas quando os argumentos dele secaram, Eve estava vazia de qualquer emoção, como se as palavras dele a drenassem até que nada mais existisse em seu coração.
“Você está bem, Eve?” Perguntou o rapaz, suando frio. Qualquer reação seria bem vinda, desde uma lágrima até uma surra, qualquer coisa que não aquela frieza dela, aquele descaso.
“Sim, obrigada” Respondeu ela, e seu tom era vazio, vazio como a morte. O peito do castanho se apertou tanto que ele quase sufocou, mas tudo que ela fez foi levantar-se da cama e rumar para seu próprio quarto.
Tristan levantou também e a seguiu, correndo e tropeçando. Ela estava sentada na escrivaninha, mexendo nas gavetas.
“Eve, o que foi?” Perguntou ele, desesperado. “Fala alguma coisa!”
“Alguma coisa” Disse ela, com desprezo. Então sorriu, repentinamente. “Ahá! Sabia que tinha alguns desses por aqui!”
Ela tirou um maço ligeiramente amarrotado de envelopes comuns, brancos, próprios para cartas. Satisfeita, pegou uma caneta no pequeno porta-lápis de sua mesa e pensou um pouco no que escreveria.
“Você está com raiva de mim?” Cristo, ele era realmente irritante!
“Não. Agora eu agradeceria se pudesse ter um pouco de privacidade”
O corte fora profundo, e seu coração imediatamente começou a sangrar profusamente. Tristan cambaleou, e vagou para fora do quarto de Eve, sentindo que nada no mundo poderia aplacar aquela estranha dor que sentia, a dor que jamais conhecera.
Eve terminou suas cartas, trocou-se, apagou a luz e dormiu sem jantar. Na manhã seguinte, matou as aulas espetacularmente, dormindo até quase o meio-dia. Tristan não conseguira dormir, e logo que o sol raiou ele recebera uma irada visita de Riza, que finalmente fora informada de suas decisões. Josh o ignorou totalmente, e rumou direto para a escola, sem nem ao menos informar Riza de sua briga com o amigo, coisa que ficou nas mãos de Tristan.
O castanho recebeu uma metralhada de xingamentos, reclamações, maldições e alguns murros bem dados em sua cabeçona dura. A morena esperou pacientemente até que Eve, amassada e bocejando, desceu para almoçar.
A ruiva e ela subiram para o quarto, enquanto Tristan se forçava a fazer algo para comerem, pensando se algum dia conseguiria se curar daquele aperto esquisito no peito. Sentia-se fraco demais, e cansado de um jeito bizarro, como se tivesse corrido quilômetros sem fim. Talvez estivesse enlouquecendo, ou apenas a culpa e a dor o esmagavam aos poucos, um peso em seus ombros que não podia ser retirado.
Eve fazia as malas.
“Você não precisa ir embora, Eve!” Tentou Riza. “Vamos pra minha casa, por uns tempos, até tudo esfriar. Você vai ver, vai ser super divertido e podemos...”
“Não, Riza” Cortou ela, sorrindo docemente. “Não. Se o Tristan quer que eu volte para os que me criaram, então eu vou voltar”.
“Tristan não é seu dono!”
“Ele é sim” E o tom de sua voz não deixava margem para discussões. Riza engoliu em seco, segurando as lágrimas.
“O que vai acontecer com você?”
Eve suspirou, olhando pela janela.
“Não sei. Talvez eu fique uns tempos lá dentro, até arranjarem outra casa, ou talvez eles apaguem a minha memória. Pode ser até que eu seja morta...” Ela parou e riu. “Brincadeira! Eles não iam me matar, nem apagar minha memória, isso é coisa de ficção científica. Não, acho que eu vou ficar lá, talvez eu possa ir embora, morar em algum lugar. Eles me fizeram, acho que podem cuidar de mim”.
“Isso é tão...” Riza soluçou. “Triste, Eve. Não quero que você vá embora!”
Elas se abraçaram longamente.
