domingo, 16 de maio de 2010

Capítulo 19

Birthday Eve

Capítulo 19

O reencontro. A dor. Sarah Ellie Bell.



Foi só na terceira batida que Eve conseguiu atender à porta. Seu pequeno cubículo que chamava de quarto já estava limpo. Guardara tudo em sua mala, e se preparava para ir embora. A passagem de ônibus estava esperando no bolso da jaqueta que ela vestia, e ainda enxugava os cabelos com uma toalha quando abriu a porta emperrada.
Tristan estava encharcado, ligeiramente sujo e bastante amarrotado, com um corte na face esquerda e sem dúvida bem cansado. Ele sorriu por um instante quando a viu, mas suspirou quando percebeu que o olhar dela continuava naquele gelo.
“Eu... Posso entrar?” Perguntou, se apoiando no batente. Estava realmente morto de cansaço.
“Faça o que quiser” Respondeu ela, lhe dando as costas e voltando a enxugar os cabelos. Ela foi para o banheiro e colocou pasta na escova de dentes.
“Eve... A gente... Pode conversar?” Ele vacilava, as sem saber o que fazer com as próprias mãos, e nenhum lugar para sentar, já que a cama estava com a mala dela em cima e não havia cadeiras no quartinho. “Hum... Bem confortável, o lugar.”
“É barato” Disse Eve, terminando de escovar os dentes. “É tudo que importa”.
Diante daquelas palavras, Tristan se calou. Eve empurrou suas malas e sentou-se na cama, mas não abriu espaço para ele, fazendo-o ficar de pé, meio apoiado na parede.
“Você me encontrou, olhou meu quarto...” Começou. “E agora, o que você quer?”
“Te levar pra casa, Eve”
“Então...” O olhar dela era pura frieza, e ele começou a se sentir desconfortável. “Você me mandou embora, só pra me buscar depois? Gosta de fazer do jeito mais complicado?”
O castanho engoliu em seco.
“Não... Eu... Eu errei. Eu me precipitei, e agora vim... pedir pra você voltar”
Ela o encarou como se tivesse acabado de encontrá-lo debaixo de seu sapato, se debatendo.
“Eu não sou uma espécie de brinquedo que você pode ficar dispensando e depois achando que vai ter de volta quando estalar os dedos” Sua voz era gélida, e seu rosto estava vazio de qualquer expressão.
“Eu... Eu jamais pensei isso, Eve, eu sempre...”
“Você me deu um lar, ao que sou extremamente grata, e roupas, comida, alguns dias de escola. Mas eu não te devo nada, Tristan. Eu sou um ser humano, e tenho os direitos de um ser humano. Não sou sua boneca sem cérebro e sem sentimentos”.
Ela continuava sentada. Sua voz não se alterara nem por um instante, e seus olhos continuavam simplesmente cruéis. Era como se ela falasse da vida de outra pessoa, e não da dela própria.
“Eu quero que você vá embora. Estou com pressa, meu ônibus logo vai partir.”
Ele correu e segurou seu braço.
“Eve, por favor...”
O golpe foi muito mais rápido que ele poderia imaginar. Ela o socou no estômago com tanta força que ele perdeu o ar, caindo no chão, sem fôlego e com uma aparência terrível.
“Obrigada” Sorriu ela. “Estou me sentindo muito melhor agora”.
Ela apanhou suas malas e lhe acenou, antes de sair do quarto e trancar a porta. Uma vez lá fora, desceu até a recepção do pequeno hotel e fechou sua conta, antes de sair para rua rumo à rodoviária.

Josh acordou com o som do furgão. Ele passara os últimos minutos fazendo um café da manhã reforçado, e as roupas que comprara já estavam à mão, empilhadinhas no sofá. Anotara cada medida, cada minúsculo detalhe que especificara em sua namorada perfeita, e passara o tempo comprando cada coisa para fazê-la sentir-se em casa.
Abriu a porta, mas o carro das entregas já se fora. O pacote maior que ele estava lá, prateado e bem ajeitado num carrinho para tornar mais fácil sua locomoção. Olhando bem, o pacote era muito diferente do de Eve: havia pequenos frisos e detalhes em um tom escuro, e o carrinho para movimentação era preso no pacote, além de vários outros detalhes que formavam uma embalagem mais moderna e interessante.
Havia uma etiqueta estilizada presa num dos lados.

Sarah Ellie Bell.

