domingo, 16 de maio de 2010

Capítulo 23

Birthday Eve

Capítulo 23

O começo. Primeiros passos. O super-computador.


Com um último suspiro cansado, Tristan digitou a sequência final e apertou Enter. Um zumbido suave correu por todo o lugar, como se estivesse na barriga de alguma fera medonha, e então a tela a sua frente ligou-se e exibiu... Nada.
Frustrado, ele colocou o teclado no chão e levantou-se da almofada, espreguiçando-se. Estava usando óculos, embora preferisse não o fazê-lo, para conseguir aguentar as horas sem fim diante da tela negra com as letras brancas. Suspirou mais uma vez, e ligou seu celular.
Arty chegou com sua cadeira elétrica, fazendo um ruído baixo do motor fraco, e então sorriu para o garoto, que examinava atentamente uma pilha de lanches naturais embrulhados em plástico. O jovem pupilo parecia muito diferente desde que eles começaram a trabalhar. Ele era, e talvez Arty escondesse aquilo por mais um tempo, um verdadeiro gênio. De pensamento rápido, lógico e desafiador, o rapaz poderia, com mais alguns anos, fazer um projeto daqueles sozinho.
Quem sabe Tristan não poderia completar os sonhos de outro homem?
“E então?” Perguntou.
O castanho desembrulhou um sanduíche e o mordeu com voracidade.
“Quase lá” Disse, de boca cheia. “Minha teoria de caracteres mutantes funcionou, mas parece que as bibliotecas principais encontraram algum conflito com os setores brancos do disco. Mas você tinha razão, quando troquei os canos de resfriamento, a situação melhorou bastante. E os compiladores de tipagem forte rodam nativamente no sistema.”
Arty assentiu, como se já soubesse daquilo.
“As antenas wi-fi e as portas de condicionamento?”
Tristan pegou um grande bloco de anotações que estava ao seu lado e o revisou, mordiscando o segundo sanduíche.
“Antenas instaladas, portas soldadas. O sistema já reconheceu”
Arty examinou sua própria lista.
“Compilador C?”
“Rodando”
“Sistema de gerenciamento de pacotes?”
“Rodando”
“Equalizador gráfico?”
“Rodando”
“Monitores?”
“Instalados, testados e funcionando”
“Bibliotecas de internet?”
“Escritas, compiladas e rodando”
“Bugs específicos de atenção imediata?”
“Em torno de cinquenta”
“Bugs gerais?”
“Mais de cinco mil”
“Falhas no sistema?”
“Uma”
Eles olharam para a grande lousa onde uma equação complexa se estendia. Suspiraram. O núcleo do sistema estava ali, e toda informação passaria exatamente por aquele ponto. Era o desenvolvimento máximo, a obra-prima daquele computador. A Equação de Linearidade Alternada de Dados Mutantes, como Arty carinhosamente a apelidara. As bases eram dele, os módulos foram calculados com a ajuda de um bando de nerds que Tristan conhecia, e os detalhes finais e testes eram do próprio rapaz, e mesmo assim algo ainda faltava. Algo vital.
O celular de Arty zumbiu, e ele olhou o visor, então sorriu largamente.
“Eve e seus amigos estão aí. Querem ver o que já conseguimos”.
Tristan sorriu, e rapidamente deu um fim na bagunça de embalagens vazias, sanduíches mastigados e restos de fios. Arty vagou lentamente até a porta, dando tempo do garoto alisar as roupas e checar seu hálito. Riu baixinho. Era bom ser jovem e apaixonado.
Eve abraçou o homem, assim como Riza. Josh não viera, estava vigiando Sarah, e George devia estar trabalhando nas amostras que Eve lhe dera e em seu manual. A garota exibia uma pequena quantidade de adesivos nos braços, indicando que estivera fazendo exames com o médico. O sorriso dela sumiu ao ver Tristan, mas o brilho de seus olhos ficou ainda mais forte. O homem quase riu novamente. Era bom ser jovem e apaixonado e confuso sobre tudo isso.
“Como vão as coisas?” Perguntou Riza, abrindo espaço no emaranhado de fios e parafusos e colocando uma toalha no chão. Tirou comida das sacolas, e Tristan e Arty começaram a salivar. Comida de verdade!
“Sabia que vocês dois iam sobreviver na base de salgadinhos e fiz alguma coisa de verdade pra vocês comerem.” Ela sorriu, destampando os potes. “Eve fez a sobremesa” Terminou, meio que se desculpando.
A gelatina da ruiva espreitava no fundo da tijela, com um olhar maligno e promessas silenciosas de dor e morte. Tristan a empurrou cuidadosamente para longe dele, sem que a ruiva percebesse. Ela examinava a lousa onde a equação estava ainda misteriosamente incompleta. Murmurava sozinha, como se contasse algo para si mesma.
Tristan levava uma porção de comida caseira à boca quando viu o que a menina fazia. Engasgou e parou, levantando rapidamente.
“Eve! Isso daí é...”
Ele não pôde terminar, pois a garota esfregou a manga da blusa contra a lousa, apagando uma parte da equação. Suas sobrancelhas ruivas estavam unidas numa carinha de concentração, e ela continuava a murmurar, agarrando uma caneta e começando a reescrever aonde apagara.
Arty deixou o queixo cair. Eve murmurava rápido, calculando mentalmente números imensos e variáveis quânticas, apagando e reescrevendo a equação. Sua letra não era redondinha e miúda como antes, mas rápida e meio borrada, na pressa de seus cálculos. Ela estava vermelha de esforço, e suava muito, enquanto seus olhos dançavam com rapidez anormal pela lousa, apagando, escrevendo, riscando e borrando. A manga de sua blusa estava azul de tinta, e a ponta de seu nariz também, mas ela não percebia, enquanto continuava a calcular de cabeça algo que Tristan precisara de três computadores para ajudá-lo, mais um bando de nerds com suas calculadoras científicas.
Ela parou. Então murmurou um pouco mais e fez um barulho de desagrado com a boca.
Apagou mais um pouco, moveu algumas coisas dos lugares, destrinchou alguns números e então adicionou alguns toques pessoais.
“Agora sim” Disse para si mesma, sorrindo. “Bem mais elegante”.
E então caiu sentada.

Tristan digitou os últimos números e checou para ver se copiara tudo certo. Eve comia fartamente, cansada e sem saber exatamente o que fizera. Ela apenas dizia ter lido a equação e ter calculado, e então arrumado os erros que encontrara, como se tivesse corrigido problemas de quinta série, e não equações complexas. Meio que acostumados já as estranhezas da garota, ninguém ligou muito pra isso.
Tristan se deu por satisfeito e apertou Enter.
Uma a uma, lâmpadas por todo o lugar se acenderam. Um zumbido brotou do chão, das paredes e do teto. O primeiro monitor ligou, e então um único caractere surgiu na tela escura.

1

Arty abraçou o pupilo, e eles comemoram animadamente, enquanto Eve e Riza pareciam confusas.
“É só isso?” Perguntou a morena, meio decepcionada.
“Nós levamos semanas para chegar nesse ponto.” Informou Arty. “O número 1 significa que o sistema inteiro está funcionando. Se outra coisa aparecesse, então teríamos de recomeçar. A equação de Eve é perfeita, o sistema já está rodando. Agora, Tristan...”
O garoto foi até o fundo da sala e voltou com uma caixa de plástico. Abriu e tirou uma peça que mais parecia um tijolo achatado de metal. Cinco pinos se projetavam debaixo dele, como dentes de um pente. Arty rodou até a mesa central, de aço escovado, e apertou um botão. Depois de digitar algumas senhas, uma gaveta se abriu na lateral da mesa, revelando apenas cinco buracos alinhados.
Tristan encaixou a peça ali, e apertou mais alguns botões. Com um som sibilante, a gaveta se retraiu e o monitor piscou. Dois teclados surgiram na mesa, vindos de suas entranhas.
“Tristan” Disse Arty, começando a digitar.
“Devices conectados. Módulos conectados. Compiladores rodando. Erros em nível estável, frequência normal, kernel respondendo em velocidade superior ao esperado...” Ele digitava mais rápido que falava, e números e palavras corriam sem parar pelos diversos monitores que começaram a funcionar. Riza e Eve estavam no centro de tudo, completamente perdidas.
“Antenas recebendo faixa de sinal” Disse Arty, também digitando. “Portas estáveis e reconhecidas, bibliotecas rodando, navegadores reconhecidos, pacotes pré-compilados iniciando.”
Todas as telas ficaram completamente negras. E então uma única mensagem piscou.

Deseja iniciar? S ou N

Os dois homens prenderam a respiração. E então apertaram as teclas ao mesmo tempo.

S

A tela piscou, e então uma enxurrada de números, palavras, sequências e comandos surgiu, correndo sem parar pela tela negra. Mais rápidos que o olhar poderia captar, comandos e relatórios passaram, enquanto tudo era extraído, compilado, executado, testado, instalado e começava a rodar. O zumbido aumentou, brotando de todo o lugar, e luzes coloridas piscavam na escuridão. Os monitores pareciam que iam estourar a qualquer instante...
E então terminou.
A mensagem surgiu.

Instalação concluída com sucesso. 51554456434867 aquivos foram instalados com sucesso. 0 arquivos apresentaram erros.

A mensagem desapareceu, e então a tela principal surgiu. Um único número se destacava.

0

Logo ele trocou para 1. Depois para 2. E então parou.
“Isso é bom?” Perguntou Eve.
“É ótimo” Sorriu Tristan, levantando de sua cadeira. “Significa que o sistema está iniciando. Quando ele chegar no número 100, vai estar pronto para ser utilizado.”
“Mas onde está o computador?” Perguntou Riza. “Não estou vendo nenhuma máquina, fios ou algo assim, além dessa bagunça...”
Arty e Tristan começaram a rir.
“Nós estamos dentro do computador, Riza. O computador é o prédio inteiro. São cem metros abaixo da terra, onde começam as instalações e depósitos. Em cada centímetro dessas paredes estão processadores, cabos, núcleos e canos de resfriamento. Por isso esse zumbido, é o sistema rodando. E o processador central está diretamente abaixo de nós, dentro de um globo de titânio.”
“E essa mesa?”
“É apenas a interface. O nosso lugar de trabalho. Tem teclados, monitores, e entradas menores, como a que você viu. Aquilo que eu coloquei era onde estava o sistema para instalar. O CD, por assim dizer”.
“Aquela... Coisa que mais parecia um paralelepípedo era um CD?”
“Sim. Tem coisas muito maiores que aquilo por aqui, principalmente nos andares de baixo”.
“Quantos são?”
“Trinta e dois”.
Elas ficaram realmente impressionadas. Arty investira muito para construir aquilo, embora a maior parte já estivesse meio já pronta.
“Com isso” Disse Tristan. “Estamos na frente de Mallick”.

Eve estava realmente nervosa. Henry e Harry sorriam discretamente para ela, mas aquilo não a confortava nem um pouco. O envelope pardo onde ela guardara seus trabalhos fora descartado, e seus desenhos passavam minuciosamente de mãos em mãos. O Conselho do Clube de Artes a examinava.
Finalmente, o último deles colocou seu trabalho sobre a mesa.
“A técnica é falha” Disse ele, e Eve sentiu seu coração bater no chão. “A garota visivelmente não recebeu jamais alguma instrução sobre arte. Não sabe nada sobre as tendências ou estilos, e pouquíssimo contato já teve com arte real. Sinceramente, ela não sabe nada”
Os outros concordaram, em vozes baixas e pesarosas, fazendo a garota se segurar para não chorar. Era o fim de um lindo sonho.
“Então eu me pergunto” Continuou o presidente do Conselho. “Me pergunto como uma garota que não tem um mínimo de conhecimento prévio sobre arte consegue criar obras desta forma, com tal emoção e equilíbrio. E só há uma única resposta, e ela é clara. Meus amigos, em 50 anos de trabalho neste Clube, eu jamais vi um talento assim. E acredito, como artista, como presidente do Conselho e como membro deste nobre curso, que não existiria sobre a Terra alguém mais tolo que aquele que impedisse essa garota de participar. Pois eu vejo nela não apenas uma artista como as tantas que já passaram por nós. Eu vejo nesta garota uma inspiração para todos os artistas que estão aqui, e para todas as gerações que estão por vir.”
Aplausos entusiasmados, tão estranhos naquela sala séria e com aqueles homens carrancudos, fizeram o presidente sorrir.
“Ao que vejo a senhorita disse que não tem muito dinheiro para pagar nossas mensalidades, não é mesmo?” Continuou ele, olhando a ficha dela. “E precisou fazer um acordo com a escola para conseguir pagar. Pois bem, eu proponho que Eve Bell não precise pagar nada!”
Mais aplausos, mas o sorriso de Eve desapareceu.
“Nós podemos arcar com isso, é claro, o Clube recebe muitas mensalidades e...”
“John” Interrompeu uma senhora idosa, que estava ao lado dele. “Você se esqueceu de perguntar à menina o que ela acha”
“Como assim perguntar? É claro que ela vai aceitar e...”
“Eve, você gostaria de cursar de graça nosso Clube?” Interrompeu a mulher mais uma vez, olhando para a ruiva.
A sala mergulhou em espectativa.
“Eu...” Ela parecia realmente nervosa, e olhava para baixo. “Eu... É claro que gostaria de não precisar pagar nada, mas...”
“Mas?” Incentivou a mulher, sorrindo calmamente.
“Mas não me parece justo.” Disse Eve, levantando a cabeça de repente e a encarando. “Eu não vejo qualquer diferença em mim, não vejo qualquer motivo para ser tratada melhor ou pior que os outros alunos daqui. Eu não tenho muito dinheiro, e acredito que os senhores já estejam fazendo muito por mim ao aceitarem que eu só pague metade das mensalidades, e para mim isso basta. Eu agradeço realmente a oferta, mas não posso aceitar. Eu sinto muito, mas... Mas parece que se eu receber tudo sem esforço... Não terá valor algum. Eu acredito que eu só poderei dar valor ao tudo isso se eu precisar lutar. Se vier de mim, se for de coração. Eu amo pintar, é quando meu coração fica leve e quando o mundo parece simplesmente perfeito. Mas é preciso esforço para pintar, para esculpir ou desenhar. Você precisa de dedicar, estudar, pensar, treinar muito, fracassar mais vezes que se pode contar. Só assim que você vai valorizar a obra pronta, pois ela vai carregar uma parte de você. Seu suor, seu esforço, sua dedicação por ela. Se a coisa é fácil, se ela já está sempre pronta pra você, ela não vai ter essa importância. E é por isso que eu não posso aceitar sua oferta, senhor. Eu sinto muito”.
Ela baixou a cabeça novamente, e a sala mergulhou em silêncio.
O presidente suspirou.
“Você tem razão, Marlenne.” Disse ele. “Ela tem o orgulho de uma verdadeira artista”.
Risos se espalharam pelo salão com a brincadeira, e o clima pareceu mais leve. Eve sorriu levemente, ainda de cabeça baixa.
“Bem, se é assim, eu então vou esperar. Se algum dia precisar de alguma coisa, Eve, me diga”
Vários concordaram e ela os agradeceu com grandes sorrisos e olhos brilhantes. Havia algo naquela garota que fazia, talvez, com que qualquer um pudesse se encantar perdidamente por ela.