“Se tudo der certo... Eu vou te visitar. Pode ficar tranquila, um dia desses eu ligo e apareço. Vamos almoçar juntas, e você vai me contar se casou com o Robert”
A morena riu.
“Eve! Eu não vou casar com ele. Pelo menos, não nos próximos anos. Sou muito nova pra isso, ou tá me chamando de velha?”
A ruiva a abraçou de novo, e então jogou as últimas roupas na mala e tentou fechá-la. Não conseguiu, sentou em cima da tampa e tentou forçá-la para baixo.
“Você é magra demais pra isso” Resmungou Riza, sentando na tampa também. Juntas, elas conseguiram fechar a mala, e sorriram. O quarto de Eve estava novamente um quarto de hóspedes vazio e abandonado. Ela dobrara as roupas de cama, limpara a escrivaninha e guardara seus objetos pessoais. Por via das dúvidas levara algumas roupas de frio, de verão, sua escova de dentes e a bolsinha com suas coisinhas de higiene. Levava também, no bolso da jaqueta, a foto que tiraram todos juntos no Natal.
“Você tem certeza que já quer ir?” Perguntou Riza, mais uma vez. Ela já sabia a resposta, de qualquer forma.
“Sim. Não quero mais ficar. Vai ser melhor assim, e sem muitas despedidas.”
Tristan a levou até a porta, junto com Riza. Ela apertou sua mão formalmente, e seus olhos ainda estavam em gelo. Então ela enfiou a mão no bolso e tirou uma pilha de envelopes endereçados, presos com um elástico.
“Gostaria de ter dado tchau pro Josh” Disse ela. “Você faria o favor de entregar as cartas por mim? Obrigada”.
Ela beijou Riza na bochecha e então se foi. Com o dinheiro que tinha, pagaria um táxi e dormiria um hotel. No dia seguinte tomaria outro táxi e iria para o lugar que Tristan lhe dera o endereço. Sem despedidas, sem lágrimas, sem nada. Exatamente como ela mais queria. Sabia que não aguentaria se despedir dos amigos diante das portas daquele lugar para onde iria.
Em silêncio, ela guardou as certezas que tinha. Era inteligente demais para acreditar que a deixariam ficar andando solta por aí, que pagariam casa, roupa e comida para ela em algum lugar. Aquele lugar não era um conto de fadas, era o mundo real, e no mundo real ela acabaria morta numa mesa de cirurgia, talvez atrás de um barracão. Seu corpo, seu nome, seus documentos, jamais seriam encontrados. Eve Bell sumiria, tão repentinamente como chegara. E ela achava que era melhor desta forma.
Josh chorara tudo que tinha pra chorar, e não sabia por quê. Dormira demais, bebera demais e soluçara demais, e se sentia vazio. Eve era uma parte de seu coração também, uma parte preciosa que agora se quebrava e desaparecia. Eve, que nascera em sua cabeça, que tomara café da manhã com ele, que estudara ao seu lado, que lhe pedira ajuda para alcançar o pote de biscoitos. A garota de olhos inocentes que dormia nua, que tinha o corpo de uma deusa, que tinha a voz de um anjo. Não era assim que deveria acabar, e ele sempre achou que não acabaria nunca.
Tristan era o único culpado, sempre egoísta e covarde. Era capaz de mandar Eve para o corredor da morte se isso livrasse seu próprio pescoço. Não merecia ter aquela garota, ele sim que deveria ficar com Eve. Que deveria ter uma garota perfeita lhe chamando de dono, de receber toda a atenção e amor dela. Ah se ele pudesse fazer o tempo voltar, ele jamais colocaria o endereço daquele maldito no pedido. Jamais.
Com um suspiro, ligou o computador. Talvez fosse coisa de idiota olhar para a página em branco, a página de erro que sempre surgia ao digitar aquele site, mas ele estava triste demais para se importar. Ficaria ali por algum tempo, na própria miséria, encarando um site que não existia enquanto lamentava o passado. Depois desceria e tomaria uma cartela de aspirinas, para matar aquela dor de cabeça infernal.