Ele segurou a lingueta que iria abrir o pacote e respirou fundo. Rezou rapidamente para que fosse uma garota realmente perfeita como Eve, e puxou com força.
O pacote não desmontou como ele previra. Na verdade, pareceu se dissolver, numa pequena nuvem de vapor prateado. A etiqueta bateu no chão, e a garota continuou de pé, parada, totalmente nua. Ela abriu os olhos e piscou algumas vezes, confusa. Então sorriu.
Era perfeita, mais perfeita que Eve, até. Uma verdadeira deusa, sublime criação. Seus cabelos tinham a cor do ouro, a cor do sol, um dourado que brilhava suavemente, tão belo que chegava a doer os olhos. Seu rosto branco era mais que simplesmente lindo, parecia ultrapassar qualquer noção de beleza que pudesse existir. O corpo era modelado como se fosse uma obra-prima, com os seios grandes, a cintura fina, os quadris perfeitos, as coxas macias. Seus olhos eram azuis, de um azul tão profundo como o céu de verão, e sua boca se abria num sorriso que deixou Josh praticamente em coma.
Sem qualquer constrangimento, exatamente como Eve, ela se espreguiçou, e então pareceu percebê-lo.
“Olá” Disse ela, e ela não falava, ela parecia cantar. “Eu sou Sarah. Quem é você?”
“Josh.. Quer dizer, Jozua. Mas você pode me chamar de Josh. Ou J., ou Malber, ou o que...” Ele engoliu em seco. “Pode me chamar como quiser.”
“Você é o meu dono?” Perguntou ela, se aproximando dele de forma lenta, como se possuísse toda a sensualidade do mundo. Seus olhos pareciam decididamente perigosos. E quando ela lhe perguntou, sua voz parecia um ronronar.
“S-sim.” Ele tossiu, sua voz estava estranhamente rouca. “Sim, sou eu.”
Ela deslizou um dedo pelo queixo dele, arranhando de leve com a unha. Então seus rostos estavam a menos de um centímetro, e ele podia sentir o hálito morno e doce dela.
“Que sorte a minha” Murmurou ela, e então o beijou.