Line se aproximou da mesa. O professor a olhou, parecendo perturbado ao ver a figura de maquiagem pesada e sorriso sinistro.
“Modalidade?” Disse ele, um pouco confuso com a aparição desconcertante.
“Música.”
“Dupla, banda ou individual?”
“Banda”
“Nome da banda?”
“Bloodlust Witches”
O homem apertou os lábios em desaprovação, mas cadastrou o nome. A impressora ao seu lado gemeu e cuspiu uma folha.
“Nomes dos integrantes, séries e posições aqui, por favor, entregue amanhã na secretaria, você encontrará um atendente especial lá”.
“Valeu, tiozinho” Provocou a garota, agarrando a folha e saindo rapidamente.
O homem suspirou.
Tristan e Josh surgiram.
“Música. Banda. Midnight Sin. Obrigado”.
O homem pareceu inchar de raiva, mas engoliu as palavras e imprimiu mais uma folha.
“Nom...”
“Valeu, fessor” Cortou Josh, saindo correndo junto do amigo.
O professor colocou a mão na testa. Teria uma dor de cabeça em breve. Devia ter seguido o conselho da mãe, e ter feito Medicina.
“Próximo”
Eve sorriu para ele, e talvez o dia tenha ficado um pouquinho melhor.
“Olá” Disse ela.
“Hum. Hã, modalidade?”
“Pintura, por favor”.
“Apresentação, desafio ou exposição?”
“Exposição”
“Peça única ou galeria?”
“Galeria”
Mais uma folha saiu da impressora já exausta.
“Você terá de pegar uma autorização com sua professora de artes, ela terá uma lista dos locais disponíveis para sua apresentação. Converse com ela, pegue o número de seu canto para exposição. Então leve amanhã na secretaria, há um atendente especial lá. Você terá apenas dois dias para montar a exposição, e 24h para tirar tudo depois do fim do evento.”
“Obrigada”
Paul já estava realmente entediado.
“Tem certeza que eu preciso fazer isso, Juliet?”
A garota sorriu docemente para ele.
“Mas é claro que sim, Paul. Nós combinamos, não é mesmo?”
Ela era uma ótima atriz. Aquela pose de garota inteligente e doce devia lhe custar todo o esforço para mantê-la.
“Ok.”
Eles se cadastraram também e saíram. Clarisse estalou os dedos e um dos rapazes que ela mantinha como “ajudante” providenciou que ela tivesse um bom lugar na fila. Um nerd distraído precisaria de  óculos novos depois daquela cotovelada. Ela e Sarah ocuparam o lugar, enquanto uma das inúteis que as cercavam oferecia-lhes chá e suco.
“Como eu detesto essas filas nojentas” Suspirou Clarisse, enquanto lixava as unhas. “Ficar cercada por essa gente pobre e fedida é o fim”
Sarah suspirou em conjunto, examinando Eve, que conversava animadamente com a professora.
“Clarisse, tem certeza disso?” Perguntou a mais nova. “Eu nunca fiz esse tipo de coisa antes”
“Você vai se dar bem, Sarah.” Tranquilizou a outra, apertando sua mão. “O importante é vencer a ruiva, e é impossível fazer isso na pintura, com aquela professora lambendo o chão por onde aquela vaca pisa.”
“Mas...”
“Eu sei que você consegue” Disse Clarisse, a olhando bem nos olhos. Então sorriu, sinceramente. “Eu estou lá com você, Sarah”
“Mas depois eu...”
“Mesmo assim. Eu vou estar te vendo. Eu já vi o que você consegue fazer. É incrível. Se você quiser, você consegue qualquer coisa”
As duas loiras se abraçaram, sorrindo.
“Já está bom, ok.” Disse Clarisse. “Não quero ser vista por ninguém nessa ceninha ridícula de 'melhores amigas pra sempre'”
“Concordo”.
Elas se separaram, e Sarah enxugou as pequenas lágrimas que se formavam no canto dos olhos.
“Isso vai estragar sua maquiagem, boba” Sorriu Clarisse, embora ela mesma tivesse os olhos vermelhos.
Elas riram, e então deram o passo para frente para lidarem com mais um professor incapaz totalmente atordoado com a beleza delas.

Capítulo 22

Birthday Eve

Capítulo 22

O desafio. O clube. A chance.



Sarah separou com cuidado todas partes, depositando tudo sobre o forro de plástico-bolha que ela fizera. Removeu todas as embalagens meticulosamente, assim como as etiquetas e preços. Apertou a ponta da língua entre os dentes, concentrada, enquanto organizava gentilmente todas as peças, pronta para começar.
Lavou, desinfetou e enxugou todas as peças de vidro, inclusive a parte principal, seguindo atenciosamente todas as instruções do manual de montagem. Colocou o forro no móvel que Josh instalara em seu quarto, o pano preto impedindo que tudo escorregasse e que as partes mais pesadas riscassem o móvel quando fossem movidas. Em cima dele, veio a caixa principal, de vidro, já limpa e totalmente transparente.
Com os dois sacos de pedras coloridas, preencheu a camada do fundo da caixa, misturando as cores e tamanhos, fazendo pequenas elevações e depressões. As plantinhas reais e plásticas foram organizadas, suas bases ou raízes presas pelas pedrinhas. Um pequeno navio afundado feito de porcelana foi colocado no fundo, e ela ajustou o termômetro, bomba e motor. Ligou tudo nas devidas tomadas atrás do móvel, e então colocou a água, esperando até que a temperatura estivesse correta.
Nervosa e mordendo a língua com mais força, ela baixou o primeiro saquinho transparente para dentro da água, molhando seus braços até os cotovelos. Então o abriu, deixando seu conteúdo vagar livremente pelas águas ligeiramente mornas. Fez isso com os outros dois saquinhos, e então baixou com delicadeza a tampa, checando mais uma vez se estava tudo no lugar certo. Organizou meticulosamente as redinhas, rações e remédios, tudo no móvel, de forma organizada e de fácil acesso.
Então, na parte debaixo do móvel, guardou o manual, os dois guias de iniciante, o pequeno livro ilustrado e um caderno e uma agenda, por ordem de tamanho. Finalmente, satisfeita, pôde admirar seu trabalho.
Dentro do aquário, nadavam os peixinhos coloridos, explorando o navio afundado, as depressões e elevações, se enfiando entre as plantas, descansando daquele jeito parado, que se movimentava aos poucos, os olhos sempre bem abertos, as boquinhas se movendo sem parar como se murmurassem segredos aquáticos que só os ouvidos certos poderiam entender. Sarah esparramou-se no tapete felpudo, e ficou ali por horas, totalmente arrebatada, admirando seus peixinhos e seu lindo aquário. Fora o melhor presente que ela jamais ganhara.
Na verdade, quem ganhara o melhor presente fora Josh, que recebera até agora mais de duzentos agradecimentos da loira, além de abraços, pequenos beijos e mil sorrisos de tirar o fôlego. Ele se recostou no batente da porta dela, e sorriu também. Ao vê-la jogada no tapete, ligeiramente amarrotada, olhando para o aquário como se fosse a melhor coisa do mundo, ela lembrava sem sombra de dúvida que era irmã de Eve.

A ruiva mordia a parte interna de sua bochecha enquanto olhava para sua obra. Não fora, nem de longe, o seu melhor, e decididamente, para todos os efeitos, estava horrível. Ela devia ter colocado mais cor, e esperado mais tempo. Acabara cedo demais, e agora tinha em suas mãos um trabalho decididamente estragado. Era uma pena.
Suspirando, colocou um pouco na boca, e então fez uma careta, junto de Riza. A morena levantou, indo buscar um pouco d'água, enquanto engasgava.
“Eve, você se superou” Resmungou ela, tossindo e procurando alguma coisa mais gostosa para disfarçar o gosto. “É a primeira pessoa que eu conheço que consegue estragar até ovo cozido”.
“Foi o sal” Retrucou Eve, tomando água também. “Acho que coloquei demais”
“Você tirou cedo demais, ainda estava meio mole. E exagerou no óleo” Informou Riza, encontrando um pouco de chocolate. “E a salada ficou murcha, e olhe que era só pra temperar. O que diabos você fez no arroz?”
“Ele parece bom pra mim” Resmungou a ruiva, corando.
“Não sabia que você gostava dele assim marrom”.
Eve corou mais ainda, e baixou a cabeça.
“O suco está gostoso, pelo menos” Tentou Riza, sorrindo amigavelmente.
“É porque ele é de saquinho, foi só jogar na água”.
O silêncio pairou por um longo minuto na cozinha, e então as duas começaram a rir.
“Realmente, é um alívio descobrir que você é uma péssima cozinheira” Disse Riza, colocando pra longe de seu prato qualquer coisa que tenha passado pelas mãos da ruiva e quebrando outro ovo na frigideira.
“Por quê?”
“É bom saber que você não é perfeita em tudo.”
Eve sorriu, meio ofendida e meio lisonjeada. Sua barriga roncou, e ela riu de novo, junto da amiga. Perguntou se Riza queria ajuda com o almoço, e foi ameaçada com uma colher de pau.
“Fora da cozinha, ruiva, eu quero comer algo aceitável, pelo menos” Brincou Riza. Eve fez uma careta e lhe mostrou a língua, antes de sair da cozinha de uma vez, já que as ameaças estavam cada vez mais violentas.
Ela subiu para o quarto de hóspedes onde havia se instalado, e olhou para sua bagunça pessoal. Mesmo que a cama estivesse arrumada, e todas as roupas guardadas no guarda-roupa, ela usara um canto do quarto como ateliê privado, e poderia levar qualquer um à loucura.
Forrara o chão com diversas camadas pisoteadas de jornal, além de colar vários nas paredes para apararem os pingos de tinta. Seu cavalete estava montado, e ao lado havia uma mesinha de dois andares, lotada de potes de tinta e pincéis. Sua palheta estava pendurada num gancho, e vários panos úmidos viviam uma vida agitada debaixo da mesinha. Várias telas prontas se enfileiravam no chão, algumas em pilhas, nenhuma com moldura. Livros de pintura, história da arte e técnicas abarrotavam sua escrivaninha, vindos de várias bibliotecas e sebos. Uma prateleira fora assaltada por tantos livros que ela comprara que parecia se envergar aos poucos, quase desistindo e caindo de vez.
Por ter dominado totalmente a escrivaninha, ela fazia suas lições ou no chão, ou na cama, e colocara seu porta-lápis e cadernos no chão, ao lado da escrivaninha. Nas paredes, desenhos e rabiscos, projetos e ideias se juntavam, colados uns por cima dos outros, numa bagunça visual monumental. As gavetas estavam cheias de papéis parecidos, cadernos onde ela copiava frases que gostava, desenhos à lápis, secretos, do rosto de Tristan. Mesmo que o quarto fosse grande, era difícil se movimentar ali, naquela bagunça onde só a ruiva conseguia se orientar. Ela abriu seu guarda-roupa, abriu uma gaveta, remexeu um pouco e tirou um bloco de papel grosso, já com alguns rabiscos. Escolheu uma folha limpa, em branco, e procurou em seus porta-lápis um carvão. Delicadamente, começou a esboçar um rosto. As formas surgiam aos poucos, ela queria desenhar um homem que vira na rua, enquanto voltava da escola. Se interessara por suas sobrancelhas grossas e barba rala, e queria copiá-las no papel, mas estranhamente as sobrancelhas saiam finas demais para o rosto que queria. Curiosa, deixou-se levar pelo instante, ao invés de engrossa-las. As formas do rosto surgiram, enquanto ela tentava compreende-las, curiosa. Sua mão se movia rapidamente pelo papel, adicionando sombras e detalhes. Riscos, formas, e olhos surgiram, reservados, ligeiramente obscuros, com força. A boca se fez, as orelhas, as linhas de seu rosto jovem. Traços escuros deram forma a sua face, e desceram de seus cabelos, ligeiramente despenteados, caindo um pouco sobre os olhos fortes, bagunçados e suaves.
O desenho acabou, e Eve engoliu em seco. O rosto de Tristan a encarava, com um sorriso leve, meio tímido, como ele sempre fazia perto dela. Um sorriso que estava muito mais em seus olhos que em seus lábios, sempre discreto, como uma luz que brilha levemente, sem iluminar totalmente, mas jamais apagada de todo. A garota mordeu os lábios, e então encarou o carvão em suas mãos com raiva, como se o rosto ali fosse culpa dele.
Amassou o desenho, sentindo um prazer selvagem ao ouvir os estalos do papel, ao sentir que destruía aquele rosto silencioso. Transformou a obra numa bolinha que cabia na palma de sua mão, e então sorriu maldosamente ao lançá-la pelo quarto e vê-la bater na parede com força. Guardou o bloco, irritada, e jogou o carvão de qualquer jeito em seu porta-lápis. Ela precisava almoçar, depois daquilo.
Parou no meio do quarto, ouvindo o chamado de Riza para descer. Suspirou, pegou a bolinha em sua mão e a desamassou, contrariada. Alisou o desenho o máximo que pôde, sem manchá-lo, e então abriu uma de suas gavetas, tirou os cadernos pesados e o guardou ali, bem escondido, junto de outros desenhos de Tristan, todos amarrotados. Sentindo raiva de si mesma, mas com um leve sorriso em seu coração, desceu para almoçar.

A professora de artes finalmente conseguiu alguns minutos de folga, e decidiu encontrar a ruiva. Na verdade, ela estava um pouco nervosa, principalmente por ter uma mente um pouquinho gananciosa. Aquele passo era importante. Sua carreira estava, sem dúvida, terminada, e ela não sentia vontade de retomá-la. Havia coisas, coisas em sua mente e em seu coração, que diziam que ela jamais seria a mesma artista. Mas ali, entre aquelas cabecinhas ocas que surgiam todos os anos para sujarem a tela de tinta, havia uma esperança.
Ela protelara aquele momento por anos, desde que Clarisse surgira em sua sala. Era uma chance, mas ela não queria realmente agarrá-la. Sentia que não havia dom verdadeiro na menina, e se houvesse, estava encoberto por pesadas camadas de arrogância e má educação. Mas ali, naquela ruiva, havia força e dom de verdade. Pulsante, forte, ousado. Ela se lembrava da genialidade da menina em sua primeira aula, da expressão em seus olhos verdes. Ela só vira aquilo em uma única outra pessoa, e o arrepio que sentira fora o mesmo.
Havia, sem dúvida, um pouco de Jared naquela menina. E, mais do que qualquer coisa, Misty queria colocar toda aquela habilidade e genialidade para funcionar a todo vapor.