Com um suspiro cansado, ele digitou o endereço do site e esperou a página carregar. Será que ele deveria descer já e tomar o remédio? Faria efeito mais rápido assim, talvez. A página carregou completamente, e ele quase engoliu a língua.
Cansado de garotas chatas que nada têm a ver com você? Faça agora mesmo sua namorada perfeita!
Não era verdade, não podia ser verdade!
Está cada vez mais difícil arranjar uma garota que combine com seus gostos, não é verdade? Não seria perfeito se você pudesse encomendar uma garota personalizada, feita por você? Pois você pode! Basta clicar em Iniciar para criar sua namorada sob medida, por um preço camarada e com entrega em 24h, não importa onde você esteja!
Ele rolou a página até o estoque.
Que sorte a sua! Temos 1 namorada em estoque, encomende já a sua!
Josh parou. Ele realmente faria aquilo? Chamar Arty seria a melhor opção, ele poderia descobrir muito mais com aquilo, e com toda a certeza assim que o loiro fizesse uma encomenda o site imediatamente sumiria, como da outra vez. Mas era a única chance que tinha! A chance perfeita!
Não era isso que tanto desejara? Uma garota perfeita só para ele? Criar uma garota sob encomenda? Pois era exatamente o que estava diante dele.
“Você vai ver, Tristan” Murmurou ele, clicando em Iniciar.
O modelo em três dimensões surgiu na tela, vagando no espaço azul. Os botões, barras e campos surgiram ao seu redor. Desta vez ele faria certo, com toda a vontade. Nem que precisasse pagar milhões por aquela garota, ele criaria a mulher mais perfeita do mundo. E talvez, talvez, Eve desapareceria de sua mente. Ele faria algo que Tristan jamais conseguira: iria tomar a garota perfeita como sua namorada, noiva, esposa. Ele teria a vida que o amigo tivera e idiotamente desperdiçara. E jamais teria de se preocupar com a ruiva novamente.
E a faria totalmente diferente, desta vez. Nada de ruivas de olhos verdes, seria algo muito melhor. Seria a deusa perfeita, e apenas dele. Clicou sobre a imagem, e o primeiro campo obrigatório apareceu.
Nome:
Ele sorriu largamente. Talvez aqui valesse uma piadinha, uma homenagem que sem dúvida a ruiva iria gostar.
Sarah Ellie Bell
Havia uma tristeza sobre o castanho que não podia ser mensurada. Riza finalmente se compadecera dele, e o deixara mergulhado em sua própria dor. Ele estava deitado no sofá, largado de qualquer jeito, os fones nos ouvidos, as notas se soltando sem nexo. Havia em Tristan a profunda solidão, e o sentimento que ele queria a todo custo entender.
Eve tinha os olhos mais curiosos do mundo. Eles irradiavam aquela curiosidade natural para ela, como se fosse uma criança, e em tudo que pousavam começavam imediatamente a investigar. Às vezes ele a apanhava olhando tão fixamente para alguma coisa que era como se ela desmontasse mentalmente aquilo, examinasse em todas as minúcias, refletisse profundamente sobre o objeto que investigava. Seus olhos eram também límpidos, com aquele inocência carinhosa dela, e a cor verde se espalhava pelo mundo quando ela estava feliz, como se das orbes de esmeralda se derramasse o oceano esverdeado.
Tinha um sorriso largo, puro, que parecia vir sempre do fundo do coração, e que fazia seus olhos, outra vez eles, brilharem como estrelas. Ela sorria por qualquer coisa, e sua gargalhada musical surgia com qualquer brincadeira. Tinha as mãos mornas mais suaves que podiam existir, e seu corpo nunca estava frio ou rígido, ela sempre tinha calor a oferecer, como um pequeno sol radiante que habitava a casa.