Tristan achava que deveria largar tudo e virar um ladrão de uma vez. Era a segunda vez, no mesmo mês, que arrombava uma porta. Seu ombro dolorido parecia já ter se acostumado, e ele cambaleou para fora do quarto. Da próxima vez que aquela ruiva lhe pedisse aulas de luta, ele recusaria imediatamente, era uma promessa. Esfregando a região dolorida, correu para fora do hotel. Ela com certeza iria a pé para a rodoviária, se iria pegar um ônibus. Não devia ter sobrado dinheiro o suficiente para Eve pegar um táxi ou algo do tipo. Correu desabalado pela manhã fria, sua respiração virando uma grossa névoa ao seu redor.
Felizmente ela chamava atenção demais. Seu cabelo ruivo, saltando para fora do gorro rosa que usava, era muito chamativo, e ele conseguiu encontrá-la. Ao que parecia, ela estava examinando uma vitrine totalmente absorta, o que era uma sorte.
Derrapou um pouco e quase foi atropelado por um carro, mas conseguiu chegar perto o suficiente. Quando tocou seu braço, conseguiu aparar o golpe que veio em resposta. Felizmente ela o confundira com algum batedor de carteiras, pois se fosse aquele o segundo golpe do dia por ódio, ela quebraria seu coração.
“Tristan!” Resmungou ela. “Não disse pra me deixar em paz?”
Ela seguiu caminhando e entrou numa pequena livraria, examinando as prateleiras de livros. Novamente ele a parou, e ela ficou, de braços cruzados e batendo o pé com força. A loja estava vazia, somente um atendente sonolento estava nos fundos, babando sobre o jornal.
Tristan desviou os olhos dela, e tocou a prateleira manchada.
“Quando Josh me contou que comprou você pela internet, achando que era uma brincadeira, eu fiquei louco de raiva dele. Josh está sempre fazendo piadinhas, e brincadeiras que ache engraçado, e quase nunca para um instante para pensar se isso vai machucar alguém. Ele...” O rapaz suspirou, passando os dedos por uma esfarrapada coleção de contos. “Ele não é o culpado disso, no fim das contas. Eu nunca tive pais muito presentes. Não é culpa deles, sei que eles gostariam de passar mais tempo comigo. Mas eles são muito ocupados, e eu acabei passando a maior parte da minha infância sozinho, entende. Somente Riza e Josh eram meus amigos. Tudo que eu sei fazer eu aprendi praticamente por mim mesmo. Guitarra, computação, artes marciais. São coisas tão opostas, pensando nisso, mas são as coisas que mais gosto. E... Naquela manhã do meu aniversário, quando eu abri aquele pacote e você estava lá... Eu... Eu não sabia o que fazer”.
Tristan estava com muito medo de virar e encarar o olhar da garota, então continuou olhando fixamente para as prateleiras.
“Você... Você é incrível, Eve. Eu já te disse isso alguma vez? Você é tudo que uma garota pode sonhar em ser, e tudo que um garoto pode sonhar em ter... E mesmo assim eu só conseguia ficar assustado perto de você. Nunca... Nunca estive tão... Perto de uma garota. Eu sou um idiota, essa é a verdade, mas... Mas aos poucos você foi... Entrando na minha vida. Às vezes eu parava para pensar e não conseguia mais entender como era... certo. Era isso, certo, você estar ali comigo. E era difícil de imaginar que houve uma vida inteira antes de te conhecer. Eve, você... preencheu meus dias. Havia um sentido, uma motivação para que eu levantasse todos os dias. E eu acho que nunca fui tão feliz a vida inteira quanto eu fui nessas poucas semanas que estive com você. E quando você foi pega por aqueles caras...” Ele parou, e quase socou a prateleira. “Eu me senti terrível. Como se tivessem arrancado um pedaço de mim, um pedaço muito importante. Eu não hesitei em ir te resgatar, e se eu morresse ali, fazendo aquilo, acho que não me importaria. Você era o motivo, era por você que eu fazia aquelas coisas... E era o suficiente para mim.”
O que ela devia estar pensando? Será que ele deveria olhar? Prateleiras sem fim preenchiam sua visão. Ele era, essencialmente, um covarde.
“Eve, quando eu te via naquela cama, sem saber se você acordaria, foi o momento mais difícil da minha vida. E saber que quem acordasse poderia não ser você... Eu estava morrendo de medo. E o tempo todo eu estava tão preocupado com coisas idiotas e medos idiotas que não... não queria perceber o mais óbvio. Eu não entendia porque doía tanto só de pensar em te mandar de volta, eu não queria entender. E então... O medo venceu. Eu sou, sempre fui, um covarde. Era mais fácil, mais fácil, tentar te apagar da minha vida, fingir que você nunca existiu. Pelo menos foi o que eu pensei. E então... Eu percebi. Percebi o que estava na minha frente o tempo todo, o que eu fingia não ver... E percebi que nunca, nem que eu viva mil anos, eu vou poder... Te esquecer”.
Tristan respirou fundo, reunindo cada grama de coragem, e virou-se para encará-la.
Onde Eve deveria estar, apenas o vazio o aguardava. Alguns segundos depois ela apareceu, com uma grande sacola.
“Os preços daqui são ótimos, sabia?” Sorriu ela. “Olha isso.” Ela mostrou uma pilha considerável de livros que acabara de comprar. “'TEMPUS', do Andre L., 'Candy', de Araújo, 'Eraser', 'Piratas X Códigos', '30 dias de Vida' do Alexandre Filho, e da Amanda Marchi esses aqui, 'Tudo tem o seu tempo' e 'Contos e Onesh...'”
“Você ouviu alguma coisa que eu falei?” Cortou o rapaz, sentindo raiva de ser feito de idiota, se declarando pra uma prateleira.
“Não.” Disse ela, dando de ombros. “Por quê? Era algo importante?”
“Não, não, não é nada” Resmungou Tristan.
“Então vamos” Ela começou a andar em direção à saída. “Será que eu posso morar por uns tempos com a Riza, será que ela vai aceitar?”
“Você pode continuar lá em casa, você sabe disso...”
“Será mesmo que a Riza vai concordar? Quer dizer, eu não quero dar trabalho para ela...”
Tristan revirou os olhos. Seria muito difícil, seria mesmo.
“Acho que ela não vai se importar. Mas isso quer dizer que você vai realmente voltar?”
“É.” Disse ela.
Enquanto andavam, em silêncio, ela apertou a bolsa de livros contra o peito. Escondeu o sorriso, lembrando das palavras dele, e sentiu raiva de estar sorrindo. Talvez, no fim das contas, ela também fosse idiota.