Eve fora chamada na sala da diretora, de forma discreta e firme, por um de seus professores. Ela estava almoçando com Line, Paul, Juliet, Riza e Josh. Tristan estava numa outra mesa, onde vários garotos de óculos grossos e roupas bem-passadas discutiam aos sussurros, apontando coisas em grandes papéis que o rapaz trouxera. Ele dizia que não havia fonte melhor de pesquisa e solução de problemas que os nerds da escola, que se acotovelavam para verem o software que Tristan desenvolvera, e ajudarem-o a fazê-lo funcionar. Dois dos tais nerds traziam notebooks, nos quais digitavam furiosamente. Tristan dizia alguma coisa, e ela conseguia entender algumas palavras como “funções múltiplas” e “tratamento de erros por A.I.”, não que entendesse muito.
Ela acompanhou o professor de Educação Física, os outros alunos olhando para ela com curiosidade. Sarah estava num canto escondido do gramado, enquanto Clarisse fumava (e ela tossia discretamente), e conseguiu ver a irmã rumando para o prédio principal. Não conseguiu conter o sorriso, ao ver que possivelmente ela estava encrencada, e cutucou a amiga para desfrutar também da cena.
A sala da diretora estava cheia. Além da própria Sra. Melody, havia também a professora de Artes, dois homens vestidos impecavelmente, uma moça loira de vestido manchado de tinta e uma mulher muito velha, que segurava um lenço contra o rosto, como se tivesse acabado de espirrar.
“Sente-se, porr favorr, senhorrita Bell” Disse a diretora, com seu sotaque esquisito, e apontou uma cadeira. Eve agradeceu e sentou, nervosa.
A diretora lhe brindou com um sorriso duro e rápido.
“Entendo que esteja nerrvosa, senhorrita, mas não está aqui porr alguma estrripulia.” Disse ela. “Na verrdade, a senhorra Quimberly gostarria de lhe fazerr uma proposta”
A professora de artes sorriu para ela.
“Eve, antes de mais nada, é preciso que essa conversa fique em segredo. Não queremos que os alunos tenham ideias erradas sobre isso, e principalmente que achem que estamos elegendo favoritos.” Ela sorriu. “Na verdade, fiquei muito surpresa com seu desempenho em minhas aulas. Você já tinha pintado antes?”
“Não, senhora, nunca” Era melhor prezar pela educação e a verdade. “Eu apenas desenhava, com caneta e papel comuns, e nem sabia muito sobre arte ou pintura”.
“Assombroso!” Murmurou a mulher velha, dentro de seu lenço.
“Pois bem, Eve. Sua habilidade impressionou algumas outras pessoas que conheço. Peço desculpas por não ter pedido autorização, mas acabei mostrando seus trabalhos para alguns conhecidos, que estão nessa sala. E decidimos que seu talento deve ser aproveitado, se assim você quiser”.
Ela pegou um envelope lacrado.
“Há alguns anos, o Clube de Arte de nossa cidade fez uma parceria com a Academia. Os professores procuram alunos com habilidades e dons para a pintura, escultura, literatura ou qualquer outra forma de arte, e os indicam para o Clube. Há classes especiais lá, de conteúdo avançado e dirigido. Aulas, exposições, palestras e tudo o mais. Sabia que nossa cidade já foi berço de grandes artistas? Foram alguns deles que fundaram o Clube de Arte, para que possamos preservar nossa posição e lançar futuros talentos no mundo das artes.”
Misty rompeu o lacre do envelope e o abriu.
“O Clube não possui, infelizmente, muitos alunos. É difícil e muito raro encontrar crianças com talentos que se destaquem, e para sobreviver, o Clube começou a abrir suas portas para alunos medianos, que se interessem em fazer algum de nossos cursos. Ainda assim, as classes especiais podem ser ativadas a qualquer instante, e os horários das aulas irão se adequar aos horários do aluno. Os senhores ali são Henry e Harry Immerman, os diretores do Clube de Arte. Eles vieram fazer uma proposta para você, Eve.”
Os dois apertaram sua mão e sorriram para ela.
O que devia ser Henry começou.
“Seus quadros realmente nos surpreenderam. Jamais vimos um talento tão jovem, e tão puro. Você tem o dom para a pintura, Eve, e há muito tempo procuramos alguém assim. A técnica que lhe falta nós podemos ensinar. Palestras, amostras, viagens, intercâmbios. Nosso Clube possui verbas, podemos lhe dar uma formação artística que poucos possuem.”
O que devia ser Harry continuou.
“Se a senhorita aceitar, podemos começar imediatamente. Poderá estudar três vezes por semana em nosso Clube, em sessões de três horas, durante o final da tarde. Segunda, terça e quinta. Das cinco até as oito, sem problema algum, e poderá desfrutar de nossa biblioteca, galerias e qualquer material que tivermos disponível.”
O que devia ser Henry completou.
“Por falar nisso, meu nome é Harry”.
O que devia ser Harry concordou.
“E eu sou Henry”.
Eve sentiu que desde que intuição para adivinhar nomes não fosse requisito para entrar, ela estava mais que empolgada, e aproveitaria ao máximo.
“Mas...” A realidade a sacudiu. “Quanto isso vai custar? É um clube privado, não?”
Os dois homens deixaram seus sorrisos se apagarem.
“Sim. Na verdade, nossos cursos são caros. As mensalidades, os custos, pagar professores especiais, entenda, não é barato.”
A professora lhe passou um papel. Havia números demais ali para que ela gostasse. Sentiu seu coração se apertar. Se pedisse à Riza, Tristan ou Josh, com certeza pagariam aquilo para ela, mas não era certo. Principalmente pedir para Tristan, já que estava brigada com ele, ou para Riza, que tinha seus próprios gastos e cursos. Ela sorriu, tristemente.
“Eu agradeço realmente a oferta, e fico muito honrada por tê-la recebido, mas não posso pagar.” Ela tentou fazer sua voz não demonstrar toda a tristeza que sentia. “Não posso aceitar.”
Estranhamente, a senhora idosa lhe sorria, por baixo do lenço.
“E é aí que entra minha proposta, também.” Disse ela, bem-humorada.
Eve ficou confusa.
“Eu sou Alva.” Disse-lhe a velhinha. “E também fiquei impressionada com seus quadros, senhorita Bell. Na verdade, nós todos examinamos sua situação financeira quando pensamos em fazer-lhe a proposta, e sabíamos que a senhorita não conseguiria bancar as mensalidades do Clube. Mas seria uma pena gigantesca desperdiçar um talento como o seu. Por isso, eu, a Academia e os senhores Immerman fizemos um acordo.”
Ela abriu a bolsa e tirou um livrinho de dentro, e vários papéis.
“O acordo é o seguinte:” Ela colocou grandes óculos de leitura e começou a ler o que o livrinho dizia. “A senhorita Eve Bell receberá um desconto de 20% em sua matrícula na Academia Melody. Esse dinheiro será doado inteiramente ao Clube de Arte, para pagar integralmente os custos de compra de materiais. O Clube de Arte generosamente irá dar um desconto de 50% no valor da matrícula especialmente para a senhorita Bell. E finalmente, eu, como diretora do Museu de Arte e Cultura da cidade, ofereço uma vaga de meio período para a senhorita Eve Bell, sendo todo o dinheiro de seu salário utilizado para pagar as mensalidades do Clube”. Ela fechou o livrinho. “Desta forma, se a senhorita aceitar, trabalhará para mim nas tardes de quarta e sexta e durante todo o sábado. Eu também lhe pagarei o almoço neste último dia. Desta forma, a senhorita poderá pagar as mensalidades do Clube, o material das aulas, e terá ainda a segunda, terça, quinta e domingo para fazer suas lições de casa da Academia e do Clube.” Ela lhe deu uma piscadela. “E tempo para sair com seus amigos e namorado”.
Eve corou até a raiz dos cabelos, e todos sorriram.
“Você aceita, Eve?” Perguntou a professora. “Vai ser um horário corrido, mas pode lhe trazer grandes vantag...”
Ela não pôde terminar, pois Eve se jogou sobre ela num abraço apertado. Nem mesmo Melody pôde reclamar daquela falta de etiqueta. A garota tinha lágrimas nos olhos enquanto dizia “sim”, e tantos obrigados a todos que pareciam não ter fim.
Finalmente ela se acalmou, assinou todos os contratos e recebeu um envelope.
“Para cumprir todas as formalidades” Disse Henry, ou Harry, ela já tinha se confundido novamente. “Você terá de entregar esta lista de trabalhos. Terá de comprar o material, e obedecer a todas as exigências. Se for aprovada pelo nosso conselho, poderá começar suas aulas na semana que vem, se conseguir entregá-los esta semana. Se não for aprovada, receberá seus trabalhos de volta para refazê-los e terá outra chance, começando no próximo mês. Boa sorte”
Ela agradeceu e finalmente saiu da reunião, abraçada no seu maço de envelopes, contratos e guias. Conseguira uma chance de ouro, um emprego e poderia finalmente se dedicar a algo que lhe dava prazer e tiraria um pouco as preocupações de sua cabeça. A professora de artes a segurou.
“Mais uma coisa, Eve” Disse ela, enfiando um folheto em suas mãos. “Participar não é obrigatório, mas eu ficaria realmente feliz se você o fizesse.” Então piscou e saiu para dar sua aula.
Enquanto ela lia, Tristan, Riza, Paul, Josh, Line, Juliet, Clarisse e Sarah faziam o mesmo, onde estivessem. O folheto era colorido, mas simples, e anunciava em letras grandes.

XXI CONCURSO DE TALENTOS DA ACADEMIA MELODY

MOSTRE SEU TALENTO E CONCORRA A PRÊMIOS!


Ela sorriu. Iria participar. E, mesmo sem saberem, todos os seus amigos pensavam exatamente a mesma coisa que ela.


Capítulo 21

Birthday Eve

Capítulo 21

Arty. A irmã. Aliança.