A perseverança e a sinceridade que trazia jamais desvaneciam, continuavam sempre, pois eram partes dela. Ela parecia sempre carregar uma parte do coração dos outros em suas mãos, e na verdade era fácil demais entregá-lo à ela, sem qualquer explicação. Ao invés de parecer um animalzinho perdido, como tantas tentavam, ela tinha algo que deixava qualquer um confortável, e inspirava uma confiança que tornava fácil colocar-se inteiro nas mãos dela, sem reservas ou medos.
Tinha também uma maneira estranha de pensar sobre as coisas, como se viesse de outros mundos, e ao mesmo tempo que sabia tudo, não conhecia quase nada. Era uma espécie de forasteira, e ao mesmo tempo uma constante que não possuía começo ou fim.
Gotas de amor, girassol,
Mares de sal, beijo floral...
Pra falar deste tempo qual?
A canção soava estranha a seus ouvidos, distante. Ele conhecia aquela música, é claro, mas de onde viera? Quem a ensinara? E Eve era bela como o pôr do sol, sem qualquer timidez de se desnudar na frente dele, como se confiasse inteiramente nele, como se soubesse que ele jamais lhe faria algum mal. Ele fizera, é claro, no final ele a ferira como jamais imaginara poder. A pele dela tinha a cor da neve, mas era quente, sempre quente, e sempre perfumada, um cheiro suave de primavera, que poderia derreter o gelo que cobria a casa, que esfriava os cômodos, que congelara seu coração.
Do ventre exposto ao sol,
Das flores postas no postal,
Quantas caras nesse jornal!
Que era aquela dor que o feria tanto? Como ela podia gostar tanto de panquecas e comer tanto doce sem jamais engordar? Como conseguia sorrir não importando quanta desgraça estivesse diante dela, como ainda podia lhe olhar nos olhos quando tanto mal ele lhe fizera? E por que tanta solidão, tanto vazio, como se ele estivesse completamente sozinho no mundo, se fora apenas uma quase desconhecida que o deixara?
Foi quando a sede chamou,
Pra acordar nosso amor,
Fiz um tema na mão dela...
Era um vazio que se arrastava, se fundia, na verdade era um vazio diferente do puro oco. Ele não estava com nada dentro dele, ele estava com aquele vazio, aquele que era o oposto total de estar cheio. Era um vazio físico, uma anti-matéria que corroía seu peito, que devorava sua alma por mais espaço. Era um espaço em branco que queria mais espaço, que se alastrava como um câncer, debaixo de sua pele, atrás de seus olhos, por baixo de sua língua.
Já fez calor, temporal,
Você sem mim, tudo tão igual
Tudo bem, mas estou bem mal
Que era aquilo? E então... ele soube. Como pedra, como muros, como castelos que desabam sobre si. ”Eu sei que ela é linda e tudo mais, mas não quero uma namorada que eu não amo.” As montanhas desabaram, e os mares encheram os vales, inundando a sede, devorando a fome. ”E você vai devolvê-la para a empresa... Só porque você não a ama?”. Os deuses voltaram para exigirem suas parcelas no universo, e todas as criaturas vivas foram julgadas. Dois rolos compressores de um bilhão de milhões de toneladas passaram por cima dele, e nenhuma placa restou para ser anotada.
Na TV não tem canal,
Seu brilho tão sem vil cristal,
Só tem música em meu dial
Tristan Heels se estatelou contra o sofá, e o mundo desabou sobre ele, sem pena ou hesitação. As últimas pedras do norte se empilharam em sua cabeça, e nada mais restou dele. Exceto a certeza, a certeza profunda que na grande escala dos maiores idiotas que já tiveram a ousadia de botarem os pés no mundo, ele ganhava disparado. Teria que melhorar muito, muito mesmo, para se tornar simplesmente a criatura mais imbecil de toda a existência.
Mas o poema acenou
pra acordar nosso amor
Quando a noite me revela...