Sarah gostava de geléia de framboesa, suco de laranja e peixinhos. Na verdade, ficou realmente encantada quando Josh lhe prometeu que compraria alguns para ela. Depois de comer um pouco, ela decidiu que era hora de aprender algumas coisas.
Josh não sabia muito bem o que fazer. A garota olhara para as roupas e as vestira sem qualquer problema, e agora passeava pela casa, os olhos passando absurdamente rápidos de um ponto ao outro, sem jamais se demorar mais que um único segundo. A velocidade de processamento de seu BrainSys era absurdamente maior que o de Eve. Tanto que ele decidiu que era melhor perguntar.
“Sarah, qual seu Sistema Operacional?”
A garota parou no lugar, os olhos perdendo o foco e a voz ficando mecânica, igual a Eve.
“Sistema BrainSys 2.0”
E aquilo, aparentemente, resolveu a dúvida. Josh não tinha um conhecimento muito avançado em computadores, mas sabia que “2.0” significava que a versão que ela tinha era superior a de Eve. E na verdade, Sarah parecia superior a Eve em muitos aspectos: por mais absurdo que isso pudesse parecer, ela era mais bonita que a ruiva (na opinião de Josh). Sua capacidade de aprendizado era maior, e com certeza ela tinha mais informações que Eve em sua mente. Era impossível haver algo mais perfeito que Eve, a namorada perfeita, mas havia. Havia Sarah.
O gosto do beijo dela ainda estava em seus lábios, e ele o relembrava a cada instante. Era como se um milhão de zilhões de fios elétricos de altíssima potência fossem ligados direto em seu cérebro. Estrelas e planetas distantes se chocaram contra ele, e um oceano o afogou. Ela tinha gosto de paraíso, de céu, de fogo. E havia algo diferente em Sarah, que só depois de muita reflexão que ele conseguiu descobrir: se Eve era uma menina, Sarah era mulher.
Ela o arrancou de seus devaneios.
“Você mora sozinho?”
“Minha mãe trabalha em outra cidade, mas você vai conhecer ela logo. Tenho...” Ele pensou em Tristan. “Tem algumas pessoas que quero que você conheça. Duas garotas, na verdade. Minha melhor amiga, a Riza, e a Eve. Pra falar a verdade, a Eve é sua... irmã”.
Os olhos de Sarah se arregalaram, e faiscaram de um jeito diferente. Ela se aproximou dele até que tudo que ele visse fosse seus profundos olhos azuis.
“Irmã?”
“Eve também foi feita em laboratório, como você, e um cara aí ficou com ela por umas semanas, mas agora ela foi embora. Acho que ela vai voltar. Fora que eu te dei o mesmo sobrenome que o dela. Como você foi feita depois, isso não te faz irmã mais nova da Eve?”
Sarah pareceu pensativa, saindo de perto dele e sentando-se no chão. Ela ajeitou os cabelos dourados. Eram mais curtos que os de Eve, chegavam apenas um pouco abaixo de sua cintura, mas tinham a mesma textura. Josh estava realmente empenhado em fazê-la irmã da ruiva, e copiou descaradamente alguns traços. Fora isso, ele a fizera mais nova, com apenas quinze anos, dando margem para se algum dia as duas namoradas perfeitas tivessem que se apresentar, seria plausível que fossem irmãs.
“E quando vou conhecer minha irmã?”
“Logo.” Prometeu Josh. Então a malícia voltou a invadir seus pensamentos. “Por que a gente não...?”
“Onde é meu quarto?” Cortou ela, ainda pensativa. “Acho que preciso dormir um pouco.”
Desapontado, ele a guiou pela casa.