Arty sorriu vivamente ao ver Eve sã e salva, e era uma pena que estava daquele jeito, pois adoraria poder abraçá-la. A garota tinha lágrimas nos cantos dos olhos, e Riza parecia machucada, enquanto os rapazes ficavam mais para trás, sem jeito.
“Oras, eu não estou morto, pra quê essas caras?” Resmungou o homem, dando um peteleco num tubo chato que o atrapalhava. Vê-lo na cama de hospital, com ataduras e milhares de fios e tubos em seu corpo era realmente horrível, e Eve sentiu seu coração se quebrar.
“Arty...” Disse ela, abafado. Então ela o abraçou com cuidado, e ele sentiu o perfume suave dela, e sorriu, agradecido.
George bateu de leve na perna do irmão, mas Arty não percebeu. O médico engoliu em seco, e desviou o olhar.
“Então é verdade que...” Começou.
“Não dá pra explodir uma dinamite num lugarzinho apertado e sair inteiro, mano” Disse o outro, conformado. “Podia ser muito pior, e não me importo muito mesmo”.
Ele apontou para a cadeira de rodas que aguardava do outro lado da cama.
“Passei a maior parte de minha vida sobre uma cadeira com rodinhas. Não vai fazer diferença nenhuma. Tenho meus braços e todos os meus dedos, posso continuar a trabalhar. Nada vai mudar, só vou ter que dar uma reformada em meu banheiro”.
Mesmo com sua fala animada, a visão de seus braços e tronco enfaixados e o cobertor escondendo suas pernas para sempre inutilizadas era terrível demais para aguentar. Eve e Riza se abraçaram e soluçaram juntas, baixinho, enquanto Tristan e Josh se aproximavam. Sarah estava no corredor, do lado de fora do quarto, esperando pacientemente.
“Não liguem pra tudo isso” Disse Arty, fazendo um gesto com a mão. “Tenho coisas mais importantes para dizer”.
Ele se ajeitou na cama, e suspirou, fechando os olhos e tirando os óculos.
“Há um homem que se chama Mallick. Esse não é o nome dele, e acho que apenas ele, no mundo inteiro, deve saber seu verdadeiro nome. Mallick fez muita coisa, e lutou em várias guerras, dos mais diversos modos. Ele é um estrategista natural, e tem uma inteligência afiada e horrível. Para ele, tudo é guerra. O país, para ele, está acima de qualquer coisa que exista. E ele faz qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para ter mais poder.”
Eve se arrepiou, e Tristan tentou colocar um braço ao redor dos ombros dela, mas ela se moveu para a frente, talvez sem perceber sua intenção, e ficou fora de seu alcance.
“Mallick não tem escrúpulos, e tem uma visão bem distorcida das coisas. Ele me tirou da cadeia, há anos, e me enfiou num laboratório. A maior parte do sistema que o país usa hoje foi inventada por mim, e assim ele foi meu chefe por um bom tempo”.
Arty olhou para fora, era difícil revelar aquilo olhando nos olhos verdes e lindos da ruiva à sua frente.
“Eu jamais conseguiria fugir daquele lugar. Era simplesmente impossível. Mas Mallick sempre pensa muito mais a frente que nós, então ele armou um plano que me libertaria, aparentemente. Nunca mais teria de ficar naquele laboratório, mas eu tinha que ficar escondido. E relatar tudo, tudo que acontecesse na rede para ele. E caso algum serviço surgisse, eu o faria em meu novo esconderijo. Eu sempre pensei que seria uma oportunidade de ouro. Criaria o esconderijo perfeito, e nunca mais teria que olhar para aquele monstro. Era, é claro, apenas uma ilusão. Mallick tem olhos por toda a parte, e nada se esconde dele.”
Ele olhou para Eve, mas evitou seus olhos.
“Desde o dia que Riza me contou sobre você, Eve, eu comecei a mandar relatórios para Mallick. Contava tudo que sabia sobre você, sobre a empresa que você foi criada. Gravei minhas conversas com Tristan durante o episódio que você foi raptada e mandei uma cópia para ele. Tudo, tudo, ele sabia. Eu sou um grande, um sórdido, espião.”
A temperatura da sala começou a cair, enquanto o silêncio reinava. Arty estava sufocando, de medo, de vergonha, de ódio de si mesmo. Ele precisava terminar, contar tudo, antes que não tivesse mais chance.
“O endereço que eu dei ao Tristan, do laboratório, era falso. O governo sabe como eu trabalho, e eles possuem cópias de todos os meus códigos. Mallick invadiu o meu rastreamento e implantou um resultado falso. Na verdade, se você tivesse ido para lá, ele iria te capturar, Eve. Ele... Ele... Mallick não te considera humana. Ele acha que, por você ter sido feita em laboratório, não é uma pessoa de verdade. Ele quer te examinar, descobrir como você foi feita. E então ele quer criar um exército particular de pessoas como você para lutar nas guerras que possam acontecer... E para isso, ele... precisa te destruir, Eve. Ele quer te matar”.
A ruiva tremia. Suas mãos se fecharam, agarrando uma ponta da coberta de Arty. Ela parecia que ia desabar, e todos se precipitaram para segurá-la, mas então tudo passou. Eve levantou a cabeça, e seus olhos verdes faiscavam. Ninguém, além de Tristan, vira aquela expressão nela. O castanho sorriu discretamente.
“Eu não vou deixar” Disse ela. Arty pareceu confuso, e ela sorriu largamente. “Ele não vai colocar as mãos em mim. Ele nunca vai me capturar. Eu vou ter uma vida normal, e não importa quantas pessoas queiram destruir isso, nenhuma delas vai vencer”.
Arty suspirou.
“Fico feliz com isso” Ele baixou a cabeça. “Eu não vou mais mexer com computadores. Nunca mais. Isso só causou desgraça para as pessoas. Vou sair do país, acho. Algum lugar sem internet”.
Eve o encarou.
“Você vai desistir?”
O tom que ela usou era de arrepiar, e Arty quase engoliu a língua.
“N-Não é isso, Eve, entenda, eu apenas... não quero trazer mais problemas pra você, entende?”
“Você me denunciou, Arty” Disse ela, o forçando a encará-la. “Você acha que se Mallick for mesmo que apenas um terço do que eu imagino ele te deixaria sair do país? Você é um gênio, Arty, e sabe tudo sobre o governo. Se você tentar algo assim, vai voltar pra prisão. Ou então vai ser morto.”
Tristan não deixou de ficar orgulhoso ao ver como ela tinha evoluído. Eve parecia muito mais consciente do mundo ao seu redor, e com certeza ela era inteligente. Às vezes, ao ponto de assustar.
“Arty, você é o único que pode fazer algo” Continuou ela. “Mallick não vai deixar eu ou você em paz até que coloque suas mãos na gente. Não adianta nós ficarmos nos escondendo a vida inteira. Ao invés de esperar que ele dê o próximo passo, nós vamos atacar. E se ele tentar outro movimento, nós estaremos preparados.”
Arty se animou um pouco, mas não muito.
“Mas como podemos fazer isso?”
“Arty, você construiu o sistema do governo. Você sabe como tudo funciona. Eu não entendo muito de computadores, mas sei que computação é matemática, e isso eu conheço. E na matemática, é possível fazer tudo, se você tiver imaginação o suficiente. Você já tem as bases, o sistema é seu. Pense nas possibilidades, não são muitos que conhecem tão a fundo como você a computação. Como eles poderiam ter atualizado ou incrementado seus códigos? O que eles poderiam ter construído em cima de seu sistema? Como você poderia construir algo que vencesse o seu próprio sistema antigo e mais o que eles fizeram? Onde estão as falhas de seu sistema antigo? Computação evolui rápido, um código de anos atrás já deve estar desatualizado, mas construir tudo de novo seria perda de tempo para eles. Tudo que eles poderiam fazer então...”
“...são correções de segurança!” Exclamou ele. “E criptografias novas, eles não iriam reconstruir tudo, realmente, mas as camadas alternadas de código que fiz já estão falhas, e para implementarem construções complexas eles teriam de refazer boa parte do código, e talvez houvessem conflitos. Eles devem ter usados novos códigos, rodando em cima do meu, e isso pode ser explorado! Claro, é muito difícil... Eu precisaria construir um computador do zero, pra começar, algo monstruoso, de múltiplos núcleos, cadeias alternadas, e precisaria ser algo realmente especial. Resfriado com hidrogênio líquido. HD's gigantescos, e um sistema operacional totalmente novo. Eu precisaria usar equações quânticas. Ondas alternadas. Bytes mutantes. Cadeias aleatórias...”
Arty colocou os óculos, e parecia novamente agitado. Idéias brotavam dele como se alguma barragem tivesse rompido em seu cérebro.
“Eu nunca tinha pensado em algo assim. Um sistema feito para derrotar um sistema. Se eu conseguir construir isso, ficaremos com muito mais poder que Mallick. Poderemos derrotá-lo enfim! Nunca mais ter que me esconder! Poder finalmente patentear minhas invenções, sem nenhuma preocupação!”
Tristan sorriu. Eve parecia ter acendido alguma coisa na alma do homem. Ela virou para eles.
“Eu posso contar com vocês?” Disse ela.
Como se fossem um só, todos concordaram.
“Qual o plano, Eve?” Perguntou Josh, animado como nunca. Ela sorriu para ele.
“Sei que é pedir demais de todos vocês, mas preciso realmente de ajuda. Tristan, você é o melhor com computadores, você pode ajudar o Arty? Duas cabeças vão pensar melhor que uma, e quatro mãos vão acelerar o trabalho. Riza... Você sabe tudo de veículos e motores. Se algum dia algo acontecer, e eu estiver sozinha, preciso saber me virar. Você pode me ensinar a dirigir, e outras coisas?”
Riza assentiu, sorrindo, mas ainda meio triste, e Tristan a abraçou protetoralmente, concordando com sua parte no plano também.
“George, eu preciso saber mais sobre mim mesma. Você pode fazer um levantamento de tudo que eu consigo ou sei fazer? Preciso saber se eu tenho alguma alergia também, ou algum problema. E eu preciso também de mais aulas de luta, Tristan, se eu puder pedir. E Josh...”
Ela olhou para o amigo loiro, que esperava, excitado.
“Eu não quero Sarah nisso. Ela também está em risco agora, afinal ela também foi feita em laboratório. Preciso de sua ajuda para protegê-la. Ela não pode acabar nas mãos do Mallick, entendeu?”
Então ela sorriu, colocando uma mecha ruiva rebelde atrás da orelha.
“E agora eu preciso de uma coisa muito importante. É vital para que tudo dê certo”
Todos se mexeram em expectativa. Ela abriu um grande sorriso e seus olhos brilharam como esmeraldas.
“Eu não tomei café da manhã e estou morrendo de fome. Quem sabe fazer panquecas?”
E o quarto explodiu em gargalhadas.

Aos poucos a rotina foi se acertando. Eve conseguiu encenar uma grande explicação na escola, e suas aulas voltaram ao normal. Riza estava começando a lhe ensinar a dirigir e a cozinhar, e morar com outra garota era realmente muito mais divertido que a ruiva imaginara. Mesmo que às vezes tivesse que mandar sua própria cabeça idiota calar a boca e parar de pensar num castanho idiota.
Tristan sentiu realmente a falta da ruiva em sua casa, e quando não estava estudando ou construindo um super-computador com Arty, ele criava planos de como conquistar Eve de volta. Pensar nela doía demais, e ele mergulhava no trabalho, soldando placas e construindo programas complexos. Arty, que demorou mais alguns dias para poder voltar a seu esconderijo, sob uma licença especial de George, estava realmente satisfeito com o desempenho de seu “aprendiz”, e ia de um lado para o outro em sua grande cadeira de rodas reforçada, construindo aos poucos o mais incrível computador do mundo.
Riza parecia ter superado um pouco o que Robert lhe fizera. Sorria menos e parecia mais cansada, e decididamente mais madura, mas ainda era Riza, afinal. Decidira, porém, quebrar de vez todas as relações amorosas que poderia ter, e trancou bem fundo qualquer sentimento do tipo em seu coração, decidindo que, por enquanto, estava ferida demais para começar algo novo com alguém. Eve às vezes tentava conversar com ela sobre isso, mas na maior parte do tempo evitavam os assuntos nesse campo, as duas feridas por quem amavam e realmente decepcionadas com os rumos de seus relacionamentos amorosos.
Sarah e Josh eram um caso esquisito. Ele tentava investir na relação que tinham, que não passara daquele primeiro beijo, e ela parecia ignorá-lo. A garota era incrível e absolutamente inteligente, com habilidades que superavam as de Eve em muitos aspectos, mas ainda era praticamente uma criança. Ela mantinha alguns traços bem característicos de Eve, como às vezes congelar no lugar para ficar admirando coisas absolutamente normais, como um caminhão de bombeiros e o rádio da cozinha. Sua maior paixão, porém, eram peixes, e com o dinheiro que Josh lhe dera, ela iria comprar um aquário para seu quarto. A relação entre ela e Eve ainda era estranha, duas completas desconhecidas repentinamente se descobrindo irmãs não era algo simples de lidar.
E era por isso que Eve ficou nervosa ao sair da sala e encontrar uma garota do primeiro ano que esperara no corredor por longos minutos por ela. Os garotos se acotovelavam e quase esmagavam uns aos outros na ânsia de correr até ela para admirar a beleza de tirar o fôlego daquela aluna nova, e para se apresentarem formalmente à ela, mesmo que a mais nova aluna da Academia Melody tratasse a todos com apenas um sorriso, um “muito prazer” e rapidamente os ignorasse, como se eles tivessem ido embora de repente.
A ruiva sorriu nervosamente e segurou Juliet, Line e Paul, e os arrastou até a loira, que estava incrível no uniforme de inverno da escola, brincando distraidamente com sua gravata.
“Pessoal, esta é minha irmã, Sarah. Sarah, estes são Paul, Line e Juliet, meus amigos”.
O corredor ficou em silêncio mortal. Todos os olhos pulavam da ruiva para a loira, como se tentassem somar uma equação terrivelmente complexa e muito injusta sobre a divisão de beleza entre as famílias do mundo.
Line se adiantou, sorrindo, e ainda ligeiramente chocada.
“Eu sou Caroline, mas pode me chamar de Line. Muito prazer” Ela beijou o rosto da outra. “Eu não sabia que Eve tinha uma irmã”.
Paul se adiantou a apertou a mão da menina, também se apresentando.
“Eve veio primeiro para a cidade” Contou Sarah. “Eu fiquei com nossa família mais um tempo, mas nossos pais decidiram que eu também deveria vir. Já faz algum tempo que eu e Eve não nos vemos, então é normal que ela não tenha comentado muito sobre mim”.
Juliet a beijou no rosto também, mas uma análise mais apurada em seus olhos mostraria que ela estava quase pulando em cima da loira e a agarrando na frente de todo mundo. Paul segurou discretamente seu braço, rezando para que ela percebesse que estava quase salivando em cima das duas irmãs perfeitas.
Tentou desviar a atenção.
“Se vocês duas são assim...” Comentou, rindo. “Imagino como são seus pais...”
O corredor inteiro começou a tentar resolver uma nova equação de beleza para conseguir imaginar que tipo de casal dá a luz àquele tipo de irmãs.
Eve e Sarah deram sorrisos idênticos, como se compartilhassem alguma piada secreta. Elas tinham ensaiado toda a história alguns dias antes.
“Acho que vocês não iriam acreditar” Disseram juntas. Então se encararam, surpresas, e riram. Algumas garotas que passavam no corredor decidiram que a vida era injusta demais e que jamais falariam novamente com aquelas duas. Há um limite, entenda, e aquilo era inaceitável. Era uma verdadeira afronta, aquelas duas!
Sarah e Eve trocaram algumas palavras, e a loira se distanciou, sabendo que forçar sorrisos por tanto tempo causaria rugas em seu rosto. Ela decidiu ir ao banheiro e retocar a leve maquiagem que usava, e ficar um pouco longe daqueles olhares cobiçosos de todos e da alegria idiota de sua “irmã”. Ela precisava de um pouco de paz, ou ficaria louca.
Outra loira estava defronte ao espelho do banheiro, passando batom nos lábios. Não era nem de longe tão absurdamente bela como Sarah, mas também era linda. Pela aparência, devia ser mais velha, talvez na mesma classe que a panaca ruiva. Sarah começou a construir um sorriso de alegria e animação, quando a outra virou os olhos para encarar o reflexo de Sarah.
“Não precisa fingir que está feliz em me ver” Disse, suavemente. De mentirosa profissional para mentirosa profissional. Sarah ficou aliviada, e tirou o rímel da bolsa.
“Então você é irmã da ruiva” Disse a mais velha, tirando o pó compacto de sua bolsinha.
“Infelizmente” Suspirou a mais nova, separando os cílios com delicadeza e esmero.
Clarisse sorriu largamente.
“Problemas familiares?”
“Talvez”
Elas encaravam o reflexo uma da outra, enquanto davam os toques finais em suas maquiagens já impecáveis.
“Ela é tão irritante
“Nem me fale”
Bom dia Clarisse, como você está?” Imitou uma.
Sarah, você é a melhor irmã do mundo!” Imitou a outra.
Elas fingiram que iam vomitar.
“Seria ótimo se ela desaparecesse”.
“Sumisse completamente”.
“Nunca mais desse as caras por aqui”.
“Tem um ótimo rio ali perto, muito discreto, sabia?”
“Huum, não tão discreto como aquele matagal aos fundos da escola”
“Ninguém nunca descobriria”.
“Sem provas”.
Elas viraram uma para a outra ao mesmo tempo, e sorriram juntas.
“Sarah Bell”
“Clarisse Johnson”
Elas apertaram as mãos, e então guardaram as suas coisas.
“Sabe, não é fácil encontrar alguém inteligente nessa escola” Disse Clarisse, satisfeita, enquanto esperava por Sarah.
“Eu digo o mesmo, é realmente um alívio quando encontramos uma” Respondeu Sarah.
As duas se encararam, piscaram uma para a outra marotamente e então armaram sorrisos perfeitos de inocência e doçura. Juntas, saíram do banheiro.

Capítulo 20

Birthday Eve

Capítulo 20

A verdade. O encontro. A surra.