Os fones bateram no chão, e o som morreu. As últimas palavras sumiram em alguns murmúrios cheios de estática. A porta ficou aberta, a noite caiu sobre a sala, e o dia amanheceu. Tristan não voltou.
George tocou as palavras com as pontas dos dedos, como se pudesse agarrá-las. A noite que caía sobre a sala o dominava, e as últimas letras terminaram sob suas mãos, escorrendo para longe. A carta de Eve era curta, era tremendamente curta, não justificava cada minuto passado com ela, não fazia jus à vida que ela possuía. Ler aquilo era uma espécie de morte, muito bem arquitetada, complexamente simples, divinamente letal. A caneta não podia expressar a profundidade do que era Eve Bell, não podia explicar a dor que o atravessava.
Ele levantou, e cambaleou até o telefone. Enquanto discava, tocou novamente o papel manchado de sentimentos, e sentiu que aquilo era um adeus.
A voz que o atendeu não pôde confortá-lo.
Arty sentiu o aço cortar sua carne, mas mesmo assim não parou. A mesa avançou, impulsionada por suas pernas gordas, carregada por suas mãos inchadas. O sangue se derramou das palmas e manchou o chão imundo, mas a placa de aço finalmente conseguiu quebrar os últimos rebites que seguravam a trava de contenção. Satisfeito, enfiou os dedos machados de vermelho na abertura, e arrancou a placa metálica que ficava ao lado da porta. Sentindo-se quase anestesiado, acendeu o explosivo e o lançou no emaranhado de fios. Correu, o máximo que o corpo cansado demais conseguia, em direção a barricada que construíra com as mesas e servidores. Infelizmente, não conseguiu chegar a tempo.
Robert abriu a porta, e Riza se lançou em seus braços. O choro que brotava dela era desesperado, e doloroso demais. Vacilou, e ela se agarrava a ele como se fosse alguma espécie de porto, o único lugar que a impediria de cair. Ela não lhe contou, mas talvez não precisasse.
Line, Paul e Juliet liam as últimas linhas da ruiva. Era estranho, a garota viajara até lá e agora teria de voltar urgente para a cidade natal, um avô que morrera? Ela era nova demais para assumir as obrigações do trabalho de sua família, e parecia estranho demais que ela tivesse que pessoalmente fazer isso. Era esquisito perguntar se a pessoa tinha pai, mãe. Não perguntaram, ela não dissera. E era realmente bizarro descobrir que tão pouco conheciam sobre a amiga.
“Ela era legal. Uma ótima amiga.” Suspirou Juliet.
“Ela não morreu, sabia?” Replicou Paul, mas ele também estava triste.
Todos suspiraram.
“Podemos visitá-la um dia desses!” Sorriu Line, encantada com a própria idéia. “Telefonamos, ela bota uns colchões na sala dela e a gente passa um final de semana juntos!”
Juliet sorriu também.
“Ótima idéia!”
“E alguma de vocês sabe o endereço da Eve?” Cortou o castanho, olhando para o teto.
Com um grande suspiro, voltaram para a releitura de suas cartas.
Riza estava em silêncio, deitada sobre o peito do namorado. Robert lhe fazia um carinho suave nas costas, e ela sentia que não conseguiria mais chorar. Com suavidade, o beijou. Talvez se pudesse se inundar daquela sensação de vertigem que ele conseguia provocar nela, talvez pudesse esquecer um pouco aquela dor. Os carinhos se tornaram quentes, o quarto pareceu se incendiar. Riza sorriu largamente, aquela loucura de volta em seu corpo, as carícias mais profundas, os beijos mais molhados, os corpos mais suados.
“Me avise...” Disse Robert, entre beijos, e enquanto a livrava de sua blusa. “...quando quiser...”
Ela conseguiu soltar o cinto dele, estava ficando realmente boa naquilo. Os beijos voltaram, e ela se sentiu derreter conforme as mãos dele percorriam seu corpo.
“...parar” Completou ele, enfim, antes de voltar a beijá-la.
Mas, daquela vez, ela não avisou.

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