Riza sentia fogo em seu corpo. Seu sangue era lava, quente e abundante, escorrendo e queimando, devorando sua carne. Seu cérebro estava em chamas, em nuvens, em terra, em mar. Ela sentia o gosto de suor, de carne, de vida. Cada célula de seu corpo parecia explodir em energia.
O corpo dele se mexia com fome sobre ela, e ela compartilhava aquela sensação, aquela privação, aquele puro desejo. Suas línguas dançavam juntas, sangue e carne, vida e morte, ternura e agressividade.
Então as estrelas entraram em erupção, os mundos colidiram e o céu desabou sobre eles, enquanto seus corpos se desfaziam em pequenas partes pulsantes, enquanto os olhos escureciam e cegavam, e todos os pensamentos secavam, como água no deserto. O último dos sóis se apagou, e tudo que sobrou foi o vazio, e a doce latência dos corpos que se separavam.
Riza abriu os olhos, e viu um anjo. Então ele a beijou, e ela dormiu.
Quando seus olhos se abriram de novo, um pouco da luz do sol caía sobre ela. Estava coberta em uma manta, sobre o colchão nu, já que grande parte da roupa de cama sumira enquanto eles brincavam. Na verdade, pensou ela com um sorriso, não fora só a cama que perdera suas roupas.
Se mexendo com preguiça, com alguma dor entre as pernas, ela se enrolou na coberta. Queria um banho, precisava estar com tudo quando ele chegasse. Sentiu cheiro de café da manhã, e sua barriga roncou. Onde ficava o banheiro?
O quarto tinha duas portas. A primeira era a da saída, estava entreaberta e por ela entrava o cheirinho de comida, e a outra estava fechada. Ela saiu da cama, pisoteou um cinto, tropeçou numa calça que devia ser a dela, e encontrou sua calcinha jogada de qualquer jeito sobre o abajur. Corou um pouco.
A porta estava trancada. Só podia ser um banheiro aquilo ali, mas por que trancado? Não tinha sentido algum. Ela podia deixar aquilo pra lá e ir direto pra cozinha, talvez ainda enrolada no cobertor. Ou sem nada.
Fez uma careta. Ela estava ficando como o Josh.
Numa cômoda, perto da TV, estava uma chave. Antiga, pesada, e meio enferrujada. Igualzinho à tranca da porta. Ela passou a mão na chave, e a meteu na fechadura.
Meter a chave na fechadura.
Certo, ela iria parar de sorrir, iria parar com aqueles pensamentos, aquelas piadinhas. Tomaria um banho gelado, quem sabe sua sanidade não voltaria?
Virou a chave, e quando ia virá-la mais uma vez, um sorridente Robert surgiu na porta, com uma bandeja de café-da-manhã digna de uma rainha. O sorriso dele se apagou na mesma hora que a viu, e seus olhos se arregalaram.
“Riza!” Gritou ele, colocando de qualquer jeito a bandeja sobre a cômoda, e correndo até ela. “Não abra essa porta!”
“Hã?” Ela se assustou com o tom dele, e sua reação. Tudo isso por um banheiro? “Por que não? O que é isso, Robert?”
Ele sorriu carinhoso pra ela, tentando tirar a chave de sua mão.
“Vamos, amor. É só meu estúdio, não tem nada de interessante aí, mas não quero que você se machuque. Tem alguns produtos bem perigosos aí dentro, não se preocupe com isso. Vamos tomar café, depois a gente pode tomar um banho. Nós dois, juntinhos”.
Era uma proposta tentadora demais, mas aquilo a incomodava.
“Estúdio? De mecânica?”
“Eu... Eu tenho alguns hobbies, com... artesanato, fotografia, modelismo. Um dia eu te mostro, juro, mas sabe como é, não quero que você se machuque com nada daí de dentro, já disse”.
“Eu não sou uma criancinha que não sabe se cuidar!”
“Eu nunca disse isso, amor” O tom dele ficava cada vez menos amoroso, e mais e mais nervoso. Que coisa que ele teria ali? O que podia causar tanto pavor nele? Que tipo de segredo ele guardava ali? Produtos químicos perigosos... Ela já recebera desculpas melhores. E olha que eram vindas de Josh.
“Riza” O tom dele agora era firme, e decididamente gelado. “Me dê essa chave. Vamos tomar café, tenho muito o que fazer.”
Ela não gostou daquilo. Nem um pouco. Odiava quando mandavam nela, usando aqueles tons mandões e metidos. Apertou os dentes. Ela podia simplesmente passar-lhe aquela chave e cobrar o banho a dois, mas tinha algo errado naquilo. Muito errado...
“Riza. Me dá essa chave” Ele falava cada vez mais alto, cada vez mais ríspido. Ela ficou com raiva. Onde estava aquele homem delicioso que a fizera ter a melhor noite de sua vida, e a primeira de muitas? “AGORA!”
Foi o grito. O grito estragou tudo. Ele levantou a mão, como se fosse bater nela, e a imagem do Robert lindo e charmoso, que a fazia suspirar e cantar sozinha como uma boba, simplesmente sumiu. Ela girou a chave mais uma vez e escancarou a porta.
Ele avançou pra cima dela, mas foi tarde demais. Os olhos dela já haviam vislumbrado o que havia dentro daquela sala escura, que se encheu com a luz do quarto. E Riza achou que fosse desmaiar.

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