Eve. Eve sentada. Eve deitada. Eve sorrindo, chorando, cantando distraída. Eve desenhando, tão fofa, concentrada no papel. Eve tomando banho, totalmente nua, como ela tanto gostava de ficar. Dormindo, tranquila. Brava, perseguindo Tristan e Josh, por alguma coisa que eles tenham feito. Olhando com sublime adoração enquanto Tristan cozinhava algo gostoso para ela. Eve. Eve. Eve.
Riza tocou a parede. Precisava se apoiar, ou desabaria no chão. Eve lhe olhava do chão. Das paredes. Do teto. Das mesas cobertas de produtos químicos para revelação. Dos varais mal-feitos, que pendiam por todos os lados acima de sua cabeça, como uma teia abandonada. Fotos. Fotos de todos os tamanhos, formas. Algumas estavam em grandes álbuns encadernados, outras em molduras douradas. Sobrepunham mapas, anotações, cobriam o tapete. Rabiscos, planos, maquinações, anotações que se espalhavam no chão coalhado de imagens da ruiva.
Robert suspirou, meio como se tivesse sido apanhado com uma revista indecente em mãos. Meio como se tivesse que matá-la naquele instante, e não estivesse nada satisfeito com isso.
Riza tremia, tremia de horror, de medo, de repulsa. Seus olhos azulados estavam arregalados, marcados de dor. Suas mãos escorregavam da parede, cobertas de suor gelado. Ela esqueceu que estava enrolada num cobertor, esqueceu todo pensamento sobre a noite, sobre a vida que se seguiria. Tudo que conseguia ver era o rosto lindo da ruiva, que a olhava por todos os cantos.
Os olhos se fixavam nela, acusadores, traidores, amedrontados. Gritavam com ela, berravam súplicas e maldições. Ela abrira a porta do inferno, e todos os demônios eram terríveis ali.
“Robert” Chamou ela, num fiapo de voz que mal saía dos lábios trêmulos. “O que é isso?”
“Eu...” Ele pigarreou, parecendo ligeiramente culpado. “Eu posso explicar.”
Ele ajeitou o cabelo com uma das mãos, então deu um sorriso meio irônico.
“Na verdade” Se corrigiu. “Acho que não posso não.”
Riza queria sair dali. A sala se apertava sobre ela, e os demônios das paredes pareciam ainda mais cruéis. Eles a chamavam, a convidavam para noites de medo e morte. Mortes sem fim, que se seguiriam até o fim dos tempos. Torturas que ela jamais conseguiria aguentar, mas que perdurariam enquanto sua existência continuasse.
“Robert, o que é isso?”
O rapaz suspirou, e sorriu de novo, parecendo simplesmente incomodado, como se seus planos para a noite fossem estragados por uma chuva que não previra.
“Acho que é bem óbvio, não é?” Ele perguntou, ligeiramente sarcástico. “São fotos”.
O coração de Riza se quebrou. Não do jeito que ela imaginava que um dia poderia acontecer. Ele não se esfarelou, não se rompeu ou rachou. Simplesmente pareceu estourar dentro de seu peito, numa pontada tão forte que ela perdeu o ar. O gosto amargo de bile comeu sua língua, e ela sabia que ia vomitar, bem ali, na frente dos demônios, dos horrores ruivos que a olhavam com ódio e temor.
“Você...” Era difícil sequer olhar para aquele monstro ao seu lado, mas a visão das criaturas na sala era ainda pior. “Você está... perseguindo Eve?”
“Sim”.
Seus joelhos não aguentaram mais. Desabou, mas nem sentiu a dor. Simplesmente desmontou, como algum castelo de cartas que alguém soprava. Seus membros se amontoaram, como cabides velhos deixados para trás. A cabeça bateu no peito, o cobertor a descobriu um pouco, e ela não reagiu.
“Sabe, Riza” Começou o rapaz. “Foi uma sorte você estar por aí. Nunca foi tão fácil. Eu tenho alguma experiência no assunto, mas o desafio que imaginei que seria me aproximar de você, e de Eve, simplesmente não existiu.” Ele riu, e seu riso a queimou como ácido. “Você é tão descontrolada, tão simplesmente cega, que em cinco minutos te vigiando eu já sabia tudo o que precisava para meu plano funcionar. Comprar a moto foi a parte mais complicada do plano, posso dizer. Quando a joguei em cima de você e vim com a história de paixão por motociclismo... Você simplesmente comeu na minha mão. Frustrante, eu diria. Onde está a graça, a aventura da coisa, se você facilita tanto assim?”
Ela não queria ouvir. Não queria respirar, não queria viver. Mas suas mãos eram pesadas, muito pesadas, os demônios as seguravam, as mordiam. Ela não podia cobrir os ouvidos, não podia ignorar a voz. Soluçou.
“Eu estava tão perto. Ousaria dizer que hoje mesmo você iria me levar até aquela casa. E então tudo terminaria. Eve estaria comigo, e eu iria embora. Foi assim com todas as outras, todas. Mais alguns passos, e eu estaria livre de você, e teria a ruiva. Mas você tinha que se meter onde não era chamada, não é?”
As lágrimas corriam em silêncio pelo rosto da morena. Seus olhos estavam arregalados, abertos para as trevas que ela podia ver sem fim. As palavras eram açoites, eram brasas com que ele a surrava.
“Sabe como é difícil bancar o namoradinho romântico? Ainda mais para uma garota assim sem graça como você? Se pelo menos tivesse valido a pena ter te comido... Eu não sou de me gabar, mas sinceramente, eu merecia algo melhor.”
Ele sorriu, cruel como o diabo.
“Ainda bem que você gemia como uma cadela, senão eu teria dormido”
Riza levantou, de forma suave como uma pluma. Seus passos se distanciaram dele, em silêncio, cuidadosos. Ele pareceu estranhar aquela reação, e ficou parado um pouco mais do que seria necessário.
Há vantagens em ser “irmã” de Tristan.
Ele jamais soube o que o acertou. Mas foi direto na garganta, e todo o ar sumiu, enquanto ele sentia gosto de sangue. Riza não lutava, não batia. Mas tinha vantagens em ser forte o bastante para desmontar uma moto inteira, e passar anos vendo golpes sendo treinados num quintal. O cobertor escorregou de seu corpo, e ela derrubou um dos varais, espalhando as fotos de Eve pelo chão. Elas flutuavam ao seu redor, como se paradas no tempo, enquanto ela usava o barbante grosso para estrangular Robert.
A corda queimava suas mãos, seus pulsos, mas ela não parava de puxar. O rapaz cuspia e gorgolejava, como se sua garganta estivesse cortada, o ar fugindo para sempre de seus pulmões. Riza gritou, gritou com toda a sua alma, gritou até quase desmaiar, e sentir que jamais falaria novamente. Gritou até que seu coração destruído saísse pela boca escancarada.
Ela o soltou, e seus braços se enrolaram nos varais. Puxou, cortando os pulsos na corda, derrubando fotos e mais fotos. As mesas viraram, os produtos químicos fedidos manchando tudo. Arrancou Eve das paredes, do teto, pisoteou as fotos com os pés nus. Seus braços sangravam, sua garganta doía, seus olhos pareciam morrer em lágrimas sem fim. Robert estava no chão, tossindo, vomitando. Sangue saía de sua boca, e não era o suficiente.
A garota correu, correu e se enrolou num cobertor manchado, correu como se nada existisse além da fuga, a fuga desvairada dela mesma.
Seus pés nus afundaram na chuva, e os pingos lamentosos pousaram em seus cabelos. Ela olhou para cima, para os céus cinza-chumbo, e o sol da manhã já não estava mais ali. Nada estava mais ali. Enrolada na manta, enrolada em barbante, sangue e medo, Riza chorou na chuva, chorou o amor perdido, a inocência perdida, o coração que morrera.
E foi assim que foi encontrada.

Eve acariciou os cabelos da amiga. O abraço entre elas era desesperado, profundo, como se o mundo dependesse daquilo. O coração da ruiva estava cheio de ódio, de ternura, de força, e de uma fome quase irracional de vingança. Vingança do que destruíra Riza, do que pretendia destruí-la. E juntas elas choraram, e adormeceram.
Quando Riza acordou, Eve estava mordiscando uns biscoitos que encontrara na cozinha. A morena estava deitada na cama que um dia fora da ruiva, e estava trocada, limpa e penteada. Curativos estavam em seus braços, e havia uma jarra de água ao seu lado. Ela tomou direto da jarra, deixando a água escorrer por seu queixo, indo fundo na garganta dolorida, parecendo purificá-la até os ossos. Lembrou-se da chuva. Talvez aquela água fria lavasse um pouco de seus pecados, e de suas dores.
“Eve?” Murmurou, rouca.
A garota pareceu enxugar os olhos, e sorriu. Seu nariz estava vermelho.
“O que foi?” A preocupação de Riza era meio desbotada. Seu coração não era mais o mesmo, talvez. Se é que ela ainda tinha um.
“Nada, nada. Como você está?”
“Morta”
Eve tocou os curativos do braço da amiga. Alguns dos cortes ficariam, como uma lembrança. Outros desapareceriam, o tempo curando aos poucos. Ela se lembrou de uma frase, que nem lembrava que conhecia.
“O tempo não cura, apenas tira a atenção do que é incurável” Murmurou, meio que para si mesma. Riza deu um sorriso fraco.
“Muito animador”
Era estranho fazer aquilo, naquele instante, mas a ruiva riu. E foi de ver a amiga rindo que Riza soube que jamais a culparia por aquilo. Jamais a culpa cairia sobre aqueles ombros.
“Você estava chorando?”
“Não é nada” Cortou a garota. “Você quer comer alguma coisa?”
“Que horas são?”
Eve espiou o relógio.
“Já anoiteceu. Quase dez”.
O estômago de Riza roncou, mas ela sabia que não conseguiria comer.
“Onde estão os garotos?”
A ruiva pensou em esconder aquilo, talvez contar mais tarde. Mas sabia que Riza merecia a verdade.
“Eles foram atrás de Robert”.
Riza soluçou na menção daquele nome.
“Pra quê?”
A amiga sorriu com ternura para ela, e a fez se deitar mais um pouco.
“Você acha que Tristan conseguiria ficar quieto depois do que aquele verme fez com a irmã dele? Josh decidiu dar uma trégua na briga dos dois para ajudá-lo. Ele disse que qualquer problema fica em segundo plano quando Riza precisa de ajuda. Eles passaram a tarde se revezando para cuidarem de você. Até George eles chamaram para te examinar.” Eve omitiu a parte que duvidava que o maldito perseguidor fosse sobreviver quando o encontrassem.
“A polícia já foi avisada, e está atrás dele. Revistaram a casa, e encontraram provas de outros crimes daquele monstro. Eles queriam que você testemunhasse, mas... Mas nós pedimos tempo, e eles também acharam melhor esperar.”
“Eu transei com ele”
Aquilo foi tão súbito, que as palavras demoraram algum tempo para que Eve as compreendesse totalmente. Riza olhou em seus olhos.
“Eu transei com Robert. E ele me disse coisas...”
“Nós sabemos. Você contou tudo.”
Riza não lembrava, mas se sentiu um pouco melhor. Não aguentaria contar tudo aquilo de novo.
“Eve”
O chamado era tão suplicante, que a garota não pôde resistir. Ela abraçou Riza, e as duas ficaram sentadas assim por um bom tempo, em silêncio. E então conversaram. Uma conversa de verdade, como poucas vezes acontecera. Enquanto viveu, Eve jamais revelou aquelas palavras a mais alguém. Naquela noite de chuva e medo, as palavras que trocaram ficariam eternamente em seus corações.

Robert arfava, apertando a própria garganta, enquanto se escondia num beco ligeiramente engordurado. Uma montanha respeitável de sacos de lixo estava perto dele, e dois gatos esqueléticos disputavam algum tipo de jogo felino sombrio numa caixa de papelão. Ele cuspiu um pouco de sangue. Aquela maldita já chamara a polícia, com toda a certeza. Ele teria de desaparecer por uns tempos, teria de revirar suas contas alternativas que guardava para momentos como aquele. Era uma droga, ele estava tão perto de colocar as mãos na ruiva...
Duas figuras surgiram na entrada do beco. Josh trazia apoiado no ombro um grosso cano de metal que com certeza não seria usado em alguma construção. Na verdade, os dois estavam mais inclinados para a demolição.
O falso motoqueiro engoliu em seco. Os dois se aproximavam dele, ódio puro nos olhos.
“Ninguém mexe com a nossa irmã e fica numa boa, sabia?” O sorriso de Tristan não era nem um pouco gentil. Josh se preparava para começar a “lição”, quando uma caminhonete amassada parou na entrada do beco, e George saiu do carro.
“Vocês estão loucos?” Disse ele, irritado. “O que diabos está passando pela cabeça de vocês?”
Os dois rapazes se calaram, e Robert sorriu disfarçadamente. Estava salvo!
George sorriu malignamente.
“Como é que vocês fazem algo assim, sem me chamar pra participar?”
E Robert sabia que estava realmente ferrado.

Eve tremia levemente de nervosismo. Josh e Tristan, amarrotados e satisfeitos, pareciam ter finalmente feito as pazes. E depois de uma incrível história e muitos gritos, ela soubera que agora tinha uma irmã. Estremeceu.
Riza estava sentada na poltrona. Parecia abatida, e decididamente machucada, mas George lhe dera chá e fizera carinho em seus cabelos por um bom tempo, e mesmo que ninguém tivesse comentado sobre o que os garotos fizeram naquela noite, ela parecia se sentir um pouco vingada por tudo que Robert tinha lhe feito.
Josh estava trazendo Sarah. Só de imaginar ganhar uma irmãzinha assim e ela já sentia um aperto na boca do estômago. Era ao mesmo tempo a coisa mais maravilhosa e aterradora que acontecera em sua vida, e ela sentia que realmente não estava preparada para aquilo.
A campainha soou, e Tristan destrancou a porta. Riza sorriu fracamente para ela. Era a hora de conhecer a mais nova Bell.
Sarah entrou, arrancando o ar dos garotos. George tentou disfarçar, mas ele ficou totalmente caído pela garota, imediatamente. O maldito loiro realmente sabia fazer uma garota.
“Pessoal, essa é a Sarah” Apresentou Josh, nervoso também.
Não havia dúvidas. Ninguém podia ser naturalmente tão lindo e perfeito assim. Os olhos azuis incríveis da garota se pregaram em Eve e uma emoção profunda surgiu neles, para logo em seguida ser apagada. Eve se aproximou, e Riza pareceu realmente surpresa. Devia ser impossível haver uma garota mais bela que a ruiva, mas havia. Sarah era mais perfeita que qualquer outra.
“Sarah” Disse Eve, num sussurro, ao alcançar a irmã.
“Eve” Respondeu a outra, não conseguindo controlar mais a emoção que a invadia, e elas se abraçaram, com lágrimas nos olhos. E a ruiva soube, naquele instante, que aquela loira era especial para ela. Talvez a ruiva fosse apenas inocente demais, ou puramente idiota, mas todos os laços de irmandade surgiram entre elas naquele instante.
Sarah enxugou os olhos, e então sorriu.
“Você é minha irmã mesmo?” Perguntou, os olhos brilhando.
“Sim.” Eve sorriu mais ainda. “Nós somos irmãs agora”.
Tristan bateu de leve no ombro de Josh, e os dois trocaram um único olhar.
“Você tem o dom, meu amigo” Brincou o castanho. O loiro suspirou.
“Desculpe por tudo, cara. Eu... Eu fico feliz que Eve tenha ficado. E desta vez eu sei o que estou fazendo. Você vai ver, Sarah vai ser a garota mais feliz do mundo, eu juro”.
Tristan sorriu tristemente e assentiu.
“E vocês?” Perguntou o amigo.
O rapaz suspirou alto, e olhou para Eve, que conversava com a irmã.
“Você tinha razão. Eu sou um idiota, e cego. Mas acho que é tarde demais. Pisei na bola com Eve, totalmente, e ela tem todos os motivos pra não me perdoar.”
Ele achou melhor omitir a história sua declaração ignorada pela garota.
“Eve gosta de você, Tristan. Ama de verdade. Ela vai te perdoar.”
Tristan sorriu.
“É claro, se você não estragar tudo de novo” Josh terminou. O sorriso do amigo apagou.
“Muito animador. Obrigado, J.”
“Sempre que precisar companheiro”.
E com um aperto de mão secreto, compartilhado pelos dois desde a terceira série, a amizade deles selou-se novamente.
O telefone de George tocou, e ele falou por alguns minutos, sério e carrancudo. Então desligou e virou-se para os jovens.
“É do hospital. Arty foi encontrado inconsciente. Ao que parece, ele tentou explodir o próprio laboratório, e foi pego na explosão. Está internado na UTI. Ele está consciente, mas...”
O médico engoliu em seco.
“Preciso ir”.
Enquanto todos se levantavam e começavam a discutir em voz baixa, e George preparava sua partida, Sarah se afastou, indo até o banheiro. Fechou a porta, e suspirou, esfregando suas têmporas.
Você é minha irmã mesmo?” Imitou sua própria voz, em deboche. Então fez uma careta, checando no espelho se estava tudo em ordem com suas roupas. “As coisas que a gente tem que fazer...”
Ela fixou a imagem da ruiva na cabeça, e então fechou a cara.
“Como se uma fracassada daquelas pudesse realmente ser a minha irmã”.
A loira tirou um rímel da bolsinha e começou a retocar sua maquiagem, mesmo que não houvesse falha alguma.
“Você vai ver, Eve.” Ela cantarolou. “Sarah vai tirar tudo de você. Começando por aquele idiota que você tanto olha...”
Alguém a chamou. Josh, o cara que a tinha comprado. Ele era valioso, tinha dinheiro e atendia a todos os seus desejos. Seria fácil, tão fácil, acabar com a vidinha daquela idiota ruiva.
Montou no rosto um sorriso perfeito, cuidadosamente, e seus olhos brilharam de alegria puramente falsa. Guardou o rímel.
“Já estou indo” Gritou ela, ajustando uma última vez sua máscara de felicidade. Então saiu do banheiro.

Robert cuspiu um dente. Era uma péssima noite para ele. Perdeu a “namorada”, perdeu a ruiva, e agora havia perdido a maior parte de seu sorriso. Seu braço estava decididamente quebrado, e ele com toda a certeza não conseguiria levar dali por um bom tempo. Quando estava lamentando sua falta de sorte, dois imensos faróis surgiram no beco, o cegando totalmente.
A porta do carro se abriu, e um velho saiu do veículo, apoiado numa grossa bengala de madeira escura. Seu terno negro era bonito e sério, perfeitamente arrumado. Os cabelos eram prateados, e pareciam brilhar. E os olhos eram cruéis.
“Sr. Robert, que prazer em vê-lo nessa noite tão bonita” Cumprimentou ele, enquanto mais trovões ressoavam no céu. Mais chuva cairia antes do fim da noite.
Robert cuspiu novamente, não queria papo com nenhum esquisito.
“Parece meio abatido, Sr. Robert. Não precisa levantar, meu assunto é rápido” O homem sorriu com escárnio diante da figura arrebentada do rapaz. “Acredito que o senhor tenha feito uma pesquisa muito interessante sobre uma determinada criatura...”
Uma foto surgiu na mão do velho. A ruiva sorridente. Robert ficou congelado em seu lugar.
“O que você quer?” Perguntou, entre cuspidelas e gemidos, por entre os dentes quebrados.
“Infelizmente, assim como você, eu acabei de perdê-la. Mas acho que podemos trabalhar juntos, Sr. Robert, e lucrarmos bastante”
“Eu recuso”
O velho sorriu largamente, estalando os dedos. Dois homens de terno e óculos escuros saltaram do carro e agarraram o rapaz, sem se importarem com seus machucados.
“Eu não acho que o senhor tenha essa opção” Disse o velho, enquanto o enfiavam no porta-malas escuro. Ele tentou gritar, mas a porta desceu e abafou todos os sons.
O velho subiu novamente no carro, e os homens sentaram-se nos bancos da frente, dando partida no carro.
Ele acendeu um charuto que guardava para ocasiões especiais. Satisfeito, murmurou alguns compassos de uma velha canção de sua juventude. Podia não ter a garota, mas agora tinha uma excelente pista, e uma boa fonte de informações. O céu trovejou mais uma vez. Sorriu.
Mallick gostava de tempestades.

Capítulo 19

Birthday Eve

Capítulo 19

O reencontro. A dor. Sarah Ellie Bell.



Foi só na terceira batida que Eve conseguiu atender à porta. Seu pequeno cubículo que chamava de quarto já estava limpo. Guardara tudo em sua mala, e se preparava para ir embora. A passagem de ônibus estava esperando no bolso da jaqueta que ela vestia, e ainda enxugava os cabelos com uma toalha quando abriu a porta emperrada.
Tristan estava encharcado, ligeiramente sujo e bastante amarrotado, com um corte na face esquerda e sem dúvida bem cansado. Ele sorriu por um instante quando a viu, mas suspirou quando percebeu que o olhar dela continuava naquele gelo.
“Eu... Posso entrar?” Perguntou, se apoiando no batente. Estava realmente morto de cansaço.
“Faça o que quiser” Respondeu ela, lhe dando as costas e voltando a enxugar os cabelos. Ela foi para o banheiro e colocou pasta na escova de dentes.
“Eve... A gente... Pode conversar?” Ele vacilava, as sem saber o que fazer com as próprias mãos, e nenhum lugar para sentar, já que a cama estava com a mala dela em cima e não havia cadeiras no quartinho. “Hum... Bem confortável, o lugar.”
“É barato” Disse Eve, terminando de escovar os dentes. “É tudo que importa”.
Diante daquelas palavras, Tristan se calou. Eve empurrou suas malas e sentou-se na cama, mas não abriu espaço para ele, fazendo-o ficar de pé, meio apoiado na parede.
“Você me encontrou, olhou meu quarto...” Começou. “E agora, o que você quer?”
“Te levar pra casa, Eve”
“Então...” O olhar dela era pura frieza, e ele começou a se sentir desconfortável. “Você me mandou embora, só pra me buscar depois? Gosta de fazer do jeito mais complicado?”
O castanho engoliu em seco.
“Não... Eu... Eu errei. Eu me precipitei, e agora vim... pedir pra você voltar”
Ela o encarou como se tivesse acabado de encontrá-lo debaixo de seu sapato, se debatendo.
“Eu não sou uma espécie de brinquedo que você pode ficar dispensando e depois achando que vai ter de volta quando estalar os dedos” Sua voz era gélida, e seu rosto estava vazio de qualquer expressão.
“Eu... Eu jamais pensei isso, Eve, eu sempre...”
“Você me deu um lar, ao que sou extremamente grata, e roupas, comida, alguns dias de escola. Mas eu não te devo nada, Tristan. Eu sou um ser humano, e tenho os direitos de um ser humano. Não sou sua boneca sem cérebro e sem sentimentos”.
Ela continuava sentada. Sua voz não se alterara nem por um instante, e seus olhos continuavam simplesmente cruéis. Era como se ela falasse da vida de outra pessoa, e não da dela própria.
“Eu quero que você vá embora. Estou com pressa, meu ônibus logo vai partir.”
Ele correu e segurou seu braço.
“Eve, por favor...”
O golpe foi muito mais rápido que ele poderia imaginar. Ela o socou no estômago com tanta força que ele perdeu o ar, caindo no chão, sem fôlego e com uma aparência terrível.
“Obrigada” Sorriu ela. “Estou me sentindo muito melhor agora”.
Ela apanhou suas malas e lhe acenou, antes de sair do quarto e trancar a porta. Uma vez lá fora, desceu até a recepção do pequeno hotel e fechou sua conta, antes de sair para rua rumo à rodoviária.

Josh acordou com o som do furgão. Ele passara os últimos minutos fazendo um café da manhã reforçado, e as roupas que comprara já estavam à mão, empilhadinhas no sofá. Anotara cada medida, cada minúsculo detalhe que especificara em sua namorada perfeita, e passara o tempo comprando cada coisa para fazê-la sentir-se em casa.
Abriu a porta, mas o carro das entregas já se fora. O pacote maior que ele estava lá, prateado e bem ajeitado num carrinho para tornar mais fácil sua locomoção. Olhando bem, o pacote era muito diferente do de Eve: havia pequenos frisos e detalhes em um tom escuro, e o carrinho para movimentação era preso no pacote, além de vários outros detalhes que formavam uma embalagem mais moderna e interessante.
Havia uma etiqueta estilizada presa num dos lados.

Sarah Ellie Bell.

Ele segurou a lingueta que iria abrir o pacote e respirou fundo. Rezou rapidamente para que fosse uma garota realmente perfeita como Eve, e puxou com força.
O pacote não desmontou como ele previra. Na verdade, pareceu se dissolver, numa pequena nuvem de vapor prateado. A etiqueta bateu no chão, e a garota continuou de pé, parada, totalmente nua. Ela abriu os olhos e piscou algumas vezes, confusa. Então sorriu.
Era perfeita, mais perfeita que Eve, até. Uma verdadeira deusa, sublime criação. Seus cabelos tinham a cor do ouro, a cor do sol, um dourado que brilhava suavemente, tão belo que chegava a doer os olhos. Seu rosto branco era mais que simplesmente lindo, parecia ultrapassar qualquer noção de beleza que pudesse existir. O corpo era modelado como se fosse uma obra-prima, com os seios grandes, a cintura fina, os quadris perfeitos, as coxas macias. Seus olhos eram azuis, de um azul tão profundo como o céu de verão, e sua boca se abria num sorriso que deixou Josh praticamente em coma.
Sem qualquer constrangimento, exatamente como Eve, ela se espreguiçou, e então pareceu percebê-lo.
“Olá” Disse ela, e ela não falava, ela parecia cantar. “Eu sou Sarah. Quem é você?”
“Josh.. Quer dizer, Jozua. Mas você pode me chamar de Josh. Ou J., ou Malber, ou o que...” Ele engoliu em seco. “Pode me chamar como quiser.”
“Você é o meu dono?” Perguntou ela, se aproximando dele de forma lenta, como se possuísse toda a sensualidade do mundo. Seus olhos pareciam decididamente perigosos. E quando ela lhe perguntou, sua voz parecia um ronronar.
“S-sim.” Ele tossiu, sua voz estava estranhamente rouca. “Sim, sou eu.”
Ela deslizou um dedo pelo queixo dele, arranhando de leve com a unha. Então seus rostos estavam a menos de um centímetro, e ele podia sentir o hálito morno e doce dela.
“Que sorte a minha” Murmurou ela, e então o beijou.

Tristan achava que deveria largar tudo e virar um ladrão de uma vez. Era a segunda vez, no mesmo mês, que arrombava uma porta. Seu ombro dolorido parecia já ter se acostumado, e ele cambaleou para fora do quarto. Da próxima vez que aquela ruiva lhe pedisse aulas de luta, ele recusaria imediatamente, era uma promessa. Esfregando a região dolorida, correu para fora do hotel. Ela com certeza iria a pé para a rodoviária, se iria pegar um ônibus. Não devia ter sobrado dinheiro o suficiente para Eve pegar um táxi ou algo do tipo. Correu desabalado pela manhã fria, sua respiração virando uma grossa névoa ao seu redor.
Felizmente ela chamava atenção demais. Seu cabelo ruivo, saltando para fora do gorro rosa que usava, era muito chamativo, e ele conseguiu encontrá-la. Ao que parecia, ela estava examinando uma vitrine totalmente absorta, o que era uma sorte.
Derrapou um pouco e quase foi atropelado por um carro, mas conseguiu chegar perto o suficiente. Quando tocou seu braço, conseguiu aparar o golpe que veio em resposta. Felizmente ela o confundira com algum batedor de carteiras, pois se fosse aquele o segundo golpe do dia por ódio, ela quebraria seu coração.
“Tristan!” Resmungou ela. “Não disse pra me deixar em paz?”
Ela seguiu caminhando e entrou numa pequena livraria, examinando as prateleiras de livros. Novamente ele a parou, e ela ficou, de braços cruzados e batendo o pé com força. A loja estava vazia, somente um atendente sonolento estava nos fundos, babando sobre o jornal.
Tristan desviou os olhos dela, e tocou a prateleira manchada.
“Quando Josh me contou que comprou você pela internet, achando que era uma brincadeira, eu fiquei louco de raiva dele. Josh está sempre fazendo piadinhas, e brincadeiras que ache engraçado, e quase nunca para um instante para pensar se isso vai machucar alguém. Ele...” O rapaz suspirou, passando os dedos por uma esfarrapada coleção de contos. “Ele não é o culpado disso, no fim das contas. Eu nunca tive pais muito presentes. Não é culpa deles, sei que eles gostariam de passar mais tempo comigo. Mas eles são muito ocupados, e eu acabei passando a maior parte da minha infância sozinho, entende. Somente Riza e Josh eram meus amigos. Tudo que eu sei fazer eu aprendi praticamente por mim mesmo. Guitarra, computação, artes marciais. São coisas tão opostas, pensando nisso, mas são as coisas que mais gosto. E... Naquela manhã do meu aniversário, quando eu abri aquele pacote e você estava lá... Eu... Eu não sabia o que fazer”.
Tristan estava com muito medo de virar e encarar o olhar da garota, então continuou olhando fixamente para as prateleiras.
“Você... Você é incrível, Eve. Eu já te disse isso alguma vez? Você é tudo que uma garota pode sonhar em ser, e tudo que um garoto pode sonhar em ter... E mesmo assim eu só conseguia ficar assustado perto de você. Nunca... Nunca estive tão... Perto de uma garota. Eu sou um idiota, essa é a verdade, mas... Mas aos poucos você foi... Entrando na minha vida. Às vezes eu parava para pensar e não conseguia mais entender como era... certo. Era isso, certo, você estar ali comigo. E era difícil de imaginar que houve uma vida inteira antes de te conhecer. Eve, você... preencheu meus dias. Havia um sentido, uma motivação para que eu levantasse todos os dias. E eu acho que nunca fui tão feliz a vida inteira quanto eu fui nessas poucas semanas que estive com você. E quando você foi pega por aqueles caras...” Ele parou, e quase socou a prateleira. “Eu me senti terrível. Como se tivessem arrancado um pedaço de mim, um pedaço muito importante. Eu não hesitei em ir te resgatar, e se eu morresse ali, fazendo aquilo, acho que não me importaria. Você era o motivo, era por você que eu fazia aquelas coisas... E era o suficiente para mim.”
O que ela devia estar pensando? Será que ele deveria olhar? Prateleiras sem fim preenchiam sua visão. Ele era, essencialmente, um covarde.
“Eve, quando eu te via naquela cama, sem saber se você acordaria, foi o momento mais difícil da minha vida. E saber que quem acordasse poderia não ser você... Eu estava morrendo de medo. E o tempo todo eu estava tão preocupado com coisas idiotas e medos idiotas que não... não queria perceber o mais óbvio. Eu não entendia porque doía tanto só de pensar em te mandar de volta, eu não queria entender. E então... O medo venceu. Eu sou, sempre fui, um covarde. Era mais fácil, mais fácil, tentar te apagar da minha vida, fingir que você nunca existiu. Pelo menos foi o que eu pensei. E então... Eu percebi. Percebi o que estava na minha frente o tempo todo, o que eu fingia não ver... E percebi que nunca, nem que eu viva mil anos, eu vou poder... Te esquecer”.
Tristan respirou fundo, reunindo cada grama de coragem, e virou-se para encará-la.
Onde Eve deveria estar, apenas o vazio o aguardava. Alguns segundos depois ela apareceu, com uma grande sacola.
“Os preços daqui são ótimos, sabia?” Sorriu ela. “Olha isso.” Ela mostrou uma pilha considerável de livros que acabara de comprar. “'TEMPUS', do Andre L., 'Candy', de Araújo, 'Eraser', 'Piratas X Códigos', '30 dias de Vida' do Alexandre Filho, e da Amanda Marchi esses aqui, 'Tudo tem o seu tempo' e 'Contos e Onesh...'”
“Você ouviu alguma coisa que eu falei?” Cortou o rapaz, sentindo raiva de ser feito de idiota, se declarando pra uma prateleira.
“Não.” Disse ela, dando de ombros. “Por quê? Era algo importante?”
“Não, não, não é nada” Resmungou Tristan.
“Então vamos” Ela começou a andar em direção à saída. “Será que eu posso morar por uns tempos com a Riza, será que ela vai aceitar?”
“Você pode continuar lá em casa, você sabe disso...”
“Será mesmo que a Riza vai concordar? Quer dizer, eu não quero dar trabalho para ela...”
Tristan revirou os olhos. Seria muito difícil, seria mesmo.
“Acho que ela não vai se importar. Mas isso quer dizer que você vai realmente voltar?”
“É.” Disse ela.
Enquanto andavam, em silêncio, ela apertou a bolsa de livros contra o peito. Escondeu o sorriso, lembrando das palavras dele, e sentiu raiva de estar sorrindo. Talvez, no fim das contas, ela também fosse idiota.

Sarah gostava de geléia de framboesa, suco de laranja e peixinhos. Na verdade, ficou realmente encantada quando Josh lhe prometeu que compraria alguns para ela. Depois de comer um pouco, ela decidiu que era hora de aprender algumas coisas.
Josh não sabia muito bem o que fazer. A garota olhara para as roupas e as vestira sem qualquer problema, e agora passeava pela casa, os olhos passando absurdamente rápidos de um ponto ao outro, sem jamais se demorar mais que um único segundo. A velocidade de processamento de seu BrainSys era absurdamente maior que o de Eve. Tanto que ele decidiu que era melhor perguntar.
“Sarah, qual seu Sistema Operacional?”
A garota parou no lugar, os olhos perdendo o foco e a voz ficando mecânica, igual a Eve.
“Sistema BrainSys 2.0”
E aquilo, aparentemente, resolveu a dúvida. Josh não tinha um conhecimento muito avançado em computadores, mas sabia que “2.0” significava que a versão que ela tinha era superior a de Eve. E na verdade, Sarah parecia superior a Eve em muitos aspectos: por mais absurdo que isso pudesse parecer, ela era mais bonita que a ruiva (na opinião de Josh). Sua capacidade de aprendizado era maior, e com certeza ela tinha mais informações que Eve em sua mente. Era impossível haver algo mais perfeito que Eve, a namorada perfeita, mas havia. Havia Sarah.
O gosto do beijo dela ainda estava em seus lábios, e ele o relembrava a cada instante. Era como se um milhão de zilhões de fios elétricos de altíssima potência fossem ligados direto em seu cérebro. Estrelas e planetas distantes se chocaram contra ele, e um oceano o afogou. Ela tinha gosto de paraíso, de céu, de fogo. E havia algo diferente em Sarah, que só depois de muita reflexão que ele conseguiu descobrir: se Eve era uma menina, Sarah era mulher.
Ela o arrancou de seus devaneios.
“Você mora sozinho?”
“Minha mãe trabalha em outra cidade, mas você vai conhecer ela logo. Tenho...” Ele pensou em Tristan. “Tem algumas pessoas que quero que você conheça. Duas garotas, na verdade. Minha melhor amiga, a Riza, e a Eve. Pra falar a verdade, a Eve é sua... irmã”.
Os olhos de Sarah se arregalaram, e faiscaram de um jeito diferente. Ela se aproximou dele até que tudo que ele visse fosse seus profundos olhos azuis.
“Irmã?”
“Eve também foi feita em laboratório, como você, e um cara aí ficou com ela por umas semanas, mas agora ela foi embora. Acho que ela vai voltar. Fora que eu te dei o mesmo sobrenome que o dela. Como você foi feita depois, isso não te faz irmã mais nova da Eve?”
Sarah pareceu pensativa, saindo de perto dele e sentando-se no chão. Ela ajeitou os cabelos dourados. Eram mais curtos que os de Eve, chegavam apenas um pouco abaixo de sua cintura, mas tinham a mesma textura. Josh estava realmente empenhado em fazê-la irmã da ruiva, e copiou descaradamente alguns traços. Fora isso, ele a fizera mais nova, com apenas quinze anos, dando margem para se algum dia as duas namoradas perfeitas tivessem que se apresentar, seria plausível que fossem irmãs.
“E quando vou conhecer minha irmã?”
“Logo.” Prometeu Josh. Então a malícia voltou a invadir seus pensamentos. “Por que a gente não...?”
“Onde é meu quarto?” Cortou ela, ainda pensativa. “Acho que preciso dormir um pouco.”
Desapontado, ele a guiou pela casa.

Riza sentia fogo em seu corpo. Seu sangue era lava, quente e abundante, escorrendo e queimando, devorando sua carne. Seu cérebro estava em chamas, em nuvens, em terra, em mar. Ela sentia o gosto de suor, de carne, de vida. Cada célula de seu corpo parecia explodir em energia.
O corpo dele se mexia com fome sobre ela, e ela compartilhava aquela sensação, aquela privação, aquele puro desejo. Suas línguas dançavam juntas, sangue e carne, vida e morte, ternura e agressividade.
Então as estrelas entraram em erupção, os mundos colidiram e o céu desabou sobre eles, enquanto seus corpos se desfaziam em pequenas partes pulsantes, enquanto os olhos escureciam e cegavam, e todos os pensamentos secavam, como água no deserto. O último dos sóis se apagou, e tudo que sobrou foi o vazio, e a doce latência dos corpos que se separavam.
Riza abriu os olhos, e viu um anjo. Então ele a beijou, e ela dormiu.
Quando seus olhos se abriram de novo, um pouco da luz do sol caía sobre ela. Estava coberta em uma manta, sobre o colchão nu, já que grande parte da roupa de cama sumira enquanto eles brincavam. Na verdade, pensou ela com um sorriso, não fora só a cama que perdera suas roupas.
Se mexendo com preguiça, com alguma dor entre as pernas, ela se enrolou na coberta. Queria um banho, precisava estar com tudo quando ele chegasse. Sentiu cheiro de café da manhã, e sua barriga roncou. Onde ficava o banheiro?
O quarto tinha duas portas. A primeira era a da saída, estava entreaberta e por ela entrava o cheirinho de comida, e a outra estava fechada. Ela saiu da cama, pisoteou um cinto, tropeçou numa calça que devia ser a dela, e encontrou sua calcinha jogada de qualquer jeito sobre o abajur. Corou um pouco.
A porta estava trancada. Só podia ser um banheiro aquilo ali, mas por que trancado? Não tinha sentido algum. Ela podia deixar aquilo pra lá e ir direto pra cozinha, talvez ainda enrolada no cobertor. Ou sem nada.
Fez uma careta. Ela estava ficando como o Josh.
Numa cômoda, perto da TV, estava uma chave. Antiga, pesada, e meio enferrujada. Igualzinho à tranca da porta. Ela passou a mão na chave, e a meteu na fechadura.
Meter a chave na fechadura.
Certo, ela iria parar de sorrir, iria parar com aqueles pensamentos, aquelas piadinhas. Tomaria um banho gelado, quem sabe sua sanidade não voltaria?
Virou a chave, e quando ia virá-la mais uma vez, um sorridente Robert surgiu na porta, com uma bandeja de café-da-manhã digna de uma rainha. O sorriso dele se apagou na mesma hora que a viu, e seus olhos se arregalaram.
“Riza!” Gritou ele, colocando de qualquer jeito a bandeja sobre a cômoda, e correndo até ela. “Não abra essa porta!”
“Hã?” Ela se assustou com o tom dele, e sua reação. Tudo isso por um banheiro? “Por que não? O que é isso, Robert?”
Ele sorriu carinhoso pra ela, tentando tirar a chave de sua mão.
“Vamos, amor. É só meu estúdio, não tem nada de interessante aí, mas não quero que você se machuque. Tem alguns produtos bem perigosos aí dentro, não se preocupe com isso. Vamos tomar café, depois a gente pode tomar um banho. Nós dois, juntinhos”.
Era uma proposta tentadora demais, mas aquilo a incomodava.
“Estúdio? De mecânica?”
“Eu... Eu tenho alguns hobbies, com... artesanato, fotografia, modelismo. Um dia eu te mostro, juro, mas sabe como é, não quero que você se machuque com nada daí de dentro, já disse”.
“Eu não sou uma criancinha que não sabe se cuidar!”
“Eu nunca disse isso, amor” O tom dele ficava cada vez menos amoroso, e mais e mais nervoso. Que coisa que ele teria ali? O que podia causar tanto pavor nele? Que tipo de segredo ele guardava ali? Produtos químicos perigosos... Ela já recebera desculpas melhores. E olha que eram vindas de Josh.
“Riza” O tom dele agora era firme, e decididamente gelado. “Me dê essa chave. Vamos tomar café, tenho muito o que fazer.”
Ela não gostou daquilo. Nem um pouco. Odiava quando mandavam nela, usando aqueles tons mandões e metidos. Apertou os dentes. Ela podia simplesmente passar-lhe aquela chave e cobrar o banho a dois, mas tinha algo errado naquilo. Muito errado...
“Riza. Me dá essa chave” Ele falava cada vez mais alto, cada vez mais ríspido. Ela ficou com raiva. Onde estava aquele homem delicioso que a fizera ter a melhor noite de sua vida, e a primeira de muitas? “AGORA!”
Foi o grito. O grito estragou tudo. Ele levantou a mão, como se fosse bater nela, e a imagem do Robert lindo e charmoso, que a fazia suspirar e cantar sozinha como uma boba, simplesmente sumiu. Ela girou a chave mais uma vez e escancarou a porta.
Ele avançou pra cima dela, mas foi tarde demais. Os olhos dela já haviam vislumbrado o que havia dentro daquela sala escura, que se encheu com a luz do quarto. E Riza achou que fosse desmaiar.

Capítulo 18

Birthday Eve

Capítulo 18

A despedida. O site. A decisão.


A cada palavra de Tristan, o coração de Eve se endurecia. Ela não chorou, não gritou, não discutiu. Sua expressão era de pedra, seus olhos eram de gelo. Os dois icebergs cor de esmeralda o perfuravam com uma impassividade quase esmagadora. Era como se ela simplesmente não se importasse, como se estivesse certa que aquilo ocorreria, como se todo o tempo que estiveram juntos fora apenas um período sem importância, como se talvez ela o tempo todo estivesse apenas fingindo.
Ela não estava, mas quando os argumentos dele secaram, Eve estava vazia de qualquer emoção, como se as palavras dele a drenassem até que nada mais existisse em seu coração.
“Você está bem, Eve?” Perguntou o rapaz, suando frio. Qualquer reação seria bem vinda, desde uma lágrima até uma surra, qualquer coisa que não aquela frieza dela, aquele descaso.
“Sim, obrigada” Respondeu ela, e seu tom era vazio, vazio como a morte. O peito do castanho se apertou tanto que ele quase sufocou, mas tudo que ela fez foi levantar-se da cama e rumar para seu próprio quarto.
Tristan levantou também e a seguiu, correndo e tropeçando. Ela estava sentada na escrivaninha, mexendo nas gavetas.
“Eve, o que foi?” Perguntou ele, desesperado. “Fala alguma coisa!”
“Alguma coisa” Disse ela, com desprezo. Então sorriu, repentinamente. “Ahá! Sabia que tinha alguns desses por aqui!”
Ela tirou um maço ligeiramente amarrotado de envelopes comuns, brancos, próprios para cartas. Satisfeita, pegou uma caneta no pequeno porta-lápis de sua mesa e pensou um pouco no que escreveria.
“Você está com raiva de mim?” Cristo, ele era realmente irritante!
“Não. Agora eu agradeceria se pudesse ter um pouco de privacidade”
O corte fora profundo, e seu coração imediatamente começou a sangrar profusamente. Tristan cambaleou, e vagou para fora do quarto de Eve, sentindo que nada no mundo poderia aplacar aquela estranha dor que sentia, a dor que jamais conhecera.

Eve terminou suas cartas, trocou-se, apagou a luz e dormiu sem jantar. Na manhã seguinte, matou as aulas espetacularmente, dormindo até quase o meio-dia. Tristan não conseguira dormir, e logo que o sol raiou ele recebera uma irada visita de Riza, que finalmente fora informada de suas decisões. Josh o ignorou totalmente, e rumou direto para a escola, sem nem ao menos informar Riza de sua briga com o amigo, coisa que ficou nas mãos de Tristan.
O castanho recebeu uma metralhada de xingamentos, reclamações, maldições e alguns murros bem dados em sua cabeçona dura. A morena esperou pacientemente até que Eve, amassada e bocejando, desceu para almoçar.
A ruiva e ela subiram para o quarto, enquanto Tristan se forçava a fazer algo para comerem, pensando se algum dia conseguiria se curar daquele aperto esquisito no peito. Sentia-se fraco demais, e cansado de um jeito bizarro, como se tivesse corrido quilômetros sem fim. Talvez estivesse enlouquecendo, ou apenas a culpa e a dor o esmagavam aos poucos, um peso em seus ombros que não podia ser retirado.
Eve fazia as malas.
“Você não precisa ir embora, Eve!” Tentou Riza. “Vamos pra minha casa, por uns tempos, até tudo esfriar. Você vai ver, vai ser super divertido e podemos...”
“Não, Riza” Cortou ela, sorrindo docemente. “Não. Se o Tristan quer que eu volte para os que me criaram, então eu vou voltar”.
“Tristan não é seu dono!”
“Ele é sim” E o tom de sua voz não deixava margem para discussões. Riza engoliu em seco, segurando as lágrimas.
“O que vai acontecer com você?”
Eve suspirou, olhando pela janela.
“Não sei. Talvez eu fique uns tempos lá dentro, até arranjarem outra casa, ou talvez eles apaguem a minha memória. Pode ser até que eu seja morta...” Ela parou e riu. “Brincadeira! Eles não iam me matar, nem apagar minha memória, isso é coisa de ficção científica. Não, acho que eu vou ficar lá, talvez eu possa ir embora, morar em algum lugar. Eles me fizeram, acho que podem cuidar de mim”.
“Isso é tão...” Riza soluçou. “Triste, Eve. Não quero que você vá embora!”
Elas se abraçaram longamente.
“Se tudo der certo... Eu vou te visitar. Pode ficar tranquila, um dia desses eu ligo e apareço. Vamos almoçar juntas, e você vai me contar se casou com o Robert”
A morena riu.
“Eve! Eu não vou casar com ele. Pelo menos, não nos próximos anos. Sou muito nova pra isso, ou tá me chamando de velha?”
A ruiva a abraçou de novo, e então jogou as últimas roupas na mala e tentou fechá-la. Não conseguiu, sentou em cima da tampa e tentou forçá-la para baixo.
“Você é magra demais pra isso” Resmungou Riza, sentando na tampa também. Juntas, elas conseguiram fechar a mala, e sorriram. O quarto de Eve estava novamente um quarto de hóspedes vazio e abandonado. Ela dobrara as roupas de cama, limpara a escrivaninha e guardara seus objetos pessoais. Por via das dúvidas levara algumas roupas de frio, de verão, sua escova de dentes e a bolsinha com suas coisinhas de higiene. Levava também, no bolso da jaqueta, a foto que tiraram todos juntos no Natal.
“Você tem certeza que já quer ir?” Perguntou Riza, mais uma vez. Ela já sabia a resposta, de qualquer forma.
“Sim. Não quero mais ficar. Vai ser melhor assim, e sem muitas despedidas.”
Tristan a levou até a porta, junto com Riza. Ela apertou sua mão formalmente, e seus olhos ainda estavam em gelo. Então ela enfiou a mão no bolso e tirou uma pilha de envelopes endereçados, presos com um elástico.
“Gostaria de ter dado tchau pro Josh” Disse ela. “Você faria o favor de entregar as cartas por mim? Obrigada”.
Ela beijou Riza na bochecha e então se foi. Com o dinheiro que tinha, pagaria um táxi e dormiria um hotel. No dia seguinte tomaria outro táxi e iria para o lugar que Tristan lhe dera o endereço. Sem despedidas, sem lágrimas, sem nada. Exatamente como ela mais queria. Sabia que não aguentaria se despedir dos amigos diante das portas daquele lugar para onde iria.
Em silêncio, ela guardou as certezas que tinha. Era inteligente demais para acreditar que a deixariam ficar andando solta por aí, que pagariam casa, roupa e comida para ela em algum lugar. Aquele lugar não era um conto de fadas, era o mundo real, e no mundo real ela acabaria morta numa mesa de cirurgia, talvez atrás de um barracão. Seu corpo, seu nome, seus documentos, jamais seriam encontrados. Eve Bell sumiria, tão repentinamente como chegara. E ela achava que era melhor desta forma.

Josh chorara tudo que tinha pra chorar, e não sabia por quê. Dormira demais, bebera demais e soluçara demais, e se sentia vazio. Eve era uma parte de seu coração também, uma parte preciosa que agora se quebrava e desaparecia. Eve, que nascera em sua cabeça, que tomara café da manhã com ele, que estudara ao seu lado, que lhe pedira ajuda para alcançar o pote de biscoitos. A garota de olhos inocentes que dormia nua, que tinha o corpo de uma deusa, que tinha a voz de um anjo. Não era assim que deveria acabar, e ele sempre achou que não acabaria nunca.
Tristan era o único culpado, sempre egoísta e covarde. Era capaz de mandar Eve para o corredor da morte se isso livrasse seu próprio pescoço. Não merecia ter aquela garota, ele sim que deveria ficar com Eve. Que deveria ter uma garota perfeita lhe chamando de dono, de receber toda a atenção e amor dela. Ah se ele pudesse fazer o tempo voltar, ele jamais colocaria o endereço daquele maldito no pedido. Jamais.
Com um suspiro, ligou o computador. Talvez fosse coisa de idiota olhar para a página em branco, a página de erro que sempre surgia ao digitar aquele site, mas ele estava triste demais para se importar. Ficaria ali por algum tempo, na própria miséria, encarando um site que não existia enquanto lamentava o passado. Depois desceria e tomaria uma cartela de aspirinas, para matar aquela dor de cabeça infernal.
Com um suspiro cansado, ele digitou o endereço do site e esperou a página carregar. Será que ele deveria descer já e tomar o remédio? Faria efeito mais rápido assim, talvez. A página carregou completamente, e ele quase engoliu a língua.

Cansado de garotas chatas que nada têm a ver com você? Faça agora mesmo sua namorada perfeita!


Não era verdade, não podia ser verdade!

Está cada vez mais difícil arranjar uma garota que combine com seus gostos, não é verdade? Não seria perfeito se você pudesse encomendar uma garota personalizada, feita por você? Pois você pode! Basta clicar em Iniciar para criar sua namorada sob medida, por um preço camarada e com entrega em 24h, não importa onde você esteja!


Ele rolou a página até o estoque.

Que sorte a sua! Temos 1 namorada em estoque, encomende já a sua!

Josh parou. Ele realmente faria aquilo? Chamar Arty seria a melhor opção, ele poderia descobrir muito mais com aquilo, e com toda a certeza assim que o loiro fizesse uma encomenda o site imediatamente sumiria, como da outra vez. Mas era a única chance que tinha! A chance perfeita!
Não era isso que tanto desejara? Uma garota perfeita só para ele? Criar uma garota sob encomenda?  Pois era exatamente o que estava diante dele.
“Você vai ver, Tristan” Murmurou ele, clicando em Iniciar.
 O modelo em três dimensões surgiu na tela, vagando no espaço azul. Os botões, barras e campos surgiram ao seu redor. Desta vez ele faria certo, com toda a vontade. Nem que precisasse pagar milhões por aquela garota, ele criaria a mulher mais perfeita do mundo. E talvez, talvez, Eve desapareceria de sua mente. Ele faria algo que Tristan jamais conseguira: iria tomar a garota perfeita como sua namorada, noiva, esposa. Ele teria a vida que o amigo tivera e idiotamente desperdiçara. E jamais teria de se preocupar com a ruiva novamente.
E a faria totalmente diferente, desta vez. Nada de ruivas de olhos verdes, seria algo muito melhor. Seria a deusa perfeita, e apenas dele. Clicou sobre a imagem, e o primeiro campo obrigatório apareceu.

Nome:


Ele sorriu largamente. Talvez aqui valesse uma piadinha, uma homenagem que sem dúvida a ruiva iria gostar.

Sarah Ellie Bell



Havia uma tristeza sobre o castanho que não podia ser mensurada. Riza finalmente se compadecera dele, e o deixara mergulhado em sua própria dor. Ele estava deitado no sofá, largado de qualquer jeito, os fones nos ouvidos, as notas se soltando sem nexo. Havia em Tristan a profunda solidão, e o sentimento que ele queria a todo custo entender.
Eve tinha os olhos mais curiosos do mundo. Eles irradiavam aquela curiosidade natural para ela, como se fosse uma criança, e em tudo que pousavam começavam imediatamente a investigar. Às vezes ele a apanhava olhando tão fixamente para alguma coisa que era como se ela desmontasse mentalmente aquilo, examinasse em todas as minúcias, refletisse profundamente sobre o objeto que investigava. Seus olhos eram também límpidos, com aquele inocência carinhosa dela, e a cor verde se espalhava pelo mundo quando ela estava feliz, como se das orbes de esmeralda se derramasse o oceano esverdeado.
Tinha um sorriso largo, puro, que parecia vir sempre do fundo do coração, e que fazia seus olhos, outra vez eles, brilharem como estrelas. Ela sorria por qualquer coisa, e sua gargalhada musical surgia com qualquer brincadeira. Tinha as mãos mornas mais suaves que podiam existir, e seu corpo nunca estava frio ou rígido, ela sempre tinha calor a oferecer, como um pequeno sol radiante que habitava a casa.
A perseverança e a sinceridade que trazia jamais desvaneciam, continuavam sempre, pois eram partes dela. Ela parecia sempre carregar uma parte do coração dos outros em suas mãos, e na verdade era fácil demais entregá-lo à ela, sem qualquer explicação. Ao invés de parecer um animalzinho perdido, como tantas tentavam, ela tinha algo que deixava qualquer um confortável, e inspirava uma confiança que tornava fácil colocar-se inteiro nas mãos dela, sem reservas ou medos.
Tinha também uma maneira estranha de pensar sobre as coisas, como se viesse de outros mundos, e ao mesmo tempo que sabia tudo, não conhecia quase nada. Era uma espécie de forasteira, e ao mesmo tempo uma constante que não possuía começo ou fim.

Gotas de amor, girassol,
Mares de sal, beijo floral...
Pra falar deste tempo qual?


A canção soava estranha a seus ouvidos, distante. Ele conhecia aquela música, é claro, mas de onde viera? Quem a ensinara? E Eve era bela como o pôr do sol, sem qualquer timidez de se desnudar na frente dele, como se confiasse inteiramente nele, como se soubesse que ele jamais lhe faria algum mal. Ele fizera, é claro, no final ele a ferira como jamais imaginara poder. A pele dela tinha a cor da neve, mas era quente, sempre quente, e sempre perfumada, um cheiro suave de primavera, que poderia derreter o gelo que cobria a casa, que esfriava os cômodos, que congelara seu coração.

Do ventre exposto ao sol,
Das flores postas no postal,
Quantas caras nesse jornal!


Que era aquela dor que o feria tanto? Como ela podia gostar tanto de panquecas e comer tanto doce sem jamais engordar? Como conseguia sorrir não importando quanta desgraça estivesse diante dela, como ainda podia lhe olhar nos olhos quando tanto mal ele lhe fizera? E por que tanta solidão, tanto vazio, como se ele estivesse completamente sozinho no mundo, se fora apenas uma quase desconhecida que o deixara?

Foi quando a sede chamou,
Pra acordar nosso amor,
Fiz um tema na mão dela...


Era um vazio que se arrastava, se fundia, na verdade era um vazio diferente do puro oco. Ele não estava com nada dentro dele, ele estava com aquele vazio, aquele que era o oposto total de estar cheio. Era um vazio físico, uma anti-matéria que corroía seu peito, que devorava sua alma por mais espaço. Era um espaço em branco que queria mais espaço, que se alastrava como um câncer, debaixo de sua pele, atrás de seus olhos, por baixo de sua língua.

Já fez calor, temporal,
Você sem mim, tudo tão igual
Tudo bem, mas estou bem mal


Que era aquilo? E então... ele soube. Como pedra, como muros, como castelos que desabam sobre si. ”Eu sei que ela é linda e tudo mais, mas não quero uma namorada que eu não amo.” As montanhas desabaram, e os mares encheram os vales, inundando a sede, devorando a fome. ”E você vai devolvê-la para a empresa... Só porque você não a ama?”. Os deuses voltaram para exigirem suas parcelas no universo, e todas as criaturas vivas foram julgadas. Dois rolos compressores de um bilhão de milhões de toneladas passaram por cima dele, e nenhuma placa restou para ser anotada.

Na TV não tem canal,
Seu brilho tão sem vil cristal,
Só tem música em meu dial


Tristan Heels se estatelou contra o sofá, e o mundo desabou sobre ele, sem pena ou hesitação. As últimas pedras do norte se empilharam em sua cabeça, e nada mais restou dele. Exceto a certeza, a certeza profunda que na grande escala dos maiores idiotas que já tiveram a ousadia de botarem os pés no mundo, ele ganhava disparado. Teria que melhorar muito, muito mesmo, para se tornar simplesmente a criatura mais imbecil de toda a existência.

Mas o poema acenou
pra acordar nosso amor
Quando a noite me revela...


Os fones bateram no chão, e o som morreu. As últimas palavras sumiram em alguns murmúrios cheios de estática. A porta ficou aberta, a noite caiu sobre a sala, e o dia amanheceu. Tristan não voltou.


George tocou as palavras com as pontas dos dedos, como se pudesse agarrá-las. A noite que caía sobre a sala o dominava, e as últimas letras terminaram sob suas mãos, escorrendo para longe. A carta de Eve era curta, era tremendamente curta, não justificava cada minuto passado com ela, não fazia jus à vida que ela possuía. Ler aquilo era uma espécie de morte, muito bem arquitetada, complexamente simples, divinamente letal. A caneta não podia expressar a profundidade do que era Eve Bell, não podia explicar a dor que o atravessava.
Ele levantou, e cambaleou até o telefone. Enquanto discava, tocou novamente o papel manchado de sentimentos, e sentiu que aquilo era um adeus.
A voz que o atendeu não pôde confortá-lo.

Arty sentiu o aço cortar sua carne, mas mesmo assim não parou. A mesa avançou, impulsionada por suas pernas gordas, carregada por suas mãos inchadas. O sangue se derramou das palmas e manchou o chão imundo, mas a placa de aço finalmente conseguiu quebrar os últimos rebites que seguravam a trava de contenção. Satisfeito, enfiou os dedos machados de vermelho na abertura, e arrancou a placa metálica que ficava ao lado da porta. Sentindo-se quase anestesiado, acendeu o explosivo e o lançou no emaranhado de fios. Correu, o máximo que o corpo cansado demais conseguia, em direção a barricada que construíra com as mesas e servidores. Infelizmente, não conseguiu chegar a tempo.

Robert abriu a porta, e Riza se lançou em seus braços. O choro que brotava dela era desesperado, e doloroso demais. Vacilou, e ela se agarrava a ele como se fosse alguma espécie de porto, o único lugar que a impediria de cair. Ela não lhe contou, mas talvez não precisasse.

Line, Paul e Juliet liam as últimas linhas da ruiva. Era estranho, a garota viajara até lá e agora teria de voltar urgente para a cidade natal, um avô que morrera? Ela era nova demais para assumir as obrigações do trabalho de sua família, e parecia estranho demais que ela tivesse que pessoalmente fazer isso. Era esquisito perguntar se a pessoa tinha pai, mãe. Não perguntaram, ela não dissera. E era realmente bizarro descobrir que tão pouco conheciam sobre a amiga.
“Ela era legal. Uma ótima amiga.” Suspirou Juliet.
“Ela não morreu, sabia?” Replicou Paul, mas ele também estava triste.
Todos suspiraram.
“Podemos visitá-la um dia desses!” Sorriu Line, encantada com a própria idéia. “Telefonamos, ela bota uns colchões na sala dela e a gente passa um final de semana juntos!”
Juliet sorriu também.
“Ótima idéia!”
“E alguma de vocês sabe o endereço da Eve?” Cortou o castanho, olhando para o teto.
Com um grande suspiro, voltaram para a releitura de suas cartas.

Riza estava em silêncio, deitada sobre o peito do namorado. Robert lhe fazia um carinho suave nas costas, e ela sentia que não conseguiria mais chorar. Com suavidade, o beijou. Talvez se pudesse se inundar daquela sensação de vertigem que ele conseguia provocar nela, talvez pudesse esquecer um pouco aquela dor. Os carinhos se tornaram quentes, o quarto pareceu se incendiar. Riza sorriu largamente, aquela loucura de volta em seu corpo, as carícias mais profundas, os beijos mais molhados, os corpos mais suados.
“Me avise...” Disse Robert, entre beijos, e enquanto a livrava de sua blusa. “...quando quiser...”
Ela conseguiu soltar o cinto dele, estava ficando realmente boa naquilo. Os beijos voltaram, e ela se sentiu derreter conforme as mãos dele percorriam seu corpo.
“...parar” Completou ele, enfim, antes de voltar a beijá-la.
Mas, daquela vez, ela não avisou.

 

Histórias por Andre L. dos Santos | © 2009 Express to Nowhere | by TNB